Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Idolatrado ditador

por Pedro Correia, em 16.08.10

 

Comandante. Ex-presidente. "Rebelde" desde criança. "Ditador", com aspas. Em grande actividade pública. Com energia impensável. Coroada com a sua presença no Parlamento. Obcecado em alertar contra o risco de uma guerra nuclear. Derrotou Batista, ditador sem aspas.

Fidel Castro continua a ser retratado desta forma por olhares só na aparência isentos. Fazem-me lembrar uma fabulosa frase de Millôr Fernandes: "Jamais diga uma mentira que não possa provar."

Nestas coisas há que ter um mínimo de memória para evitar escrever disparates em excesso. O "comandante" que agora surge tão preocupado com a "guerra nuclear" foi o mesmo que em plena crise dos mísseis em Outubro de 1962 - que pôs o mundo à beira da III Guerra Mundial - escreveu ao então líder soviético, Nikita Kruchtchov, dizendo-lhe que se os americanos invadissem Cuba Moscovo deveria retaliar lançando mísseis sobre os Estados Unidos, "ainda que a ilha desaparecesse do mapa".

Sabe-se hoje qual foi a resposta lapidar de Kruchtchov: "Nós lutamos contra o imperialismo não para morrer mas para conseguir a vitória do comunismo." Uma mensagem que enfureceu Castro, déspota sem aspas. Ao ponto de autorizar manifestações de rua em Havana onde se gritou: "Nikita, mariquita, lo que se da no se quita."

São assim alguns auto-intitulados "libertadores do povo", ainda tão venerados em certa escrita idolátrica dos nossos dias. O mínimo que lhes devemos chamar é ditadores. Sem aspas. A primeira linha de combate a qualquer tirania ocorre no vocabulário que escolhemos. E não há palavras inocentes neste combate.


15 comentários

Imagem de perfil

De João Carvalho a 16.08.2010 às 16:56

É bom que se diga isto que escreves, compadre.
Sem imagem de perfil

De Fernando a 16.08.2010 às 18:28

Que importa que Fidel fosse ditador (com ou sem aspas)? Quando os EUA entraram em guerra com o Iraque forjando relatórios, que importou o facto de Bush ser eleito democraticamente (o que poderia também ser contestado dado os incidentes da Flórida).

Este post é sintomático do vocabulário vazio empregue diariamente neste blog. Recorda-me que recentemente um dos seus autores escreveu que "democracia" é premissa de "crescimento económico". Hoje têm aí as notícias sobre a China a prová-lo; China essa que recolhe bem mais simpatia que a irmã de partido único Cuba.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 16.08.2010 às 19:02

Para apoiar a ditadura cubana já o temos a si. É quanto basta.
Imagem de perfil

De João Carvalho a 16.08.2010 às 20:03

Claro que não importa a si: V. não é cubano.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 16.08.2010 às 20:29

Devo compor o que escrevi: não importa que seja ditador, no que toca à beligerância. Daí o exemplo dos democráticos EUA. De resto, não sei em que se apoia o Pedro Correia para dizer que apoio a ditadura cubana.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 16.08.2010 às 20:49

Há várias formas de apoiar uma ditadura. Evitar condená-la é uma delas.
Sem imagem de perfil

De Fernando a 16.08.2010 às 21:58

Estou a condenar a beligerância, que é o que provoca o meu comentário. Condenar a beligerância é diferente de condenar a forma de governo dos estados. Pela sua lógica, devo condenar a democracia por causa das atitudes erradas dos EUA?
Imagem de perfil

De João Carvalho a 16.08.2010 às 23:29

A sua pergunta tem resposta: deve condenar o que achar errado. É fácil. Mas tem de lembrar-se do seguinte: em democracia, quem estiver errado pode ser destituído pacificamente. Ainda é mais fácil.
Sem imagem de perfil

De Fernando a 17.08.2010 às 15:24

Em democracia, quem estiver errado pode ser destituído pacificamente, sim, mas a posteriori, logo a beligerância é independente de haver ou não eleições (é isso que me estou a esforçar por demonstrar há alguns comentários). De resto, a vossa fé desmesurada no modelo democrático ocidental traduz-se em guerras criadas por uma máquina privada quer de indústria de armamento quer de segurança: vejam o caso da guerra do Iraque. E ela continua, apesar de a grande maioria da população (e a maioria dos que votaram em Obama) estar contra. Estou a perder qualquer coisa no meu raciocínio, ou é mesmo da traição da democracia que estou a falar?
Imagem de perfil

De João Carvalho a 17.08.2010 às 17:14

Está. Está a perder a oportunidade de se juntar aos que condenam as ditaduras. Eu sei que lhe custa: não é caso único.
Imagem de perfil

De João Carvalho a 16.08.2010 às 23:24

V. parece o líder parlamentar do PC, que também não condena o ditador norte-coreano e até lhe concede o benefício da dúvida.
Sem imagem de perfil

De eduardo saraiva a 16.08.2010 às 22:38

É sempre oportuno trazermos factos da história pois há muita gente com falta de memória ou, como diz o bom povo, "comem muito queijo".
O problema é que o bom queijo português, com uma fatia de pão centeio e 1 ou 2 copos do bom tinto, não faz mal a ninguém. Pelo contrário.
Por isso, é sempre oportuno lembrar a resposta de Kruchtchov a "El Comandante" pois, além de ter batido com sapato na ONU, Nikita soube puxar as orelhas a Fidel.
Pedro, vai lembrando estes e outros factos.
Aquele abraço
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 16.08.2010 às 23:57

Farei por isso, primo. Um grande abraço.
Sem imagem de perfil

De Pedro Coimbra a 17.08.2010 às 04:54

E que foi que disse que "a maior diferença entre a realidade e a ficção, é que a ficção deve fazer algum sentido", Pedro?
Também se aplica bem a este caso e ao de outros ídolos de pés de barro que se espalham pelo mundo.
Só na América Latina há alguns óptimos exemplares.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 17.08.2010 às 12:36

Pois há, Pedro. E este que vem na foto é o modelo de todos eles.

Comentar post



O nosso livro



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D