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Delito de Opinião

Convidada: ANA CRISTINA LEONARDO

Pedro Correia, 11.08.10

 

Comparado com estes, Pinheiro de Azevedo era um génio

 

Há um género de automobilistas que é assim: vai uma pessoa na estrada a ouvir e a assobiar Can’t Take My Eyes Off You completamente na boa quando aparece um tipo noutro carro e, por aselhice, desrespeito, incúria ou simples killer instinct, provoca um acidente.

Os dois carros acabam por parar em modo enviesado e após aqueles intermináveis segundos em que se vê a vida andar para trás ou, pelo menos, a não andar para a frente, o condutor que ia numa boa a ouvir e a assobiar Can’t Take My Eyes Off leva demoradamente a mão à maçaneta da porta e lança, algo hesitante, uma perna para o exterior.

É então que à surpresa do choque se acrescenta a surpresa de ver o outro automobilista (repita-se: o que provocou o acidente) já cá fora, bem firme nos membros, vociferante e esbracejando como um pássaro à bolina: “Sua besta! Então não me viu? Aprendeu a conduzir em carrinhos de choque ou quê? Por pouco, ia-nos matando aos dois! Olha-me para isto! Olha-me para isto!” E etc.

Perante o segundo ataque, desta vez tão-só verbal, o condutor inocente tende a sentir-se baralhado. Será que a culpa fora dele? Será que se entusiasmara demasiado naquela parte do I love you, baby/ And if it's quite alright/ I need you, baby e fizera asneira?

 

Há quem chame educadamente xico-espertice a esta estratégia de avançar de goela e peito abertos para a vítima invertendo os papéis: o facto é que resulta. Nos dias que correm, em que o pragmatismo é tudo e o que conta são os “resultados por objectivos”, creio tratar-se, aliás, de uma estratégia em ascensão.  

O modelo é largamente utilizado pelos políticos, e não apenas portugueses (Sarkozy e Berlusconi também seriam bons exemplos). Por cá, Sócrates e seus acólitos têm contribuído com fibra para a sua implementação no continente (a Madeira daria pano para outro post).

Neste particular, o género terá sido iniciado por Jorge Coelho com a memorável frase “Quem se mete com o PS leva”, continuado por Augusto Santos Silva, o que gosta de malhar, pelo par de cornos de Pinho, sem esquecer, naturalmente, Ricardo Rodrigues que, ultrapassando a alta velocidade a fase verbal-metafórica, passou à “acção directa” e gamou dois gravadores. No meio desta lista (necessariamente incompleta), também é de registar o próprio primeiro-ministro, mão na anca, e o seu “Era o que mais faltava!”, a que teremos de somar o finíssimo “Manso é a tua tia, pá”.

Não me interpretem mal. Não me move qualquer puritanismo linguístico. O que me faz espécie é a boçalidade. Ou seja, a falta de ironia, de wit. Em resumo, a falta de ideias que não sejam apenas caceteiras. 

Comparado com estes boys, o Almirante Pinheiro de Azevedo era um génio. Digno continuador de António Silva, a sua entrevista, enquanto primeiro-ministro do VI Governo Provisório, governo que entretanto entrara em greve, é inesquecível:

Pinheiro de Azevedo: Estou farto de brincadeiras, ok? De brincadeiras, hem!?

Jornalista: Está...?

Pinheiro de Azevedo: Estou. Fui sequestrado. Já duas vezes. Já chega. Não gosto de ser sequestrado. É uma coisa que me chateia, pá.

 

Como assinala Eric Hobsbawm em livro recentemente traduzido pela Relógio D’Água, Escritos sobre a História (e que aproveito para recomendar), “após uma tendência secular decrescente ao longo de 150 anos, a barbárie tendeu a aumentar durante a maior parte do século XX, não havendo qualquer indício que nos sugira que o seu avanço tenha terminado”, o que é uma forma erudita de dizer aquilo que também foi notado pelo humorista Lewis Black (e que não me canso de citar): "In my lifetime, we've gone from Eisenhower to George W. Bush. We've gone from John F. Kennedy to Al Gore. If this is evolution, I believe that in twelve years, we'll be voting for plants".

Não querendo, porém, parecer demasiado pessimista, concluo com o futuro sabe-se lá. Ou como terá dito Twain: “Prediction is very difficult, especially about the future.”

E muito obrigada pelo convite.

 

ADENDA: Os recentes desenvolvimentos do inesgotável, e parece que interminável, caso fripór, talvez pudessem servir para um post que, nos antípodas deste, se debruçasse sobre estratégias comunicacionais (aposto que adoras esta palavra, Pedro) não musculadas mas cândidas. E, a propósito de cândidas, alguém sabe da Cândida?

 

Ana Cristina Leonardo

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