Rapidinhas de História #44
Independência (3)
O título real de Afonso Henriques não implicava a independência de Portugal.
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O título real de Afonso Henriques não implicava a independência de Portugal.
«No meio de tanta desgraça, ao menos livrámo-nos da campanha eleitoral.»
Uma octogenária, ontem à tarde, numa aldeia afectada pela tempestade Kristin, a nordeste de Leiria.
André Ventura passa o tempo a falar em Francisco Sá Carneiro, alguém que ele nunca conheceu. Mas os dois ministros que restam do governo Sá Carneiro (1980) votam Seguro: Cavaco Silva e Basílio Horta. E ninguém duvida que Francisco Pinto Balsemão, falecido em 21 de Outubro, elegeria o mesmo candidato.
Este pensamento acompanhou o DELITO DE OPINIÃO durante toda a semana.

João Pedro Pimenta: «A Áustria vai receber doentes portugueses com covid em cuidados intensivos. Confirma-se É uma ajuda preciosa e um bom exemplo de como pode funcionar a cooperação europeia. Até porque não é a primeira vez nesta crise pandémica que doentes de um país são acolhidos noutro.»
JPT: «Leio isto "...ou do Sr. Presidente da República, que decidiu estrear o seu segundo mandato num programa de humor, em plena catástrofe.". E intuo o que significa. Vou pesquisar e confirmo: no meio de tudo o que está a acontecer, Sousa, reeleito presidente, deu a primeira entrevista no programa de comédia de Araújo Pereira. Como se nada fosse. Isto é completamente inenarrável. É não ter um pingo de noção. E há uma enorme mole de gente que vota nisto. E aplaude.»
Eu: «Tendo sido 2020 marcado pela pandemia do novo coronavírus, que causou mais mortos portugueses do que as guerras que travámos em África entre 1961 e 1974, pela queda mais abrupta alguma vez registada no PIB nacional, por dez inéditos estados de excepção e longas semanas de confinamento forçado, aliás ainda sem fim à vista, isto demonstra como são fúteis estes exercícios de jornalismo: entretêm alguma coisa, mas informam quase nada.»
All I Can Do, Dolly Parton
(Álbum: All I Can Do, 1976)

É isto.

(Este é um dos textos que incluí na "Gazeta Semanal" do meu "O Pimentel")
Um amigo avisou-me que em Benfica no próximo 12 de Fevereiro será inaugurado este mural de homenagem aos Heróis do Mar, de autoria de Francisco Camilo.
Não gosto deste tipo de “arte urbana” - como agora se apresenta o que antes se dizia “street art”, a qual sempre considerei como apenas “street curio”. E já resmunguei com alguns dislates (ideológicos e não só) com que vão povoando Lisboa. No rumo figurativo destas “intervenções” vejo as versões actuais dessas estatuetas que abundam nas cidades e vilas portuguesas - de facto recônditas pois vão-se tornando invisíveis aos munícipes -, dedicadas a invocar vultos já tendencialmente incógnitos pois da “lei da morte” afinal “(não) se vão libertando”. Ou seja, estas novas obras são uns verdadeiros neo-bustos, com a característica peculiar - se positiva se negativa que cada um decida da sua preferência - de serem mais perecíveis.
Mas neste caso suspendo o meu pigarreio. Pois, se neste rumo de evocações laudatórias, parece-me muito apropriada a homenagem aos “Heróis"…”, um grupo que na década de 1980 teve enorme importância cultural, até maior do que a musical, naquilo de terem exigido e proporcionado o descomplexo nacional, o reencontro do país consigo próprio e a sua celebração, passada que fora a era do país pária.
E desejo que esta inauguração de mural possa ser preâmbulo de uma muito devida homenagem individual a Pedro Ayres de Magalhães - e isto sem qualquer demérito para os seus parceiros nos “Heróis do Mar”. Escrevi-o há anos, quando ele se tornou sexagenário: “é o homem da nossa geração que maior impacto cultural teve no país. Tem tido. A alumiar.” Homem reservado, independente, talvez até altivo, Magalhães segue sem uma corte, da qual desnecessita. Mas também sem a reverência pública que lhe é devida. E só há poucos meses, lendo um já velho livro que abandonara nas estantes sem o encetar, vi expressa uma visão similar: Pedro Rolo Duarte (no “Noites em Branco”, Oficina do Livro, 1999, pp. 181-183, reproduzindo um seu texto no “Diário de Notícias” de 1993) dizia o que me parece óbvio: “A importância de Pedro Ayres de Magalhães para a música portuguesa do pós-25 de Abril é idêntica à que teve José Afonso nas décadas de 60 e 70. Gostava que um dia alguém reconhecesse esse facto.” Eu sou mais radical do que foi - há três décadas - Rolo Duarte. Aqui mesmo escrevi há meses: “o português mais relevante - e não só na música - da minha geração é o Pedro Ayres de Magalhães, por razões que agora não desenvolvo mas sumarizo: na grandeza de si próprio, Homem que é, descomplexou este traste país. (…) Pois o Magalhães fez mais, foi português! E convocou-nos a nisso segui-lo, refez-nos.”
E neste país que tem a mania das arengas post-mortem, dos gemidos in memoriam, será adequado que - pelo menos neste caso - a gente se reúna em memórias, sensibilidades, análises, improvisos e até desgarradas, em amálgamas contraditórias que surjam, e sopesemos o que o Magalhães nos tem sido. Nos é. E o enfrentemos, em convívio intelectual, e evidentemente musical, com os nossos vieses… Pois ele o merece.
(Porque vem a propósito: a RTP tem disponível uma entrevista a Magalhães feita por Rolo Duarte em 1997, seccionada em três partes - 1, 2, 3.)
A 21 de Outubro, escrevi aqui que me preparava para votar num amigo na primeira volta do sufrágio presidencial. E admiti votar noutro amigo na segunda volta.
Assim foi. Assim será.
"Ainda estão aqui cerca de três pessoas."
Na CNN Portugal
Os verdadeiros heróis são aqueles que quando são surpreendidos pela realidade, pelo caos iminente e pelo perigo, não se encolhem e pela sua reacção, mesmo com custos, conseguem ultrapassar as circunstâncias, minimizar os danos e seguir em frente.
A tempestade Kristin, que na semana passada assolou a zona centro do país, transformou alguns locais em verdadeiros cenários de guerra. Os danos nas habitações, nas empresas, nas infra-estruturas e na floresta são inúmeros e demorarão muito tempo a ser ultrapassados.
Foi neste contexto de ruptura que os trabalhadores da empresa Adelino Duarte da Mota, localizada nas Meirinhas, junto ao IC2, souberam ultrapassar o choque, reconfiguraram-se e, além de terem conseguido continuar a produzir, ajudaram a comunidade igualmente afectada pelos cortes da corrente eléctrica.
A história está aqui contada pelo Observador, mas em traços gerais, os técnicos desta empresa, cujas instalações foram bastante danificadas pela tempestade, desafiaram-se a reconfigurar uma turbina a gás natural que normalmente serve para secar pasta cerâmica. “Os funcionários relatam as noites sem dormir e as muitas horas de cálculos e testes", até que finalmente, além de terem conseguido assegurar as condições para voltar a laborar, estão agora a produzir energia que alimenta 150 habitações.
Registo igualmente outra notícia dos primeiros dias após a tempestade, e que não deixa de ir contra uma visão encolhida de demasiada gente que julga a realidade sem a conhecer.
A empresa de moldes TJ , localizada na Zona Industrial da Marinha Grande, foi igualmente afectada. Os repórteres relatam o que ali encontraram da seguinte forma: Numa empresa de moldes de plástico, noutra zona da Marinha Grande, a tarefa principal dos últimos dias só começa quando a noite cai. “Desde o primeiro dia e da primeira noite que estamos aqui”, diz com orgulho Paula Barreira, sentada na entrada da TJ Moldes em plena escuridão. A funcionária administrativa, que em Março completa 35 anos de casa, tem revezado a “vigia” com vários colegas para evitarem a pilhagem de materiais e máquinas de valor elevado. Fica até às 22h00, mas regressa de manhã cedo. “Vamos safar isto, temos de safar esta casa”, diz emocionada ao Observador. "Eu fui a segunda pessoa a chegar aqui naquela manhã e para mim foi desolador. Gritei…foi o pior dia da minha vida. O meu pai faleceu e não foi tão difícil como ver esta casa como está, porque isto é que faz parte da nossa vida. Tudo o que nós temos, eu e os meus colegas, agradecemos a esta casa”, acrescenta em lágrimas."
Quem na comunicação social opina sobre as empresas, os empresários, as leis laborais, ignora a cultura que existe em inúmeras empresas. Quando se quer mudar uma alínea da lei, de modo a que os enviesamentos ideológicos de quem não conhece a realidade, ceda espaço ao bom senso e à capacidade de as pessoas se entenderam, ignora que existem empresas que são verdadeiras comunidades, onde, cada um no seu papel, sabe perfeitamente que todos estão no mesmo barco. Poucos sabem o envolvimento que é necessário para criar, fazer e crescer e manter uma empresa, assim como, que existe quem sinta como suas as dificuldades e os desafios colocados ao seu empregador. Quem está por fora, com o salário assegurado por lei ou por rentismo, fala do empresário português como alguém com pouca formação, desqualificado e à espera de subsídios. Ao replicar coisas que ouviram dizer, dizem mais sobre si próprios, do que sobre o tema que puerilmente abordam.
Texto de autoria de Rui Rendeiro Sousa, partilhado (assim como a imagem) no grupo Memórias... e outras coisas - BRAGANÇA:


«Não se imagina um Zé Pinto a chegar a primeiro-ministro. Com o correr dos anos, ele passou de Zezito a Zé Pinto, de Zé Pinto a Vidrinhos, de Vidrinhos a engenheiro José Pinto de Sousa, de engenheiro José Pinto de Sousa a engenheiro José Sócrates Pinto de Sousa, de José Sócrates Pinto de Sousa a José Sócrates. (...) Em José Sócrates tudo é construído, desde a raiz. Construiu a sua imagem. Construiu a riqueza da sua família. Construiu o seu percurso académico. E construiu cuidadosamente o seu próprio nome. Como afirma um amigo, que infelizmente se manteve anónimo, numa das mais esclarecedoras frases jamais proferidas acerca da personalidade de José Sócrates: "Ele só é espontâneo quando se distrai".»
João Miguel Tavares, José Sócrates: Ascensão, p. 119
Ed. D. Quixote, 2025
Vai fazer-me falta, a Joana Lopes.
Habituei-me a lê-la desde que nasceu o DELITO. Ela não tardou a acarinhar este blogue, tendo sido das primeiras a espalhar a notícia do "parto", em Janeiro de 2009. Muitas vezes discordámos, mas sempre de forma civilizada - algo que parece em desuso agora. Sempre respeitei o seu percurso, marcado por convicções fortes e uma coerência que merece ser assinalada. E desafiei-a até a escrever aqui, como convidada especial, o que aconteceu a 4 de Maio de 2017.
Doutorada em Filosofia pela Universidade de Lovaina, na Bélgica, dedicou-se à programação informática enquanto engenheira de sistemas da IBM portuguesa, sendo a primeira mulher a integrar o conselho executivo do ramo português desta multinacional. Antes do 25 de Abril colaborou na emblemática revista O Tempo e o Modo e integrou a Junta Central da Acção Católica.
Em 2007 fundou o seu blogue, descendente do livro homónimo editado no mesmo ano: Entre as Brumas da Memória - Os Católicos Portugueses e a Ditadura. Testemunho pessoal de uma época que já pertence à História.
Recebi ontem a triste notícia do seu falecimento. No dia em que decorrem as cerimónias fúnebres, presto-lhe homenagem elegendo pela última vez Entre as Brumas da Memória como nosso blogue da semana. Ela parte, as palavras ficam.

Maria Dulce Fernandes: «Foi há cerca de 56 anos que o cantor romântico dos "Olhos Castanhos" , numa actuação em directo no programa TV Clube, resolve "informar" o país da absurda discriminação e grande disparidade de cachets perpetrada pela RTP, entre artistas nacionais e estrangeiros. Tão abrupta e surpreendente foi a intervenção, que ninguém sabia o que fazer e a emissão continuou no ar durante algum tempo. Claro está que o ano era 1964 e a censura, apanhada de surpresa nada pôde fazer senão mandar parar a emissão em directo, mas nessa altura o "mal" já estava feito.»
Paulo Sousa: «Em pleno confinamento pandémico os cafés estão impedidos de vender bicas, ou cimbalinos conforme a região. Nem cafés, nem bares podem agora vender os seus produtos “ao postigo”. Até o Elefante Branco se queixa desta medida destruidora da economia. Aqui na minha terra o café, onde já há uns anos deixou de se poder fumar, deixou agora também de poder tirar cafés. Mas como tem uma máquina da SCML, esticaram duas fitas plásticas vermelhas e brancas para, qual curro, assinalar o caminho mais curto das moedas dos bolsos do pobres até à gorda conta da SCML. Para que dúvidas não haja, a santidade está-lhe intrínseca no nome. É como a publicidade subliminar, nem damos por ela, levamos com o produto, com a embalagem e com o recado, tudo junto antes de ter tempo de respirar. E santa que é, consegue, sem pestanejar, apelar à nossa ajuda para poder ajudar a dar uma resposta extraordinária à pandemia.»
Ontem, Hoje e Amanhã, José Cid
(Single: Ontem, Hoje e Amanhã, 1976)
Nas bolhas está-se bem. Por lá as notícias reforçam as aversões ou as simpatias, as partilhas as opiniões, e as discussões, se houver, são dentro de um confortável quadro geral comum.
Pertenço a várias porque lá também se aprende alguma coisa, criam-se, reforçam-se ou destroem-se opiniões, e por vezes nascem laços de amizade.
Nosso Senhor, ou o Diabo, fizeram-me céptico e vaidoso. E o cepticismo leva-me a duvidar de tudo, e a vaidade a não respeitar autoridades. Isto sempre fez com que lesse, e ocasionalmente convivesse, com gente que, porque tem opiniões diferentes, e até opostas, das minhas, labora em profundo erro; e, quase sempre sem esperança, nunca hesitei, estivesse onde estivesse, em exprimir as pérolas que moram no bem-fundado das minhas escolhas políticas, apenas com algum cuidado para não ofender gratuitamente.
Quando comecei a frequentar a blogosfera, aí por 2009 ou 2010, tornei-me rapidamente comentador residente de vários blogues e, pelo menos em três, ganhei rapidamente o estatuto de facho residente, ao menos na opinião de outros comentadores, que me desancavam furiosamente.
Descobri que, com frequência, à gente da minha laia não tinha muito a dizer porque apenas abundaria nas opiniões com que concordava, que eram a maior parte. Mas a comunistas, bloquistas, pêesses e, ocasionalmente, laranjas, isso sim, mas que grande gosto.
Blogues hoje defuntos, a maior parte, ainda que muitos bispos da blogosfera tenham seguido carreiras na política ou no comentariado, e por isso não os tenha perdido de vista.
Quem sempre acompanhei foi a Joana Lopes, no blogue Entre as brumas da memória, que em muitos anos raramente terá deixado passar um dia sem publicar textos dela ou de outros, invariavelmente gente de esquerda, e da carregada.
E durante muitos anos comentei, sempre com a elegância que me é própria, e a Joana sempre me tolerou, a certo ponto tendo-me descrito como o seu “inimigo de estimação”.
Quando fui iluminar o Facebook com a minha presença a Joana já lá estava e, naturalmente, passei a, no mural dela, espargir considerações da maior pertinência, na minha opinião, e da maior impertinência, na da corte dela, que era numerosa.
Um dia fazia anos que Zeca Afonso tinha nascido ou morrido, já não lembro, e no mural houve sermão e missa cantada. Farto da cerimónia, e de tanta vela acesa, referi en passant que o Zeca não era grande amigo de tomar banho e pareceu-me que se tinha ali feito um silêncio gélido. Ao cabo de um tempo outro leitor disse “Ó Joana, não sei porque aturas aqui este fascista, já há muito o topei” – esta frase ou outra parecida. A Joana, coitada, retirou-me a “amizade” feicebuquiana, mas continuei a ser leitor fiel, tanto do blogue como do mural.
Referi-a, várias vezes em vários sítios, como uma minha amiga unilateral, acrescentando que isto queria dizer que gostava dela mas ela não retribuía.
No dia 18 de Janeiro estranhei que no blogue não houvesse nada, e também nada no dia seguinte, e no outro, e no outro, de modo que a 22 fui para o Face queixar-me. Uma amiga comum veio-me dizer, privadamente, que ela estava doente. Nada de grave, porém, dizia um familiar. A mesma amiga escreveu-me ontem a dizer que a Joana Lopes tinha morrido de manhã.
Admito que esteja no Céu, se para lá também puderem ir bloquistas. E acho pouco provável que lá nos encontremos porque eu vou parar, na melhor das hipóteses, ao Purgatório.
Pode ser, porém, que haja visitas entre aqueles dois departamentos. E gosto de pensar que ela apreciaria, finalmente, conhecer pessoalmente o inimigo de estimação.
Eu gostava do encontro – sempre matava saudades.
Verdes São os Campos, Cuca Roseta
(Álbum: Riû, 2015)
Verdes são os campos
Da cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.
Constato, desde há muito, que mais depressa as pessoas falam publicamente da sua intimidade do que de política. Ainda há pouco tempo li, no Público, uma crónica que começava com a afirmação: "Não gosto de falar de política". Um desabafo tranquilo, de quem sabe que está a exprimir uma posição consensual. Este pudor sempre me intrigou, visto que não há nada que tenha mais impacto no "condomínio" social em que vivemos do que a política. Discutir política é, em última análise, um acto cívico. Exprime envolvimento, preocupação, sentido crítico e desejo de clarificar tudo o que de polémico vai acontecendo neste âmbito.
Ao contrário, cultivar a reserva e o distanciamento sobre este tema é negar uma dimensão muito importante da nossa vida colectiva e passar a mensagem errada para as gerações vindouras, a de que a política não interessa a ninguém. Nada mais falso, nada mais perigoso.
Será entre quem diz que quer ser o Presidente de todos os portugueses e quem declara sem rodeios que rejeita ser o Presidente de todos os portugueses.
É simples? Sim.
Ajuda a esclarecer? Sem a menor dúvida.

Eileen Gu