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Os filmes da minha vida (13)

por Pedro Correia, em 31.08.10

 

TAXI DRIVER:

NO CORAÇÃO DAS TREVAS

 

Qual é a diferença entre um vilão e um herói num mundo onde todas as barreiras morais foram transpostas e as tradicionais fronteiras entre o bem e o mal estão diluídas? Esta é a pergunta-chave de Taxi Driver, um filme que não cessa de nos perseguir noite fora, anos fora. Vê-lo uma vez é vê-lo para sempre: jamais nos libertaremos daquela atmosfera viscosa de Nova Iorque, daquelas ruas onde se exibe a devassidão, daqueles vidros embaciados que nos transmitem a imagem de uma cidade que é a antítese perfeita de um bilhete postal.

Viajamos num táxi conduzido por Travis Bickle, ex-veterano de guerra que combate a insónia de mãos no volante enquanto anseia por um dilúvio que "lave toda a porcaria das ruas". Nunca Nova Iorque pareceu tão irreal como neste filme só aparentemente realista: porque afinal a vemos sempre pelo olhar desfocado deste ex-fuzileiro de 26 anos que guia sem destino ao som da banda sonora de Bernard Herrmann - o compositor de Alfred Hitchcock -, falecido horas depois de concluir esta magnífica partitura que lhe serviu de testamento.

"Não consigo dormir", diz o taxi driver que Robert de Niro interpreta com uma intensidade quase dolorosa, como se fosse o último papel da sua vida. Perguntam-lhe por habilitações literárias. "Algumas." Tem a folha limpa? "Tão limpa como a minha consciência." Horário? Qualquer serve: das seis da tarde às seis da manhã, "às vezes até às oito". Seis dias por semana, "às vezes sete". A noite funciona como cenário quase exclusivo desta espécie de western urbano a que só a fugaz aparição luminosa de Betsy (Cybill Shepherd) confere um toque de claridade. Travis vê-a vestida de branco, "pura como um anjo", na sede de campanha do senador Charles Palantine, candidato à Casa Branca com o demagógico slogan "Nós somos o povo". Ele acabará por ser um dos seus passageiros ocasionais. "Aprendi mais sobre este país a andar de táxi do que em todas as limusinas", garante Palantine, que há-de conseguir a nomeação. Passageiro bem diferente é o marido enganado, interpretado pelo próprio realizador, Martin Scorsese, noutro momento inesquecível deste filme: fá-lo estacionar à porta de um prédio onde está a mulher, que o trai "com um preto", e revela que há-de matá-la com uma Magnum 44. "Esgoto a céu aberto", a Nova Iorque de Taxi Driver.

 

Outro motorista, mais cínico e mais sábio, dá-lhe uma saraivada de bons conselhos: "Sai, embebeda-te, leva uma mulher para a cama. Não te rales tanto. Descontrai." Mas este é um idioma estranho a Travis, que deixou uma parte de si mesmo no Vietname e conserva apenas uma memória distante dos pais, a quem envia um lacónico postal sem remetente, esquecido já das datas de todos os aniversários.

Nós vamos com ele, vendo os néons faiscar à nossa volta na cidade que nunca dorme. É uma viagem ao coração das trevas, onde não se vislumbra o povo do demagogo Balantine: só "chulos, drogados, prostitutas, travestis", exploradores de carne humana. Travis Bickle, "misto de São Paulo e Charles Manson" (a definição é do próprio Scorsese), vê ali, quarteirão após quarteirão, o sucedâneo dos vietcong que não conseguiu vencer na selva da Indochina. Rapa o cabelo, arma-se até aos dentes, mergulha numa orgia de violência contra uma guerrilha imaginária, confundindo as ruas do Bronx com o trilho de Ho Chi Minh. Reserva a última bala para si próprio, mas por um capricho do acaso a arma não dispara.

É quanto basta para a imprensa o proclamar herói: ganha direito aos 15 minutos de fama que nunca ambicionou. "Os jornais têm a mania de exagerar", diz para Betsy na última vez que falam antes do desencontro definitivo. Taxi Driver jamais poderia ter um happy ending: este é o mais inclemente, perturbante e devastador filme que conheço sobre a solidão e a absoluta impossibilidade de se ser feliz.

........................................................................

Taxi Driver, 1976. Realizador: Martin Scorsese. Principais intérpretes: Robert de Niro, Cybill Shepherd, Jodie Foster, Peter Boyle, Harvey Keitel, Albert Brooks.


16 comentários

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De Torquato da Luz a 31.08.2010 às 20:30

Devo dizer-lhe que nunca li descrição mais perfeita desse que também é um dos "filmes da minha vida".
Parabéns!
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De Pedro Correia a 01.09.2010 às 23:17

Agradeço as suas generosas palavras, Torquato. É um prazer redobrado escrever para leitores que sintam o mesmo que eu senti ao ver este filme que tanto me marcou.
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De José Manuel Faria a 31.08.2010 às 22:12

O Pedro Correia consegue ser (sem o ser) um dos melhores críticos de cinema em Portugal. Aponta de tal forma ao alvo que o pombo cai, sempre.

Há outro, esse profissional, de quem sou "fan ", Vasco Câmara.
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De Pedro Correia a 01.09.2010 às 23:18

Obrigado, meu caro. Espero que continue a gostar desta série, semana após semana.
Um grande abraço.
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De Ana Vidal a 01.09.2010 às 00:07

Já não tenho elogios frescos para estas tuas análises sobre os "filmes da tua vida", Pedro. Alguns deles, não poucos, são também os da minha. Como este, que de facto nos persegue eternamente porque nos revela, como nenhum outro, a brutal analogia entre uma cidade grande e a selva.
Tenho sempre vontade e medo de revê-lo, e nunca o faço. Como dizes, basta vê-lo uma vez para nos ficar gravado na memória.
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De Pedro Correia a 01.09.2010 às 23:15

Basta vê-lo uma vez, Ana. No cinema, de preferência, em ecrã grande. Jamais o esquecemos.
(ainda bem que gostas desta série, que vai continuar)
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De Leonor a 01.09.2010 às 00:15

Que leitura tão límpida deste filme feito de negrumes que nos engolem.
E há aquela Jodie Foster , menina, vestida como as prostitutas, caminhando naquele "esgoto a céu aberto". Desafiando todos os códigos de Travis . Como entender aquela menina? Como defendê-la, pelo menos?
Essa via-sacra da constatação do aviltamento de uma adolescência e de tantas "inocências" é trilhada a fogo e raiva.
Um filme imenso.
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De Pedro Correia a 01.09.2010 às 23:13

De facto, Leonor, é um filme imenso. E uma das 3 obras-primas absolutas protagonizadas por De Niro na década de 70 (as outras foram O Padrinho 2 e O Caçador, também filmes da minha vida).
Obrigado pelas suas palavras.
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De Pedro Coimbra a 01.09.2010 às 07:49

Are you talking to me?
Are you talking to me??!!
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De Pedro Correia a 01.09.2010 às 23:01

Essa frase, deste filme, tornou-se uma das mais célebres da história do cinema.
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De José António Abreu a 01.09.2010 às 08:59

Sublimes, o filme e a análise (a sério, uma das melhores que já li sobre o filme). Quando ocorre um daqueles assassinatos aparentemente inexplicáveis em que um homem (normalmente é um homem, que tendemos a ser mais radicais no modo como avaliamos o que se passa à nossa volta e na disponibilidade para agir violentamente) começa a disparar contra "inocentes", lembro-me muitas vezes de Travis Bickle.
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De Pedro Correia a 01.09.2010 às 23:11

Também eu, caro José António. Aliás o John Hinckley, que esteve quase a assassinar o Reagan em 1981, procurava de algum modo emular o Travis deste filme. Tantas vezes os caminhos da ficção se cruzam com os da realidade...
As minhas leituras de filmes vão continuar, uma vez por semana.
Abraço.
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De Desconhecido Alfacinha a 01.09.2010 às 10:21

Bom dia,

Are you talking to me ?

Forte abraço,
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De Pedro Correia a 01.09.2010 às 23:00

Yes, I am. Um abraço, 'desconhecido'.
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De Maria Ema a 01.09.2010 às 21:16

O Pedro com este seu belíssimo texto, sim, falou comigo...:))
Gostei muito, Pedro, e o meu filho mais novo, um candidato a cineasta, também. Parabéns!
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De Pedro Correia a 01.09.2010 às 23:00

Obrigado pelas suas palavras, Maria. Um abraço ao seu filho, com votos de que o sonho dele se concretize.

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