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Os filmes da minha vida (16)

por Pedro Correia, em 22.09.10

 

O CAÇADOR:

A VIDA NÃO É UMA ROLETA RUSSA

 

Poucos filmes foram tão mal acolhidos, logo após a estreia, como esta densa e singular obra de Michael Cimino. A actriz Jane Fonda, então epígono da esquerda radical chique de Hollywood, apressou-se a contestá-la na praça pública, ainda antes de a ver, dando o mote a legiões de críticos que a vergastaram pelo seu suposto "reaccionarismo" e pela defesa intransigente da participação norte-americana na guerra do Vietname. Foi um caso notável de miopia generalizada nesse final da década de 70. Miopia estética e política, exacerbada meses após a estreia, quando O Caçador recebeu o Óscar de melhor filme e ao jovem Cimino era entregue a estatueta de melhor realizador. Não faltou sequer quem lhe chamasse fascista.

Raras películas foram igualmente tão reavaliadas como esta - prova evidente de que também no cinema as aparências iludem. The Deer Hunter é um filme que nos fala de valores em desuso - a coragem, o companheirismo, o esforço, a amizade, a abnegação, a integridade - em tom de envolvente cumplicidade, sem sequer um fio de retórica, enquanto nos apresenta uma comunidade operária de origem eslava na vila de Clairton, Pensilvânia. É uma viagem à América profunda - à que produz riqueza e se integra num vasto esforço colectivo a partir de uma pequena comunidade. Não a América protestante de raiz anglo-saxónica, mas os verdadeiros Estados Unidos da América, nação enriquecida pela presença de imigrantes com o seu mosaico de crenças e culturas.

 

Poucos filmes como este, brindado com o rótulo de "reaccionário", nos mostraram de forma tão impressiva e convincente o quotidiano da classe trabalhadora. O Caçador foi também o filme que melhor soube mostrar - apenas três anos após a partida dos marines da Indochina - o absurdo da guerra do Vietname, bem ilustrado na metáfora da roleta russa, como corpo estranho e adverso ao incomparável sonho americano. Mike, Nick e Steven, os três amigos de infância que para lá partiram aureolados de heróis, regressam de modo muito diferente: a guerra marcou cada um deles de forma irremediável.

Aqui nada acontece por acaso: as nuvens que formam um determinado desenho no céu indicam que o tempo está propício para caçadas, segundo a ancestral sabedoria índia, e as gotas de vinho derramadas no vestido da noiva constituem um sinal de tragédia iminente que o desenrolar da acção naturalmente confirma. Também não é por acaso que Mike Vronsky (uma interpretação prodigiosa de Robert de Niro) recusa ser recebido com uma festa de homenagem. E já nem consegue sequer alvejar o veado que vê no seu ponto de mira: no momento do disparo, o caçador lembra os amigos que foram caçados no Vietname e sente-se mais humano que nunca, incapaz de matar um animal.

"Alguma vez pensaste que a vida daria estas voltas?", pergunta Linda (Meryl Streep) a Mike. Ela só pressente aquilo que o espectador sabe desde o início: Can't take my eyes off you, título da fabulosa canção de Frankie Valli que - não há coincidências - escutamos duas vezes neste filme, ilustra da melhor maneira o que ele sente pela namorada do melhor amigo.

 

 

Longo romance cinematográfico, rodado quase como se fosse um documentário, onde toda a carga emotiva nos é sugerida por olhares, gestos e perturbantes momentos de silêncio, O Caçador é um filme onde as linhas de diálogo são surpreendentemente ténues e a frase mais vezes pronunciada é "Are you OK?"  

É um filme que começa com um casamento e termina com um funeral - duas faces do mesmo espelho. Mas é um filme que não nos fala de uma América crepuscular: fala-nos de uma América capaz de ressurgir com maior vigor de cada desaire da História, digam o que disserem os críticos acometidos de miopia. Uma América que, para esse efeito, não necessita de heróis: necessita de gente comum. Gente como Linda, Axel, Angela, Steven, John, Stanley e Mike. Gente que trabalha e que se diverte e que bebe cerveja e que vai à caça e que reza e que chora e que ri e que canta God Bless America. Não como um louvor patrioteiro mas como um hino à vida. O que tem duplo valor para quem viu a morte de frente.

................................................................

O Caçador (The Deer Hunter, 1978). Realizador: Michael Cimino. Principais intérpretes: Robert de Niro, John Cazale, John Savage, Meryl Streep, Christopher Walken, George Dzundza.


20 comentários

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De mike a 22.09.2010 às 20:36

Visto, revisto e revisto, Pedro. Também é um dos da minha vida.
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De Pedro Correia a 22.09.2010 às 23:17

Há filmes que nos ajudam a mudar por dentro, que nos ajudam a encarar a vida de outra forma. São grandes filmes, inesquecíveis filmes. Este, para mim, foi um deles.
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De mike a 23.09.2010 às 00:20

Agora que fala nisso, devo confessar que apesar de me impor um afastamento emocional ao ver cinema, não fui muito bem sucedido com o Caçador. Pelas razões que o Pedro menciona.
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De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 22.09.2010 às 20:46

Pedro
O que eu gostei deste seu hino às pessoas comuns... está verdadeiramente inspirado!
As pessoas comuns (e em tudo nada comuns) que estruturam um país, que se erguem na maior adversidade, que vivem e ajudam a viver.
Um dos seus textos mais inspirados, a revelar o seu imenso amor ao cinema!
Ana
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De Pedro Correia a 22.09.2010 às 23:24

Ainda bem que gostou, Ana. Este é, de facto, um dos aspectos mais importantes d'«O Caçador» que não tenho visto devidamente realçado: este é um hino às pessoas comuns confrontadas com circunstâncias extraordinárias. Nada a ver com super-heróis, nada a ver com a tecnologia super-computorizada, nada a ver com a panóplia de efeitos especiais que muitas vezes divorciam o cinema da humanidade. Este é um cinema que ama as personagens, que as situa num espaço e num tempo muito próprios e que funciona como testemunha da História. Constrói uma ficção credível com recurso constante a técnicas de documentário, o que é um dos seus aspectos mais inovadores. Enfim, é um filme que interpela os espectadores. Um filme que sabe tocar várias cordas sensíveis e também consegue pôr-nos a pensar.
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De José Manuel Faria a 22.09.2010 às 22:57

Um monumento ao Cinema e de fascista só nas cabeças que deduzem: USA igual a Imperialismo.
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De Pedro Correia a 22.09.2010 às 23:26

Jamais deixarei de me espantar com a estreiteza de vistas de certos críticos. Como refiro no texto, para mim é muito claro que este filme mostra o absurdo da guerra do Vietname, bem ilustrado na metáfora da roleta russa, como corpo estranho e adverso ao incomparável sonho americano. A própria Jane Fonda, que o desancou na estreia, confessou mais tarde que falou sem o ter visto.
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De Manuel Brás a 22.09.2010 às 23:25

Do melhor que se fez na sétima arte...

Dessa América crepuscular
e com vigor regenerativo
avulta este filme singular
de soberbo valor emotivo.

A duplicidade espelhada
nesses momentos tão emotivos,
uma metáfora detalhada
em revólveres ilustrativos.
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De Pedro Correia a 23.09.2010 às 00:01

Grande poeta é o povo
Grande poeta é o Zé
Este filme não é novo
mas seduz muito quem vê.
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De Ana Vidal a 23.09.2010 às 02:00

Mais um belo texto sobre um filme que também já revi mais do que uma vez. Nada a acrescentar, a não ser o tema principal da banda sonora, de uma óptima banda pré-Beastles que ficou indelevelmente ligada ao filme: The Shadows.
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De João Carvalho a 23.09.2010 às 04:15

Uma vez mais, roubo-te as palavras. E a música.
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De Pedro Correia a 23.09.2010 às 10:52

Mencionei o tema do Frankie Valli, que ajuda a situar o período histórico em que o filme decorre (esse tema, que já aqui foi 'canção do século', é de 1968). Faltou-me de facto uma alusão aos Shadows, que interpretam primorosamente a inesquecível 'Cavatina'.
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De Pedro Coimbra a 23.09.2010 às 06:36

Este é uma daqueles filmes da vida de toda a gente que teve a oportunidade de o ver.
Falta aqui uma referência Pedro - Cavatina, tocada pelos Shadows.
Linda!!
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De Pedro Correia a 23.09.2010 às 10:50

Bem lembrado, Pedro. É, sem dúvida, uma das melhores introduções musicais que já vi em qualquer filme. Os primeiros acordes da 'Cavatina', enquanto decorre o genérico clássico, com letras brancas em fundo preto, começam logo a prender-nos à tela.
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De Viagens Lacoste a 23.09.2010 às 09:23

Intemporal e a pedir novo visionamento. A música então...
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De Pedro Correia a 23.09.2010 às 10:49

Aquela 'Cavatina' fica-nos na memória para sempre.
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De Nicolina Cabrita a 23.09.2010 às 19:39

Curiosamente, este primeiro grande filme de Cimino, que gerou grandes expectativas, acabou por ser o único. A seguir Cimino filmou o «Heaven's Gate», responsável pela falência da «United Artists» e considerado um dos piores da História do Cinema. Encontrei, há uns tempos, um documentário interessante sobre este assunto e sobre o «Heaven's Gate» (que, aliás, nunca vi) aqui:

http://www.youtube.com/watch?v=SYfhhVggu_g
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De Pedro Correia a 23.09.2010 às 23:53

Vi mais dois filmes posteriores de Cimino - se não erro, 'O Ano do Dragão' e 'Desperate Hours' - de que não gostei. Cimino tem sido, aliás, desancado por fracassos de bilheteira e nulidades estéticas que assinou desde então. Nada disto invalida o deslumbramento que sinto sempre que revejo 'O Caçador'.

P. S. - O filme de estreia dele, com Clint Eastwood, é bem interessante: 'Thunderbolt & Lightfoot' (1974), com Clint Eastwood.
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De Nicolina Cabrita a 24.09.2010 às 03:04

Claro que não! Partilho o teu deslumbramento. O «Caçador» será sempre um grande filme. Mas é um daqueles casos (apesar de tudo raros) em que um criador medíocre (se considerarmos a obra toda) consegue fazer uma obra prima.
Tomo nota do filme de estreia. Nunca vi ( e ainda por cima é com o Clint Eastwood, por quem tenho enorme admiração). Many thanks!
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De Pedro Correia a 06.10.2010 às 18:41

Acho que gostarás, Nicolina. Depois contas-me.

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