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Convidada: EUGÉNIA DE VASCONCELLOS

por Pedro Correia, em 18.08.10

 

Se o querido leitor tiver juízo, não lerá uma só palavra das tantas abaixo do lindo vídeo. Carregará no play para ouvir a minha Lily Allen enquanto pergunta a si mesmo: foi o ensino que nos f&%eu ou fomos nós que f&%*mos o ensino? É irrelevante. Não pense, não leia: a verdade é que estamos todos bem f&%$#os.

 

 

I love you, Lily Allen

 

Quando eu era pequena, muito pequena, fazia Redacções - depois cresci um bocadinho e passei a fazer Composições. Antes porém, quando a Escola era de facto Primária, só Redacções: O Natal; O Carnaval; A Páscoa. E A Vaca. Se o Natal, o Carnaval e a Páscoa sofriam anuais alterações sobre um cenário sempre o mesmo, já com A Vaca nem o pasto mudava. Não podia mudar. Era eterna A Vaca, ressuscitada dos próprios cascos, vaca cruzada de fénix, coitada e normalizada ainda antes da entrada para a CEE das maçãs medidas, pesadas e polidas. Sim, ano após ano mamífero pois que se alimentava de leite à nascença, e mamífero de quatro patas e herbívoro e ruminante. Tinha uma vida de cão, A Vaca, não existia por ela nem pelas vacas suas familiares, tão pouco pela comunidade que era a manada, mas por nós: dava-nos o leite com o qual se fazia a então obrigatória manteiga, o queijo, dava-nos a carne para a comermos, o couro para calçarmos, vestirmos e forrar sofás Chesterfield que ficam sempre bem no escritório ou na biblioteca, não passam de moda, mesmo umas peles sobre o chão de xisto já nessa altura iam lindamente, se o monte fosse alentejano. Isto para não falar do aproveitamento dos ossos. Ao fim da redacção, ficava a olhar na última linha os olhos redondos de submissão animal... triste A Vaca que se deixava matar assim, espoliar assim. Uma vez fiz uma fábula. A Vaca falou, cantou e dançou, não deu nada a ninguém e ninguém a papou. Correu mal, levaram-me ao matadouro: três reguadas em cada pata dianteira para não me armar em miúra. Queria a professora A Vaca do costume porque na sala dela as vacas não falavam, só a cabra da vaca que ela era é que tinha direito ao mugido. Lembro-me de todos os meus muito bons professores. Foram dois. Lembro-me dos maus - esta da terceira classe foi do piorio. E lembro a imensa maioria de professores competentes e exigentes daquele colégio onde fui feliz. Não lembro os amigalhaços de feições vagas e tu cá tu lá que tive no Secundário público para quem tudo era expressão de alguma coisa, logo o que se aprendia era nada - deveria ter saído do sistema de ensino no 8º ano. No 9º já estava tudo perdido, dividíamos os Lusíadas em orações e fazíamos pomares de árvores sintagmáticas que frutificavam inutilidades. Confesso, divertia-me qual antropomórfico macaco.. tinha um relógio com cronómetro. Enfim, há quem conte o tempo enquanto nada ou brinca com o cubo mágico, o valor é idêntico: nenhum ou circo. Todavia poupa-se em futuros de sudoku.

Penso que os meus amados encarregados de educação cometeram um erro crasso comigo: deveriam ter-me dito que a escola não era um lugar de aprendizagem, mas de aquisição de competências técnico profissionais que habilitavam à navegação num Portugal Medíocre Menos a caneta vermelha no canto superior direito da folha. Há coisas que os pais devem explicar aos filhos porque quando se é criança acredita-se que os professores são bestas divinas de poder e conhecimento, autoridade maior e melhor logo a seguir aos pais.

A verdade é que as escolas nos vaquizaram, mataram-nos a vontade de aprender quando nos espoliaram da aprendizagem. Damos carne e couro ao desencanto. Não creio, no entanto, que ressuscitemos dos cascos. Se pensa que estou a ser mazinha, por Deus, olhe para o país que temos, para as pessoas que somos. Começa tudo no ensino, até a ética. Onde estão as nossas grandes obras científicas, artísticas, culturais? Sociais? A política? A produtividade? Olhe bem para os focinhos dos nossos decisores e fazedores de opiniões. Salvo meia dúzia de excepções nomeáveis às quais jamais faremos justiça, ainda que tendamos a fazer-lhes as maiores injustiças, são umas bestas de bestial ignorância e autoritarismo a quem falta a espinha e a mais elementar decência. Isto só não é risível  porque as consequências são as que agora ruminamos.

Sempre pensei que jamais reproduziria com um filho o erro que cometeram comigo. Ensinar-lhe-ia que a Escola é, logo à entrada, Básica desde que deixou de ser Primária, e que se quisesse ser alguém na vida teria de lamber os mugidos da época ou emigrar precocemente. Estou aliviada. Não será precisa, afinal, uma maternidade corruptora para o educar para o mundo: um sistema de ensino e incultura, perfeitamente aleatório e suportado na igualização de méritos e deméritos, vai ensiná-lo logo cedo o que assim não terá de aprender tarde.

 

Eugénia de Vasconcellos


27 comentários

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De José Manuel Faria a 18.08.2010 às 14:14

"Queria a professora A Vaca do costume porque na sala dela as vacas não falavam, só a cabra da vaca que ela era é que tinha direito ao mugido"

Tive uma Vaca na primária que obrigava os meninos a limpar e lavar o seu coche todos os sábados quase na hora do Bonanza. Vaca, vaca, vaca.

Quem vem do "É tudo gente morta" só poder ser 5 estrelas.
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De Ana Vidal a 18.08.2010 às 16:50

Bem, Eugénia, não há-de ter sido assim tão mau o que aprendeu na escola, para escrever textos como este...

Eu safei-me aos pomares de árvores sintagmáticas que frutificavam inutilidades: na minha época, a primária era mais primária nos eufemismos e mais frutífera no sumo do que se aprendia, apesar do martírio dos caminhos de ferro, rios e serras de Portugal, que só muito mais tarde percebi terem como função a memorização pura e dura.
E quando é que se passou do Cão para a Vaca, nas redações? O cão era o melhor amigo do homem, nessa altura. Agora é o facebook. Alguma coisa de muito errado aconteceu entretanto...

Seja bem-vinda, sempre.
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De Ana Vidal a 18.08.2010 às 17:50

Errata: "Redacções" e não "Redações". Dir-me-ão que estava certo, e tal, mas é uma questão de princípio: enquanto puder, não adiro ao desacordo ortográfico.
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De João Carvalho a 19.08.2010 às 01:58

Presumo que ainda saibas de cor os afluentes da margem direita do Vouga e as estações de caminho-de-ferro do vale do dito.
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De Ana Vidal a 19.08.2010 às 03:15

Nem me lembrava já de que o Vouga tem margens...
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De Manuel S. Fonseca a 18.08.2010 às 17:20

Um texto assombroso. Lindamente céptico.
ps - por favor, Eugénia, volte para o cemitério, não se deixe seduzir por passadeiras vermelhas!
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De Ana Vidal a 18.08.2010 às 17:29

Ora essa, Manuel Fonseca, fique descansado que aqui não ressuscitamos ninguém contra a sua vontade! A Eugénia é muito bem-vinda ao Delito sempre que quiser, mas até a levamos de volta ao jazigo de limousine, se preciso for. Não queremos que falte nada aos nossos convidados.
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De Manuel S. Fonseca a 18.08.2010 às 17:41

Cara Ana,
é que de delito em delito é uma vida muito tentadora.
Agradecemos a sua cortesia e saiba que estão os mortos todos, à entrada do cemitério, à espera de ver assomar a limousine. Queremos a nossa Eugénia, back home!
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De Ana Vidal a 18.08.2010 às 17:56

Compreendo, Manuel. Mas saiba, já agora, que todos os mortos desse cemitério são bem-vindos a este mundo de vivos delituosos. Esperamos tentar-vos muitas outras vezes com a nossa arma secreta: o prazer de cometer delitos que não matam, mas moem.
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De João Carvalho a 18.08.2010 às 18:36

Cemitério é a tua tia, pá.
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De Leonor Barros a 18.08.2010 às 22:54

Olá Manuel! Que saudades e que bom vê-lo por aqui. Beijinho
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De Manuel s. fonseca a 19.08.2010 às 09:43

Olá karíssima camarada das terças-feiras. Tive muito gosto nesta visita ao seu belo blog. Quando tiver paciência, passe também pelo cemitério. É bem-vinda. Um beijinho para si
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De Leonor Barros a 20.08.2010 às 14:12

Que saudades das nossa terças, Manuel! Eu passo muitas vezes pelo vosso cemitério mas geralmente não deixo rasto :)
Beijinho
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De ariel a 18.08.2010 às 17:25

Fabuloso texto, fabulosa escrita!
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De Eugénia de Vasconcellos a 18.08.2010 às 19:47

Olá Ariel, obrigada, ainda bem que gostou. Isto de escrever fora de casa e para outros leitores, faz-nos pensar: ai ai.. e se corre mal?
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De AEQ a 18.08.2010 às 18:28

Eu tive uma toura grávida a matemática, a pessoa mais mal-encarada e menos preparada para ensinar que alguma vez vi na vida. Preguei-lhe uma partida horrível: passei!
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De Leonor Barros a 18.08.2010 às 22:57

Olá António! Beijinhos
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De António Eça de Queiroz a 18.08.2010 às 23:08

Olá Leonor!
Um grande beijinho também para si, é excelente encontrá-la outra vez!
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De Leonor Barros a 20.08.2010 às 14:13

Que bom vê-lo, António :)
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De Eugénia de Vasconcellos a 18.08.2010 às 19:42

J.F , obrigada, trata-nos sempre bem, a nós, mortos, dentro ou fora de casa.

Ana, tal como o Pedro Correia, fez-me sentir muito bem vinda. Merci .

Ps : eu também aprendi os rios, as linhas e as províncias ultramarinas é que já não. Era uma estucha, mas a memória é músculo.

Manuel Fonseca, viu? Tapete rouge e tudo! Veja lá se temos disto lá no cemitério..

António, é assim mesmo que se responde a essas malvadas!
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De João Carvalho a 18.08.2010 às 19:58

Parabéns, Eugénia. Muito bom.
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De Eugénia de Vasconcellos a 19.08.2010 às 00:31

Olá, caro João: obrigada, fico contente que tenha gostado.

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De Joana Vasconcelos a 18.08.2010 às 20:43

Grande texto, Eugénia!

E melhor ainda lido ao som da linda e catártica música que tenho no meu i-pod e tantas, tantas vezes rosno sentidamente para dentro, enquanto sorrio, luminosa e composta, com grande pena de a não poder cantar bem cantada ...

Gostei especialmente da parte relativa às tontíssimas e imprestáveis árvores sintagmáticas ... No meu caso permitiram-me desenvolver a criatividade (aquilo era de tal maneira sem regras e sem lógica que, para além do nominal e do verbal, tudo o resto eu inventava convictamente) e fizeram-me perceber umas quantas coisas quanto às professoras e ao chamado sistema (já que como eu era boa aluna, as ditas, por via das dúvidas - delas, claro -, marcavam sempre certo, por mais delirantes que fossem os sintagmas e garanto que o eram ...). Mas suspeito que não seria para isso que as ditas integravam os programas escolares ...
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De Pedro Correia a 18.08.2010 às 22:32

Foi um privilégio termos aqui um texto seu, Eugénia. E que texto...
Obrigado, uma vez mais.
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De Eugénia de Vasconcellos a 19.08.2010 às 00:34

Caro Pedro, eu é que lhe agradeço, foi um gosto.

Ps: jpt: está coberto de razão, fabulástica pop. São sempre as desta menina Lily que conheci em 2006, creio, com Smile.
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De jpt a 19.08.2010 às 09:20

como se diz noutro(s) lugar(es): "roubei"
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De jpt a 18.08.2010 às 23:39

em nada desmerecendo o texto quero realçar a qualidade da bela canção apresentada, nunca conhecera. um pop delicioso ...

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