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Convidado: F. SEIXAS DA COSTA

por Pedro Correia, em 24.08.10

 

Orwell & Kafka, SA

 

Esta é uma história verdadeira.

 

Um amigo meu, estrangeiro, funcionário superior de uma organização internacional, notou que o seu passaporte era regularmente retido, nos controlos de fronteira, um pouco mais de tempo do que seria razoável. De início, achou estranho mas não se importou excessivamente. Porém, quando essa espera afetava as filas onde se colocava, levando a movimentos de impaciência dos restantes utentes, começou a ficar irritado e, simultaneamente, preocupado. Das vezes em que inquiriu dos controladores dos passaportes sobre a razão da demora, recebeu respostas vagas e nada esclarecedoras.

Um dia, à chegada aos EUA com a mulher, a situação tornou-se caricata: foi mandado esperar isolado numa sala, foi sujeito a um interrogatório estranho e só foi libertado ao final de mais de uma hora de conversa.

Viajar para o estrangeiro estava, assim, a tornar-se um pequeno pesadelo. O meu amigo lembrou-se então que tinha um conhecimento nos serviços de “intelligence” do seu país. Procurou-o e explicou o seu embaraço. O homem ficou de estudar o assunto. Chamou-o, semanas depois.

E foi então que esse meu amigo ficou a saber o que se passava, ou melhor, recebeu disso algumas ideias. Aparentemente, ele havia estado, por mais de uma vez, no lugar errado no momento errado ou, se tal não acontecera, havia indícios de tal poder ter acontecido. Não podendo ser mais específico, o contacto desse meu amigo deu alguns exemplos: uma foto de multidão, numa manifestação violenta por ocasião de uma reunião do G8, trazia uma cara que podia ser a sua; ele havia pernoitado num determinado hotel, na véspera de uma bomba ter explodido nessa cidade; por duas vezes, viajara num avião que também levava pessoas sobre as quais recaíam fortes suspeitas de ligações radicais, eventualmente de apoio ao terrorismo; etc, etc. Tratava-se de cerca de uma dezena de “infelizes coincidências”.

O meu amigo estava siderado! Todas essas circunstâncias eram facilmente “desconstruíveis”, desde a primeira, em que provaria, com facilidade, que estava noutro lugar, até às restantes, em que as suas deslocações haviam sido feitas por decisões e motivos oficiais a que era alheio. Ao mesmo tempo, sentiu-se aliviado. Tudo era esclarecível. Com quem poderia falar para explicar cada um dos factos, com vista a anular as suspeitas?

O seu conhecido das “secretas” desiludiu-o: não podia falar com ninguém, não havia interlocutor algum com quem ele pudesse discutir o circunstancialismo que lhe afetava a imagem, nem sequer estava autorizado a utilizar publicamente a informação agora recebida. Os dados a seu respeito provinham de “serviços de informação” variados, estavam já cruzados numa rede comum, acessível a muita gente, embora grande parte dos utilizadores apenas tivesse, como nota relevante, a noção de que havia “algo de errado” em torno da pessoa em causa. Não era suspeito de nada, não era acusado de nada, pelo que não havia nada a fazer. Ou melhor: apenas havia que esperar que novos dados “comprometedores” não aparecessem, que pudessem “agravar” a sua situação.

 

Nos últimos meses, não tenho falado com este meu amigo. Só espero que não tenha ido passar férias à Rússia, por ocasião dos incêndios…  

 

Francisco Seixas da Costa


10 comentários

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De João Carvalho a 24.08.2010 às 13:27

Parabéns. Mais uma das suas histórias saída desse álbum de memórias sem fim e que nunca há-de conhecer o bafio escuro do sótão.
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De Pedro Correia a 24.08.2010 às 13:43

É um prazer vê-lo por cá, meu caro. A história verdadeira que nos conta é - infelizmente - emblemática destes nossos dias em que a liberdade individual e os direitos que lhe estão associados cedem terreno ao imenso abraço de urso do Grande Irmão que pretende velar pela "segurança" de todos nós.
Um abraço amigo.
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De M.Coelho a 24.08.2010 às 14:25

Belíssimo, Pedro !
Um abraço.
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De Ana Vidal a 24.08.2010 às 16:47

Uma história bem típica desta época orwelliana em que vivemos. Dá que pensar: cada vez somos mais - e só - um número. E o número errado, às vezes...

Bem-vindo a esta sua casa, caríssimo.
:-)
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De Ana Paula Fitas a 24.08.2010 às 17:56

Elucidativo e paradigmático da sociedade de informação que tanto teimam em confundir com conhecimento...
Obrigado!
Abraço amigo.
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De Pedro França Ferreira a 24.08.2010 às 22:54

Bom artigo. Parabéns.
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De João André a 25.08.2010 às 09:11

O artigo faz-me lembrar o aviso que a minha mulher (na altura ainda "apenas" namorada) me deu aquando da nossa primeira viagem em conjunto para fora do espaço Schengen: «Leva um livro contigo porque vais ter que esperar por mim à saída do controlo». Razão? É sérvia e os sérvios, como toda a gente sabe, são uns assassinos (não brinco, na Holanda têm fama de ser os assassinos contratados do país). Pergunto-me quanto tempo esperarei quando formos a um país muçulmano (com as questões do Kosovo e dos bósnios muçulmanos, os sérvios são habitualmente incomodados nos controlos fronteiriços dos países do médio oriente).

Uma história dela também fala destas questões estranhas. Um dia, entrava ela na China continental vinda de Hong-Kong, teve que esperar no controlo de passaportes enquanto funcionário atrás de funcionário lhe lia e relia o passaporte. Enquanto esperava (mais de meia hora), lá ia pensando que era por o passaporte ainda fazer referência ao país Jugoslávia (enquanto entidade com a Sérvia e o Montenegro) quando ela era apenas Sérvia (depois da saída do Montenegro da união). Ao comentar isso, disseram-lhe que não era o caso. Isso tinha sido uma questão mas resolvida com a chegada do primeiro reforço. Apenas coma chegada do director do serviço de controlo local é que o problema foi resolvido. No passaporte dela estava um visto dos serviços de fronteira holandeses, datado da primeira entrada dela no país, que dizia que ela teria que se apresentar à polícia no espaço de duas semanas. Os pobres funcionários chineses, com tal informação, perguntavam-se se estariam na presença de alguma perigosa criminosa balcânica. Apenas após a explicação que isso é "standard procedure" para todos os cidadãos não-UE na Holanda é que foi deixada seguir viagem.

Isto num país que até tem boas relações com a Sérvia (desde que a sua embaixada em Belgrado foi bombardeada pelos americanos). Imagine-se num país que não tivesse tal consideração...
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De César Ramos a 26.08.2010 às 03:06

... estamos perante uma estupenda narrativa, como aliás o autor já nos habituou no dia a dia do seu blogue. Trata-se de uma situação que, por ser real, nem ao n/pior inimigo deveríamos desejar mas, sobrevive-se, graças à elegância desta escrita que nos deleita.
Dou também um grande aplauso à imaginação, pela escolha do título desta peça e pelo impacte que oferece.

Cumprimentos,
César Ramos
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De Ana Paula Fitas a 26.08.2010 às 08:15

Carissimos,
Vou fazer link.
Obrigado.
Abraço.
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De Teresa Santos a 26.08.2010 às 14:37

É o susto, é o medo de volta. Tristemente, lamentavelmente!
Será só no estrangeiro que esse vivencia esse sentimento?

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