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Ser ou não ser

por João Carvalho, em 12.09.10

«(...) Pode-se dizer, hoje, em Portugal, "Salazar foi um democrata-cristão convicto". Pode. Não é proibido nem dá prisão. É só aviltante. É só estulto. É só falso.» São ideias, ou mais palavras do que ideias, de Fernanda Câncio, que não encontrou melhor maneira para afrontar o autor de Salazar, a recente obra biográfica de grande fôlego de Filipe Ribeiro de Meneses.

Ora, é falso — ou provavelmente falso — o que escreveu Fernanda Câncio, que se esqueceu de fundamentar a contra-afirmação, ao contrário do que fez Ribeiro de Meneses sobre a afirmação. Por muito aviltante e estulto que seja.

Ser-se democrata-cristão convicto é como ser-se católico não-praticante, ou social-democrata alinhado, ou comunista pouco ortodoxo. Estamos tão-só a falar de cidadania, de posicionamento político, de opções sociais, da chamada consciência colectiva.

Considerar-se alguém um democrata-cristão convicto não é uma garantia ao abrigo do léxico: não faz de um homem um democrata, nem um cristão, nem sequer um crédulo numa determinada linha de conduta. Ao longo do século XX e ainda hoje, não faltam ditadores que chegaram ao poder por via de eleições livres, por exemplo, e essa ascensão democrática, que permite considerá-los democratas e porventura convictos numa determinada altura, não chegou para que o epíteto ficasse ou venha a ficar gravado nas suas sepulturas.

A definição adoptada, seja ela qual for, obedece a critérios para atribuição de um figurino aceite, baseado em factos e fundamentado no que se nos apresenta e se conhece sobre alguém num dado contexto — não é um exame à consciência de alguém.

Diogo Freitas do Amaral, por exemplo, liderou o velho CDS. Se calhar, ia bem chamar-lhe um democrata-cristão convicto, mas sem perder de vista que a definição pode ser redutora e balizar um período da sua história de vida. Isso faz dele um convencido eterno daquela linha sócio-política? Talvez não. É um cristão? Só ele sabe. É um democrata? É bem possível que seja. E, no entanto, é (ou foi) um democrata-cristão convicto.

A intimidade da consciência de cada um não é biografia — é confessionário (e, mesmo assim, ainda suscitaria grandes reservas). Estas coisas são sempre muito mais complexas do que um artigo à Fernanda Câncio, que acha uma coisa aviltante e estulta e logo conclui que é falsa. Como se o aviltante e o estulto não existissem e como se as contradições não fizessem parte das curvas e contracurvas da vida e do comportamento de todos nós. A questão, como a tradição, ainda é o que era: ser ou não ser.

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20 comentários

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De macarvalho a 12.09.2010 às 09:32

Muito bom, este post.
Excelente, digo mais.
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De João Carvalho a 12.09.2010 às 14:17

'Brigadinho.
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De Henrique Pontes a 12.09.2010 às 11:03

Muito interessante a sua reflecção... verteu filosofia.
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De João Carvalho a 12.09.2010 às 14:18

Obrigado, meu caro.
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De A pau a 12.09.2010 às 17:37

Essa da "reflecção" já é do novo acordo pornográfico, não?
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De João Carvalho a 12.09.2010 às 19:54

Temos de consultar o dicionário de acordortografiquês-português...
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De Pedro Coimbra a 12.09.2010 às 11:40

Vindo o comentário de quem vem não me surpreende muito, caro João.
Nestas situações, nada como citra o Artur Jorge - "absolutamente normal, absolutamente normal".
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De João Carvalho a 12.09.2010 às 14:18

Ora aí está, meu caro.
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De ... a 12.09.2010 às 12:14

Sim. Salazar era um democrata cristão convicto, da mesma forma que Bento XVI foi um nazi empedernido. Claro que a segunda qualificação já não lhe agradará, não é mesmo, João?
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De João Carvalho a 12.09.2010 às 14:21

É mesmo, ...! Tal como V., não tenho tempo para fundamentar isso, ..., mas não deve fazer-lhe diferença.
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De ... a 12.09.2010 às 19:18

A fundamentação é auto-evidente meu caro e decorre da sua própria lógica... Ou quer que lhe faça um desenho?
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De João Carvalho a 12.09.2010 às 19:55

Um desenho assinado?
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De ... a 12.09.2010 às 20:08

a lápis azul :)
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De António L. a 12.09.2010 às 14:11

A questão do ideário político de Salazar é uma e interessante. Outra é saber porque se preocupam em publicitar as palermices que a ignorância inspira a uma socranette sem qualquer gabarito intelectual. E gente deve ser deixada a falar sozinha, ao invés de atingir os seus intentos.
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De João Carvalho a 12.09.2010 às 14:24

Abrir o leque de possibilidades faz bem ao pensamento e ajuda ao esclarecimento, caro António. Apenas isso. Quanto ao tema, o interesse é indesmentível.
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De João Campos a 12.09.2010 às 15:56

João, ler, contra-argumentar e fundamentar os argumentos dá muito trabalho. Ainda estamos no Verão, o fim-de-semana tem estado bom, o sol brilha e tal - para quê enfiar a cabeça nos livros, quando cento e quarenta caracteres, para aí, chegam e sobra para insultar um académico e desqualificar a sua investigação? Estudar para quê, se o preconceito está ali mesmo à mão? :)
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De João Carvalho a 12.09.2010 às 16:01

Pois. No caso em apreço, parece que o preconceito não estava ali mesmo à mão, mas antes ao pé...
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De macarvalho a 12.09.2010 às 17:16

No pé que tinha mais à mão????
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De João Campos a 12.09.2010 às 18:35

Por exemplo :) O problema é que o autor dessa célebre frase marcou um golo, e a autora daquela infeliz coluna o melhor que conseguiu foi fazer uma rosca e chutar a bola para o terceiro anel.

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