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Delito de Opinião

As malvadas redes sociais

jpt, 31.10.25
 

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Vivemos sob um superavit de informação, um “potlatch” (um ritual esbanjo histriónico) de imagens que nos veda a compreensão, muitos nos afiançam. Este não é um argumento novo. Por exemplo, no já vetusto 1999, João de Almeida Santos encetou o seu interessante “Breviário Político-Filosófico” com um “De tanto ver e ouvir, corremos o risco da cegueira e da surdez”. E esta alienação, de que parecemos ser passivos objectos, acresce-se nas malfadadas “redes sociais”, indignificadoras de argumentos e seus locutores. Isso nos asseguram vultos proeminentes - que normalmente se julgam algo “gauchistes” -, como o publicista José Pacheco Pereira e o jornalista Miguel Sousa Tavares - que as quer proibir, sem que alguém apode de fascista quem é pago para dizer tais coisas.

Esta ideia da indignidade das “redes sociais” - decalcada do repúdio jornalístico pelos blogs, naqueles 2003/4 - vai grassando. Não só mas também por reacção corporativa, entre os avalizados para a “palavra pública” e entre os funcionários públicos, estes ancorados na sua percepção de exercerem uma “tutela” sobre nós-povo, enlameados que estamos pelos pântanos insalubres das tais “redes”.

Anteontem telefonou-me um jornalista, a propósito de dois textos (maldispostos) que escrevi há um ano (num desprezível blog...). E disse-me que o responsável da instituição alvo do meu resmungo lhe respondera “não comento declarações em redes sociais”. Terá toda a razão o referido responsável (aliás, em termos gerais a sua resposta fora muito curial). Eu retorqui ao jornalista: “pois, mas depois de ter escrito o texto desafiaram-me a escrever para um jornal” - e se o tivesse feito já seria agora “comentável”. “Sabe porque não o fiz?”, aduzi.... “porque não me pagariam para isso”. Vi-lhe o sorriso, do lado de lá do telefone. “Para que é que vou escrever para um jornal, se não me pagam?”, coisa pouca que fosse, o gasto mensal da água, por exemplo... Posso-o fazer por algo que alcandore a “causa” minha - a atenção sobre a situação moçambicana, e já o fiz. Ou a abjecta malvadez das candidaturas PS à junta de freguesia dos Olivais, e não o fiz. Mas as meras opiniões? A meter-me em cuidados de as enformar, com detalhes e rodapés, para publicar gratuitamente em jornais? Para quê? Para o prestígio (aos 60 anos)? Por narcisismo (para este basta-me o blog)? Para almejar ser comentado por um funcionário público?

Mas este desprezo pela palavra pública não é apenas corporativo. Pois este mescla-se com o ideológico. Há dias ouvi a prelecção de um fotógrafo espanhol - que ali apresentava boas fotografias de guerra na Síria, justiça lhe seja feita. Invectivou as redes sociais, alienantes, claro. Os milhões de imagens que afogam a nossa Razão e a nossa Sensibilidade. Tudo para sublinhar que a “nossa” sociedade (depreendi que acima de tudo a europeia, pois democrática liberal - pois este é discurso típico da extrema-esquerda -, mas isso ele não especificou, deixando no ar que se tratava de um diagnóstico universalizante) está doente como nunca e nisso desatenta aos conflitos - e mais do que depreendi que se referia à situação de Gaza. E muito decerto que devido às invectivadas “redes sociais”.

No final da veemente arenga seguiu-se o habitual período de “perguntas”. Com (espero) notória simpatia não lhe referi que sendo ele da minha idade, pois isso aparentava, ambos tínhamos chegado a adultos quando a América Central e do Sul vivia sob tais ditaduras que até Pinochet seria algo “manso” diante dos Stroessner, Videla, Somoza e quejandos. Que em África havia guerras violentíssimas e ditaduras execráveis (os Live Aid acorriam a fomes que tinha tantas causas políticas como ecológicas, pelo menos, o apartheid jugulava a África do Sul - e a Namíbia). Que na Ásia o pós-maoísmo era pouco “pós”, Pol Pot ainda guerrilhava e muito, a Indonésia era Indonésia, e por aí afora. E que metade da Europa era brejnevista ou pior. Nada disso lhe disse porque tal lhe prejudicaria o argumento escatológico - isto de vivermos um quase fim do mundo devido ao atrevimento das gentes comunicarem entre si. (E ao capitalismo, claro).

Disse-lhe apenas que escrevo em redes sociais. E que há conflitos e situações sobre as quais aqui no país nenhum “encartado” fala. Ou falam pouco. Referi a guerrilha no Cabo Delgado em Moçambique - sobre a qual em Portugal houve enorme silêncio, que agora de novo vigora. E do qual recebi e recebo ainda inúmeras notícias e desgraçadas fotografias e filmes - emanadas do “jornalismo digital” (amador) e da “cidadania digital”, esses que ele e seus apaniguados tanto denigrem. Como não falam do Sudão - e apontei o exemplo do excelente recente artigo de Anne Applebaum, que ela publicou em “The Atlantic” mas também no seu blog (hélas!) na Substack. E que mesmo tendo ela vindo agora ao festival literário de Óbidos ninguém pegou no assunto. E aludi à situação em Madagáscar, aqui silenciada.

O “nosso irmão” nem me respondeu. Atentou noutras breves perguntas e apenas en passant (qual as velhas carnavalescas bisnagas vira-bicos) deixou cair um arreigado “apenas um jornalista tem a capacidade para escrever um texto analítico e sintético sobre uma situação”. Eu, antropólogo, sorri num “para mais tarde recordar”. Ainda para mais porque o homem estava ladeado por um fotógrafo do “Público” - esse jornal “de referência” no qual durante décadas li patéticos dislates sobre Moçambique, desde o tráfico de orgãos levados de Nacala para Maputo por caminho-de-ferro, passando pelo generalizado “pânico em Maputo” devido a raptos, até Venâncio Mondlane filho de Eduardo Chivambo Mondlane, e por um enorme aí afora de disparates encartados e ... convictos.

Vem tudo isto a propósito de uma memória. Há uns anos fui à Feira do Livro de Bruxelas. Numa banca havia uma sessão de autógrafos de vários autores, que eu desconhecia. Folheei livros. Deparei-me com uma delícia, verdadeira peróla para meu gosto, e comentei (em português) para o meu lado do meu agrado. À minha frente estava um autor que, sorridente ao perceber todo aquele meu encanto expresso em língua que lhe era estranha, me disse “o autor é aquele”. Lá fui, pedir o autógrafo... Tratava-se do “Back to Al Bak”, um regresso à cidade natal do malgaxe Dwa, um talentoso aguarelista que faz banda desenhada. Belíssima.

Desde então que o sigo nas “redes sociais”. À recente convulsão em Madagáscar acompanhei-a aqui, na sua página do Facebook, através das suas magníficas ilustrações. Não nos “periódicos”, mudos sobre aquela gigantesca ilha. Mas em Dwa…

Há muita tralha na internet? Há - acima de tudo quem adoece não deve ir ao Doutor Google. Mas deixemo-nos de exageros, a “cidadania digital” é agora fundamental.

E, mais do que tudo, se puderem comprem os livros de Dwa. São uma delícia.

(Também colocado no meu blog "O Pimentel")

Cantar Camões (16)

Pedro Correia, 31.10.25

Já no Largo Oceano Navegavam, Jorge Palma

(Álbum: Camões, as Descobertas... e Nós, 1992)

 

Já no largo Oceano navegavam,
As inquietas ondas apartando;
Os ventos brandamente respiravam,
Das naus as velas côncavas inchando;
Da branca escuma os mares se mostravam
Cobertos, onde as proas vão cortando
As marítimas águas consagradas,
Que do gado de Proteu são cortadas
.

Honor is due

Sérgio de Almeida Correia, 31.10.25

carlos-III.jpg(créditos: daqui)

Quem acompanha aquilo que vou rabiscando e escrevendo por aí, incluindo neste blogue, sabe que sou convictamente republicano e considero que a república é a forma de governo mais consentânea com os valores que defendo para mim e para os meus. 

Dito isto, é-me fácil reconhecer onde estão esses valores, sendo certo que muitos são partilhados com a monarquia, e não sendo a virtude, a honra, a prossecução do bem comum, a defesa do interesse pública, da história ou de seculares tradições exclusivo de uma ou outra forma de governo.

Em rigor, não é por serem republicanos ou monárquicos que os homens e as mulheres de bem se distinguem; antes pela sua praxis, pelo modo como conciliam as suas convicções com a sua acção, a teoria com a prática, aquilo em que acreditam e os valores que defendem com o exercício quotidiano da vida em sociedade, o interior com o exterior, dentro e fora de casa, à luz do dia e na escuridão.

E como em tudo na vida há bons e maus regimes, boas e más acções, gestos que dignificam e enobrecem e atitudes e comportamentos desprezíveis.

Impõe-se por tudo isso, e porque também há décadas procuro estar sempre em sossego com a minha consciência, gozando o sono dos justos, dizer uma palavra sublinhando, na linha do que havia sido feito pela sua falecida mãe, a atitude de Carlos III e da Coroa britânica em relação ao que é publicamente conhecido das relações de André (Andrew) Mountbatten-Windsor com Jeffrey Epstein e seus amigos.

Ao contrário do que se tem visto do outro lado do Atlântico, de onde só chegam péssimos exemplos, não houve equívocos nem hesitações, muito menos protecção do poder a quem, ainda que invocando a respectiva inocência, não terá estado à altura dos seus direitos e das suas obrigações. Não se arranjaram desculpas, não foi preciso um clamor público, nem manifestações de rua. O que já se sabia, aliado às memórias póstumas de Virginia Giuffre, retiraram qualquer margem de manobra à Coroa. E na hora de decidir impuseram-se a dignidade e o dever. Sem alarido, sem dramas, sem teatro. 

Muito haverá a criticar, certamente, sobre a acção ou os privilégios dos monarcas numa democracia, em especial em relação à de Westminster, mas é dali, e de um outro farol cada vez mais trémulo, que contra o temporal de insânia e os ventos que sopram de diversos quadrantes que ainda nos chega a luz do exemplo. Exemplo para outras monarquias, mas também para democracias consolidadas e autocracias, sejam estas de direita, de esquerda ou de raiz teológica.

O que aconteceu no Reino Unido não será muito diferente do que fez Filipe VI em relação ao seu pai e à defesa da Coroa espanhola. E que também aqui mereceu na altura o destaque merecido.

E se é verdade, o que acredito, que a nobreza não está no sangue, como bem se vê comparando irmãos, sejam Carlos e André ou William e Harry, mas antes na elevação do gesto, no rigor do comportamento, pois que é daí que vem o exemplo, a dignidade e a autoridade moral de uma elite, de quem governa, de quem nos representa, na república ou na democracia, neste momento impõe-se dizer que a Carlos III "honor is due".

A cada um o que é devido. O resto será com os historiadores.

DELITO há cinco anos

Pedro Correia, 31.10.25

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João Pedro Pimenta: «Erdogan [é] um dos maiores incendiários do nosso tempo. Só este ano já enviou tropas para a Líbia para proteger a sua facção, reconverteu Santa Sofia, outrora a maior igreja da cristandade e nas últimas décadas um museu, em mesquita, apoiou o Azerbaijão na guerra contra a Arménia na questão do Nagorno-Karabakh invectivando os arménios de forma inaceitável (um chefe de estado turco a dizer coisas semelhantes aos arménios equivale à chanceler alemã a insultar judeus) e agora diz que Macron tem "problemas mentais" e apela ao boicote à França; ou seja, a França é atacada no seu território por extremistas gritando "Alá Akhbar" e ainda recebe ameaças deste fulano.»

 

João Sousa: «Considero a mais eloquente prova do talento de Sean Connery o facto de, apesar de ter sido o primeiro (e para muitos, incluindo este escriba, o melhor) James Bond, ter conseguido que isso fosse apenas uma das alíneas de um invejável currículo. Filmou com grandes realizadores como Sidney Lumet, Brian de Palma, Hitchcock e Spielberg. Representou um personagem de Umberto Eco.»

Uma noite na ópera

José Meireles Graça, 30.10.25

Fui ver a Tosca ao Coliseu, no Porto, um espectáculo com uma realização de tal modo do tipo para-quem-é-bacalhau-basta que os cantores se passeavam de microfone. Fiquei a pensar que, se é assim, eu dava um Mário Cavaradossi muito aceitável. Haveria decerto espectadores que se perguntariam se era o Cavaradossi ou o avô dele, mas quero lá saber: escolhia eu a Tosca, na cena do beijo não disfarçava, a soprano ficava sem respiração e, no fim, os espectadores confessar-se-iam conquistados pela qualidade da representação.

Mas não é propriamente da ópera que quero falar. Sucedeu que ia de gabardine e chapéu (este último conferindo um toque de distinção que, por modéstia, não desejo sublinhar) e pretendi depositar tais peças no vestiário. Que não senhor, disse-me a simpática menina: nem gabardines nem chapéus nem bolsas. E efectivamente o que se via ali arrumado eram apenas guarda-chuvas. De modo que lá me sentei na plateia (lugares de cadeiras de orquestra, que sou pessoa de meios – 55 Euros, olaré), a gabardine e o chapéu no colo. Começada a peça, logo me dei conta que a recolha dos guarda-chuvas molhados terá sido um exagero de precaução, visto que os cantores se apresentavam de botas altas que pareciam galochas, portanto devidamente protegidos de águas insidiosas.

Não me vou dar ao trabalho de escrever à direcção do Coliseu. Aquilo parece que era patrocinado pela Ageas Seguros, o que quer dizer que a resposta viria, se viesse, em língua de pau, que é o dialecto em que se exprimem as seguradoras.

De modo que dou de conselho a quem queira lá ir que leve um casaquinho de malha, nada de complicações. Vá de Uber ou de táxi porque na garagem mesmo em frente sobe-se e desce-se pela mesma rampa, o que significa que quem quer entrar espera, e desespera, chegando à Ópera em estado de grande exaltação.

O Porto é uma nação.

DELITO há cinco anos

Pedro Correia, 30.10.25

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JPT: «Morreu Sindika Dokolo, genro de Zedu, marido de Isabel dos Santos, ao que foi noticiado devido a um acidente de mergulho. Goste-se ou não da elite angolana esta reacção da candidata Gomes é vergonhosa. Pois de imediato alude a teorias conspiratórias, típicas não dos informados analíticos mas dos desinformadores e dos ignorantes. Mas muito pior é esta reprodução de uma mísera "boca", a de que o sinistrado "morreu offshore".»

 

Luís Naves: «Ontem, houve um atentado islamista em Nice: um terrorista entrou numa igreja católica e esfaqueou várias pessoas, matando três. O caso está a causar certa comoção, porque a França esteve sob fortes críticas das autoridades de países muçulmanos (incluindo o presidente turco) a propósito dos supostos excessos retóricos na reacção à morte de um professor de liceu, degolado há uma semana por um islamista, após ter mostrado as caricaturas de Maomé na aula. A indignação dos fanáticos nem se entende bem, pois a resposta francesa foi a do costume, com manifestações e discursos, vigílias e textos indignados, muitas palavras, mas nenhuma acção concreta.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Quando uma igreja, local de entrega, reflexão e paz se torna em local de emboscada para os indefesos, quando a loucura faz dela um talho onde o cutelo processa a degola dos sacrificados inocentes, e as bestas se comprazem vendo o sangue fresco escorrer pela pedra fria e silenciosa, não há diálogo possível.»

Um resquício do antigamente

Paulo Sousa, 29.10.25

Há uns meses atrás, disse em privado que a Rússia estava cada vez mais encurralada e não via forma de conseguir sair do buraco onde se metera. A resposta, de alguém informado, era que eu estava redondamente errado, que as democracias europeias tinham nascido em tempos de paz, concórdia e compromissos e não eram capazes de decidir com a agilidade dos estados autoritários. Além de que a Rússia não se incomoda em sacrificar o seu próprio povo para salvar a cara do Czar e que ainda por cima tinha o apoio da China. Argumentei dizendo que a derrota da Federação Russa pode levar à sua desagregação e isso seria uma oportunidade para a China, até no que diz respeito a voltar ter um acesso ao Pacífico. Que não, que a Rússia só fica de joelhos quando está a atacar os sapatos, que tem direito a ter a sua esfera de influência e que se as democracias são fracas, a União Europeia é muito mais. Um bando de incapazes e três safanões, rima sempre com recuos, apelos a negociações e a fraldas sujas. Ninguém nos pode acudir. Lembrei que há cem anos também não faltava quem desprezasse as democracias e garantisse que o futuro era das ditaduras, mas no fim da Segunda Guerra Mundial foi o que se viu. Mas nessa altura não existiam redes sociais, respondeu-me, e hoje estamos sempre a ser bombardeados por bots do Kremlin que contagiam os eleitores com insegurança e sublinham a força da Rússia. Se algum líder europeu desafiar Putin, será incinerado nas redes sociais. Churchill e Roosevelt não tiveram de lidar com essa quinta coluna.

Algumas semanas passaram e a balança continua a desequilibrar-se em desfavor da Rússia. As democracias, e a UE, continuam envolvidas no caos dos seus parlamentos, na sua impotência e sem saber o que fazer com a sua relativa prosperidade, com os imigrantes ou com as expectativas dos seus cidadãos.

A democracia, por ser um modelo político desejável do ponto de vista do cidadão, fez parte dos factores que mobilizam o heróico povo ucraniano a suportar as flagelações russas. Claro que lutam pela sua identidade e sobrevivência, mas lutam também para que as suas gerações futuras possam viver na Europa da democracia, dos parlamentos caóticos, dos orçamentos aprovados à última hora, dos governos derrubados pela oposição, dos escândalos revelados pela imprensa, dos humoristas a apoucarem os governantes, mas também da harmonia do compromisso, da cooperação e da solidariedade europeia, da economia de mercado e do estado de direito. Lutam para não terem de viver sob o jugo de Moscovo, das suas elites corruptas e obscuras, que os atacaram, aliás, para tentarem impedir que o seu próprio povo entenda que, mesmo sem infinitas reservas de recursos naturais, é possível ter uma vida próspera e digna. As elites russas não querem abrir mão dos seus privilégios e sabem bem que num sistema competitivo como o da democracia tudo se pode perder muito facilmente. Funcionam como se vivessem num Antigo Regime fora de tempo, onde a vida de cada um depende do berço onde nasceu e o elevador social funciona apenas para os mais corruptos e menos escrupulosos no recurso à violência. Essa é a essência desta guerra que duraria apenas três dias. Esta é uma guerra onde um resquício do antigamente tenta contrariar a força da aparente fragilidade da democracia e da força da dignidade dos cidadãos. Um dia, inevitavelmente, a modernidade chegará também a Moscovo.

Bloco a pique: salve-se quem puder

Louçã fundou o BE em 1999, Mortágua afundou-o em 2025

Pedro Correia, 29.10.25

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Trocou campanha autárquica por "show-off" mediterrânico: os eleitores retribuíram-lhe

 

Nunca entenderei o que levou Francisco Louçã, político intuitivo e sagaz, a patrocinar a candidatura de Mariana Mortágua ao posto cimeiro do Bloco de Esquerda. Mortágua não tem feitio nem paciência para a intendência partidária: só aprecia o palco parlamentar. E faltam-lhe atributos indispensáveis à actividade política: é totalmente destituída de dotes empáticos, revela um indisfarçável desdém perante quem não comungue do seu catecismo ideológico e tem nula capacidade de encaixe quando lhe fazem críticas.

Pior: desbaratou todo o esforço de moderação dentro do radicalismo que dirigentes anteriores, como Catarina Martins e Pedro Filipe Soares, vinham ensaiando para alargar a estreita base de um partido com residual representação autárquica e de escassa representação no mundo sindical. 

 

Falar por slogans contra «os ricos», «os privados» e «a direita», aliás quase toda alcunhada «extrema-direita», tornava a gémea de Joana Mortágua numa personagem fora da sua época. Com o vocabulário mecanicista do PCP mas sem a ligação ao terreno que apesar de tudo os comunistas mantêm. Parecia desenterrada do PREC, época que esta mulher nascida em 1986 jamais conheceu excepto por lendas e narrativas.

Terá desejado experimentar a utopia revolucionária de 1975 alimentada pelos partidos que serviram de inspiração e berço à cartilha do BE.

Talvez por essa nostalgia de tempos que nunca viveu, trocou a recente campanha eleitoral autárquica, onde o seu partido lutava pela sobrevivência, por semanas de estridente show-off mediterrânico na chamada "flotilha humanitária". Cambiou os portugueses pelos palestinos a pretexto do respeito absoluto pelos direitos humanos, logo ela que em 2022 tanta compreensão revelou por Vladimir Putin, o carrasco da Ucrânia.

Os eleitores retribuíram-lhe o desprezo. Nem nos seus piores pesadelos os dirigentes do Bloco imaginavam o catastrófico desfecho das autárquicas de 12 de Outubro. Que funcionaram como toque a finados da liderança de Mortágua.

Com ela ao leme, o BE perdeu 80% dos seus vereadores a nível nacional, baixando de cinco para um - este à boleia do PS em Lisboa. Em 2021 elegera 94 deputados municipais em todo o País, restam-lhe 20. Tinha 62 eleitos em freguesias, agora ficou com 31. Desastre absoluto.

 

Há dois anos, quando chegou ao topo com aclamação das bases, o Bloco de Esquerda tinha cinco deputados: perdeu quatro de então para cá, baixando de 4,4% para 2% em percentagem eleitoral. Queda abrupta também em votos, passando dos 244.603 obtidos em 2022 para os 125.710 das legislativas de Maio. Tinha dois eurodeputados, resta-lhe um assento solitário em Bruxelas (o de Catarina Martins). No parlamento regional dos Açores perdeu metade, baixando de dois para um (com 1,3% nas urnas). Manteve-se fora do parlamento regional da Madeira (onde se ficou pelos 0,3%).

Ao ser eleita, em Maio de 2023, declarou aos camaradas que lhe tributaram sonora ovação: «É só o começo, ainda não viram nada.» 

Tinha razão, mas pelos piores motivos na óptica dos seus apoiantes.

 

Enfim, atingiu o Princípio de Peter ao aceitar um encargo para o qual não tinha competência. Hoje o BE, que em 2019 chegou a ser o terceiro maior partido português - com 19 deputados em São Bento, dois eurodeputados, dois deputados regionais, 12 vereadores, 125 deputados municipais e 213 eleitos em freguesias - está reduzido à expressão ínfima.

Tornou-se um micropartido. 

Tão micro como a UDP, o PSR e a Política XXI que em 1999 estiveram na sua base. Neste sentido, e para usar um termo leninista, Mortágua actuou como aliada objectiva da direita. Obviamente, demite-se: acaba de anunciar que abandonará a liderança. Percebeu demasiado tarde o problema. A questão é que nunca lá devia ter chegado. 

Louçã fundou o Bloco em 1999, a sua protegida acaba de afundá-lo. Sem salvação à vista: nenhuma "flotilha humanitária" virá em seu socorro.

 

Leitura complementar:

A liberdade em marcha-atrás (21 de Maio de 2024)

Extremismo contra os «ricos» e o «lucro» (22 de Outubro de 2024)

A Mortágua (21 de Maio de 2025)

DELITO há cinco anos

Pedro Correia, 29.10.25

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Eu: «Ontem senti-me transgressor: fiz duas deslocações entre concelhos. Bem sei que a interdição só ocorre a partir de amanhã, mas esta noção difusa de pecado vai-se entranhando no nosso inconsciente à medida que direitos, liberdades e garantias são comprimidos a pretexto do combate ao novo coronavírus. Se tivesse feito o que ontem fiz enquanto vigorou o estado de emergência teria sentido o quê? Talvez me imaginasse sindicalista da CGTP. Sem necessidade, portanto, de expiar qualquer pecado.»

O comentário da semana

«A Ucrânia é a linha da frente europeia, a que tem aguentado heroicamente»

Pedro Correia, 28.10.25

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«Enquanto as condições de força da Ucrânia não pioram, têm vindo sempre a melhorar - e as da Europa também, que acordou tarde mas ainda muito a tempo, sobretudo devido à extraordinária resistência ucraniana.

A Ucrânia é a linha da frente europeia, a que tem aguentado heroicamente (durante muito tempo praticamente sozinha!) os grandes embates, enquanto a Europa recupera em ritmo acelerado a capacidade defensiva que descurou - por ter conseguido construir uma situação estável de paz e progresso comum numa geografia que parecia historicamente fadada à guerra.

Provou que, tanto os homens de boa-vontade o queiram, não existem fatalismos, mesmo históricos que sejam. Mas há sempre bárbaros à espreita para a invasão...

(...)

Já se contam em anos os actos falhados da "operação especial passeio de três dias"; e bem assim a sua propaganda putinista falida, tornada repetitiva por falta de mais o que dizer, condenada a abanar sempre os mesmo espantalhos - por mais evidente que seja que não resulta, que os povos europeus não vão na conversa do papão, que não se deixam manipular, é isso ou ficarem calados.

Que para dizer coisas como "Estupidamente, a Ucrânia e a Europa continuam a preferir a guerra" o melhor seria realmente ficar calado, de tal maneira torna evidente a "preferência inteligente" do Czar Careca pela paz... dos cemitérios.

Também ele devia ter ficado calado em vez de cantar vitória antes de tempo e desatar a ameaçar-nos. Até parece que a Rússia nunca perdeu guerras, e até bem ingloriamente. Podem preferir não ter memória, mas a Europa tem.»

 

Da nossa leitora Zebra. A propósito deste meu texto.

Sete meses a Balões

Maria Dulce Fernandes, 28.10.25

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Este Verão, foi o Verão do nosso descontentamento. Difícil, dorido, aflitivo, mas energizado na medida do possível, tentando que a diversidade escondesse a adversidade, porque cair ou deixar cair nunca foi opção.

A partir do final de Julho, a rotina criada em Maio teve de ser repensada e recriada para suprir a falta das actividades das escolas e centros de ATL.

As crianças estavam de férias!

Com tanto o que fazer, foi imperativo fazer tempo para eles.

Pedir o passe da Carris Metropolitana para os miúdos foi uma ideia de truz. Os meus netos, à semelhança de milhares de outras crianças, nunca tinham viajado nos transportes públicos! Coordenando horários com os dias programados no calendário dos pais, começámos por andar de autocarro, seguiu-se o metropolitano, o eléctrico, o comboio e o barco. E repetimos linhas diferentes em dias diferentes. Caminhámos por grande parte de Lisboa. Visitámos o Quake, a exposição de Lego na Cordoaria Nacional, a exposição 3D, o Planetário, o Museu de Marinha, o Pavilhão do Conhecimento onde a exposição da Pixar sobre técnicas de animação fez as delícias da minha neta, fomos a Algés ao Aquário Vasco da Gama e, entre outras passeatas, descemos o Parque Eduardo VII até ao Marquês de Pombal, o que deixou o meu neto Superleão tão feliz, que nem tenho palavras; veio aquele petiz de seis anos, durante todo o caminho de regresso, a cantar que o seu amor é verde e branco…

Como estou um tanto dada a títulos, pensei muitas vezes que seria fabuloso adormecer, e acordar quando Setembro chegasse ao fim. Setembro foi também complicado, sem dias nem horas certas e também sem quaisquer certezas.

Finalmente entrou Outubro e trouxe consigo alguma normalidade. As escolas estavam a funcionar com professores e também greves à vista, a actividade hídrica sénior recomeçou a operar nas piscinas do costume e as respostas vieram finalmente, e eram boas as respostas. Eram muito boas. Podíamos todos finalmente respirar fundo. Podíamos encetar com confiança a nova normalidade que, sendo diferente, trataríamos de a tornar mas o mais igual possível.

Aprendi muito, nestes sete meses. Fiz muita pesquisa, muitos cozinhados com produtos essenciais à imunologia, usei tudo o que tinha vitaminas, proteínas e calorias qb, deixei de lado o açúcar branco refinado, usei e abusei das especiarias que reforçam o sistema imunitário…

Iscas à portuguesa às quintas-feiras… nem me incomodou se não gostavam, passaram a gostar…

O meu marido e eu fomos avós, pais, enfermeiros, cozinheiros, cuidadores, pau para toda a obra… pela parte que me toca, fui principalmente palhaço, agarrando com unhas e dentes essa arte tão nobre que faz arrancar risos e sorrisos quando por dentro a tristeza ameaça inundar os olhos a qualquer momento.

Sinto-me bastante gasta mas muito grata, e ainda há muita estrada para andar. Como tal, já fizemos alguns planos para um divertido jantar de Halloween e uns outros para muitas mais viagens em transportes públicos nas férias do Natal, que estão quase aí à porta, neste ano da nossa Fórmula1, em que era prioridade atravessar a meta com boa classificação e manter sempre a pole position.

Ver a saúde de regresso e a trazer com ela cor e força e contemplar as crianças felizes e interessadas é seguramente a minha poção mágica. 

Assim possa ser.

DELITO há cinco anos

Pedro Correia, 28.10.25

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Paulo Sousa: «Já por mais que uma vez que estive para aqui escrever sobre o 45 graus, o podcast de José Maria Pimentel. Ele é economista de formação, define-se como curioso por natureza e convida para uma conversa descomprometida especialistas e pensadores de várias áreas. Neste podcast, conversa-se sobre ciência e tecnologia, mas também economia e gestão, e mesmo ciências sociais, como sociologia, ciência política ou psicologia. E não só: discute-se também história e política internacional; filosofia e religião; sociedade e educação.»

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