Algures no séc. IV a.C. num diálogo entre Platão e Sócrates, que chegou até nós na obra Fedro, é referida a invenção da escrita. Taut apresenta a sua invenção** ao seu Rei Tamus e explica-lhe como dessa forma se poderá solucionar o esquecimento. O rei não fica agradado com a novidade e diz-lhe:
"Se os homens aprenderem isto, isto implantará esquecimento nas suas almas; deixarão de exercitar a memória porque confiarão no que está escrito. Não inventaste um remédio da memória, mas um remédio do relembrar; e ofereces aos teus discípulos a aparência da sabedoria, não a sabedoria verdadeira."
Já lá vão bastante mais de dois mil anos e, observando a partir do séc. XXI, é fácil de concluir que o Rei Tamus não conseguiu antecipar o alcance da invenção de Taut. Perante aquela novidade, o Rei achou que a maneira como ele próprio adquirira conhecimentos e sabedoria era a única forma de os alcançar. Métodos diferentes não levariam à “verdadeira sabedoria” mas apenas a uma “aparência da sabedoria”.
A nossa reacção perante as possibilidades que a inteligência artificial (IA) irá criar pode muito facilmente ser idêntica à do Rei Tamus. Que as pessoas deixarão de pensar por si, que ao confiarem na tecnologia perderão o espírito crítico e acabarão por ser dominadas pelas máquinas. Mesmo com receio, será impossível evitar os seus efeitos e segundo alguns estudos já sabemos que o trabalho intelectual está a baixar os anteriores níveis de remuneração. Quem já se debruçou sobre este fenómeno garante que trabalhos que exigem perícia manual, improviso, julgamento de contexto e capacidade de adaptação passarão a ser mais bem pagos do que os que exigem muitos anos de estudo e de progressão académica. Os canalizadores, electricistas, serralheiros, técnicos de reparações mecânicas e electrónicas, cuidadores de idosos, enfermeiros, cozinheiros, entre outros, estarão em vantagem perante as profissões que envolvem tarefas mais repetitivas.
A forma como adquirimos conhecimentos será também profundamente alterada. O ensino irá deixar de estar centrado no professor, enquanto “transmissor” de conhecimento, para passar a ter no seu centro o aprendiz assistido por uma IA ajustada ao seu ritmo, limitações e talento. Aprender deixará de ser acumular informação e passará a ser dominar processos.
Apesar de todas estas mudanças, algo se irá manter inalterado. A escola continuará a ser fundamental como espaço indispensável de socialização e de construção colectiva.
** A invenção de Taut, nos termos em que é referida nesta obra, será mais um dos inúmeros mitos clássicos, uma vez que existem registos escritos com mais de cinco mil anos.
Nada como passar pelo supermercado para apreciar o efeito de rebanho que as campanhas natalícias provocam nos consumidores. Parecem abelhinhas numa colmeia. E isto já se observa há semanas. Os senhores que nos pastoreiam lá sabem por que o Natal deve começar cada vez mais cedo. Apesar de termos uma vida difícil, gastamos mais quando pressionados. É esta a premissa número 1 de um bom marketeer.
O consumidor é um animal manso e obediente. Já assumiu que o Natal começa em Outubro e que a febre das compras tem de se cumprir, com ou sem dinheiro para gastar, logo se vê. Como se consegue este efeito multiplicador? É um mistério da fé. A verdade é que todos os anos os congestionamentos de trânsito em torno dos centros comerciais e as filas quilométricas para os caixas do supermercado se cumprem. Aos que resistem a esta via crucis por terem a mania que são diferentes, restam as pequenas excentricidades como a de só comprar em lojas de rua, de preferência no bairro, ou melhor ainda, fazer as compras natalícias ao longo do ano. Também há quem teime em festejar o Natal apenas a partir do dia 1 de Dezembro, como antigamente. Sou um orgulhoso membro deste grupo de resistentes. De alguma forma sinto que me redime de todo este desconcerto consumista em que me deixo arrastar.
Também compro quase tudo em lojas de rua. Menos mal. De resto compro, compro e compro o Natal como se não houvesse amanhã. Talvez para esquecer - visto que não tenho filhos ou sobrinhos pequenos, nem netos - que o Pai Natal não existe.
Oiço proclamar República Portuguesa: soa-me sempre a bananice. Portugal existe há 900 anos. É país, estado, nação, nome próprio, substantivo. Não deve servir de apêndice adjectivante, como inócuo ornamento, a outro vocábulo qualquer.
Este pensamento acompanha o DELITO DE OPINIÃO durante toda a semana
José Meireles Graça: «À medida que o novelo se vai desenrolando vai-se percebendo que o SEF é uma organização criminosa e que o assassinato [de Ihor Homeniuk] chegou à opinião pública porque uma vítima teve o atrevimento de morrer e porque umas quantas, poucas, pessoas não quiseram encobrir.»
«Eu não seguia a maioria parte das intervenções que Marques Mendes fazia como comentador. Mas há uma diferença entre comentar a actualidade e transformar o país.»
«O centro-direita a que pertence Luís Marques Mendes não é o centro-esquerda a que eu pertenço.»
«O cartel da banca foi condenado em dois momentos a pagar 225 milhões de euros. Não pagou porque [o crime] prescreveu. Prescreveu porquê? Quais são as causas?»
«Marques Mendes diz que é muito interventivo. É membro do Conselho de Estado há 15 anos. Podia ter aconselhado os Presidentes da República a agir e a fazer esse pacto da justiça. Porque não fez?»
«Nós, ao ritmo a que temos vindo a diminuir a pobreza no nosso país, precisamos de um século para a eliminar. Isto é chocante, é um cancro social enorme.»
«O combate à corrupção tem de ser uma prioridade do estado de direito.»
«Penso que o senhor doutor fez parte, como consultor, de algumas das empresas que estavam na privatização. Defendi que houvesse planos anti-corrupção associados a cada processo de privatização, designadamente na TAP: isso seria útil para prevenir algumas das situações que neste momento estão em investigação. Na altura o governo do doutor Marques Mendes fez orelhas moucas.»
«Neste momento há um desequilíbrio completo do sistema político. A direita tem a maioria das juntas de freguesia, câmaras municipais, governo da Região Autónoma da Madeira, governo da Região Autónoma dos Açores, a maioria no parlamento, o primeiro-ministro... O país tem a ganhar se o sistema político estiver equilibrado.»
«Em duas leis essenciais - a lei dos estrangeiros e a lei da nacionalidade - com que é que o governo do seu partido fez acordo? Com o Chega. Matérias que são estruturantes para o nosso chão comum.»
«Precisamos de um Presidente da República para novos tempos e não para os velhos tempos.»
LUÍS MARQUES MENDES:
«Há uma grande diferença entre estes dois candidatos: António José Seguro privilegia mais as proclamações de carácter genérico. Eu quero ser bastante mais activo e interventivo.»
«Já houve um período, há 30 anos, com Guterres a primeiro-ministro e Jorge Sampaio a Presidente, com os ovos no mesmo cesto. Dois socialistas no topo do Estado. António José Seguro fazia parte desse governo. Fazia parte dos ovos que estavam no cesto - e nunca se queixou.»
«É preciso dar rapidamente o pontapé-de-saída para um pacto da justiça. O meu primeiro Conselho de Estado será sobre esta matéria.»
«A justiça está doente.»
«Há uma diferença [minha] com o António José Seguro: eu sou mais interventivo, gosto de ir mais à frente.»
«Eu quero avançar no combate à pobreza. Vou instituir um Fórum Anual de Combate à Pobreza.»
«O governo Passos Coelho é que fez a privatização da TAP. Eu não fui membro desse governo.»
«A minha Casa Civil terá menos assessores políticos e mais assessores sociais.»
«Já assumi o compromisso de colocar um jovem [no] Conselho de Estado. Nunca na vida isso aconteceu.»
«Não indigitarei o líder do Chega primeiro-ministro nem lhe darei posse enquanto não tiver garantias por escrito de que o seu programa será limpo de inconstitucionalidades.»
Excertos do debate ocorrido ontem à noite na RTP e conduzido por Carlos Daniel com a segurança habitual.
Representação de D. Afonso III na Viagem Medieval de Santa Maria da Feira 2015
Em Dezembro de 1245, D. Afonso Conde de Bolonha desembarcou em Lisboa, a fim de tomar conta do reino português, caído em desordem sob a regência de seu irmão D. Sancho II. D. Afonso, que vivia em França há vários anos, satisfazia assim o pedido de uma delegação portuguesa que se deslocara a Paris em busca de ajuda. Possuía o apoio dos concelhos do Centro e do Sul e dos castelos de Santarém, Alenquer, Torres Novas, Tomar e Alcobaça.
Seguiu-se uma guerra civil, que acabou com a deposição de D. Sancho II.
D. Afonso, o terceiro desse nome, seria o pai de D. Dinis. O seu irmão Sancho morreu no exílio, em Toledo, a 4 de Janeiro de 1248.
Desde o ano 2000 que foram anunciadas cinco greves gerais, em 2002, 2010, 2011, 2012 e 2013. Apenas a de 2012 foi motivada pelas políticas de austeridade, sendo que todas a outras foram na sequência de proposta de alterações ao Código do Trabalho.
Em 2002 os sindicatos eram contra uma mudança. Fizeram barulho, a válvula de escape funcionou e acabaram por ter de lidar com ela. A situação contra a qual "lutaram" em 2002, e que acabou por entrar em vigor, foi exactamente aquela que 2010 já não podiam permitir que fosse alterada. Daí para a frente a lógica é sempre a mesma. Qualquer alteração é inaceitável, mas no momento seguinte agarram-se com unhas e dentes para que ela se mantenha.
No linguajar dos sindicatos, sejam quais foram as alterações propostas, o seu conteúdo é sempre uma regressão e um ataque. Muitos dos grevistas podem julgar-se revolucionários, especialmente os da CGTP, mas depois de observar o seu padrão de comportamento ninguém me demove de os classificar como uns tipos do mais conservador que existe no país.
Francisco Sá Carneiro desempenhou um papel histórico no actual regime: reconciliou a direita portuguesa com a democracia. Esta foi uma missão para a qual estava vocacionado, por uma espécie de sentido messiânico, e em que viria a ser bem sucedido nos dois últimos anos da sua vida, desenrolados de forma vertiginosa, numa desesperada corrida contra o tempo. O facto de ter rompido com o regime anterior ao 25 de Abril após uma fracassada tentativa de levá-lo por rumos reformistas, como viria a suceder em Espanha, conferia-lhe uma legitimidade que poucos tinham na sua área política, dados os compromissos estabelecidos com a ditadura.
O combate decisivo para a implantação da democracia no alucinado Verão quente de 1975, contra a esquerda revolucionária, fora liderado por Mário Soares, com quem Sá Carneiro sempre estabeleceu uma rivalidade que nunca viria a ser superada, apesar da cordialidade pública que exibiam. Desafiado nesta espécie de confronto íntimo com Soares, o fundador do PPD/PSD sentiu ainda mais pressa em entrar na História, o que viria a suceder. Tinha qualidades para o efeito, bem reveladas na sua singular trajectória de uma década no palco da política: visão estratégica, uma inegável capacidade de comunicação e aquele atributo tão indispensável quanto indefinível que à falta de melhor certos politólogos costumam chamar carisma.
Venceu incontáveis batalhas internas até construir um partido influente, com sólida base autárquica disputada quase câmara a câmara ao Partido Comunista. Teve razão desde o início ao defender a autonomia regional, o afastamento da tutela militar e o fim do virtual monopólio da economia pública no Portugal pós-25 de Abril. E superou o teste da governação, após duas maiorias conquistadas nas urnas, embora ninguém saiba até que ponto seria vítima dos próprios impulsos se o destino não o tivesse colocado na fatal rota de Camarate, faz agora precisamente 45 anos.
Não teve razão, com alguma frequência, quando deixava a emoção sobrepor-se à implacável lógica cartesiana. Foi, nomeadamente, o que sucedeu no seu desenfreado combate contra o Presidente Ramalho Eanes que lhe consumiu as energias nos últimos meses de vida. A derrota nas presidenciais de 1980, a que já não assistiu, confirmava que tinham razão aqueles que em vão procuraram dissuadi-lo de transformar o popular Chefe do Estado em adversário principal.
Foi admirado e odiado em partes iguais, o que é sina de quem nasceu para líder.
Graças a ele, a democracia portuguesa não cresceu amputada.
Cada vez mais me acontece. Saio à rua e observo senhoras com falsos bebés ao colo, agarradas ao "rebento" com o maior desvelo.
Falsos por não serem bebés: são cães.
Lá vão elas passeio fora, com aparente receio de que o bicho lhes tombe para o chão.
Algumas, em vez de levarem o béu-béu nos braços, preferem transportá-lo em carrinhos de bebé. Vi há dias algo do género em estreia absoluta para mim: em vez de um rosto humano, arredondado e bochechudo, espreitava-me um focinho comprido e peludo debaixo da manta.
Permanecem por estudar com exactidão os efeitos devastadores do coronavírus em matéria comportamental. Mas há um ponto inquestionável: a relação das pessoas com o espaço urbano alterou-se muito desde a pandemia. Foi então que começaram a proliferar os estafetas - novo lúmpen citadino, oriundo do subcontinente indiano - devido ao pânico de muita gente perante o risco de contaminação em locais públicos: em vez de saírem, pagam para lhes levarem quase tudo à porta de casa.
Foi também então que cães e gatos reforçaram o seu estatuto como elementos fundamentais de companhia: ao contrário dos seres humanos, eles não eram transmissores de covid-19.
No contacto entre pessoas e animais, já vi de tudo um pouco e surpreendo-me com quase nada. Um colega de profissão - também meu bom amigo - levou certo dia uma atónita raposa para a redacção do jornal onde ambos trabalhávamos. Outro apresentou-nos um camaleão, seu animal doméstico preferido, orgulhosamente poisado no ombro do dono. No bairro onde vivo, passou por mim esbelta donzela levando um furão pela trela - rima e é verdade. Em Macau era frequente os velhotes passearem os passarinhos nas gaiolas, indiferentes ao olhar de espanto dos forasteiros recém-chegados da Europa. Eu próprio tive um periquito azul celeste que andava solto pela casa e se tornou atracção junto de quem nos visitava: era o Pavarotti, que ainda recordo com um rasto de nostalgia.
Mas confesso: faz-me confusão este recente hábito de transportar cães ao colo. Terão os animais perdido capacidade de locomoção também por efeito da pandemia?
Eu:«Graça Freitas desrespeitou as suas próprias instruções. Só pode: caso contrário não estaria infectada com Covid-19 - logo ela, a pessoa supostamente mais conhecedora do tema em Portugal. Talvez por excesso do uso de máscara, que «transmite uma falsa sensação de segurança». Ou por ter acreditado em algum teste negativo que lhe fizeram, o que também «transmite uma falsa sensação de segurança» (estarei a repetir-me?). Ou por se ter esquecido de «virar as costas» às restantes pessoas que com ela partilharam elevadores. Ou - mais imperdoável ainda - por ter participado em «confraternizações familiares», algo que na sua abalizada opinião teria contribuído para 67% dos contágios.»
Nos 20 destaques feitos pelo SAPO em Novembro, entre segunda e sexta-feira, para assinalar os dez blogues nesses dias mais comentados nesta plataforma, o DELITO DE OPINIÃO recebeu 20 menções ao longo do mês. Fazendo o pleno, uma vez mais.
Incluindo onze textos na primeira posição do pódio, seis na segunda e três na terceira.
Mas comecemos pelo início. Fábio Vieira, de 25 anos, nascido em Santa Maria da Feira, jogava no F.C. Porto, quando foi comprado pelo Arsenal. Desde Setembro passado, é jogador emprestado ao Hamburger SV.
A história recente deste clube alemão tem sido dramática.
Hamburgo é a segunda maior cidade alemã (1.852 milhões de habitantes), à frente de Munique, Colónia e Frankfurt. O Volksparkstadion, um dos maiores estádios da Alemanha, tem capacidade para 57.000 pessoas. No seu palmarés, o Hamburger SV conta com uma Taça dos Campeões, uma Taça das Taças e seis campeonatos alemães. E, no entanto, de 2018, até à época passada, jogava da 2ª divisão!
Mas as “medidas drásticas” não conseguiram tirar o Hamburger SV do último terço da tabela e, em 2018, acabou mesmo por descer. Começou uma odisseia macabra. O HSV ficou três vezes no quarto lugar e outras tantas no terceiro, sendo que este lugar permite o play-off, com o último classificado da Bundesliga. E dessas três vezes falhou.
Na época passada, porém, conseguiu, com um 2º lugar, regressar finalmente à Bundesliga. Não tem, contudo, brilhado, pelo contrário.
No fim-de-semana passado, uma vitória permitiu-lhe ascender ao 13º lugar (entre 18 equipas). Uma vitória sobre o VfB Stuttgart, sexto clasificado! E em desvantagem numérica, depois de um dos seus jogadores ter visto o cartão vermelho (minuto 81). Nesta altura, o jogo estava empatado 1-1.
Já nos descontos, último minuto da partida: Fábio Vieira faz o segundo golo para o Hamburger SV. O estádio explodiu. Ouçam, neste vídeo, a histeria dos relatadores:
Curiosidade: Fábio Vieira esteve quase a jogar pelo VfB Stuttgart, antes de ir para Hamburgo, precisamente o clube que, devido ao seu golo, perdeu dramaticamente este jogo.
Outra curiosidade: o guarda-redes do Hamburger SV é, desde 2019, Daniel Heuer Fernandes, um luso-alemão, nascido em Bochum (pai português e mãe alemã). Fez, aliás, parte do plantel português para o Campeonato Europeu Sub-21 de 2015, na República Checa.
Adenda: Peço desculpa. O guarda-redes não se chama Manuel, mas sim Daniel Heuer Fernandes.
O pensamento é inevitável.Mesmo quem pensa mal, pensa sempre. É o que define a nossa existência como seres pensantes e, dizem, o que nos separa dos outros animais.
“Não quero pensar nisso", dizemos, como se não pensar fosse uma decisão que se toma e pronto. Não é fácil, não pensar. Requer uma série de mecanismos, de artimanhas de resultado duvidoso, que levem a mente a divagar por becos e ruelas longe da praça principal. Nem sempre funciona, mas enquanto se tenta, estamos embrenhados na intenção.
Este ano entrou louco, correu assustador e chegou à recta final com aquela calma de quem venceu uma guerra com as mãos vazias. Mas somos gratos por cada dia em que cada pequeno passo contribuiu para esta primeira grande vitória.
Dezembro entrou e já começa a parecer-se bastante com o Natal. Há muitos anos que as cadeiras se vêm tirando de volta da mesa nas comemorações familiares, para não marcarem os lugares vazios onde ninguém se quer sentar. Já fomos muitos.
É inevitável construir uma linha temporal que nos remete à infância,ao primeiro Natal, ao bulício atarefado da cozinha, aos sorrisos dos convivas, ao calor da ternura. Ao amor. Tanta gente, tanta alegria.
A alegria continua nos sorrisos das nossas crianças, o calor, a ternura, o amor não se perderam nem se diluíram no passar dos anos. Apenas no nosso coração, por mais transbordante que esteja, dói a falta de todos aqueles lugares por preencher. Embora o seu espírito viva luzente nas nossas memórias, a saudade é sempre pungente e cresce doida a cada ano que passa.
José Meireles Graça: «Morreu Eduardo Lourenço e a comunicação social explodiu em ditirambos (...). Pobre homem, talvez não merecesse, pela sua simplicidade, que era provavelmente genuína, o prémio que dá a pátria aos seus próceres da cultura quando morrem velhos: o estatuto de génios retroactivos, em vez de diuturnidades.»
JPT: «A dra. Gomes vacinou-se por motu próprio. E disso se gabou, em molde crítico. Mas não insurreccional, note-se. Acontece que nisso cometeu uma ilegalidade, o que em muitos outros países seria virótico, até letal, para uma candidatura presidencial. Talvez não para a sua pois, antes de zarpar para as imediações do Bugio, sossegou os apoiantes invocando o seu "desconhecimento da lei" - o qual, como bem se sabe, no direito português inocenta qualquer prevaricador.»
Eu: «Drama feminista que na adaptação ao cinema suavizou arestas, com alguns contornos de comédia e até de musical. Livro e filme [A Cor Púrpura] foram populares há três décadas e meia. Hoje apetece-me mais rever a película do que reler o romance.»