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Delito de Opinião

Literatura é feminina

Pedro Correia, 30.09.25

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Aos poucos, nesta era que presta culto ao género neutro, espalhou-se a tendência: comecei a ver por quase toda a parte alusões ao Prémio Nobel "de" Literatura. Por óbvia influência brasileira.

Tenham lá paciência: é algo que soa muito mal. Literatura é palavra feminina. Para quê desfigurá-la? 

Não existe Prémio Nobel "de" Química. Nem oiço menções ao Nobel "de" Economia. Ainda menos ao Nobel "de" Paz, o tal que Donald Trump sonha receber naquela delirante competição com o laureado Barack Obama, seu antecessor na Casa Branca. 

Nem escrevemos prêmio, como os brasileiros. Acento agudo, não circunflexo.

Basta de complicar o que é simples, deixemos de alterar o que já foi consagrado. E percamos o péssimo hábito de correr atrás de tudo aquilo que nos pareça a moda mais recente. Nada é tão velho como certas coisas que parecem novas.

DELITO há cinco anos

Pedro Correia, 30.09.25

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José Meireles Graça: «A estúpida guerra das raças nos EUA serve de arma de arremesso na luta política local. E entre nós parte-se do princípio que nos convém, além da coca-cola e dos jeans, importar esta querela porque somos imensamente modernos e são precisas bandeiras, causas, militantes e perspectivas de vida que as discriminações positivas abrem para quem se achar vítima de qualquer coisa.»

 

Eu: «Pedra angular do romance ideológico, [A Mãe] funcionou como matriz do realismo socialista na ficção literária e gerou uma obra-prima do cinema soviético, ainda no período pré-sonoro. Impossível ficar indiferente tanto ao livro como ao filme.»

"Senda Índica" de Pedro Sá da Bandeira no Camões

jpt, 29.09.25

No passado 18 de Setembro apresentei o meu livro Sentido Obrigatório, acoplado à inauguração da exposição fotográfica Senda Índica que o Pedro Sá da Bandeira dedica a Moçambique, e a qual é visitável até ao próximo dia 2 de Outubro na galeria da sede do Camões, sita exactamente no Marquês de Pombal (anunciara-a aqui).

Para a sessão fiz um “improviso escrito” - como sempre dizia o meu saudoso amigo Aventino Teixeira, que nisso exercia o seu constante sarcasmo -, onde ambicionava legitimar o meu livro. Mas no momento da apresentação - algo inebriado pela, até inesperada, enorme (!, enorme mesmo!) quantidade de amigos que ali afluíram - esqueci-me das minhas coisas e pus-me a falar das fotografias do Pedro, e até a apontá-las…

 

Do que me lembro desse verdadeiro improviso que ali perorei - e do que mais gostaria de ter dito - componho-o agora assim:

Improviso verdadeiro”,
 

Tenho de salientar a minha gratidão para com o Pedro Sá da Bandeira. Pois ao ter decidido associar a inauguração da sua exposição fotográfica sobre Moçambique, esta bela Senda Índica, não só comigo ombreia como reboca a apresentação deste meu livro Sentido Obrigatório.

Refiro esse rebocar não apenas por reforçar a visibilidade desta sessão, nesta nossa congregação de amigos que hoje acontece. Mas pelo percurso que vamos tendo juntos, mesmo que amiúde apartados pelas geografias. O Pedro é meu amigo. Mas mais ainda significativo é o facto de comungarmos sensibilidades intelectuais. As quais aqui abordo, sem com isso me atrever a pretensões de crítico fotográfico.

O Pedro viveu três entusiasmados e trabalhosos anos em Moçambique, tornando-se ali exemplo de inserção profissional e pessoal. Eu dezoito. E por essa diferença de tempo de imersão tanto me surpreendeu a tal nossa similitude de olhares - porventura isso será vantagem do seu instrumento, a máquina fotográfica, que o afasta dos tormentosos labirintos teóricos que a nós, os das “ciências sociais”, tanto nos atrapalham. E, decerto, por seguir ele totalmente desprovido da ambição de ascender aos púlpitos, essa que tanto (nos) envenena. E deturpa.

Ele é um fotorrepórter, não procura a dita “estética” - a paisagística, natural ou humana - muito menos a tão habitual (e até mesmo malvada) “estética da pobreza”, afastando-se do mero “belo”, grandiloquente que este minta ser ou até mesmo apetitoso às paredes de galerias.

Especializou-se na recolecção (ou seja, na verdadeira construção) do momento, do episódio, esse que denota o conjunto de processos envolvidos, a vida. Para quem o queira e/ou possa interpretar. Mas - e é esse o arcaboiço “teórico” da sua máquina - muito mais do que isso, pois o que o Pedro capta assume, tantas vezes, um cariz profético. Dado que ele, nesses vislumbres, mostra - através da tal construção, feita não através de intrusão encenadora mas por observação empática - o futuro que impregna este esquivo presente.

Aponto-o aqui, a esse sadabandeirístico teor profético, para o sublinhar aos amigos lisboetas, menos ou nada conhecedores do Moçambique que ele enuncia nas suas fotografias, assim menos capazes de a estas interpretarem, àqueles augúrios reconhecerem.

Dou meros exemplos, sem ser exaustivo para não enfadar: o ar mesmo maroto do transportador da imagem apeada do presidente Guebuza; o “China em África” que ele logo detectou à chegada numa vulgar carruagem de comboio - bem antes dos ensaios e proclamações políticas sobre tal assunto…

Ou o delicioso tríptico com pastor e crentes “ma”ziones, exemplo - que ele captou também logo à chegada ao país (2006) - da enorme expansão social do pentecostalismo e correlato evangelismo, fenómeno que tanto admirou (e atrapalhou) muitos intelectuais neste último ano político… Ou o magistral quase bíblico “César e Deus”, com o sacerdote (que tantos insistem em reduzir a “curandeiro”) invocando o(s) Deus(es) sob a tutela de César (Chissano), enquanto nessa mescla o seu (induzido?) movimento pedonal anuncia o único rumo possível de futuro (o bebé).

E esta quase críptica “Fátima” - imagem aparentemente “lisa” mas que tanto condensa. É Caia, local onde por batelão se atravessava o Zambeze, rio assim por décadas mantido fronteira natural no país, pois este ainda desprovido de ligação rodoviária directa entre os simbólicos rios do Norte (Rovuma) e do Sul (Maputo). E onde se construía então, e finalmente, a ponte - essa que veio a ser nomeada Armando Emílio Guebuza mas à qual o povo (esse “que tudo sabe”) logo denominou Ponte da Unidade Nacional.

Ao ver a fotografia perguntei-lhe, sem pudor, “encenaste-a?”. Ao que me disse, no seu típico sorriso perspicaz: “não, encontrei assim…”. A “Fátima”, comerciante (talvez de si-mesma, avento), esperando clientela naquele local de tantas e longas pernoitas, transeuntes aguardando lugares na azáfama do batelão diurno. A seu lado, até quase esconso, um vasilhame já histórico, de esvaziado: uma garrafa da Manica (a cerveja da Beira), outra garrafa de 2M (a cerveja de Maputo). A Unidade Nacional…

E sobre todas as outras poderíamos conversar, deliciando-nos nos seus múltiplos sentidos. Por tudo isso muito gostaria eu - pois sei-o absolutamente pertinente - que esta Senda Índica viajasse. Itinerasse, pelo menos, por Moçambique. E nisso logo me lembro dos centros culturais sobre os quais tive responsabilidade (em Maputo e na Beira), mas também por outras paragens - por exemplo em Quelimane, onde recentemente se fundou a Biblioteca e Centro de Documentação José Capela, esse que foi mítico conselheiro cultural português no país e seu fundamental historiador. Mais que não fosse para mostrar, reafirmar, por lá que por cá há gente que olha… Alguns!

(E também fico à espera de que tu, Pedro, nos apresentes a vasta exposição andina que já tens. Haja… Lisboa para isso)

(O texto completo, junto à folha de sala, escrita por Graça Gonçalves Pereira, está aqui)

Torga, 50 anos depois (21)

Pedro Correia, 29.09.25

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29 de Setembro de 1975

«Retorno maciço dos portugueses do ultramar. Na aflição da fuga, até de barco de pesca vieram muitos, a ponto de alguém dizer que fomos descobrir o mundo em caravelas e regressámos dele em traineiras. A fanfarronice de uns, a incapacidade de outros e a irresponsabilidade de todos deu este resultado: o fim sem grandeza de uma grande aventura. Metade de Portugal a ser o remorso da outra metade. Os judeus da diáspora ansiavam por voltar a Canaã. Povo messiânico também, mas de sentido exógeno, para nós o regresso é o exílio. A nossa Terra Prometida estava fora de Portugal.»

 

Diário XII, de Miguel Torga

Sonhos e realidades

Maria Dulce Fernandes, 29.09.25

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Hoje voltei a sonhar com barcos. Têm sido recorrentes e pouco agradáveis, estes sonhos.

Diz Freud que revelam um profundo desequilíbrio emocional. Freud disse tanta coisa, que provavelmente fazia sentido neste tipo de interpretações, se as contextualizarmos na época e na sociedade.

Mas, se por um lado não está longe da verdade, porque é legítimo afirmar que por aqui se anda com as emoções à flor da pele, por outro lado acredito que o inicio se deu com uma experiência, da qual nunca me recuperei, que para mim foi verdadeiramente assustadora, e que minou a abertura necessária a que o bichinho da instabilidade se instalasse e abrisse o caminho para o que veio a seguir.

Tudo começou em Abril, na ilha do Faial. No segundo dia de um bonito passeio, as núvens acumulavam-se e o vento já soprava com alguma intensidade. O itinerário previa a visita à Ilha de S. Jorge, fazendo o percurso para lá de barco. Não sou particularmente fã de barcos mas, no canal, o tempo não estava assim tão mau… e sim, está bem, é uma experiência.

Pensou a guia surpreender-nos e, em vez do ferry, iríamos adorar navegar aquele percurso de uma hora e quarenta minutos num semi rígido… “é diferente, fantástico e inesquecível, vá lá, não quer ficar o dia inteiro aqui sozinha, pois não?” Deixei-me levar, pôr o colete, sentar e fui com o grupo. Foi um pavor. O mar estava picado, a ondulação era forte e o barco voava e caía estrondosamente uns metros mais à frente. O grupo estava expectante de ver baleias… eu não. Não foi bom, não foi agradável nem fantástico. Mas tinha razão, a piquena. Foi inesquecível.

No meio de todo este torvelinho de sentimentos fortes, regressa insistente ao inconsciente onirológico a memória daquela viagem, para me relembrar que há emoções que não se devem desafiar.

O estado da TAP.

Luís Menezes Leitão, 29.09.25

Já há muitos anos que tenho sido passageiro frequente na TAP e tenho assistido perplexo à contínua degradação do seu serviço. Deixaram de servir refeições na classe económica, procurando vender antes alimentos que não vejo ninguém comprar. Os passageiros são sempre obrigados a ir de autocarro, quando as outras companhias usam as mangas, e agora também recusam sistematicamente a utilização das milhas para vôos ou upgrades, levando a que as milhas naturalmente acabem por caducar.

Recentemente tive ocasião de viajar em duas companhias de bandeira, a Finnair e a Air Serbia. Em ambas foram servidas refeições e o acesso ao avião foi muito mais facilitado do que na TAP.

Parece que o Estado quer exigir aos candidatos à privatização da TAP uma série de condições como hub em Lisboa, manutenção da marca, etc. Talvez fosse preferível exigir antes que simplesmente melhorem o funcionamento do seu serviço. Cada vez que penso que o Governo do PS meteu 3,2 mil milhões nesta companhia para ela funcionar desta forma, parece-me manifesto que os interesses dos portugueses estão a ser altamente lesados com esta situação.

A apenas aparente fragilidade de Maia Sandu

Paulo Sousa, 29.09.25

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Com os votos das legislativas ocorridas ontem já contados, o partido PAS de Maia Sandu conseguiu 55 dos 101 deputados, garantindo assim a maioria absoluta. O segundo partido, o Bloco Patriótico, não alcançou sequer metade desses resultados. Este dito Bloco (já deviam saber que chamar Bloco a um partido dá azar) representa os interesses russos neste país encravado entre a Roménia e a Ucrânia.

Os relatos das tentativas de compra de votos, de ameaças físicas e ataques informáticos, por parte dos lacaios de Putin, não tem faltado. Mas o povo, entre o autoritarismo e a violência com que Moscovo ainda vai mantendo o seu corrupto império e a prosperidade e democracia, escolheu mais uma vez aproximar-se da Europa. Sabemos que a Europa nem sempre está certa, mas também sabemos como Moscovo insiste em estar sempre errado. E bem melhor do que nós, sabem-no os moldavos, que até dentro do paranóico território da Transnístria, um terço dos votantes votaram no partido que lhes pode garantir o fim do pesadelo que é nascer e viver num território onde os documentos de identificação não são reconhecidos como válidos em nenhum outro lugar do mundo, o que o torna especialmente apetecível para raptar crianças e jovens.

É o impulso natural do ser humano pela liberdade e a força da democracia que fazem forte a sempre serena e, apenas, aparentemente frágil Presidente da Moldávia Maia Sandu. Perante ela e o que ela representa, Putin, senhor do maior inventário de armas nuclear da terra, não faz farinha e ontem na Moldávia acumulou mais uma derrota na sua demasiado longa folha de serviço.

Brindemos por isso à liberdade, à democracia, a uma Moldávia livre e especialmente à sua líder, Maia Sandu.

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O balandrau*

José Meireles Graça, 29.09.25

A Constituição tem isto de bom: Tantas liberdades, direitos, garantias e salvaguardas que o cidadão curioso, ou o constitucionalista encartado, lá encontram princípios e normas para defender quase tudo, o seu contrário e ainda um par de botas.

Claro que ninguém discute o direito à liberdade, excepto se o cidadão estiver em prisão preventiva muito para lá do prazo limite, caso em que o MP, ou o tribunal, dirão: estamos assoberbados e portanto com falta de vagar; o direito à vida vírgula, que uns dizem que ela começa com o nascimento, outros com a concepção e outros ainda em algum momento no intervalo; do direito à propriedade nem é bom falar, que 732 entidades públicas o comprimem ou anulam em nome de um interesse maior, que é o que “serviços” públicos, ou, no melhor dos casos, entidades políticas, assim definem; o direito à liberdade de expressão ahahah, qualquer um é livre de dizer o que quiser, salvo se algum grupo se sentir ofendido, caso em que do que estamos a falar é de crimes já existentes ou a caminho – racismo, misoginia, incitamento ao ódio e o mais de que se lembre o povo de esquerda; o direito à associação é pacífico: basta redigir os estatutos, celebrar a escritura e pagá-la se os fundadores dispuserem de fundos ali à mão; e o direito à participação na vida política apenas requer espinha dorsal um pouco flexível, capacidade para aturar discursos chatos e doses consideráveis de treta.

Não é pacífica, a Constituição, nem é possível que seja, por isso é que temos um Tribunal Constitucional. Do qual ninguém imagina que seja uma entidade etérea acima das paixões partidárias, antes tributária das inclinações políticas dos seus membros sempre que os assuntos tenham carregadas implicações ideológicas. (Um parêntesis aqui para esclarecer que se em vez de ao TC os assuntos desta natureza fossem levados ao STJ o resultado viria tingido da mesma carga ideológica mas opaca por não se saber para que lado dorme cada um dos senhores conselheiros).

O Chega quer, parece, a proibição de ocultação do rosto em espaços públicos, e na AR, ainda antes de o assunto ser discutido, já há vários deputados com tosse, incluindo o Presidente, além da Ordem dos Advogados e do Conselho Superior do MP, porque semelhante proposta infringe a Constituição no que toca ao direito à identidade pessoal e ao princípio da liberdade religiosa.

Adivinha-se portanto barafunda. E como todas estas excelências são juristas está-se daqui a ver que os argumentos que se vão esgrimir, de um lado e outro, são de natureza jurídica. E, fatal como o destino, um constitucionalista dirá que não senhor, os referidos direitos não são na realidade ofendidos, outro que são mas devem ser compaginados com outros que devem prevalecer, e um terceiro que a compaginação deve ser feita mas prevalecendo os últimos. A certo ponto alguém dirá que os preceitos da lei devem ser densificados, e todos ponderarão com gravidade que realmente o melhor é densificar. De modo que a muçulmana que se apresente em público pode perfeitamente usar um chador, se estiver de hijab tudo depende de ter ou não ter um caracol à vista, e a burca essa é que de modo nenhum, excepto se a senhora puxar o lenço para debaixo do nariz, caso em que o agente de autoridade já não sabe onde está com a cabeça e o cidadão natural ainda menos.

Porém, a questão não é jurídica mas civilizacional.

Na longa luta que conduziu no Ocidente ao estatuto de igualdade de direitos de que gozam as mulheres não faltaram aquelas, geralmente mais velhas, que achavam muito bem o status quo ante, e isto por uma questão de aceitação no respectivo meio visto que as reivindicações revolucionárias (p. ex. o direito de voto) eram sustentadas por uma minoria. Consentir que, em nome da identidade pessoal, se obriguem as mulheres a vestir de uma maneira que traduz (traduz sim, as opiniões em contrário são, neste ponto, apenas lero-lero) o facto de elas se resguardarem para que apenas os olhos dos pais, dos irmãos e do marido as possam contemplar – isto é, só aqueles homens – é uma cedência a um arranjo social de desigualdade entre os sexos que a Constituição (cá está ela, mete-se em tudo) não permite. E não estamos a falar de trajos que indiciam uma missão (como as freiras, que escolheram essa condição), nem muito menos de moda, a qual já experimentou tudo e pode em qualquer momento recomendar balandraus que as nossa namoradas, mulheres ou mães escolherão livremente usar ou não. Estamos a falar de trajos que dizem isto: somos inferiores. Ponto.

De identidade pessoal estamos conversados. A liberdade religiosa (que a Constituição consagra) parece ser um assunto mais espinhoso porque a proibição, diz-se, implica interditar um sinal exterior de uma determinada crença, por isso privilegiar as outras.

Porém, a igualdade religiosa que a Constituição consagra diz respeito à fé e ao exercício religioso nos lugares apropriados, não cobre manifestações religiosas obrigatórias para certos grupos sociais que impliquem contrariar princípios ordenadores da vida social. Essa porta aberta, acabaremos por ter tribunais a aplicar a sharia a questões do foro criminal e civil ao menos para quem invoque a condição de muçulmano, como já sucedeu no Reino Unido.

A Constituição não diz que somos um país cristão e não o faz precisamente porque isso implicaria que o Estado assumisse uma confissão religiosa. O que não é a mesma coisa que negar que Portugal é um país cristão, quer os Portugueses sejam católicos, protestantes, ateus ou agnósticos. A Constituição não diz, di-lo a História, nossa como do Ocidente.

Temos assim que a questão do traje não é uma questão de traje. E cabe perguntar por que razão é que, previsivelmente, a esquerda (talvez não toda, abro uma excepção benevolente e talvez ingénua para parte do PS) achará que a lei ofende a liberdade, a igualdade e mais isto e aquilo. É porque, em nome da igualdade, se inventou que as civilizações são todas iguais, não há superioridades nem inferioridades. Caso singular: A esquerda reclama o progresso das instituições mas ao mesmo tempo nega-o porque acha que o agora é igual ao antes, e quem está no antes, se mudar para agora, fica onde já estava.

É isso e também o interesse: venham estas cáfilas alienígenas que com os que cá estão não vamos demonstradamente a lado nenhum.

Restam aqueles próceres aflitos do PSD e doutras paragens. O que os move nesta questão? A meu ver são angústias jurídico-existenciais: quem não tem ideias claras sobre o mundo procura encontrar a verdade no articulado da lei. Talvez, se o senso lhes falha, possam pensar no seguinte: à força de se quererem distinguir do Chega, que é especialista em encontrar causas com futuro, estejam apenas a criar condições para que o Chega seja o presente.

* Publicado no Observador

DELITO há cinco anos

Pedro Correia, 29.09.25

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Eu: «Está em curso uma autêntica eutanásia social. O morticínio que tem acontecido nos chamados "lares de idosos" - muitos dos quais clandestinos, perante a criminosa indiferença de tantas autoridades autárquicas, de norte a sul do País - é algo que devia chocar todos os portugueses. Das quase duas mil vítimas mortais por Covid-19 oficialmente já registadas, cerca de 40% ocorreram naqueles antros. Vitimando gente indefesa, que na grande maioria dos casos nem pode sair daquelas instalações, onde na prática vigora um regime de reclusão forçada desde que foi declarada a pandemia.»

Torga, 50 anos depois (20)

Pedro Correia, 28.09.25

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28 de Setembro de 1975

«É uma pena que a barca de Caronte regresse sempre vazia ao cais da partida e Ruben A. não possa voltar por momentos ao reino dos vivos para comentar a sua própria morte, anunciada hoje em tipo miúdo na vala necrológica dos jornais. É que ninguém melhor do que ele, a propósito dessa ausência de si mesmo no palco da existência, saberia transmitir-nos o que há de absurdo, de estúpido e de pungente no desaparecimento de certas criaturas que trazem à indiferença dos dias a singularidade de um estilo desabusado, emblematicamente vivido. Por ser precisamente uma delas, um desses entes raros e insólitos que nunca deveriam deixar-nos desamparados na pobreza da nossa vulgaridade, e porque tinha o humor negro, a lucidez e a fantasia que os imortais às vezes outorgam distraidamente aos mortais, era numa das suas Páginas que ficavam bem estas lágrimas, que só ali correriam eternamente salgadas e bufas, de uns olhos ao mesmo tempo irónicos e cordiais, bárbaros e civilizados, cândidos e demoníacos, sonâmbulos e acordados. Juiz póstumo da personagem que foi, sem lhe poder corrigir um gesto sequer, mal se imagina a que profundidades desceria a sua análise implacável, e que sibilina e justa sentença lavraria no fim.»

 

Diário XII, de Miguel Torga

As mulheres já não se deixam intimidar!

Cristina Torrão, 28.09.25

Já aqui disse, no Delito, que sou votante PSD, ou seja, está fora de questão eu ser de esquerda (embora não me reconheça na ala mais conservadora do partido). Está, portanto, fora de questão eu simpatizar com o PS! 

Dito isto, bato palmas perante a atitude da deputada Isabel Moreira, que denunciou, alto e bom som, um assédio nojento, em plena Assembleia da República. Mesmo sendo os autores e frequentadores deste blogue de direita, será difícil condenar o comportamento dela, depois de terem condenado a Hermoso por não ter dado um estaladão ao, ou uma joelhada nos tomates do, Rubiales.

A Isabel Moreira deu um valente estaladão público no Filipe Melo!

As mulheres corajosas são um exemplo para todas nós.

Algumas canções da minha vida

Pedro Correia, 28.09.25

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São estas:

La Valse a Mille Temps (Jacques Brel, 1959)

Summertime (George e Ira Gershwin, 1935)

C'est Si Bon (Henri Betti e André Hornez, 1948)

Coimbra (Raul Ferrão e José Galhardo, 1947)

Strangers in the Night (Ivo Robic, Bert Kaempfert, Charles Singleton e Eddie Snyder, 1966)

Indian Summer (Victor Herbert e Al Dubin, 1939)

The Sound of Silence (Paul Simon, 1964)

Um Homme et une Femme (Francis Lai e Pierre Barouh, 1966)

João e Maria (Sivuca e Chico Buarque, 1977)

Fly Me To the Moon (Bart Howard, 1954)

Winchester Cathedral (Geoffrey Stephens, 1966)

Zé Cacilheiro (Carlos Dias, César de Oliveira e Paulo da Fonseca, 1966)

Dream a Little Dream of Me (Wilbur Schwandt, Fabian Andre e Gus Kahn, 1931)

As Time Goes By (Herman Hupfeld, 1931)

Le Métèque (Georges Moustaki, 1969)

Atrás da Porta (Chico Buarque e Francis Hime, 1972)

Gaivota (Alexandre O'Neill e Alain Oulman, 1965)

We'll Meet Again (Hughie Charles e Ross Parker, 1939)

Barco Negro (Caco Velho, Piratini e David Mourão-Ferreira, 1955)

Kiss (Haven Gillespie e Lionel Newman, 1953)

Love is a Many-Splendored Thing (Paul Francis Webster e Sammy Fain, 1955)

 

Outras não tardarão a vir aí.

Quais são as canções das vossas vidas?

DELITO há cinco anos

Pedro Correia, 28.09.25

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José Meireles Graça: «Daniel Oliveira já esteve muito mais à esquerda. E gente incuravelmente optimista como eu, que simpatizo com o homem, vai a ponto de imaginar que, se a esperança média de vida estivesse nos 120 anos, aquele ilustre comentador da Sic ainda podia bem acabar em liberal.»

 

Paulo Sousa: «Depois do debate sobre as fronteiras de linguagem despoletado aquando da proibição do piropo, depois dos excessos que resultaram do movimento MeToo, o Covid é sem dúvida mais um duro golpe na forma como duas pessoas se podem aproximar e se envolver emocional e fisicamente, com especial relevo para quem esteja à procura de um relacionamento.»

 

Eu: «A forma de tratamento dos animais torna-se mais solene, grave e reverente. Verifico isso agora com frequência, quando caminho nas ruas do meu bairro. Não faltam damas e cavalheiros a tratar por você os cães que levam a passear, o que para mim constitui novidade absoluta. Nunca tinha ouvido nada semelhante, nem na Lisboa mais snobe.»

DELITO há cinco anos

Pedro Correia, 27.09.25

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João Pedro Pimenta: «Nestes tempos estranhos em que os adeptos estão longe dos estádios e os jogos mais parecem treinos oficiais, gosto de relembrar os velhos momentos do desporto-rei, jogadores famosos e outros esquecidos, percursos que acompanhámos e de que não nos lembrávamos, clubes mais visíveis ou mais secundários levando atrás fãs inexcedíveis, da Argentina, da Croácia, da Turquia e de tantas outras paragens.»

 

Eu: «Dependemos sempre do acaso, o outro nome que atribuímos ao desconhecido.»

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