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Bateu no fundo

por Pedro Correia, em 09.09.10

 

Há dois meses, uma manchete do semanário Sol, no rescaldo imediato do Mundial da África do Sul, incendiou o País. "Tendo em conta a estrutura amadora da Federação, as coisas correram muito bem", desabafava o seleccionador nacional de futebol, sacudindo a água do capote: a prestação da turma das quinas nos relvados sul-africanos não fora além de uma previsível mediania e Queiroz ensaiava já uma segunda versão da célebre frase que proferiu em Novembro de 1993, ao falhar a qualificação para o Mundial dos EUA também como seleccionador português. "É preciso varrer a porcaria que há na federação portuguesa. Há muita coisa para mudar!", disse então, selando o seu destino. Numa situação e noutra, com 17 anos de diferença, a táctica era a mesma: descarregar responsabilidades. Desta vez, porém, houve uma pequena diferença: acossado pelos ecos da polémica, Queiroz procurou desmentir o que dissera, acusando a notícia do Sol de ser uma "desonestidade, uma vigarice, execrável, de uma baixeza que não tem limites".

Sendo as coisas o que são, e tendo nos últimos dois meses sucedido o que sucedeu, ninguém tem hoje a mínima dúvida de que aquelas palavras foram realmente proferidas, como na altura sustentou o jornal, contra as exclamações de dúvida do clube de fãs do seleccionador. Depois disso Queiroz disse muito pior, nomeadamente ao aludir à "cabeça do polvo" numa inenarrável entrevista ao Expresso em que pôs em causa a sanidade mental de Nani e revelou que Cristiano Ronaldo perderia a braçadeira de capitão sem ter falado previamente com o jogador. Para trás tinha ficado uma inaceitável agressão ao comentador Jorge Baptista, a mal explicada lesão de Nani e um acto de indisciplina de Deco que ficou impune. Em qualquer dos casos, o seleccionador esteve mal.

Nada que surpreenda excessivamente quem ande atento ao futebol. Queiroz tem protagonizado uma história de desencontros com federações ao nível das selecções A. Não só em Portugal. Em Março de 2002 foi afastado do cargo de seleccionador da África do Sul por ter entrado em ruptura com os dirigentes federativos locais - um caso que não tem sido devidamente recordado para ajudar a enquadrar melhor o lamentável processo que culmina agora com o seu despedimento pela FPF.

Há dois anos, quando retomou o cargo de seleccionador, praticamente todos os comentadores futebolísticos - com a notória excepção de Jorge Baptista - elogiaram a escolha do presidente da FPF, cumulando Queiroz de elogios. Houve mesmo quem confundisse análise com idolatria dizendo frases como esta: "Eu não duvido nunca das capacidades de Carlos Queiroz." E como esta: "É um treinador necessário a qualquer federação de futebol do mundo."

Agora, depois dos jogos contra Chipre e a Noruega, estas frases adquirem um tom de involuntária ironia, naturalmente digna de registo. O problema é que foi também por causa disto - desta falta de perspectiva crítica de certos comentadores com demasiada tendência para exibirem as suas relações de amizade - que o futebol português bateu no fundo. E tão cedo não se levanta.

Foto Record

ADENDA - Ler Dados para uma equação a várias incógnitas, de António Boronha.

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