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Se o querido leitor tiver juízo, não lerá uma só palavra das tantas abaixo do lindo vídeo. Carregará no play para ouvir a minha Lily Allen enquanto pergunta a si mesmo: foi o ensino que nos f&%eu ou fomos nós que f&%*mos o ensino? É irrelevante. Não pense, não leia: a verdade é que estamos todos bem f&%$#os.
I love you, Lily Allen
Quando eu era pequena, muito pequena, fazia Redacções - depois cresci um bocadinho e passei a fazer Composições. Antes porém, quando a Escola era de facto Primária, só Redacções: O Natal; O Carnaval; A Páscoa. E A Vaca. Se o Natal, o Carnaval e a Páscoa sofriam anuais alterações sobre um cenário sempre o mesmo, já com A Vaca nem o pasto mudava. Não podia mudar. Era eterna A Vaca, ressuscitada dos próprios cascos, vaca cruzada de fénix, coitada e normalizada ainda antes da entrada para a CEE das maçãs medidas, pesadas e polidas. Sim, ano após ano mamífero pois que se alimentava de leite à nascença, e mamífero de quatro patas e herbívoro e ruminante. Tinha uma vida de cão, A Vaca, não existia por ela nem pelas vacas suas familiares, tão pouco pela comunidade que era a manada, mas por nós: dava-nos o leite com o qual se fazia a então obrigatória manteiga, o queijo, dava-nos a carne para a comermos, o couro para calçarmos, vestirmos e forrar sofás Chesterfield que ficam sempre bem no escritório ou na biblioteca, não passam de moda, mesmo umas peles sobre o chão de xisto já nessa altura iam lindamente, se o monte fosse alentejano. Isto para não falar do aproveitamento dos ossos. Ao fim da redacção, ficava a olhar na última linha os olhos redondos de submissão animal... triste A Vaca que se deixava matar assim, espoliar assim. Uma vez fiz uma fábula. A Vaca falou, cantou e dançou, não deu nada a ninguém e ninguém a papou. Correu mal, levaram-me ao matadouro: três reguadas em cada pata dianteira para não me armar em miúra. Queria a professora A Vaca do costume porque na sala dela as vacas não falavam, só a cabra da vaca que ela era é que tinha direito ao mugido. Lembro-me de todos os meus muito bons professores. Foram dois. Lembro-me dos maus - esta da terceira classe foi do piorio. E lembro a imensa maioria de professores competentes e exigentes daquele colégio onde fui feliz. Não lembro os amigalhaços de feições vagas e tu cá tu lá que tive no Secundário público para quem tudo era expressão de alguma coisa, logo o que se aprendia era nada - deveria ter saído do sistema de ensino no 8º ano. No 9º já estava tudo perdido, dividíamos os Lusíadas em orações e fazíamos pomares de árvores sintagmáticas que frutificavam inutilidades. Confesso, divertia-me qual antropomórfico macaco.. tinha um relógio com cronómetro. Enfim, há quem conte o tempo enquanto nada ou brinca com o cubo mágico, o valor é idêntico: nenhum ou circo. Todavia poupa-se em futuros de sudoku.
Penso que os meus amados encarregados de educação cometeram um erro crasso comigo: deveriam ter-me dito que a escola não era um lugar de aprendizagem, mas de aquisição de competências técnico profissionais que habilitavam à navegação num Portugal Medíocre Menos a caneta vermelha no canto superior direito da folha. Há coisas que os pais devem explicar aos filhos porque quando se é criança acredita-se que os professores são bestas divinas de poder e conhecimento, autoridade maior e melhor logo a seguir aos pais.
A verdade é que as escolas nos vaquizaram, mataram-nos a vontade de aprender quando nos espoliaram da aprendizagem. Damos carne e couro ao desencanto. Não creio, no entanto, que ressuscitemos dos cascos. Se pensa que estou a ser mazinha, por Deus, olhe para o país que temos, para as pessoas que somos. Começa tudo no ensino, até a ética. Onde estão as nossas grandes obras científicas, artísticas, culturais? Sociais? A política? A produtividade? Olhe bem para os focinhos dos nossos decisores e fazedores de opiniões. Salvo meia dúzia de excepções nomeáveis às quais jamais faremos justiça, ainda que tendamos a fazer-lhes as maiores injustiças, são umas bestas de bestial ignorância e autoritarismo a quem falta a espinha e a mais elementar decência. Isto só não é risível porque as consequências são as que agora ruminamos.
Sempre pensei que jamais reproduziria com um filho o erro que cometeram comigo. Ensinar-lhe-ia que a Escola é, logo à entrada, Básica desde que deixou de ser Primária, e que se quisesse ser alguém na vida teria de lamber os mugidos da época ou emigrar precocemente. Estou aliviada. Não será precisa, afinal, uma maternidade corruptora para o educar para o mundo: um sistema de ensino e incultura, perfeitamente aleatório e suportado na igualização de méritos e deméritos, vai ensiná-lo logo cedo o que assim não terá de aprender tarde.