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por Luís Naves, em 18.03.20

Samuel Pepys escreveu no seu diário, um dos mais famosos da literatura inglesa, páginas muito citadas sobre o incêndio de Londres de 1666 e tem entradas terríveis sobre a peste de 1665: é fácil perceber que não houve medidas de mitigação; o ceifeiro fazia a sua colheita e a sociedade arrastava-se na melancolia de contemplar a mortandade, sem imaginar como combater aquilo. No romance de Albert Camus, A Peste, Orão está isolada, em quarentena, mas a vida mantém-se, apesar da calamidade pública: os cafés estão abertos, é possível ir ao cinema. Em consequência, a doença alastra durante uma eternidade. No livro de José Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira, as vítimas de epidemia são colocadas num campo de concentração, uma espécie de zona vermelha mais próxima do que estamos a viver. A quarentena que calhou ao nosso tempo, e que terá a sua própria literatura, vai um passo além, separando cada indivíduo o mais possível de todos os outros. Somos ilhas num arquipélago, mas a vida prossegue, ligada à velocidade da luz, através de meios de comunicação que superam o contacto físico. Estamos separados uns dos outros e muito perto, o que é paradoxal.


5 comentários

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De o cunhado do acutilante a 18.03.2020 às 18:39

Dá realmente que pensar.
Um fim-de-noite normal e acorda-se num mundo diferente.
O teu amigo de ontem hoje é um estranho a evitar, O comum cidadão como tu com quem te cruzavas na rua, hoje é uma ameaça letal.
Afastas-te horrorizado não vá o sinistro portador da calamidade contaminar-te com a sua aproximação.
Confinas-te à segurança das tuas paredes e pensas na podridão do mundo exterior; afastas de ti o sentimento de solidariedade e pensas que mal fizeste tu a Deus para te veres à mercê de todos os outros que conspurcam o ar que respiras.
Mas tu estás seguro, estás em casa. Portas e janelas trancadas porque o mundo és tu. És o centro do Universo e nele só tu existes, és a essência da vida e das coisas. Que não te contaminem.

E se algum dia a saudade apertar,
deixa-a p'ra lá e vive o presente.
Todo o passado se esfuma,
como a brancura da espuma,
que se dissolve n'areia.

Muito bom, o seu post.
Tanto de certeiro como de verdadeiro.

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De o cunhado do acutilante a 18.03.2020 às 20:11

Observação devida, mas passou-me.
O verso não é meu.
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De Vento a 18.03.2020 às 19:50

O seu post, que é bom, traduz simplesmente isto: Que saudades tenho de ti, desconhecido, por quem nunca tive saudades e pouca importância te dei.

Retomando o meu tema do silêncio, já aqui abordado, não precisaremos no futuro das palavras que nos separaram.

Agora, se permitir, serviço ao público uma vez mais:
http://liturgia.pt/files/epidemia/Celebrar_e_rezar_em_tempo_de_epidemia_Dom3Qua.pdf
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De Anónimo a 18.03.2020 às 21:57

Qual a razão porque a Índia parece ter menos casos?

A importância do Sol e do ar livre para combater na altura a Influenza:
https://medium.com/@ra.hobday/coronavirus-and-the-sun-a-lesson-from-the-1918-influenza-pandemic-509151dc8065

https://ajph.aphapublications.org/doi/pdf/10.2105/AJPH.2008.134627

lucklucky
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De Bea a 18.03.2020 às 22:02

Concordo, só que nenhuma forma de contacto supera o contacto físico. Este vírus dá a mão à doença do século - uma delas - a solidão. É o isolamento físico com acompanhamento virtual (parece arte culinária:). Por exemplo.

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