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Concordo com o que Francisco Seixas da Costa escreveu no seu blogue: «Serei só eu quem considera perfeitamente natural que o primeiro-ministro não tenha ficado na fila do serviço hospitalar e tenha sido atendido com prioridade? Passa pela cabeça de alguém que quem tem a responsabilidade máxima na governação do país fique umas horas na sala de espera, de pulseira amarela?»
E subscrevo sem hesitar.

Bandeira: «Exemplos do rigor científico de The Devil’s Dictionary são as definições de "egoísta” (uma pessoa de mau gosto, mais interessada nela do que em mim), “rezar” (pedir que as leis do universo sejam revogadas em favor de um único peticionário, confessadamente indigno do benefício) e “dicionário” (um dispositivo literário malévolo para entravar o crescimento da língua e torná-la difícil e inelástica, sendo o dicionário de Bierce a óbvia excepção).»
José António Abreu: «Só uma mulher podia considerar que quaisquer seres humanos - machos, fêmeas, hermafroditas - se definem por factores externos ao cérebro.»
Eu: «Em vez de uma bomba ou uma AK-47, o tal tipo amável optou antes por um Airbus 320 como instrumento do massacre. “Descontrolou-se”, repete alguém. Como já sucedera com aquele assassino norueguês, um monstro de sorriso gélido que em 2011 matou a sangue-frio 77 adolescentes num acampamento de Verão. Também ele contou com a benevolência de psiquiatras que logo o consideraram "inimputável" – como se o mal não estivesse inscrito desde os confins dos tempos na condição humana. Também ele teve o nome e o rosto impressos por toda a parte. Um e outro, celebridades instantâneas à escala planetária. Neste mesmo mundo em que tantos benfeitores permanecem anónimos e jamais serão procurados para notícia de telejornal.»
Prima Donna, Uriah Heep
(Álbum: Return to Fantasy, 1975)

Anda nesta aventura dos blogues há mais de década e meia, de forma um tanto ou quanto discreta. Ultimamente tem dado atenção ao que se passa nas terras do Tio Sam e ao que vai acontecendo na cena política internacional. Muitas das suas preocupações são também as dos muitos que passando por esta vida consideram que não se está por cá só para comer, dormir e bailar. E isso nota-se diariamente no que escreve. Quem o lê sabe que não confunde o arguido com o acusado. E embora nem sobre tudo possa escrever, escreve sobre quase tudo de forma escorreita, com oportunidade e alma. Além de que é um dos mais antigos e fiéis leitores desta casa. Por tudo isso, mais não posso fazer do que vos recomendar uma visita ao Pedro Coimbra e aos seus Devaneios a Oriente, a minha escolha para esta semana.

«A felicidade está para a alegria como uma lâmpada eléctrica está para o sol.»
Susanna Tamaro, Vai Aonde te Leva o Coração (1994), p. 45
Ed. Presença, 1995. Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo. Colecção Novos Continentes, n.º 65
Nota: as Rapidinhas de História vão fazer uma pausa. Regressam daqui a algumas semanas, com mais informações históricas sobre o período da formação de Portugal, informações recolhidas em estudos e teses que me foram postos recentemente à disposição.
Podemos tentar "compreender" a vertente social, cultural e psicológica de um acto criminoso. E, se formos advogados de quem o cometeu, até talvez devamos invocar tudo isso como possível atenuante em tribunal. Nada apaga, no entanto, a componente do livre-arbítrio. É o grande trunfo - e também o grande fardo - da condição humana.
Este pensamento acompanhou o DELITO DE OPINIÃO durante toda a semana

Bandeira: «Se dúvidas houvesse quanto às perturbações que o funcionamento irregular de um sistema judicial pode causar no espírito de um indivíduo são, uma leitura de Hesíodo seria o suficiente para as dissipar. Um agricultor humilde perde, por subversão da Justiça, uma causa; e no momento seguinte está a descrever as origens do universo em hexâmetros dactílicos. Assisti a internamentos forçados por bem menos do que isso.»
Sérgio de Almeida Correia: «Pesado, diria mesmo doloroso, foi o resultado eleitoral do PS. No final do ciclo do jardinismo, numa altura em que as críticas foram mais do que muitas aos desvarios gastadores de Jardim, e depois de um período de grande aperto, à semelhança do que aconteceu com os restantes portugueses, esperava-se outro resultado do PS/Madeira. O que aconteceu foi um desastre que retira voz e protagonismo ao partido a nível regional.»
Eu: «Estivesse ainda Seguro ao leme do PS nacional, acossado por um batalhão de bitaiteiros televisivos dispostos a "fazer-lhe a folha", e não faltaria o coro das carpideiras a bramar contra a "frouxa" liderança no Largo do Rato. Como Seguro já não está, resta o silêncio.»
Pretty Blue Eyes, Eric Clapton
(Álbum: There's One in Every Crowd, 1975)
Quem quiser perceber o caso Spinumviva e seguir os seus desenvolvimentos desde o início perde tempo porque, quando chegar ao fim, já esqueceu o princípio. De resto não há fim – este resumo que, em jeito de conclusão, está aqui, já deve estar ultrapassado por mais detalhes intrometidos que a conta-gotas aparecem nos jornais.
Que se dane a historieta, que não tem importância. Ou melhor, tem tão pouca que ao fim deste tempo todo ainda ninguém de consequência acusa Montenegro de crimes – só de falta de ética, e mesmo isso esticando muito as pernas do raciocínio. E, do que já se sabe, de crimes nicles mas de espreitadelas pelo buraco da fechadura da porta do escritório muito. A mulher de Montenegro tem brilhado pela ausência mas se a coisa continuar a render ainda havemos de apurar se como cozinheira deixa ou não a desejar, se era boa mãe, se lê alguma coisa antes de adormecer e o quê.
O que interessa perceber é como por causa de uma coisa destas o governo cai quando ninguém acha que eleições resolvam qualquer problema. O caso é tão estranho que, descontando algum despropósito da comparação, faz lembrar a Grande Guerra: era improvável, ninguém queria, mas um assassinato tresloucado espoletou o mecanismo das alianças e do não perder a face, e a partir daí a coisa escalou e arrastou-se por quatro sangrentos anos.
Sangue e mortos é claro que não vai haver. Mas do não perder a face há aqui muito. Porque o PS queria cozer em lume brando o PM, através do mecanismo da Comissão de Inquérito, para o cobrir de alcatrão e penas quando as sondagens dissessem que o eleitorado estava farto do PSD. E este, antevendo o perigo, deu-lhe um cheque com a rainha, isto é, vai fazer comissões de inquérito à tua tia. O pobre do PS, nesta altura, já não podia recuar e os seus quadros, a começar pela inspirada e loquaz Alexandra Leitão, refugiaram-se na tese de que quem fez cair o Governo foi o próprio Governo. A própria diz isto com tanta convicção, e tão larga cópia de argumentos, que a gente chega a imaginar que ela acredita no que diz.
Isso o PS. Já o Chega achou que não tem nada a perder com eleições ou, se tiver, o salvar o Governo num caso de alegada corrupção empanaria uma das estrelas da sua bandeira, que é justamente o combate àquele flagelo. E além do mais tinha uma vingança para operar, que era a das linhas vermelhas da dura rejeição de Montenegro – já lá vou.
Isto tudo é coisa lá da jigajoga parlamentar e do calculismo eleitoral. A política faz-se sobretudo disso mas o comentariado, cuja missão é ilustrar a população leitora, que diz?
Descontemos os da extrema-esquerda: o PCP e o BE salivam porque sonham com uma nova geringonça, desta vez com menos oportunismo à la Costa, e mais convicção à la Pedro Nuno. Estão a nanar, claro. Porque mesmo que o PS ganhe (e não se imagina porquê) há agora uma sólida maioria de direita que nada permite supor que se estiolou.
Depois temos os do PS, assumidos ou embrulhados na manta esfarrapada da isenção. Capitaneados à distância pela esfusiante Alexandra, que vai dizer aquelas coisas torrenciais que diz no Princípio da Incerteza (secundada, no geral, com grande profundidade pelo intelectual Pacheco) e montando, neste particular, o cavalo do Chega, que consiste em dizer que não há descanso enquanto todos os políticos no activo não tiverem um par de asas nas costas e todos os corruptos, reais ou alegados, estiverem nas masmorras do Ministério Público. Donde, o caso Spinumviva vai ser explorado até ao tutano na campanha. A autoridade do PS nestas matérias é, vamos dizer assim, menos do que escassa, pelo que se aguarda uma guerra de trincheiras na lama (e afinal a analogia com a Grande Guerra encontra aqui um reforço).
Vem a seguir a turba social-democrata, que tem uma data de tribos: a dos que estão sentados em cima do muro e que afiançam que o sistema está bloqueado e que portanto o ideal seria um entendimento do Centrão; os que defendem o actual estado de coisas a outrance e por isso entendem que nas próximas eleições vira o disco e toca o mesmo; e o dos que se sabe que existem mas na dúvida vão falando pouco, e que veriam com bons olhos calçar uns patins a Montenegro, a ver se doutra lura sai um coelho mais gordo.
Finalmente há os bons, que são os da minha criação. E estes dizem, como eu, que a patetice das linhas vermelhas impede qualquer esperança de reformismo, de crescimento que não seja pilotado exclusivamente pelo turismo e os fundos europeus (que aliás vão secar) e da remessa do PS e restantes esquerdas para uma sadia estada de duas ou três legislaturas nos cafundós da irrelevância. A menos que o PSD viesse a ter a maioria absoluta (com o CDS e a IL) em 18 de Maio, o que não parece provável.
Dizem mas nem sempre bem, decerto por não se aconselharem primeiro comigo. Meus amigos: Transformaram Passos Coelho num D. Sebastião, que regressará não já de Alcácer-Quibir para Portugal mas de Massamá para S. Bento. E como o próprio não cessa de dizer que não quer, e já teve várias oportunidades que ignorou, continuar a falar nisso é o mesmo que confiar no homem providencial (que sem dúvida seria) e ignorar que se dança com quem está, não com quem não quer estar – e que quem não tem cão caça com gato.
E também dizem ou insinuam que há que despedir com urgência Montenegro porque ele é um obstáculo à consagração da escolha do eleitorado, que é patentemente uma aliança das direitas. É. Mas isso não é razão para aproveitar a boleia oportunista da Spinumviva, crucificando o homem sob pretexto de um amor imarcescível à ética, que esquecerão logo que o homem do leme seja mais do nosso agrado. O oportunismo tem em si mesmo custos e projecta sombras compridas.
Não é altura de falar nessa questão, não se muda de general no início de uma batalha. E de resto o bom do PSD tratará disso no caso de perder as eleições, que aquela congregação aprecia muito quem lhe conserve os lugares e não quem lhe coarcte as esperanças.
Nem é sequer certo que as juras de linhas vermelhas sejam para manter, mesmo com este Montenegro, porque se alguma coisa já demonstrou é que tem espírito de sobrevivência e não se vê por que razão não pode ser branco ou cinzento.
Reitero portanto o que já disse antes das últimas eleições: Tirar o Chega da equação é uma burrice suicidária. Churchill afirmou que “If Hitler invaded Hell I would make at least a favourable reference to the Devil in the House of Commons”.
Em guerra não estamos mas o Chega talvez seja o Diabo, pelo menos a julgar pelo grupo parlamentar, que é pela maior parte uma recolha de populares irados dos cafés, adestrados no vozear pedestre; e o partido carece de qualquer consistência em matéria de política económica, além de cavalgar sem arreios qualquer bandeira reacionária, boa ou má. Além do que o líder dá de si boa conta no combate mas não sabemos se dará na gestão da coisa pública.
Porém: Um governo de coligação com o Chega seria necessariamente pior do que o que temos? Dava-me jeito fazerem-me rir, mas valores mais altos se alevantam.
«Candidato-me [a deputado pelo BE] porque temos um fascista na Casa Branca.»
Francisco Louçã, em entrevista ao Público (25 de Março)

Hoje lemos Catherine Belton, "Os Homens de Putin".
Passagem a L' Azular: “O manual do KGB da era da Guerra Fria, quando a União Soviética implementou ‘medidas activas’ para semear a divisão e a discórdia no Ocidente, para financiar os partidos políticos aliados e minar o seu inimigo ‘imperial’, foi agora totalmente reactivado. O que é diferente agora é que estas táticas são financiadas por um poço de dinheiro muito mais profundo, por um Kremlin que se tornou adepto dos costumes dos mercados e afundou os seus tentáculos profundamente nas instituições do Ocidente.”
Nada mais me resta dizer, senão que subscrevo.

José Navarro de Andrade: «No passado dia 2 de Dezembro a Fundação Francisco Manuel dos Santos lançou o meu livrinho "Terra Firme", uma reportagem com laivos de ensaio, ou vice-versa, sobre uma herdade alentejana. (...) A dimensão da coisa ganhou foros de susto quando mencionaram a magna figura convidada para comentar o livro - e que tinha aceite... Vai ser bom para a minha vaidade, pensei, prestigiar-me com a sua presença nesta cerimónia, decerto protocolar. Pois sim... Em vez das triviais generalidades simpáticas do costume, o cavalheiro, que não me conhecia de lado nenhum e a quem eu fora apresentado à entrada, sacou de um exemplar de "Terra Firme" ouriçado de Post-Its e durante uma hora analisou e dissertou em pormenor, com uma acuidade fulminante e uma desvelada gentileza. Disseram-me depois que Sevinate Pinto era sempre assim.»
Luís Naves: «Sempre achei que a blogosfera era um meio ideal para publicar textos literários, opiniões e crónicas. É um meio ideal de aproximação aos leitores e serve para experimentar coisas novas, enfim, para a oficina do artesão.»
Maurício Barra: «A corrupção das elites é um tema eleitoral incontornável em 2015. E, ao contrário do que algum mainstream gostaria, não vai ser uma agenda minoritária de grupúsculos políticos. Vai ser a agenda principal dos eleitorados de centro-esquerda e centro-direita.»
Sérgio de Almeida Correia: «Não conheço Henrique Neto de lado nenhum. E não faço à partida tenção de apoiá-lo porque aos setenta e oito anos já não se devia eleger ninguém para cargos tão exigentes como uma Presidência da República (...). Mas tenho pena que não apareça por aí um outro Henrique Neto, republicano, com menos quinze anos, socialista e de uma seriedade à prova de bala, e podem ter a certeza que eu votaria nele. Com ou sem a bênção do partido.»
Companheira, Fernando Tordo
(Álbum: Feito cá p'ra nós, 1975)
A Federação Portuguesa de Atletismo entrou há dias nas notícias, após ter inventado uma licença a ser cobrada a quem se inscrever em provas de atletismo. O saldo negativo com que têm fechado as contas nos últimos quatro anos justifica tal medida, dizem.
Esta nova “pagazana” (era isto o que a minha avó chamava a tudo o que não fosse uma compra e tivesse de ser pago) agitou a tribo do atletismo amador. Ninguém se incomoda com a existência da Federação, nem ninguém se deu ao trabalho de investigar a respectiva estrutura de custos, mas como sempre nestes organismos ditos sem fins lucrativos, em caso de dúvida (dívida neste caso) em vez de se consumir energias acumuladas, opta-se pelo mais fácil que é aumentar a absorção de energia.
Eu acho que o que a Federação deveria fazer, era apostar numa prática idêntica ao que se procura no próprio atletismo amador, consumir energias em excesso e de caminho ter uma vida mais saudável.
Soube de tudo isto por conta de uma tomada de posição de um evento meu vizinho. Já aqui escrevi sobre o Cross Laminha, a mais antiga prova de trail do nosso país, que longe de ser um evento de massas, daqueles que faz alterar o trânsito das grandes cidades, é para mim um exemplo do melhor que se pode fazer em prol do desporto, atraindo pessoas para a natureza, tudo simplesmente pela alegria de fazer coisas positivas. Por isso transponho aqui o comunicado da sua organização.
O evento Cross Laminha é a prova de Trail mais antiga de Portugal.
Somos uma Organização totalmente amadora nascida no ano 1999.
Todo o trabalho desenvolvido é voluntário, feito por várias pessoas em voluntariado.
O Cross Laminha tem das inscrições mais baratas, apenas o suficiente para cobrir as despesas organizativas do evento.
O evento Cross Laminha não oferece prémios monetários.
O Cross Laminha está limitado à participação de 300 participantes anualmente.
99% dos participantes do evento Cross Laminha são amadores, e destes, 90% são "não filiados".
O lucro do evento Cross Laminha é proveniente do apoio municipal e reverte totalmente para a igreja local.
O evento Cross Laminha dedica-se ao divertimento sadio de todos os seus participantes.
O evento Cross Laminha promove a prática da Corrida em meio florestal e fora de estrada.
O evento Cross Laminha limpa e promove a limpeza de trilhos na natureza, visando a prática desportiva da Corrida e caminhada nestes locais.
Por estes motivos, a Organização não se revê e não concorda com a posição da FPA, que "obriga" a uma taxa injusta e injustificada para quem apenas quer fazer da corrida um passatempo saudável.
Não sendo viável fazer o evento para apenas participantes filiados ou federados, que seriam entre 10 a 30 participantes, tomámos a seguinte decisão:
A manter-se a posição atual da FPA, que será prejudicial para o Atletismo amador português e para a esmagadora maioria das organizações, informamos que a edição do Cross Laminha 2026 não se realizará!
Sem participantes não existimos.
Obrigado pela compreensão
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Geralmente afasto-me com a agilidade possível de tudo quanto sejam turbes, mas deste vez recomendo mesmo que se assine esta petição pela para a Revogação da Licença Obrigatória nas Competições de Atletismo.
À organização do Cross Laminha sugeria apenas que na imagem que adoptaram para este evento, fardassem o bode com o emblema da Federação que não federa.

Jacqueline Bisset