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Delito de Opinião

Um ano com D. Dinis (40)

Levantamento do interdito

Cristina Torrão, 30.06.25
 
A 30 de Junho de 1290, foi levantado um interdito a que o reino de Portugal esteve sujeito desde 1267. Assim esteve o reino proibido de realizar missas e sacramentos (salvo raras excepções) durante mais de vinte anos.
 
Este tinha sido aliás o segundo interdito, no espaço  de doze anos. Um outro havia sido lançado em 1255, por D. Afonso III ter sido acusado de bigamia. Durou até 1263, surgindo o próximo, apenas quatro anos depois, devido aos conflitos entre o mesmo D. Afonso III e o clero. 

 

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D. Dinis na sua corte (ignoro qual o autor desta imagem)

Ao ser aclamado rei, em Fevereiro de 1279, com apenas dezassete anos, D. Dinis herdou um reino sob interdito. E foram longas e difíceis as negociações com a Santa Sé, até o papa Nicolau IV decretar o seu fim, em 1290.

 

Naquele Estio, festejou-se na corte portuguesa um grande acontecimento: Nicolau IV levantou, a 30 de Junho, o interdito a que o reino estivera sujeito mais de vinte anos.

Podiam finalmente abrir-se as igrejas, celebrar-se os Ofícios Divinos, proceder-se aos sacramentos, coisas que, para uma grande parte da população, não passavam de memórias longínquas, para não falar dos que nunca haviam assistido a tais procedimentos. Haviam-se desenvolvido cultos populares misturados com ritos pagãos.

Curiosamente, Isabel interessava-se muito por esses cultos, fazia inclusive planos de, nas suas vilas, integrar alguns nas celebrações oficiais da Igreja. A rainha era sensível a tudo o que fosse espiritual, sentia-se responsável pela salvação das almas das populações e tencionava supervisionar pessoalmente a reorganização das igrejas locais. 

(Do meu romance Dom Dinis, a quem chamaram O Lavrador)

DELITO há cinco anos

Pedro Correia, 30.06.25

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João André: «As estátuas não são a priori história, antes representam figuras históricas. Nalguns casos as estátuas pertencem à história, pelo que representam, pelo que demonstram, pela arte que as construiu. Não devem por isso ser destruídas, mas não significa que tenham que ser mantidas. Não devemos simplesmente juntar uma turba furiosa para as derrubar, mas a presença de tal exigência deveria levar a uma reflexão sobre o valor da mesma estátua e a validade de a manter. Isso sim, ajudaria a pensar a história. O resto é apenas esconder o passado debaixo do pedestal.»

 

JPT: «Muitos fazem para que nos esqueçamos mas Medina vem agora lembrá-lo, coisas da sua agenda própria, e nós agradecemos-lhe o mote: o desatino de Fevereiro e Março, a homohisteria do pusilânime Sousa, no seu desvairado "gozo fininho" de semi-quarentena festiva; esse florentino MNE a preparar a sagrada "presidência" dizendo da inutilidade de fechar fronteiras e agora a apregoar retaliações ... fechando fronteiras; a pateta ministra da Agricultura (como estão as exportações portuguesas que ela prenunciava lucrarem com o Covid?), o desnorte errático da consabidamente incompetente Temido - essa tipa que acha que não devemos "mamar copos" e se vai saracotear desengraçadamente entre as barrascas do Cinco para a Meia-Noite, deslumbrada com a visibilidade que este Covid lhe trouxe - e mais da Dra. Freitas (ide visitar os idosos, sede solidários), catatuando contra a escola das netinhas que encerrava à revelia da inacção estatal.»

 

Paulo Sousa: «Quem tem a sorte, ou o mérito, de na actual situação poder trabalhar a partir de casa, consegue assim o melhor dos dois mundos, uma vez que continua a produzir riqueza e a manter a economia em movimento, e ao mesmo tempo resguarda-se de ser infectado nos transportes e nos espaços públicos.»

 

Eu: «Impossibilitado de prosseguir os estudos para além do curso profissional de serralharia mecânica na escola industrial Afonso Domingues, o jovem Saramago passava os tempos livres recolhido na biblioteca municipal de Lisboa, no Palácio Galveias, ao Campo Pequeno. Enquanto os seus parceiros de geração optavam por folguedos, bailaricos e comezainas, ele cultivava-se com esmero, persistência e determinação naquelas salas austeras que lhe propiciaram o equivalente à formação universitária que oficialmente nunca chegou a ter.»

Agostinho Costa e o jornalismo informativo

jpt, 29.06.25

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Ontem mais uma vez o Pedro Correia se insurgiu diante das atoardas substantivas e das atitudes abrasivas do comentador televisivo Agostinho Costa. Ecoar diferentes opiniões, oriundos de diversos pontos de (tomada de) vista, é um valor fundamental na imprensa. E a questão da guerra na Ucrânia - crucial na nossa sociedade - não deve ser excepção. Mas o desconforto face a este indivíduo ultrapassa a sua aparente bizarria. Ou seja, levanta várias questões:

1. Lateralmente: sobre a questão ucraniana noto um paradoxo - de facto é um falso paradoxo, mero episódio das artimanhas da retóricas avessas à democracia liberal. Pois quando estalou essa guerra houve decisões europeias para obstar à disseminação da propaganda russa, promovida pela divulgação da sua imprensa e de inúmeros "sítios" digitais, sitos na Rússia ou alhures. O que colocou problemas quanto aos princípios relativos à liberdade de expressão e de acesso à informação.

Lembrando-nos o que é pouco dito: se os "princípios" são (devem ser) sacrossantos, são-no na medida em que são também "maleáveis". Pois a sua centralidade depende, exactamente, dessa relativa maleabilidade e de como esta é controlada de forma institucionalizada / legitimada. Ilustro de modo superficial: a aparente oposição entre o "não matarás" e a defesa da "guerra justa", ou entre a inadmissibilidade de "justiça por mãos próprias" e o direito à "legítima defesa". Ou, vá lá, entre o "não cobiçarás a mulher do próximo" e o direito ao divórcio. Matérias que filósofos, juristas e teólogos esmiuçaram...

Ora realço que muitos, sitos nos diferentes nichos de extracção comunista - cujo viés antidemocrático se consubstanciou numa russofilia até anacrónica -, contestaram essa "censura" (por exemplo aqui, num abaixo-assinado que congregou dezenas de intelectuais portugueses) aos dizeres russos e russófilos. Mas é desses mesmos sectores ideológicos que entretanto surgem apelos para um controlo das plataformas de divulgação - as "redes sociais" - evitando opiniões (e "versões") de "extrema-direita".

É notório que estas opiniões são opções por cardápio  (a la carte). E demonstram que os núcleos avessos às democracias liberais e às suas instâncias multilaterais querem esconder o evidente. Do Atlântico aos Urais nenhuma "extrema-direita" é mais poderosa do que a instalada no poder de Moscovo: nacionalismo agressivo e dotado de fortíssimo argumento militar, discriminação desvalorizadora de "minorias" nacionais/linguísticas ("étnicas", diz-se popularmente), substrato clerical, repressão política, censura de imprensa, limitação ao direito de associação, execução alargada e aprisionamento de opositores políticos, oligarquia cleptocrática, conúbio com as piores ditaduras internacionais (veja-se a aliança factual com a monarquia norte-coreana), apoio constante a núcleos políticos congéneres no estrangeiro. E, relevante pois sonante na actual agenda política da "esquerda identitarista", repressão dos homossexuais - note-se que se na Hungria o governo de Orban, tão dito de extrema-direita, pode ser agora afrontado por uma enorme manifestação defensora dos direitos dos homossexuais, isso é impensável sob o regime russo.

Enfim, mais de três anos depois do início da guerra na Ucrânia, a adesão à ideologia fascista, sob embrulho russófilo, continua a ser aceite. E propagandeada. Em Portugal é-o fundamentalmente através da televisão. Pois não se trata de "redes sociais" mas sim de estações televisivas que emitem sob alvará estatal e pagam para que seja feita propaganda de extrema-direita.

2. Pede-se à imprensa que sobre a guerra na Ucrânia - na produção e importação de reportagens e na análise (comentário) - seja ... analítica. É normal que o estupor e alarme inicial tenha promovido um até alarido, mesmo propagandístico, convocando a opinião pública a um esforço (político, orçamental, de acolhimento) em prol dos invadidos. Mas foi evidente que esse enviesamento pró-ucraniano - democrático, independentemente dos defeitos próprios do regime de Kiev - se deixou alongar: exemplo disso, mesmo pungente, foram as intervenções diárias no horário nobre de canal generalista do exaltado José Milhazes. Esse é caso extremo, até pitoresco. Mas a normal tendência pró-ucraniana - por ser o país invadido, associável ao nosso âmbito multilateral, e pela evidência do expansionismo russo -, cristalizou-se num discurso repetitivo, muitas vezes - mas não sempre - falho de capacidades analíticas. Esquecendo o fundamental: a Ucrânia defende-se no campo de batalha e nos contextos diplomáticos. Não no audiovisual e nos jornais portugueses.

(Pior ainda, o seguidismo às teses e práticas do governo israelita. Mas será importante integrar o cada vez mais esquecido factor: a actual guerra em Gaza e sua transferência para Líbano e Irão, é uma refractada sequela do conflito na Ucrânia).

3. O caso de Costa não é único, mas é o mais vibrante.  General e influente maçónico, evidencia ser adepto do regime fascista russo. E, neste contexto internacional, de todos os regimes antidemocráticos - em particular o iraniano - que sejam adversários dos nossos aliados e das nossas instâncias multilaterais. E segue remunerado para realizar essa propaganda - muito provavelmente devido às teias de influência que construiu a partir das suas inserções nos grupos de pressão castrenses e civis. Pois, até pela sua consabida truculência insultuosa, não haverá outra explicação para a continuidade desse seu labor televisivo. E é nisso apoiado pela estação televisiva - não só pelas constantes aparições. Pois há pouco tempo, num zapping meu, apanhei-o numa entrevista pessoal, julgo que vespertina - lamentavelmente não registei o programa, não recordo o título. Mas percebi o intuito "humanizador": o entrevistador fez questão  de um "vamo-nos tratar por tu", e construíu o diálogo de modo a que os espectadores assistissem à apresentação de um aprazível cidadão sénior, felizmente ainda activo, pois saudável e viçoso. Ou seja, sedimentando a simpatia pelo propagandista Costa. E pelas suas opiniões.

4. Aos jornalistas e/ou analistas (agora ditos "comentadores") não pode ser exigida a "neutralidade". Nem mesmo se pode pedir uma "equidistância", ponto de tomada de vista que é mitológico. Pode-se pedir objectividade, esta sempre construída na subjectividade pessoal. E, até mais do que tudo, alguma decência.

Ainda assim há destrinças a fazer. Ilustro: tivesse eu sido convidado para comentar - de modo gratuito - a recente final da Taça de Portugal entre o meu Sporting e o  Benfica, em estúdio teria sido vibrante adepto. E ali ao vivo, diante dos "caros telespectadores", teria festejado a ansiada "dobradinha" - como aqui o fiz. Mas se ali estivesse na qualidade de "comentador residente" - ou seja, remunerado (e bem que me daria jeito) - a abordagem intelectual seria diferente. Sim, rejubilaria. Sim, festejaria (repito, como aqui o fiz). Mas - por estar a ser remunerado, ou seja, por estar a trabalhar - teria de reconhecer que Mateus Reis deveria ter sido expulso, que houve um erro crasso da arbitragem, o qual a não acontecer teria mudado as dinâmicas do jogo e, talvez, impedido a tal ansiada "dobradinha" sportinguista. Enfim, que o título obtido foi um bocado coxo (o Sporting poderia ter ganho na mesma mas ficará sempre a dúvida...).

Que quero eu dizer? Que é louvável a disponibilidade para acorrer à imprensa de modo voluntário (gratuito, no sentido de não remunerado...) em atitude de cidadania, militância, "activismo" (como se diz agora) ou de mero adeptismo. Mas quando se vai opinar de modo laboral (remunerado) a restrição à militância, ao propagandear, é uma vilania. Costa não é, nem de perto nem de longe, o único - exemplo crasso é o da comentadora residente Ana Gomes, na sua patética classificação da competência televisiva dos cabecilhas partidários: disso diria a minha mãe, que tinha uma linguagem menos abrupta do que a minha, "isso não é um comportamento digno de uma Senhora". Pois esta gente é paga para exercer um trabalho e vai exercê-lo ao serviço de outros interesses. Mas Costa é mais fascista deles todos. E o mais malcriado.

Qual a razão para que continue a ser contratado para propagandear o fascismo? Repito-me: talvez devido à sua influência no meio castrense - e é problemático percebermos que há alguns generais tão avessos aos regimes democráticos e à multilateral de Defesa em que estamos inseridos. E/ou pela inscrição maçónica, sempre de influência esconsa, algo imperscrutável. Mas, para além dessas dúvidas quanto ao actual trampolim fascista em Portugal, há algumas certezas. Entenda-se, os nomes dos responsáveis directos.

Aqui escrevi em 4 de Março de 2025

"Desde logo eu (e tantos outros) me espantei e enojei com a desbragada putinofilia - até vituperando o patriotismo ucraniano - de alguns generais comentadores televisivos - um até exultava com a "libertação de Mariupol", tanto lhe agrada Putin. Ditos "especialistas em assuntos militares" (caramba, são generais, seriam especialistas de quê?). Para quem ache que são "especialistas", comentadores avisados e assim neutrais, deixo um exemplo, o do general Costa - um avençado por instruções dos (ex?-)jornalistas Nuno Santos e Santos Guerreiro. Enquanto trata todos os interlocutores por títulos académicos (o sacrossanto "Chô Doutor/a") gozou a cena da Sala Oval, referindo "Vance", "Trump" e "o Zelensky", assim denotando o desprezo pelo "mimado" ucraniano, como o disse. Tal como referiu o "Senhor Macron" - em evidente glosa do célebre e justificadamente sarcástico "Senhor Hitler" de Fernando Pessa. Terminando, o escroque fascista, a tratar os líderes eleitos da democrática União Europeia por "cavalheiros" e - imagine-se - "madames", como se estas fossem epígonas da Maria Machadão de Jorge Amado. Há 3 anos que Nuno Santos e Santos Guerreiro agridem o país com este lixo moral. Pois são isto."

(Também no  meu "O Pimentel")

 

A guerra*

José Meireles Graça, 29.06.25

De um lado temos uma democracia exemplar, com um líder eleito que os tribunais se permitem pôr a depor enquanto em exercício; e do outro um grupo terrorista, mesmo ao lado, que não admite qualquer oposição interna e se permite atacar o vizinho mais poderoso porque conta com um grande país, que o apoia e que explicitamente não reconhece a Israel o direito de sequer existir, comprometendo-se a, logo que para isso tenha poder, limpar a região de Judeus – infiéis à verdadeira religião, intrusos numa terra que não lhes pertence e aliados da América, o Grande Satã.

O grupo terrorista que governa Gaza lançou em 7 de Outubro de 2023 um ataque que provocou mais de mil mortos civis (e à volta de três centenas de militares), capturando cerca de 200 reféns (ou 250, em tudo o que diga respeito a este conflito os números variam consoante as fontes), que foram sendo libertados a conta-gotas por troca com prisioneiros palestinos em Israel, invariavelmente não cabeça por cabeça mas um múltiplo (às vezes mais do décuplo) de palestinos por cada refém israelita.

Alguns dos devolvidos foram-no no estado de cadáveres. E hoje ainda há reféns presos, dos quais se ignora quantos estão vivos.

Tínhamos portanto um bom (tanto quanto se pode falar de bons) nesta história e um mau.

De maus secundários há avonde, como o Hezbollah a Norte, no Líbano, ou os Houthis no Iémen, reconhecidos como terroristas por quase todas as capitais do execrado Ocidente, com o denominador comum de serem financiados pelo Irão, alguns países árabes e até noutro vizinho, a Cisjordânia, um governo relativamente hostil.

Mas o Irão é que é a sombra negra. Anda há muito tempo (o programa nuclear começou nos idos de 60, com o apoio dos EUA, na altura no contexto da Guerra Fria, mas evoluiu com o regime aiatolesco para mais do que prováveis intenções belicosas) com a jigajoga de, no meio de sanções, acordos, denúncias, avanços e recuos, desenvolver armas atómicas. E como Israel não pode ter a certeza, como tem em relação ao Paquistão, ou à Índia, ou à Rússia, ou até à Coreia do Norte, ou qualquer das outras potências que actualmente detêm a bomba, de que o regime iraniano não cometa a loucura de o tentar obliterar de uma vez, vive com a compreensível obsessão de liquidar as pretensões da teocracia iraniana.

De modo que reage taco-a-taco a ataques do Irão, que em Abril se fez lembrar com mísseis que despejou em Israel como retaliação a um ataque à embaixada iraniana na Síria, que por sua vez respondia a outras picardias. Quem começou o quê depende de quem conta a história e se forem especialistas vão muito lá atrás, até ao ponto em que quando chegam à raiz já o curioso esqueceu o início do conto.

Começou a guerra. E desta vez Israel tinha na presidência dos EUA um amigo, que como os antecessores não nutre pelo Irão qualquer simpatia mas ao contrário daqueles acredita instintivamente pouco no mérito de diálogos com gente abominável, de que desconfia. Aliás, que o amigo seja Trump, e não por exemplo Obama, é um adjuvante para a rejeição das esquerdas, de que se falará adiante – Trump não pode, por definição, ter razão em nada. De modo que Israel, tendo acumulado sucessos na eliminação de estruturas militares, membros da Guarda Revolucionária e cientistas ligados ao desenvolvimento da arma, acabou por tropeçar na incapacidade de chegar aos subterrâneos a grande profundidade onde se faz o processo de enriquecimento de urânio, percalço que a América resolveu com o expediente de para lá mandar bombas com a surpreendente inclinação de primeiro perfurarem e só depois, muito lá em baixo, explodirem. O qual desenvolvimento, segundo uns, já estava a 40%, segundo outros a 60% ou 80%, nuns casos a meses de chegarem à bomba, e noutros a anos.

Nada disto interessa, como aliás a maior parte das argumentações de um lado e outro, porque como é normal em guerras e talvez Ésquilo tenha dito, a primeira baixa é a verdade.

Estava o Irão a desenvolver a bomba atómica? Estava, hoje já poucos defendem o lero-lero de que os fins do programa eram pacíficos. Pode Israel confiar na sua sobrevivência com um inimigo declarado que não lhe reconhece o direito à existência, se este detiver uma arma letal cujo uso, mesmo com retaliação do mesmo tipo, permite a loucos suicidas e fanáticos pensarem que, porque Israel é minúsculo e com poucos cidadãos, e o Irão imenso e com nove vezes mais habitantes, um ficava deserto e o outro suficientemente funcional? Não pode.

De modo que saber se o programa foi atrasado um ano, cinco, dez ou vinte, interessa muito a analistas e pouco a pessoas de senso. O problema talvez venha a ser resolvido, se vier, com uma mudança de regime; e entretanto Israel continua em guarda, e a guerra pode continuar mas com baixa intensidade, por intermediários, ou renascer.

Mas coisa curiosa: Como se explica que num conflito cujo herói e vilão deveriam ser evidentes o mundo muçulmano não seja todo a favor do Irão, e no Ocidente nem toda as pessoas de direita estejam do lado de Israel, do mesmo passo que à esquerda quase toda a gente reza, salvo seja, pelo Irão?

O caso do mundo muçulmano é simples: nem o Irão é Árabe, nem a partilha de uma religião comum é pacífica porque entre xiitas e sunitas há tanto ódio e conflito como em tempos pregressos houve entre católicos e protestantes, nem as realidades geoestratégicas permitem a convivência sem rivalidade de vários poderes regionais. O pan-arabismo é uma miragem e os governos de vários países árabes só não confessam o seu desejo de que Israel ganhe porque não podem desagradar à rua que, essa sim, nutre um atávico ressentimento contra os infiéis do Ocidente que são mais ricos, mais poderosos e têm leis e costumes heréticos, não rezando a Allah, não aplicando a sharia e permitindo às mulheres escandalosas liberdades.

Que a esquerda apoie o Hamas, sob a piedosa capa de em teoria achar a organização deplorável mas na prática lhe compreender as queixas, não deve surpreender: os habitantes de Gaza são pobres, os Israelitas ricos, Israel cria constrangimentos à vida na região em vez de aceitar com magnanimidade que os locais (ou melhor, quem os governa) se dedique tranquilamente a atentados, e historicamente o nascimento de Israel nunca deveria ter sido permitido, pelo menos ali. Talvez na Namíbia, hipótese que chegou a ser formulada mas os Judeus arrogantemente não aceitaram.

Empregados têm sempre razão contra os patrões; pobres contra ricos; fracos contra fortes; e países débeis contra poderosos, excepto se estes últimos tiverem como propósito realizar o céu na terra a golpes de igualitarismo, como sucedia com o sol da URSS que infelizmente se finou na última década do século passado.

Não é que faltem abusos e exacções, manchas no passado, males e tormentos; é que a superioridade moral de que a esquerda é, segundo ela, depositária, só se pode manifestar debaixo de bandeiras de causas e decerto não é uma causa defender quem é perfeitamente capaz de se defender a si mesmo.

E para certa direita há também o medo: a guerra pode evoluir para um confronto generalizado de resultados trágicos ou pelo menos penosos mesmo para quem nela não esteja envolvido, de modo que o melhor é adiar e, em vez de bombas, despejar perdigotos, aos quais se chama diplomacia – é o que tem feito a Europa.

Sucede porém que as guerras são admissíveis em dois casos: no de defesa contra ataques; e para prevenir outras maiores. Israel quer liquidar, ou ao menos enfraquecer, o Hamas, o seu inimigo à porta; e evitar que o seu principal inimigo distante tenha meios para cumprir a sagrada promessa de palestinizar todo o espaço do Jordão até ao Mediterrâneo.De modo que se pode estar a favor, ou contra, Israel; mas não se pode estar a favor defendendo que se lhe amarrem as mãos.

* Publicado no Observador

Pensamento da semana

Pedro Correia, 29.06.25

A situação do mundo está explosiva como nunca no último meio século. Há causas diversas, mas a principal tem uma data: 24 de Fevereiro de 2022. O dia que mudou a geopolítica, fazendo regressar a guerra à Europa. A força da razão foi pulverizada enquanto prevalecia a inaceitável razão da força. Putin abriu a caixa de Pandora. Estilhaçou o direito internacional, tentou refazer fronteiras à bomba, tudo fez para reduzir a pó o quadro global nascido em 1945. O resto veio em sequência, segundo a lógica do dominó. Impossível criticar de boa fé e com elementar sentido de justiça as fases subsequentes sem condenar aquela, a primeira de todas.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO DE OPINIÃO durante toda a semana

DELITO há cinco anos

Pedro Correia, 29.06.25

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Maria Dulce Fernandes: «Cada um tem a Regina Duarte que merece.»

 

Eu: «As crises, à partida, são péssimas. Mas em jornalismo são óptimas: ficam sempre bem em qualquer manchete. Sobretudo quando surgem com a vaga avassaladora da que foi desencadeada pelo colapso do centenário Lehman Brothers, o quarto maior banco de investimento dos EUA. Uma queda que provocou um abalo à escala planetária, bem revelador da fragilidade dos circuitos económicos do mundo contemporâneo.»

Blogue da semana

Teresa Ribeiro, 28.06.25

Para os apaixonados por História, o blogue da Cristiana Vargas é um lugar muito apetecível, onde a propósito de fotos antigas e objectos de museu, entre outros documentos, ficamos a saber de episódios que são - diz ela e eu concordo - O Sal da História. Ir a banhos ao passado refresca-nos sempre as ideias quanto ao presente que temos, por isso deixo aqui a sugestão. Esta semana passem por aqui e surpreendam-se.

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 28.06.25

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Hoje lemos Yaa Gyssi "Rumo a Casa"

Passagem a L' Azular: "A família é como a floresta: se se está fora, é densa; se estiver dentro, vê que cada árvore tem a sua própria posição.”

Mais do que uma árvore com raízes profundas, a família é na realidade a floresta que cresceu e enraizou a partir de um pé comum a todas as árvores. Cada árvore com as suas ramificações, está ligada a todas as outras num subsolo de radículas enoveladas em labirínticos ramais que se perdem na memória do tempo. É na floresta que cada árvore busca a força para crescer, florir e frutificar. A densidade promove a união mas não pode retirar a visão do que circunda a floresta, para que esta continue a crescer e que os seus ramos sejam frondosos e não sombrios.

Execrável

Pedro Correia, 28.06.25

 

O do costume, no local habitual. Fervoroso "guerreiro" sempre pronto a combater mulheres em estúdio. Destratando-as, insultando-as, tentando amesquinhá-las.

Putin, tão misógino como ele, certamente aplaudirá. 

 

ADENDA: Mais uma bojarda para a vasta colecção do major-general, proferida nesta emissão da CNN-P, na véspera do ataque ordenado por Trump ao Irão: "Acha que os EUA vão arriscar [aviões] B2 no centro do Irão?!" Isto enquanto se congratulava por ter visto (só ele viu) "a sede da Mossad  [qual sede?] ser destruída pelo Irão". Enfim, não acerta uma.

DELITO há cinco anos

Pedro Correia, 28.06.25

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Cristina Torrão: «O Venturinha lá andou pelas ruas de Lisboa, com a sua meia dúzia de gatos pingados, atabafadinhos nas suas bandeiras, coitadinhos, que estava frio e não tinham casaquinho. Deve ser a isto que chamam o passeio dos tristes. Entretanto, prático como só ele é, o grande líder arranjou uma nova utilidade para as máscaras: protecção da barbicha contra a poluição. "Portugal não é racista", terá ele dito, "mas poluído é, sim, um bocadinho".»

 

João Pedro Pimenta: «É um dos pioneiros da blogosfera portuguesa, e tendo já mudado de "casa" algumas vezes, permanece incansável, com alguns intervalos, como os dos últimos dias, ou de quando resolveu experimentar o Governo. Dos últimos tempos, aconselho-vos este post de despedida de Luís Sepúlveda.»

 

Paulo Sousa: «A razão e a ciência respondem ao "Como funciona" e ao “Como funcionamos” mas não ao "Porquê existe" nem ao “Porquê existimos”. Estarão as respostas a que a razão não responde apenas à espera de novos avanços científicos, ou existem factos que nunca terão um explicação racional?»

 

Eu: «Se há manchetes que me fazem sorrir é esta. "Túnel debaxo do Tejo entre Beato e Montijo", titulava o Diário de Notícias a 2 de Agosto de 2007. Prevendo já a chamada "terceira travessia" em Lisboa do maior rio português, com base no estudo de avaliação do empreendimento encomendado pela Confederação da Indústria Portuguesa. Segundo esta notícia - publicada vai fazer 13 anos - a travessia, "através de túnel ou ponte", iria situar-se no eixo Beato/Montijo, "em alternativa à [suposta] travessia entre Chelas e Barreiro, permitindo oferecer melhores acessos, sobretudo ferroviários, a um futuro aeroporto naquele local". O estudo resultou da encomenda a um "consultor internacional" cuja entidade não era revelada.»

Reflexão do dia

Pedro Correia, 27.06.25

«A II Guerra Mundial dizimou os fracos e os fortes, o preço foi excessivo para todos e o advento das armas nucleares anunciava o fim da humanidade. Só os sobreviventes podiam ter o atrevimento de aspirar a tanto, abolir a guerra de agressão, submeter a força ao direito, conter os fortes, proteger os fracos.»

 

Sérgio Sousa Pinto, no Expresso

Feira do Livro de Lisboa, edição 2025

Pedro Correia, 27.06.25

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A história repete-se. Vou à Feira do Livro apenas com a intenção de espreitar escaparates de alfarrabistas e "passar em revista" os pavilhões das editoras a que me ligam laços afectivos - Guerra & Paz, E-primatur, Contraponto. 

Como compro livros durante o ano inteiro, digo sempre para mim mesmo, a cada Feira que passa: «Desta vez é só para ver.» 

Puro engano: continuo a vir de lá com a mochila cheia. Tendo a sorte de receber também livros oferecidos por pessoas que me são mais próximas. Gosto que me ofereçam livros, tal como gosto de os oferecer. Faz parte dos salutares rituais da vida.

Deixo aqui a colheita deste ano. (Como foi a vossa?)

Para mais tarde recordar, certamente com um doce travo de nostalgia.

 

ADENDA:

Sobre dois destes livros já escrevi aqui: História de um Homem Comum (George Orwell) e Visitar Amigos (Luísa Costa Gomes).

Para os apaixonados

Sérgio de Almeida Correia, 27.06.25

Este fim-de-semana realizar-se-ão as 24 Horas de SPA-Francorchamps, uma da grandes provas do calendário internacional das provas de resistência. Antes disso, porém, ainda há tempo para deixar aqui algumas imagens da última edição das 24 Horas de Le Mans, que foi a 4.ª prova do Mundial de Resistência da FIA.

Uma grande corrida que deu a 3.ª vitória consecutiva à Ferrari. Desta vez ao 499P da equipa AF Corse, com o número 83, magistralmente conduzido por Robert Kubica, Yifei Ye e Phil Hanson.

Na classe LMP2, a vitória foi para o carro  43, o Oreca 07-Gibson, da Inter Europol Competition, conduzido por J. Schmiechowski, T. Dillmann e N. Yelloly, sendo igualmente de salientar a vitória nos LMGT3 do Porsche número 63 da equipa Manthey 1st Phorm, tendo ao volante Hardwick, Pera e o consagrado Richard Lietz.

Nesta última categoria vai ainda um aplauso para o Chevrolet Corvette da TF Sport, com o número 83, que conseguiu o 3.º lugar da classe e onde voltou a brilhar, ao lado de Van Rompuy e Cliff Eastwood, o luso-angolano Rui Andrade.

Quem quiser saber o que de lá escrevi pode fazer uma visita ao site do Macau Daily Times: At Le Mans, Renewal is a must, Change with stability, World's first Porsche 963 SRP e If life is a race, Le Mans is the race of your life.  

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DELITO há cinco anos

Pedro Correia, 27.06.25

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JPT: «Em Setembro de 2001 a ONU organizou em Durban a 3ª Conferência Mundial contra Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e a Intolerância Correlata. As duas conferências anteriores tinham sido em Genève, em 1978 e 1983, inseridas na Década Internacional contra o Racismo e a Discriminação Racial (1973-1982), avessa à noção de "raça" como instrumento classificatório e enquadrador de políticas públicas e indutor de práticas individuais e colectivas, no intuito de "isolar e expurgar as crenças erradas e míticas" em que ela assenta e, por sua vez, dinamiza. A época continha grandes mudanças e também esperanças, com as democratizações políticas e o questionar do economicismo com o molde do "desenvolvimento sustentável". (...) É agora interessante notar que em Durban ong's americanas já denunciavam a discriminação racializada na justiça dos EUA. Mas, de facto, duas problemáticas dominaram a conferência. Uma foi a questão palestiana, uma pressão de países árabes que levou ao abandono de Israel e dos EUA - e, assim, ao enfraquecimento dos resultados possíveis da reunião. A outra questão mais sonante foi a reclamação de várias delegações africanas que exigiam o pagamento de indemnizações aos países "ocidentais" por causa da escravatura - num época em que o Clube de Paris promovera o perdão de dívida em África. Naquele ambiente discursivo, sufragando o afunilamento das questões, a higienização de inúmeros processos mundiais, a mistificação da história (num efectivo processo de "imaginação do continente" africano), a reunião teve os seus efeitos por muitos desejados. Ou seja, poucos ou mesmo nenhuns. Para mais, 4 dias depois, aconteceu o 9/11 e as atenções desviaram-se.»

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