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Convidado: JOÃO TÁVORA

por Pedro Correia, em 31.08.10

 

Uma parábola na estação tola

 

Tramado é que esta ingrata civilização do bem-estar e do consumo desempregou os nossos corpinhos feitos para malhar na terra, para caçar, subir às árvores ou para alvorar a fugir dalgum animal selvagem mas deixou-nos um dilacerante apetite de quem precisa de armazenar calorias para uma semana de carência. Nesta cultura de sofreguidão hedonista somos desafiados a corresponder ao primeiro assomo de apetite (não me refiro apenas à comida) e tratar o nosso corpo como tratamos o resto da natureza, num total desprezo pela sua ecologia: são os efeitos colaterais da democratização da alarvidade.

 

 

Aqui chegados, todos conhecemos almas inquietas com a sua decadência física, que a partir dos quarenta-e-tal anos se entretêm em dietas, ginásticas passivas e outros exercícios sem esforço que o dinheiro possa comprar. As mulheres são vítimas privilegiadas desta ilusão: começam cedo no escritório com garrafinhas de água e golinhos de cinco em cinco minutos para iludir o apetite e exercitar a bexiga, um disparate que resulta num corrupio constante, um ver-se-te-avias entre o seu posto de trabalho e a retrete. Perante a ausência de resultados, começa a fase dos chás verdes, bruxarias e outras mezinhas de ervanária: inicia-se assim um desaguisado colateral com os intestinos até estes se tornarem tão preguiçosos como a dona. Passam-se anos nestes rituais, com uma vida cada vez mais próspera e sedentária, num desafio crescente com o espelho e a ingrata balança, até chegar a fase desesperada. Esta surge na sequência duma visita a um dietista famoso ou dica duma amiga, e é constituída por um metódico programa de ingestão de comprimidos coloridos: cada vez mais nevrótica, entra numa espiral de euforia, perde o apetite, a calma, e uns gramas até cair numa depressão depois duma violenta disputa com o cônjuge inocente.

Tudo se irá resolver com uma semana a chocolates e um programa de fim-de-semana de reconciliação com o marido num hotel com SPA e restaurante gourmet. Assim se recuperam todos os gramas e mais uns quilinhos optando então a dondoca por mudar de vida, queimar incenso e passar a vestir balandraus. A moral da história é que as aldrabices não funcionam: não há fuga possível, nem caminho fácil entre a mediocridade e o sucesso.

É irónico como nesta sociedade que venera o corpo e as aparências não haja parábola mais eficaz sobre as virtudes do mérito e do prazer diferido do que a da forma física. Tal como na escola só se aprende com estudo e empenho, tal como a riqueza só é criada com esforço e trabalho, a partir duma certa idade, a forma física depende fatalmente da austeridade alimentar e de muito, muito, exercício físico. Quem se preocupa com o implacável efeito da gravidade nos seus músculos e outros apêndices, está condenado a trabalhar e suar o corpinho, semana após semana, mês após mês, ano após ano, com muita perseverança e desapego, que o resto vem com as endorfinas e mais algum desapego; afinal, o mais importante na vida nem sequer é isso!

 

Nota: qualquer semelhança com factos ou pessoas reais é mera coincidência.

 

João Távora

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14 comentários

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De João Carvalho a 31.08.2010 às 13:06

Parabéns pelo texto. É um gosto revê-lo por cá, João.
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De João Távora a 31.08.2010 às 16:14

Obrigado! O gosto foi todo meu, caro João!
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De Blondewithaphd a 31.08.2010 às 16:05

Até me apetecia copy paste lá para o blog de tão bom que está!!!!!! (muito bom, mesmo!)
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De João Távora a 31.08.2010 às 18:36

nada como um elogio duma loira inteligente :-)
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De Ana Vidal a 31.08.2010 às 17:40

Ah, caro João, que cruéis verdades as deste calvário feminino que (quase?) todas nós conhecemos tão bem! Como negar este seu retrato, "hiper-realista" e ainda por cima bem escrito, da histeria colectiva das sociedades ocidentais na inútil busca do elixir da juventude?

Mas - concordando com quase tudo, que remédio... - tenho de insurgir-me com esta afirmação categórica, generalista e sobretudo muito imparcial: "(...) até cair numa depressão depois duma violenta disputa com o cônjuge inocente". Ora aqui é que está o busílis, porque o cônjuge, meu amigo, raramente é assim tão inocente... se essa santa e impoluta criatura não se babasse com todas as esculturais figurinhas que vê à frente (e que têm, quase sempre, a idade dos seus próprios rebentos...), talvez a sua tresloucada mulher não deprimisse com tanta facilidade, e talvez não sentisse tanto esta estranha compulsão para os sacrifícios inúteis...

E há mais: desgraçadamente - e a culpa é toda nossa, admito - aos homens sempre foi permitido engordar, "encarecar", amolecer, etc., sem que isso impedisse alguma vez as mulheres de amá-los tal e qual como vão ficando, e sabe Deus, às vezes...
Agradeçam-nos, portanto - e de joelhos, se a vossa forma física o permitir... - esta enorme generosidade em poupar-vos às nossas descabeladas e frustradas tentativas para parecermos mais novas e bonitas. Por vossa causa ou não, tanto faz, que os custos são altíssimos na mesma...

Mas seja, como sempre, muito bem-vindo a esta casa! Gosto de vê-lo por cá.
:-)
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De João Távora a 31.08.2010 às 18:35

Sou obrigado a concordar consigo Ana, que nós os homens não estamos inocentes: uma mulher bonita é sempre uma ameaça de perdição (?).
Mas essa coisa do homem trapalhão já foi chão que deu uvas: hoje nós também temos que correr (literalmente) para correspondermos às V. expectativas.
Resta-nos colocar os valores na sua devida escala.
:-) O gosto desta passagem por aqui é todo meu!
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De Ana Vidal a 01.09.2010 às 00:25

Numa coisa estamos absolutamente de acordo, João: há que repensar todos estes valores, e urgentemente. Este culto da eterna juventude é ridículo e perigosamente alienante, sobretudo neste mundo em que se vive cada vez mais tempo e nasce cada vez menos gente.

Mas atenção... uma ameaça de perdição são também os homens para nós, não esqueçam esse pormenor. E com uma agravante: basta que sejam interessantes, nem precisam de ser bonitos. O pior é que, para vossa grande sorte e nosso azar, é mais fácil encontrar gente bonita do que gente interessante...


(Errata: no meu comentário anterior queria dizer, naturalmente, "muito pouco imparcial" e não o contrário)
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De Nicolina Cabrita a 31.08.2010 às 19:29

Sábias palavras, Ana...
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De Ana Vidal a 01.09.2010 às 00:27

Algum deles me ouvirá, Nicolina? I wonder...
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De José António Abreu a 01.09.2010 às 08:42

"homens sempre foi permitido engordar, "encarecar", amolecer, etc., sem que isso impedisse alguma vez as mulheres de amá-los tal e qual como vão ficando, e sabe Deus, às vezes..."

Mas olhe que já não é, Ana. Já não é...

E o post está excelente, João.
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De Pedro Correia a 31.08.2010 às 22:05

Continuas inspirado, João. Gosto muito de te ver por cá. Um abraço.
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De João Távora a 01.09.2010 às 17:12

Tem dias, Pedro:-) Obrigado!
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De João Villalobos a 01.09.2010 às 16:34

Muito bem! É por isso que não ponho os pés num ginásio :)
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De João Távora a 01.09.2010 às 17:11

para lá da tua mentalidade monástica, tu não ias lá fazer nada, já és elegantíssimo. tens que poupar calorias :-)

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