Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Convidado: MIGUEL MARUJO

por Pedro Correia, em 01.09.10

 

Os ricos que paguem a crise e o rapaz de Massamá

 

Agora que só se sai à rua de cravo na mão a horas certas, fica arrumada na memória a frase tantas vezes pintada nas paredes, os ricos que paguem a crise, mesmo que agora ela permaneça actual. É verdade que os ricos deste país, na altura em que frase era mote pichado, se tinham pisgado para o Brasil, regressando anos depois sem grandes mazelas na conta e na sobranceria. Hoje, os ricos confundem-se com um IRS de 40, 42 ou 45 por cento, coisa mal pensada, que belmiros e amorins são poucos nos 45 e zés e marias que chegam aos 40 não podem sonhar com a lista da Forbes – talvez com a foto de férias no Jornal da Noite da SIC. Hoje, os ricos, muito ricos, ganham cada vez mais, um fosso cavado nos anos de ouro dos dinheiros da Europa, que o senhor inquilino de Belém parece hoje renegar no discurso confuso que vai produzindo, e continuado nos anos socialistas socráticos. Pelo meio houve um assomo de justiça social – o rendimento mínimo garantido, hoje travestido em coisa menor e arma de arremesso demagógica (por um PP que trata pelo nome velho o que rebaptizou por não ter coragem de exterminar), depois de portas fechadas a um trabalho mais inclusivo sério. Hoje, aos ricos pedem-se sacrifícios simbólicos, aos que vivem no fim tudo se exige: o corte cego nas despesas sociais, em nome de um défice que só foi atropelando quem pouco ou quase nada ganha. Hoje, nos ricos pode incluir-se uma banca lucrativa como poucas, mesmo na crise, apesar da mão estendida ao Estado, o mesmo Estado que veio cortar nas despesas sociais.

Nos ricos só não se pode incluir os políticos – não são ricos, damos de barato e a demagogia feita à maneira pelo CDS que quer cortar nos gabinetes políticos (depois de ter afundado milhares de milhões em submarinos para brincar aos connerys) é própria de quem gosta de falar desta classe como se dela não bebesse. E como se nela nunca tivesse tido a sua dose de gamela. Mas, a mim que me pedem sacrifícios sérios, custa-me não se pedir aos políticos idênticas doses de sacrifício. Ou melhor: exemplos e práticas generosas. A coisa pública que este ano faz 100 anos merece políticos bons, bem pagos, mas generosos. Por isso, quando um bispo pede contributos para um fundo social de coesão, escusa uma certa esquerda de atirar a primeira pedra, lembrando as eventuais fortunas vaticanas ou os maus exemplos eclesiais (que os houve) com as contas e os impostos. Devia antes essa esquerda seguir o exemplo da generosidade (devia escrever caridade, mas é palavra muito maltratada e mal interpretada nos dias de hoje) que os cidadãos são chamados a prestar. E traduzi-los na prática.

Dizer isto é bem diferente da inveja do rapaz de Massamá, que diz que é do povo, mas abomina a vista que tem da marquise, que diz que vem do povo, mas almoça no mesmo resort que o outro ocupa ou sonha em ocupar esse mesmo resort no dia em que o outro de lá sair. O rapaz de Massamá é trejeito de cantor com verve para o palco, não serve como alento para quem, sacrificado, sonha com esse resort ou outro em Pipa ou Varadero, uma casa no Parque das Nações ou o cartão de crédito dourado. Esta ideia de riqueza nasceu na escola cavaquista dos anos dourados de betão e auto-estradas e teve discípulos nos pontais dos que saem da praia para jantar vaca estufada, ouvir uns senhores lá de Lisboa e descobrir que um deles até é de Massamá – mas que no fundo não quer dar o exemplo ao viver em Massamá. Quer apenas fugir de lá a sete pés.

 

Miguel Marujo

Autoria e outros dados (tags, etc)


19 comentários

Sem imagem de perfil

De Virgínia a 01.09.2010 às 14:24

Pedro os meus parabéns por nos presentear com este belíssimo texto de Miguel Marujo.
Quando ponderei sobre o texto, lembrei-me de uma velha história que, na altura, disseram ser verdadeira.
Num colégio de meninos ricos, a professora mandou os alunos fazer um redação sobre como imaginavam ser a vida de uma família pobre.
A redação mais estranha foi a seguinte:
"Uma família muito pobre não tem dinheiro nem comida.
O cozinheiro é pobre. As criadas de sala, cozinha e de quarto são pobres. O motorista é pobre. O jardineiro é pobre. As amas das crianças são pobres. Todos são pobres."
Sem imagem de perfil

De Rxc a 01.09.2010 às 16:42

Mas olhe que desde 95, temos tido um trabalho socialista exemplar (com um interlúdio delirante do ex MRPP + ex presidente de clube desportivo)...Entre uns e outros, venha o diabo e escolha.
Sem imagem de perfil

De Alberto Matos a 01.09.2010 às 14:38

Está uns bons furos abaixo dos outros convidados que por aqui tenho lido, mas paciência, não se pode ter tudo, é claro.
Imagem de perfil

De Miguel Marujo a 01.09.2010 às 22:53

eu bem avisei o Pedro Correia, que me convidou... de que isso iria acontecer. Só espero que a avaliação seja mais estilística que "política".
Imagem de perfil

De Miguel Marujo a 01.09.2010 às 15:46

Pedro, e eu deixo aqui o meu agradecimento pelo convite. E pela paciência em acolher-me ;)
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 01.09.2010 às 22:39

Miguel, gostei muito de te ver por cá. Em flagrante DELITO. Abraço.
Imagem de perfil

De jose-catarino a 01.09.2010 às 15:48

Não simpatizo com Passos Coelho, não sei se alguma vez votarei nele, mas desagradam-me expressões como "o rapaz de Massamá", sobranceiras, de uma arrogância elitista, que aparenta desprezar aqueles que fizeram percurso diferente de vida ou que tiveram diferente origem social (noutro blogue, atacava-se tempos atrás outro arrivista da política tratando-o por "o filho do gasolineiro"). É o mesmo tom, são os mesmos preconceitos de classe. Critique-se Passos Coelho pelas suas ideias ou pela ausência delas; critique-se a sua inexperiência política, a sua impreparação, até os seus defeitos de homem, que os deve ter. Mas critique-se com elevação, com decência, com respeito.
Sem imagem de perfil

De Sérgio de Almeida Correia a 01.09.2010 às 17:36

Percebo onde quer chegar, mas creio que não tem razão na crítica que faz.
Quanto a Passos Coelho não só foi um seu correligionário que o apresentou como sendo de Massamá, certamente por entender que tal era útil ao discurso político (Mendes Bota não pensou que fosse pejorativo, por isso utilizou a referência espacial), como foi ele quem se expôs nas páginas da revista do Expresso, de fato-de-banho e pose de estadista, numa daquelas casas "algarvias" cujo projecto nunca deveria ter sido licenciado, quanto mais construída, de tão horrível que era. Não há de que se queixarem.
Já o preconceito de classe, perdoar-me-á, estará em quem lê.
Ou será que a expressão "o filho do embaixador" também vem com essa carga que refere? Se a expressão for "a filha do embaixador" acredito que possa ter um sentido pejorativo, em especial se tivermos em mente um certo ministro dos Negócios Estrangeiros que andou a ver se metia umas cunhas para a dita entrar num curso superior. Mas em qualquer outra situação isso até seria neutro.
Não será por aí que o discurso ou a crítica perde elevação ou dignidade, já que quanto às suas conclusões, naturalmente que as subscrevo.
Imagem de perfil

De Miguel Marujo a 01.09.2010 às 22:51

caro José, a minha referência ao "rapaz de Massamá" é política, não é "sobranceira", "de uma arrogância elitista, que aparenta desprezar aqueles que fizeram percurso diferente de vida ou que tiveram diferente origem social"... se conhecesse a minha origem e percurso saberia que nunca, mas por nunca, iria por aí... Mas - retomo o que o Sérgio conta - usei uma expressão cunhada por Mendes Bota, deputado do PSD, na festa do Pontal. E esse é o meu mote. Pelos vistos falhado como muito bem apontou um outro leitor.
Imagem de perfil

De João Carvalho a 01.09.2010 às 17:23

Não faltam motivos para reflectir, neste texto do Miguel Marujo. Parabéns.
Sem imagem de perfil

De Sérgio de Almeida Correia a 01.09.2010 às 17:41

Devia ter sido aberta um excepção para este post pela administração do blogue.
Nós, e o Miguel Marujo, merecíamos que a imagem ilustrativa do magnífico texto com que nos brindou fosse uma das que noutro lugar da blogosfera nos fazem perder em horas de contemplação, até que a vista nos doa ou nos acordem para a realidade.
Imagem de perfil

De João Carvalho a 01.09.2010 às 17:58

A administração do DO de que fazes parte manda minoritariamente perguntar qual é a vista de Massamá que mais te deleita. Eheheh...
Sem imagem de perfil

De Sérgio de Almeida Correia a 01.09.2010 às 19:24

Este tipo é tramado, não perde uma.
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 01.09.2010 às 19:30

"Nós" e o Miguel Marujo???
E "nós"? Quero dizer, as delituosAs, que não perdemos horas de contemplação lá nesse vosso paraíso até que a vista nos doa, o que é que merecemos?
Imagem de perfil

De João Carvalho a 01.09.2010 às 19:37

Paraíso é onde estiverem as delituosAs.
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 02.09.2010 às 00:14

Ah, ganda resposta! Meu rico menino, tu nunca me desiludes.
Imagem de perfil

De Miguel Marujo a 02.09.2010 às 15:42

não encontrei nenhuma rapariga de Massamá, Sergio... that's why ;)
Sem imagem de perfil

De helena marques a 01.09.2010 às 23:42

O Francisco Van Zeller, dias antes de deixar o cargo que ocupava como Presidente da CIP , disse que já não havia ricos que pagassem a crise.

Comentar post



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D