Sobre a decência
Manuel António Pina, com a qualidade habitual, escreve a propósito da morte de António Dias Lourenço, um militante comunista de sempre - homem íntegro, de convicções firmes, com uma coragem inabalável e um impressionante percurso de lutador que incluiu 17 anos nas prisões salazaristas. Este tempo que lhe foi sonegado pela ditadura não lhe retirou a alegria de viver nem alterou a tenacidade com que sempre defendeu as suas convicções. Tive o privilégio de falar algumas vezes com ele: já com uma idade muito avançada, mantinha a fibra de resistente. Era uma lenda viva entre os comunistas mas jamais se comportava como tal. E nunca o ouvi referir-se a um adversário político em termos deselegantes, o que é um exemplo para muitos outros que são incapazes de separar a crítica do insulto e confundem o confronto de posições com a piada rasteira ou a insinuação soez.
Um verdadeiro senhor, que aos 95 anos se despediu da vida com a certeza de ter sido, a cada momento, coerente com os seus ideais. De quantos outros políticos se poderá dizer o mesmo?


