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Picuinhices

por Ana Margarida Craveiro, em 22.09.10

Que o primeiro-ministro não me é propriamente simpático, já toda a gente sabe. Mas confesso que a nossa relação piora quando o oiço dirigir-se a jornalistas. No jornal da hora de almoço de hoje, na SIC, Bernardo Ferrão não lhe fez a vida fácil: as perguntas complicadas sucederam-se, como se espera de um jornalismo que vigia o poder. Em resposta, José Sócrates soltou um dos seus habituais "você queria era isto, você veio com a perguntinha, mas você queria era perguntar", etc. Foi toda uma sucessão de você para aqui, você para ali, numa sucessão de más-criações em ritmo acelerado. Sempre fui ensinada de que não se tratam as pessoas por você, muito menos quem não tem qualquer intimidade connosco. O senhor, a senhora, com o devido respeito. Claro que José Sócrates não está propriamente sozinho neste (des)tratamento; o que é triste é que parece ser uma tendência em crescimento.

Nada disto é muito importante, mas é também por aqui que nos perdemos. Nos vocês cuspidos sobre quem nos interpela.


27 comentários

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De Pedro Correia a 22.09.2010 às 15:51

Tens toda a razão, Ana. Já pensei muitas vezes o mesmo, ao ouvir certos políticos e certos dirigentes desportivos dirigirem-se nesses termos aos jornalistas. Que Sócrates o faça também, nem me admira: está demasiado habituado a atitudes subservientes em seu redor. O Bernardo Ferrão faz o trabalho dele, dirigindo perguntas incómodas ao primeiro-ministro. Subserviência não é com ele.
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De raio a 22.09.2010 às 17:06

...e passa-se à bandalheira, à falta de decoro, à atitude mental de sempre-em-reserva. Claro que o actual PM de Portugal merece, e merece porque foi eleito mentindo e mente. O que nao dá o direito de se dizer que a mentira, a pergunta cínica, a perguntinha de treta sejam o mote do bom jornalismo. O bom jornalismo faz-se com relatos precisos de factos, cuidando o profissional de se informar do que escreve (fontes), e escreve com clareza, colocando o leitor capaz de fazer (ele!, e nao quem escreve) um juízo ainda que provisório.
...sei agora o que são perguntas incómodas em politica. Quem mente, nao admite que disse algo diferente noutro tempo e com as mesmas circunstancias, quem tem às costas processos que falam de si...e nao se explica dá azo a que seja incomodado. Obviamente.
...um bom politico antecipa a realidade subjacente à pergunta incómoda e explica-a tal realidade, afirmando a sua competência bem como a sua contingência ao erro.
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De er a 22.09.2010 às 16:03

A formalidade, a cerimónia, protegem.
Fiquei estupefacto quando, há pouco tempo, a propósito das pressões do primeiro-ministro, vi um jornalista do Expresso dizer que, por ter coberto uma campanha eleitoral do PS, ficara a tratar o Sócrates por "tu".
Pareceu-me da mais elementar FALTA de senso e um comportamento perigoso.
Além do mais, como li hoje no Portugal dos pequeninos, os estrangeiros já perceberam que as notícias em Portugal não servem para nada.
Por isso, estranho que Sócrates não seja ainda mais desagradável com os jornalistas. É a paga habitual da subserviência.
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De Ana Margarida Craveiro a 22.09.2010 às 16:47

tu? a sério? lembro-me que o Henrique Monteiro escreveu precisamente sobre isso: mesmo havendo uma relação pessoal, onde o tu é assumido, é forçoso que haja uma transição, em nome do rigor e profissionalismo.
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De er a 22.09.2010 às 18:16

A falta de modos do 1º ministro não me espanta: está de acordo com o resto.
Já me surpreende mais não ter havido alguém que lhe chamasse a atenção para o descoco ou o tivesse já deixado a falar sozinho, como seria de esperar de pessoas na mediania da curvatura da coluna.
O país e a imprensa, tudo está a precisar de ortopedista.
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De Pedro Correia a 22.09.2010 às 23:36

São questões diferentes. Fiz durante vários anos jornalismo político. Trato vários politicos por tu, nomeadamente os da minha idade e alguns mais novos. Isto no plano pessoal. No plano profissional, nomeadamente ao fazer uma entrevista ou uma pergunta numa conferência de imprensa, jamais me passaria pela cabeça tratar algum desses políticos dessa maneira tão informal.
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De João Carvalho a 22.09.2010 às 16:08

«A tendência em crescimento» de que falas equivale a uma tendência em regressão: boa educação. No governo, como em boa parte dos políticos em geral, o exemplo é tristíssimo e não só perante jornalistas. Ao ponto de termos já assistido a várias chamadas de atenção do presidente da Assembleia Legislativa dirigidas a membros do governo que tratam os deputados por "você". E que nem coram de vergonha pela figurinha a que se prestam.

Só de me lembrar que ainda há uma ou duas décadas toda a gente merecia um "V. Ex.ª" no Parlamento, cai-me o queixo ao chão.
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De Ana Margarida Craveiro a 22.09.2010 às 16:50

acelerou, não foi? é estranho. nas faculdades por onde passei, os professores ainda se davam ao trabalho de ensinar quem não trazia o chá de casa: o senhor importa-se de tirar o chapéu?
ou na versão mais agressiva: se a senhora precisava assim tanto de sair mais cedo da aula sem avisar, porque veio?
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De Luís Lavoura a 22.09.2010 às 17:02

Ai que saudades do Vexa, de facto. Vexa para aqui, vexa para acolá, era tão lindo, era tão agradável.
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De João Carvalho a 22.09.2010 às 23:53

Pois era. Era civilizado e obrigava os faladores a enrolar a língua antes de abrir a boca. Não sabia?
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De raio a 22.09.2010 às 16:58

Espera-se que vigie o poder, mas com factos e não armados em comentadores a quem não é reconhecida competência para julgar, analisar. Sem impertinências (como aquela jornalista que acompanha o passo do Presidente da República ou do PM ou de qq ministro e vai perguntando, encostando-se). E sobretudo que saibam perguntar...
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De Luís Lavoura a 22.09.2010 às 16:58

Eu, talvez por não ter tido a esmerada educação da Ana, ou então tive e já fiz por me esquecer, trato toda a gente por você, acho que assim é que é correto e frontal, fazer como os espanhóis fazem, Usted para todo o lado.

Seria sumamente ridículo Sócrates dizer "o senhor Ferrão acaba de me perguntar..." em vez do muito mais simples e frontal "você acaba de me perguntar...". Falar em "o senhor Ferrão" seria até dirigir-se ao interlocutor na terceira pessoa - um disparate gramatical!

Deixemo-nos de eufemismos e discutamos como gente adulta, dizendo "Usted" ou "você".
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De Pedro Correia a 22.09.2010 às 17:02

Os espanhóis não tratam toda a gente por 'usted': essa é uma forma de tratamento em crescente desuso. Tratam toda a gente por tu. E usam a gíria e até o calão em muito maior quantidade do que os portugueses, inclusive a nível dos textos de opinião publicados na imprensa.
Há uma diferença abissal entre a coloquialidade espanhola e o formalismo português. As coisas são o que são.
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De Luís Lavoura a 22.09.2010 às 17:08

Obrigado por me atualizar sobre os costumes espanhóis.

Pois, deve ser precisamente devido a essa diferença abissal entre a coloquialidade espanhola e o formalismo português que Espanha está tão à frente de Portugal. Porque, enquanto numa discussão os portugueses se perdem em formalismos, em "vossa excelência" e em "o senhor", e assim esquecem os argumentos, os espanhóis não perdem tempo e apresentam os seus argumentos fortes e feios, e com isso avançam na discussão, em vez de andarem sempre às voltas com salamaleques inconclusivos, como os portugueses.

E em inglês ainda é melhor, "you" para toda a parte, tanto faz que nos estejamos a dirigir ao porteiro do prédio como ao professor da universidade.

Os maus hábitos devem ser abandonados, em particular estes maus hábitos portugueses da excessiva e hipócrita delicadeza.
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De Alberto Matos a 22.09.2010 às 19:04

O "tu" espanhol tem uma explicação histórica, que muita gente (incluindo o Pedro, penso) desconhece: tornou-se comum durante a Guerra Civil e ficou.
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De Pedro Correia a 22.09.2010 às 23:40

Desconhecia, Alberto. E agradeço-lhe a informação, que é aliás tem lógica. Em relação ao Luís Lavoura, faço-lhe notar que os ingleses têm o formalíssimo "sir", que aliás pode tornar-se ainda mais formal se lhe for dada uma certa entoação muito "upper class". Nem todos vão corridos ao mero "you".
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De Luís Lavoura a 23.09.2010 às 10:26

Pedro, eu no meu comentário referi o "inglês", isto é, a língua inglesa, não referi os ingleses, o povo da Grã-Bretanha.

O inglês a que me referia era o predominante, ou seja, o que é falado nos EUA.

Nos EUA as pessoas jamais se tratam por "sir". Tratam-se pelo nome próprio (tal como na Rússia, aliás) ou por "you".

No Brasil (um país que para o Pedro não serve de exemplo, a começar pela forma como nele se escrve o português, mas que de facto está a progredir muitíssimo mais rapidamente do que Portugal) toda a gente se trata pelo nome. E é assim que deve ser: nome próprio, tu, ou você.
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De Pedro Correia a 23.09.2010 às 23:58

Claro que nos EUA o estilo de tratamento é muito mais informal, Luís. Informal em excesso para os nossos hábitos. Eles lá têm presidentes chamados Jimmy e Billy, por exemplo. Imagine por cá um primeiro-ministro chamado Zezinho e um presidente do Parlamento chamado Jaiminho...

(quanto ao Brasil, nada a opor: sou fã dos brasileiros, da escrita brasileira, das pronúncias brasileiras, da informalidade brasileira)
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De raio a 22.09.2010 às 17:36

Você...muito bem!Melhor...tu?

Nao há melhor que o Socrates. É triste...

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De Luís a 22.09.2010 às 17:07

O problema não é o "você" ou o "senhor" ou o "tu". O problema é que o jornalista Ferrão fez-se de engraçadinho, o que já é habitual nele, e resolveu perguntar ao PM porque é que ele e os ministros todos não passavam a ir de metro para as reuniões e conferências. Eu assisti em directo e digo-lhe que Sócrates foi muito bem educado, porque, se fosse comigo, mandava o dito jornalista à bardamerda...
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De raio a 22.09.2010 às 17:46

Ora, isso é que é falar. Se boa educação é provocar quem tem um cargo de soberania, nao sabendo medir distâncias, este país de leitores de montra, este país só merece...o visado, o Sr.Eng. Sócrates. Não vi grosseria nenhuma, a nao ser do engraçadinho do jornalista. O seu momento estrela só significa que este país é parolo.

Como parolo é, independentemente de se apoias o PM de Portugal, quem achou grosseria.

Detesto gente que vem com lições de boa-educação, os Bobones de serviço. Sem argumentos, atacam com "grosseiro, mal educado". Argumentos senhores, argumentos. E...acreditem...isto bateu no fundo...nao há melhor que o Eng. Sócrates.

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De João Carvalho a 22.09.2010 às 18:01

Tem razão: «não há melhor que o eng. Sócrates». Por isso é que «isto bateu no fundo»...
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De Alberto Matos a 22.09.2010 às 18:55

O que é que se pode esperar de um burgesso, além da burgessice?
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De Pedro Correia a 22.09.2010 às 23:42

O Bernardo Ferrão é um óptimo jornalista. Aliás como grande parte dos jornalistas da SIC, que tem uma excelente redacção. Se Sexa se sente incomodado com as perguntas dele, tanto pior para Sexa.
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De isabel,pecegueiro@gmail.com a 23.09.2010 às 00:16

Independentemente do relativismo que impera em todos os campos, a uma pessoa que foi bem-educada repugnará sempre o você sem consentimento ou intimidade. Como professora, ensino sempre que pormenores desse género podem estigmatizar ao longo da vida. Acontece que quem bebeu o tal chá na infância detecta um burgesso mesmo vestido na Fashion Clinic. E tive, em tempos, uma colega que expulsou da aula um aluno que a tratou por você. O coitado, imagine-se, pela sua origem camponesa e modesta, julgaria estar a empregar o equivalente ao vocemecê. O PM deveria ver com atenção o My Fair Lady ou ler o Pigmalião.
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De João Carvalho a 23.09.2010 às 04:22

Eis um dia em que me sabe bem ler um comentário original e inteligente, Isabel.
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De Ana Margarida Craveiro a 23.09.2010 às 10:27

obrigada pelas excelentes lembranças, isabel. "the rain in spain stays mainly in the plain."

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