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Delito de Opinião

Convidado: LUÍS NOVAES TITO

Pedro Correia, 13.08.10

 

 

O país do pão

 

Guarda tudo. Sobra uma espinha com uma escama de peixe, uns farrapos de salada, um nervo do bife, dois feijões carrapatos com três folhas de coentros e uma lasca de atum e é certo que, de acordo com o aprendido na escola e nos lavores femininos, a coisa acaba embrulhada em papel de prata, possivelmente mais caro do que o conteúdo que guarda, a esperar putrefacção adequada na prateleira do frigorífico.

Guarda tudo e, enquanto guarda a nova sobra, aproveita para deitar fora as outras coisas mais antigas que, pelo cheiro ou pela cor de varejeira, já estão aptas para o lixo.

Então as côdeas, meu Deus, essas ficam a repousar na lata do pão até que o bolor as cubra porque, diz, “com tanta gente a passar fome…”

E as bolorentas nunca, em tempo algum, vão para o lixo (que Deus me perdoe) sem ser beijadas e embrulhadas, que o pão é sagrado e pode parecer mal.

O Botas soube fazer a coisa.

Nada do que é aproveitável, principalmente se for de baixo valor, deve ser deitado fora devendo esperar que se degrade irremediavelmente para não cometer pecado.

Poupadinhos, pobrezinhos mas limpinhos, pacientes, agradecidos e atentinhos, tanto que ainda hoje se ouve dizer que o que nos faz falta é um Salazar, o que seria aceitável não fosse o estado de decomposição em que ele próprio já estaria nesta altura.

 

Luís Novaes Tito

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