Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Delito de Opinião

Convidado: F. PENIM REDONDO

Pedro Correia, 02.09.10

 

Doutores ou Engenheiros

 

"É doutor ou engenheiro?" Do outro lado da linha telefónica, a assistente de um secretário de Estado dispara a pergunta com naturalidade. "É importante saber para não ofender", justifica. Chamar um engenheiro de doutor é uma ofensa. Não chamar doutor a um doutor também. E, na redacção de um jornal, perdem-se cinco minutos de conversa a explicar que não há títulos, apenas nomes. Insistir em retirar o "Dr." e o "Eng." dá trabalho.

De um artigo no Público dedicado aos empresários de sucesso que não são doutores ou engenheiros, 16.8.2010

 

Eu sou do tempo em que o mundo académico ainda não tinha invadido as empresas e o Estado. Claro que havia nas empresas e nas repartições os “senhores doutores” e os “senhores engenheiros” mas isso eram títulos de prestígio, ninguém os confundia com a capacidade de saber fazer.

Hoje caiu-se no polo oposto; instalou-se a ideia absurda de que só com a validação académica existe acesso ao saber. É por isso que tantas vezes temos a sensação de que quem governa e legisla pode ser brilhante na academia mas conhece mal o mundo quotidiano.

A controvérsia acerca da licenciatura de José Sócrates é demonstrativa do que acaba de se referir.

 

Cresci profissionalmente, a partir de 1970, na filial portuguesa de uma empresa americana de tecnologia, uma das maiores do mundo, onde quase toda a gente se tratava por tu e onde a referência aos títulos académicos era raríssima. Lá se contratava indiferentemente, para as mesmas funções, tanto engenheiros químicos como licenciados em direito, história ou filosofia. E até se admitia muitos universitários a meio dos seus percursos escolares, como foi o meu caso.

A empresa sabia que os conhecimentos obtidos nas escolas de pouco valiam se não fossem complementados por uma longa formação específica em paralelo com a identificação e resolução dos problemas práticos que a vida ia colocando.

Fazia a selecção dos empregados principalmente com base na sua capacidade para aprender e não daquilo que já tinham aprendido.

 

Nessa altura, embora se soubesse que nas Universidades havia professores que estudavam todas as teorias publicadas sobre determinadas matérias, considerava-se que isso pertencia a outro universo. Um mundo de especulações e hipóteses a que apenas uma minoria se podia dedicar.

Eram pessoas olhadas com admiração por fazerem o sacrifício de viver retiradas do mundo, por vezes com sacrifício económico, mas não se percebia muito bem como obter delas qualquer resultado prático para as operações das empresas.

 

O mundo deu muitas voltas, o ensino “democratizou-se”, e a evolução da economia foi tornando a obtenção de empregos cada vez mais difícil. Uma das consequências foi a opção por carreiras académicas cada vez mais longas.

Em muitos casos, se no fim da licenciatura não se arranjava emprego, partia-se para o mestrado. E se no fim deste continuava a não haver emprego equacionava-se o doutoramento. Para muitos a bolsa de estudo era apesar de tudo uma forma de sobrevivência económica.

A educação superior, que entretanto se  converteu num negócio privado, também precisava e incentivava estas carreiras escolares cada vez mais longas, mesmo que a qualidade da formação proporcionada fosse cada vez mais questionável.

 

Com tudo isto criou-se um “exército de reserva” de desempregados com formação superior, que nunca exerceram qualquer profissão, e que estão prontos para aceitar qualquer lugar, nem que seja a repor prateleiras ou num “help desk”. Ao mesmo tempo a retórica oficial da “qualificação da mão de obra” omite a diferença entre possuir um diploma e saber fazer coisas pelas quais um empregador esteja disposto a pagar um salário.

 

O Estado, onde hoje é difícil encontrar um alto responsável que não tenha pelo menos um pé no meio académico, é o empregador ideal para absorver “doutores e engenheiros”, independentemente das suas capacidades profissionais, pois ao contrário das empresas não tem o hábito de raciocinar em termos de “price-performance”. Como os vários  “estatutos de carreira” na administração pública têm mostrado, o importante é mesmo ter o canudo.

 

Não me parece que tenhamos ganho muito com a proliferação de “doutores e engenheiros” na nossa sociedade. Só numa pequena percentagem eles encontram no mundo empresarial quem parta dessa formação de base para sobre ela construir verdadeiras competências que gerem riqueza.

A própria crise que o Estado está a viver, no plano financeiro e não só, mostra que a saturação de “professores doutores” nos ministérios não foi panaceia adequada.

 

Não haverá verdadeira solução para o desemprego dos licenciados enquanto não surgirem, e se multiplicarem, unidades produtivas de novo tipo que encarem o conhecimento como a organização da informação à luz de propósitos socialmente relevantes. Mas que o faça sem esquecer a sustentabilidade das operações e a justa distribuição dos resultados por todos aqueles que criaram valor, independentemente de serem ou não “doutores e engenheiros”.


Fernando Penim Redondo

18 comentários

Comentar post