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Delito de Opinião

Obviamente

Pedro Correia, 31.03.25

Concordo com o que Francisco Seixas da Costa escreveu no seu blogue: «Serei só eu quem considera perfeitamente natural que o primeiro-ministro não tenha ficado na fila do serviço hospitalar e tenha sido atendido com prioridade? Passa pela cabeça de alguém que quem tem a responsabilidade máxima na governação do país fique umas horas na sala de espera, de pulseira amarela?»

E subscrevo sem hesitar.

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 31.03.25

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Bandeira: «Exemplos do rigor científico de The Devil’s Dictionary são as definições de "egoísta” (uma pessoa de mau gosto, mais interessada nela do que em mim), “rezar” (pedir que as leis do universo sejam revogadas em favor de um único peticionário, confessadamente indigno do benefício) e “dicionário” (um dispositivo literário malévolo para entravar o crescimento da língua e torná-la difícil e inelástica, sendo o dicionário de Bierce a óbvia excepção).»

 

José António Abreu: «Só uma mulher podia considerar que quaisquer seres humanos - machos, fêmeas, hermafroditas - se definem por factores externos ao cérebro.»

 

Eu: «Em vez de uma bomba ou uma AK-47, o tal tipo amável optou antes por um Airbus 320 como instrumento do massacre. “Descontrolou-se”, repete alguém. Como já sucedera com aquele assassino norueguês, um monstro de sorriso gélido que em 2011 matou a sangue-frio 77 adolescentes num acampamento de Verão. Também ele contou com a benevolência de psiquiatras que logo o consideraram "inimputável" – como se o mal não estivesse inscrito desde os confins dos tempos na condição humana. Também ele teve o nome e o rosto impressos por toda a parte. Um e outro, celebridades instantâneas à escala planetária. Neste mesmo mundo em que tantos benfeitores permanecem anónimos e jamais serão procurados para notícia de telejornal.»

A "lisboa" Literária

jpt, 30.03.25

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Há três anos fui beber um copo de fim-de-tarde com a minha querida amiga Ana Leão, que chegara de Moçambique. Disso deixei esta croniqueta - de que gostei, tanto que a meti no pacote "Torna-Viagem" que venho impingindo. Nostálgica, até saudosista, muito resmungona. Mas também esperançosa. Pois foi o dia em que descobri a Livraria Martins na Guerra Junqueiro - era muito recente, dela não ouvira falar, desconhecia a origem, até a julguei ser coisa de "carola" livreiro mas afinal é de grupo editorial (o que é bom, garantir-lhe-á alguma sustentabilidade).
 
Não fiquei cliente - não posso comprar livros. Mas fiquei simpático. E, passados anos, ao descobrir que organiza um "podcast" Quinteto Literário ouvi duas sessões. Agora a terceira deu imensa polémica. Pois o crítico e escritor João Pedro George espalhou-se, e muito (e muito mesmo...) ao falar da escritora Madalena Sá Fernandes, e com o beneplácito do moderador do programa (que também meteu os pés pelas mãos, já agora). George já fez a sua samokritica mas quero crer que não lhe chegará para acalmar más vontades e abrenúncios.
 
George é um tipo interessante de acompanhar (ler). É uma espécie de "etnógrafo" do "campo literário" português - e como é usual entre os etnógrafos quando se abalança às suas "monografias" escreve de modo insistente, repetitivo, até cansativo, tamanha a sanha expositiva. Nesse registo lembro quando dissecou o Cotrim e quando abocanhou o Mega Ferreira - então ainda vivos -, textos relevantes pois demonstrativos do "campo cultural-político" da "lisboa" em que vivemos.
 
Neste caso borregou. Porque falou em termos descabidos de uma escritora, e isso será uma conclusão unânime. Inventa-lhe uma auto-erotização publicitária que não é verdadeira. E critica-a por divulgar os seus livros ("so what?", perguntar-se-á em bom português). Mas a matéria mais relevante é o conteúdo da sua anunciada "abordagem sociológica" à escritora.
 
Eu não conhecia Sá Fernandes até há umas semanas. Tenho uma filha de 22 anos - já agora, a Carolina, que apenas vivera em Portugal durante os confinamentos e no ano do seu primeiro mestrado, emigrou ontem, "foi lá para fora ganhar a vida" - que é uma jovem Senhora bem lida. O que é normal, pois com uma mãe leitora, um pai que também o é, ainda que anárquico, e avós leitores. Nenhum de nós, seus ancestrais, somos da "literatura" mas fomos dando "dicas". E ela desde há anos que faz o seu rumo leitor. Há dias recomendou-me uma crónica de Sá Fernandes - sobre o Café Luanda e sua avó - na qual se reviu. Eu também, simpatizei. (E é ela quem agora me chama a atenção para este "caso").
 
E julguei aquela crónica bem melhor do que inúmeros textos na imprensa de escritores renomados - "consagrados", "canónicos", indiscutíveis membros da "literatura" - que anunciam como "crónicas" meros textos de opinião política. Opiniões essas (mais ou menos justas ao olhar de cada um, isso não interessa) que são formas de construir, sedimentar, reproduzir, publicitar, a "personalidade literária" de cada autor. Uma auto-construção do "eu", do "self" literário, que parece ofender os membros daquele podcast culto da Livraria Martins. Mas, de facto, alguém ficcionista/poeta que vai para os jornais escrever (sem sequer ser pago, como agora é norma) a favor/contra ucranianos, palestinianos, vítimas dos bancos, da violência doméstica, vacinas, trump e quejandos, está-se a "construir" / "divulgar" mais do que se for almoçar à bela Serpa e se deixar fotografar. Feliz.
 
(E, lamento, mas uma pessoa com 30 anos normalmente é mais bonita - fresca, que seja - do que com 50 ou 60. Estes últimos podem ter ganho prémios literários, terem sido louvados no Público e no JL, mas estarão encanecidos, engelhados, com papadas descendentes, barrigudos, carecas. Criticar-se os mais-novos por não estarem assim? E terem o desplante de sair à rua nesses mais ou menos belos modos?)
 
Enfim, a matéria da "abordagem sociológica" deste modo exercida desperta-me dois eczemas, ambos relacionados com a velha oposição "nós"/"outros", o que bem ultrapassa os conteúdos das obras (até porque não sou especialista da "literatura"). No fundo, trata-se da tal "lisboa" a autodefinir-se. E resmungo com esses meus pruridos assim:
 
1. Abordar o trabalho de alguém segundo o paradigma "Joana Marques". Ou seja, abandalhar. Acontece que Joana Marques tem humor, esse sacrossanto álibi. E de facto esmiuça, cruel, o lumpen do entretenimento nacional, o qual incessantemente produz mundividências muito criticáveis - o outro dia ouvi-a sobre um DJ que clamava que aqueles que não seguem boas "griffes" não saem da "sopa torta", por exemplo.
 
Mas é impertinente abandalhar uma escritora, pacífica, apenas porque se considera que escreve segundo os modelos da "escrita criativa", porque (!!!) não corresponde visualmente às angústias que (d)escreve. Francamente, esta é a tal "lisboa" - "eu sou escritor e crítico" diz George, como tal pertence à "literatura". Já Sá Fernandes é gozada por ter o desplante de dizer "entrei na literatura". Isto é mesmo a tal "lisboa" desbragada, a cagança...
 
2. O segundo ponto, meu eczema mais grave, pois é o que mais me irrita. Sá Fernandes é invectivada - "sabe como se mexer neste mundo de hoje" - por usar as "redes sociais" para se divulgar (a tik-tok, a instagram, se fosse há alguns anos seria no FB ou mesmo, antes, nos blogs, estes lugares de ilegitimidade...). Ao lado de George e do moderador (que aventa ser a escritora uma "destruidora de casamentos", uma "boca" tétrica), está uma outra escritora, Ana Bárbara Pedrosa, da qual não li livros. Algo arredada do tom cáustico sobre a escritora, mas aproveitando para dissertar sobre a tal "construção" de "personalidades literárias" através do manuseamento da imagem nas redes sociais. Ou seja, as "redes sociais" (a exposição pública, entenda-se) e a conjugação com outros escritores são vistas como fenómenos "ilegitimadores" ou, pelo menos, apoucam...
 
É esta "lisboa" de novo. Desconhecia Pedrosa até há pouco. Há meses, numa alvorada, alguns amigos de Maputo avisaram-me de um texto dela, publicado (claro) no "Público". Passado algum tempo insistiu e publicou outro na "Sábado". Enviaram-me esses amigos a ligação ao primeiro texto acompanhada de questões, a mais simpática das quais era "quem é esta gaja?".
 
Ambos os textos são "crónicas" de viagem, quase como se reportagens, dedicados à situação política moçambicana. Poupo nos adjectivos: são ignorantes. E absolutamente cagões. E uma verdadeira encenação, uma produção de "personalidade literária" - a escritora empenhada chegada ao país "em crise" (ou, se se preferir, "a África"), que logo percorre (enfim, a capital...) e que logo tudo percebe e sobre isso perora, ciosa opinativa. A clarividência "on the road"...
 
Ou seja, para George e para o moderador, uma jovem escritora que escreve como ensinam na "escrita criativa" e se divulga porque se sabe mexer nas "redes sociais" digitais não "faz parte" e é achincalhável. Mas uma jovem escritora que se mexe bem nas "redes sociais" da "lisboa", a "secção africanista" do "Público" (sobre a qual é melhor nem discorrer) ou quejandos jornais, a "rede social" "activista", e decerto que em "sites" decoloniais, etc.? Essa já "faz parte". Pois "é das nossas".
 
Não fosse eu ateu e diria que os espíritos do Cotrim e do Mega Ferreira - que bem mereceram ser escalpados, já agora - se estariam a rir. Pois, de facto, "les beaux esprits se rencontrent".

Blogue da semana

Sérgio de Almeida Correia, 30.03.25

Anda nesta aventura dos blogues há mais de década e meia, de forma um tanto ou quanto discreta. Ultimamente tem dado atenção ao que se passa nas terras do Tio Sam e ao que vai acontecendo na cena política internacional. Muitas das suas preocupações são também as dos muitos que passando por esta vida consideram que não se está por cá só para comer, dormir e bailar. E isso nota-se diariamente no que escreve. Quem o lê sabe que não confunde o arguido com o acusado. E embora nem sobre tudo possa escrever, escreve sobre quase tudo de forma escorreita, com oportunidade e alma. Além de que é um dos mais antigos e fiéis leitores desta casa. Por tudo isso, mais não posso fazer do que vos recomendar uma visita ao Pedro Coimbra e aos seus Devaneios a Oriente, a minha escolha para esta semana. 

Certeiro!

Cristina Torrão, 30.03.25
Não sei se é permitido. Talvez eu esteja, à semelhança de Luís Montenegro, não a praticar um crime, mas a demonstrar "falta de ética". Porém, não resisto. Esta crónica de Miguel Sousa Tavares, publicada no Expresso, no passado dia 27, é tão, mas tão certeira... impossível não divulgar. Na verdade, copiei uma cópia, divulgada no Facebook.

Gostaria de acrescentar que não sou grande admiradora de Miguel Sousa Tavares, por, normalmente, tanto discordar dele. Depois de Trump ter ganho as eleições norte-americanas, porém, não podia concordar mais, pelo menos, sobre este assunto.

Os realces são da minha responsabilidade.

 

UM SÓ HOMEM (Miguel Sousa Tavares, Expresso, 27/03/2025)

 

«No dia 20 de Janeiro, depois de ter assistido à tomada de posse de Donald J. Trump como Presidente dos Estados Unidos, prometi a mim mesmo que não iria seguir obcecadamente cada passo da sua administração nem me deixaria deprimir pelo que aí vinha. A vida tem motivos muito mais interessantes do que acompanhar o desvario político, mental e humano do homem mais poderoso do mundo. Sim, Trump é Presidente dos Estados Unidos e os Estados Unidos detêm a maior capacidade militar e nuclear do mundo. Quer isto dizer que, em querendo, podem dar ordens ao mundo inteiro e ditar o destino de todos. Mas o meu, não.

 

Enganei-me: o meu também. Não consegui manter a minha promessa pela simples razão de que tudo o que está a acontecer na América ultrapassou em pior a minha imaginação, e como eu vivo neste tempo e neste mundo em que está um bandido à solta na Casa Branca e um grupo de marginais a acolitá-lo, não é possível, como cantava o Adriano Correia de Oliveira, viver serenamente. Não é possível, por mais que se queira — até como forma de resistência —, abstrair das malfeitorias diárias do Presidente dos Estados Unidos.

 

Se a agenda foi cumprida, o Conselheiro de Segurança Nacional de Trump, Mike Waltz, acompanhado de altas patentes militares, está esta sexta-feira na Gronelândia para avaliar in loco as potencialidades militares de um território a que Trump disse que, por razões de segurança, ia deitar a mão, “de uma maneira ou de outra”, comprado ou invadido. Na comitiva vai também a “vice-primeira dama”, a mulher do idiota J. D. Vance, e um filho, viajando em missão turística para ela mostrar à criancinha a conquista que o pai e o seu amigo Presidente vão fazer para os Estados Unidos. A Gronelândia, recorde-se, pertence à Dinamarca e a Dinamarca pertence à NATO, a organização militar de defesa comum liderada pelos Estados Unidos. Isto parece inacreditável, mas somos forçados a acreditar depois de termos visto, apenas nos primeiros 60 dias de governo, Trump reivindicar, além da Gronelândia, o canal do Panamá, a Faixa de Gaza, as riquezas minerais e as centrais nucleares ucranianas, e mesmo o Canadá, a quem convidou a tornar-se o 51º estado da União!

 

Por falar em NATO, ficámos também a saber que Trump não garante que os Estados Unidos respeitem o artigo 5º do Tratado, o “um por todos, todos por um”, que é o fundamento da organização. Mas como poderia garanti-lo se ele próprio fala abertamente em tomar posse de territórios, ou mesmo de países, seus aliados na NATO? A sua regra é simples: se é do seu interesse, da sua segurança ou do seu aprovisionamento estratégico, os Estados Unidos têm o direito de fazerem o que quiserem. Ao mesmo tempo que ele, Trump, ordena aos aliados europeus que desatem a gastar fortunas em armamento comprado aos Estados Unidos e delicia-se a receber, em audiências de vassalagem, os grandes da Europa, Keir Starmer e Macron, ou o seu pau-mandado Mark Rutte, secretário-geral da NATO, que lhe foi dizer que as suas ordens serão obedecidas e que a organização atlântica está pronta a marchar “under your comand, Sir”.

 

Entretanto, ameaça os palestinianos com o “inferno”, como se fosse novidade para eles, e bombardeia os hutis no Iémen para se substituir ao “parasitismo europeu”, como lhe chamou Pete Hegseth, um atrasado mental vindo da Fox News directamente para chefiar o Pentágono. A devoção de Trump por Israel é tanta, o seu desejo de tudo dar ao seu amigo Netanyahu é tamanho, que a polícia de emigração está a expulsar do país estudantes que participaram em manifestações contra o massacre em Gaza, mesmo que sejam residentes legais nos Estados Unidos, e a impedir de entrar no país quem se manifestou pela Palestina: agora, para entrar nos Estados Unidos é preciso nunca ter posto em causa as acções de Israel e sair é arriscar não poder voltar a entrar. Uma após outra, as principais universidades do país vêem o governo federal cortar-lhes os fundos sempre que alguém, no governo de Trump se lembra de ter lá visto manifestações pró-Palestina: Harvard ainda resiste, Columbia já ajoelhou, pronta a alinhar com o desejo de Trump de “banir esta insanidade antiamericana de uma vez por todas”. De caminho — coisa verdadeiramente inédita — encarregou a ministra da Educação de extinguir o respectivo Ministério, declarando que “agora é que vamos ter educação a sério!”. O pretexto é a invocada “esquerdização” do ensino e das universidades, das suas políticas de integração agora proibidas ou o desperdício de dinheiros públicos em aprendizagens inúteis ou antipatrióticas. Mas, na verdade, esta fúria contra o saber que está a paralisar a investigação nas universidades e a aterrorizar todos fundamenta-se numa coisa que é própria da ignorância arrogante de Donald Trump: o ódio à inteligência e ao conhecimento, que, para ele como para os seus apoiantes do MAGA, representa apenas a justa revolta do povo contra as elites intelectuais e académicas. O programa de Trump não é o de aproveitar e tirar partido do melhor dos Estados Unidos — a excelência de um ensino universitário que deu ao país dezenas de Prémios Nobel e o colocou na vanguarda do conhecimento científico e tecnológico. O seu programa e o seu génio político é ter sabido interpretar a nova luta de classes, que não é entre quem tem e quem não tem, como imaginou Marx, mas entre quem sabe e quem odeia os que sabem.

 

Mas, bem entendido, a grande ameaça de Trump à democracia americana e ao Estado de Direito na América e no mundo é o seu profundo desprezo por princípios que temos como universais nas nações civilizadas. Trump comporta-se como um Nero reencarnado, cego de vaidade e embriagado com o desfrute de um poder sem limites. O exemplo extremo disto foi a deportação para a Guatemala, e para uma prisão tida como a mais desumana do mundo, de uma centena de imigrantes venezuelanos que alguém decretou subitamente serem membros de um grupo de criminosos. Sem julgamento, sem instrução e sem defesa, foram expulsos dos Estados Unidos e enfiados numa prisão guatemalteca, sem prazo definido de detenção. Assim, o Presidente americano, sem qualquer interferência da Justiça, arroga-se o poder de acusar, julgar, condenar, decretar e executar a sentença, mesmo em país alheio: juiz de instrução, juiz de julgamento e juiz de execução de penas. E quando um juiz verdadeiro quer saber porque não foi obedecida a sua ordem de suspender a expulsão dos venezuelanos, Trump ameaça afastar esse e todos os juízes federais que contrariem judicialmente os seus desejos, e começou a perseguir, com as suas já célebres notas executivas, até as sociedades de advogados que representaram ou onde trabalhou alguém que o tenha investigado no passado. Trata-se daquilo a que agora chamam o “brokenism”, a política de partir tudo, mesmo a Constituição dos Estados Unidos e os direitos e garantias individuais, em nome da revolução conhecida como Projecto 25 — a tomada de poder por um homem e uma facção ao seu serviço no mais poderoso país do planeta. E, sobre tudo isto, alia a um desejo de vingança sobre quem não lhe reconheceu a vitória eleitoral em 2020, uma crueldade assustadora. O Presidente que se dispõe a fazer propaganda a favor do homem mais rico do mundo, transformando a Casa Branca num stand de automóveis Tesla, é o mesmo que da noite para o dia extinguiu a USAID, mandando para o desemprego todos os seus funcionários e condenando milhões de pessoas à fome, à doença e à miséria, em África e na Ásia pobre, e que corta todas as verbas para a investigação de vacinas para doenças como a malária.

 

Como é que chegámos aqui? Como é que a “land of the free”, uma nação de referência do mundo democrático, num instante se está a transformar num fascismo unipessoal? Como é que chegámos aqui? Chegámos pelo voto popular, pela escolha da maioria dos americanos. Porque hoje já não é necessário derrubar as democracias por golpe militar: derrubam-se nas urnas por voto popular manipulado e planeado por golpistas silenciosos nas redes sociais.»

Rapidinhas de História #24

A mui cobiçada Galiza (4)

Cristina Torrão, 30.03.25

 

Nota: as Rapidinhas de História vão fazer uma pausa. Regressam daqui a algumas semanas, com mais informações históricas sobre o período da formação de Portugal, informações recolhidas em estudos e teses que me foram postos recentemente à disposição.

Pensamento da semana

Pedro Correia, 30.03.25

 

Podemos tentar "compreender" a vertente social, cultural e psicológica de um acto criminoso. E, se formos advogados de quem o cometeu, até talvez devamos invocar tudo isso como possível atenuante em tribunal. Nada apaga, no entanto, a componente do livre-arbítrio. É o grande trunfo - e também o grande fardo - da condição humana.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO DE OPINIÃO durante toda a semana

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 30.03.25

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Bandeira: «Se dúvidas houvesse quanto às perturbações que o funcionamento irregular de um sistema judicial pode causar no espírito de um indivíduo são, uma leitura de Hesíodo seria o suficiente para as dissipar. Um agricultor humilde perde, por subversão da Justiça, uma causa; e no momento seguinte está a descrever as origens do universo em hexâmetros dactílicos. Assisti a internamentos forçados por bem menos do que isso.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Pesado, diria mesmo doloroso, foi o resultado eleitoral do PS. No final do ciclo do jardinismo, numa altura em que as críticas foram mais do que muitas aos desvarios gastadores de Jardim, e depois de um período de grande aperto, à semelhança do que aconteceu com os restantes portugueses, esperava-se outro resultado do PS/Madeira. O que aconteceu foi um desastre que retira voz e protagonismo ao partido a nível regional.»

 

Eu: «Estivesse ainda Seguro ao leme do PS nacional, acossado por um batalhão de bitaiteiros televisivos dispostos a "fazer-lhe a folha", e não faltaria o coro das carpideiras a bramar contra a "frouxa" liderança no Largo do Rato. Como Seguro já não está, resta o silêncio.»

Spinumviva*

José Meireles Graça, 29.03.25

Quem quiser perceber o caso Spinumviva e seguir os seus desenvolvimentos desde o início perde tempo porque, quando chegar ao fim, já esqueceu o princípio. De resto não há fim – este resumo que, em jeito de conclusão, está aqui, já deve estar ultrapassado por mais detalhes intrometidos que a conta-gotas aparecem nos jornais.

Que se dane a historieta, que não tem importância. Ou melhor, tem tão pouca que ao fim deste tempo todo ainda ninguém de consequência acusa Montenegro de crimes – só de falta de ética, e mesmo isso esticando muito as pernas do raciocínio. E, do que já se sabe, de crimes nicles mas de espreitadelas pelo buraco da fechadura da porta do escritório muito. A mulher de Montenegro tem brilhado pela ausência mas se a coisa continuar a render ainda havemos de apurar se como cozinheira deixa ou não a desejar, se era boa mãe, se lê alguma coisa antes de adormecer e o quê.

O que interessa perceber é como por causa de uma coisa destas o governo cai quando ninguém acha que eleições resolvam qualquer problema. O caso é tão estranho que, descontando algum despropósito da comparação, faz lembrar a Grande Guerra: era improvável, ninguém queria, mas um assassinato tresloucado espoletou o mecanismo das alianças e do não perder a face, e a partir daí a coisa escalou e arrastou-se por quatro sangrentos anos.

Sangue e mortos é claro que não vai haver. Mas do não perder a face há aqui muito. Porque o PS queria cozer em lume brando o PM, através do mecanismo da Comissão de Inquérito, para o cobrir de alcatrão e penas quando as sondagens dissessem que o eleitorado estava farto do PSD. E este, antevendo o perigo, deu-lhe um cheque com a rainha, isto é, vai fazer comissões de inquérito à tua tia. O pobre do PS, nesta altura, já não podia recuar e os seus quadros, a começar pela inspirada e loquaz Alexandra Leitão, refugiaram-se na tese de que quem fez cair o Governo foi o próprio Governo. A própria diz isto com tanta convicção, e tão larga cópia de argumentos, que a gente chega a imaginar que ela acredita no que diz.

Isso o PS. Já o Chega achou que não tem nada a perder com eleições ou, se tiver, o salvar o Governo num caso de alegada corrupção empanaria uma das estrelas da sua bandeira, que é justamente o combate àquele flagelo. E além do mais tinha uma vingança para operar, que era a das linhas vermelhas da dura rejeição de Montenegro – já lá vou.

Isto tudo é coisa lá da jigajoga parlamentar e do calculismo eleitoral. A política faz-se sobretudo disso mas o comentariado, cuja missão é ilustrar a população leitora, que diz?

Descontemos os da extrema-esquerda: o PCP e o BE salivam porque sonham com uma nova geringonça, desta vez com menos oportunismo à la Costa, e mais convicção à la Pedro Nuno. Estão a nanar, claro. Porque mesmo que o PS ganhe (e não se imagina porquê) há agora uma sólida maioria de direita que nada permite supor que se estiolou.

Depois temos os do PS, assumidos ou embrulhados na manta esfarrapada da isenção. Capitaneados à distância pela esfusiante Alexandra, que vai dizer aquelas coisas torrenciais que diz no Princípio da Incerteza (secundada, no geral, com grande profundidade pelo intelectual Pacheco) e montando, neste particular, o cavalo do Chega, que consiste em dizer que não há descanso enquanto todos os políticos no activo não tiverem um par de asas nas costas e todos os corruptos, reais ou alegados, estiverem nas masmorras do Ministério Público. Donde, o caso Spinumviva vai ser explorado até ao tutano na campanha. A autoridade do PS nestas matérias é, vamos dizer assim, menos do que escassa, pelo que se aguarda uma guerra de trincheiras na lama (e afinal a analogia com a Grande Guerra encontra aqui um reforço).

Vem a seguir a turba social-democrata, que tem uma data de tribos: a dos que estão sentados em cima do muro e que afiançam que o sistema está bloqueado e que portanto o ideal seria um entendimento do Centrão; os que defendem o actual estado de coisas a outrance e por isso entendem que nas próximas eleições vira o disco e toca o mesmo; e o dos que se sabe que existem mas na dúvida vão falando pouco, e que veriam com bons olhos calçar uns patins a Montenegro, a ver se doutra lura sai um coelho mais gordo.

Finalmente há os bons, que são os da minha criação. E estes dizem, como eu, que a patetice das linhas vermelhas impede qualquer esperança de reformismo, de crescimento que não seja pilotado exclusivamente pelo turismo e os fundos europeus (que aliás vão secar) e da remessa do PS e restantes esquerdas para uma sadia estada de duas ou três legislaturas nos cafundós da irrelevância. A menos que o PSD viesse a ter a maioria absoluta (com o CDS e a IL) em 18 de Maio, o que não parece provável.

Dizem mas nem sempre bem, decerto por não se aconselharem primeiro comigo. Meus amigos: Transformaram Passos Coelho num D. Sebastião, que regressará não já de Alcácer-Quibir para Portugal mas de Massamá para S. Bento. E como o próprio não cessa de dizer que não quer, e já teve várias oportunidades que ignorou, continuar a falar nisso é o mesmo que confiar no homem providencial (que sem dúvida seria) e ignorar que se dança com quem está, não com quem não quer estar – e que quem não tem cão caça com gato.

E também dizem ou insinuam que há que despedir com urgência Montenegro porque ele é um obstáculo à consagração da escolha do eleitorado, que é patentemente uma aliança das direitas. É. Mas isso não é razão para aproveitar a boleia oportunista da Spinumviva, crucificando o homem sob pretexto de um amor imarcescível à ética, que esquecerão logo que o homem do leme seja mais do nosso agrado. O oportunismo tem em si mesmo custos e projecta sombras compridas.

Não é altura de falar nessa questão, não se muda de general no início de uma batalha. E de resto o bom do PSD tratará disso no caso de perder as eleições, que aquela congregação aprecia muito quem lhe conserve os lugares e não quem lhe coarcte as esperanças.

Nem é sequer certo que as juras de linhas vermelhas sejam para manter, mesmo com este Montenegro, porque se alguma coisa já demonstrou é que tem espírito de sobrevivência e não se vê por que razão não pode ser branco ou cinzento.

Reitero portanto o que já disse antes das últimas eleições: Tirar o Chega da equação é uma burrice suicidária. Churchill afirmou que “If Hitler invaded Hell I would make at least a favourable reference to the Devil in the House of Commons”.

Em guerra não estamos mas o Chega talvez seja o Diabo, pelo menos a julgar pelo grupo parlamentar, que é pela maior parte uma recolha de populares irados dos cafés, adestrados no vozear pedestre; e o partido carece de qualquer consistência em matéria de política económica, além de cavalgar sem arreios qualquer bandeira reacionária, boa ou má. Além do que o líder dá de si boa conta no combate mas não sabemos se dará na gestão da coisa pública.

Porém: Um governo de coligação com o Chega seria necessariamente pior do que o que temos? Dava-me jeito fazerem-me rir, mas valores mais altos se alevantam.

* Publicado no Observador

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 29.03.25

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Hoje lemos Catherine Belton, "Os Homens de Putin".

Passagem a L' Azular: “O manual do KGB da era da Guerra Fria, quando a União Soviética implementou ‘medidas activas’ para semear a divisão e a discórdia no Ocidente, para financiar os partidos políticos aliados e minar o seu inimigo ‘imperial’, foi agora totalmente reactivado. O que é diferente agora é que estas táticas são financiadas por um poço de dinheiro muito mais profundo, por um Kremlin que se tornou adepto dos costumes dos mercados e afundou os seus tentáculos profundamente nas instituições do Ocidente.”

Nada mais me resta dizer, senão que subscrevo.

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 29.03.25

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José Navarro de Andrade: «No passado dia 2 de Dezembro a Fundação Francisco Manuel dos Santos lançou o meu livrinho "Terra Firme", uma reportagem com laivos de ensaio, ou vice-versa, sobre uma herdade alentejana. (...) A dimensão da coisa ganhou foros de susto quando mencionaram a magna figura convidada para comentar o livro - e que tinha aceite... Vai ser bom para a minha vaidade, pensei, prestigiar-me com a sua presença nesta cerimónia, decerto protocolar. Pois sim... Em vez das triviais generalidades simpáticas do costume, o cavalheiro, que não me conhecia de lado nenhum e a quem eu fora apresentado à entrada, sacou de um exemplar de "Terra Firme" ouriçado de Post-Its e durante uma hora analisou e dissertou em pormenor, com uma acuidade fulminante e uma desvelada gentileza. Disseram-me depois que Sevinate Pinto era sempre assim.»

 

Luís Naves: «Sempre achei que a blogosfera era um meio ideal para publicar textos literários, opiniões e crónicas. É um meio ideal de aproximação aos leitores e serve para experimentar coisas novas, enfim, para a oficina do artesão.»

 

Maurício Barra: «A corrupção das elites é um tema eleitoral incontornável em 2015. E, ao contrário do que algum mainstream gostaria, não vai ser uma agenda minoritária de grupúsculos políticos. Vai ser a agenda principal dos eleitorados de centro-esquerda e centro-direita.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Não conheço Henrique Neto de lado nenhum. E não faço à partida tenção de apoiá-lo porque aos setenta e oito anos já não se devia eleger ninguém para cargos tão exigentes como uma Presidência da República (...). Mas tenho pena que não apareça por aí um outro Henrique Neto, republicano, com menos quinze anos, socialista e de uma seriedade à prova de bala, e podem ter a certeza que eu votaria nele. Com ou sem a bênção do partido.»

Qual o contrário de federar?

Paulo Sousa, 28.03.25

A Federação Portuguesa de Atletismo entrou há dias nas notícias, após ter inventado uma licença a ser cobrada a quem se inscrever em provas de atletismo. O saldo negativo com que têm fechado as contas nos últimos quatro anos justifica tal medida, dizem.

Esta nova “pagazana” (era isto o que a minha avó chamava a tudo o que não fosse uma compra e tivesse de ser pago) agitou a tribo do atletismo amador. Ninguém se incomoda com a existência da Federação, nem ninguém se deu ao trabalho de investigar a respectiva estrutura de custos, mas como sempre nestes organismos ditos sem fins lucrativos, em caso de dúvida (dívida neste caso) em vez de se consumir energias acumuladas, opta-se pelo mais fácil que é aumentar a absorção de energia.

Eu acho que o que a Federação deveria fazer, era apostar numa prática idêntica ao que se procura no próprio atletismo amador, consumir energias em excesso e de caminho ter uma vida mais saudável.

Soube de tudo isto por conta de uma tomada de posição de um evento meu vizinho. Já aqui escrevi sobre o Cross Laminha, a mais antiga prova de trail do nosso país, que longe de ser um evento de massas, daqueles que faz alterar o trânsito das grandes cidades, é para mim um exemplo do melhor que se pode fazer em prol do desporto, atraindo pessoas para a natureza, tudo simplesmente pela alegria de fazer coisas positivas. Por isso transponho aqui o comunicado da sua organização.

O evento Cross Laminha é a prova de Trail mais antiga de Portugal.
Somos uma Organização totalmente amadora nascida no ano 1999.
Todo o trabalho desenvolvido é voluntário, feito por várias pessoas em voluntariado.
O Cross Laminha tem das inscrições mais baratas, apenas o suficiente para cobrir as despesas organizativas do evento.
O evento Cross Laminha não oferece prémios monetários.
O Cross Laminha está limitado à participação de 300 participantes anualmente.
99% dos participantes do evento Cross Laminha são amadores, e destes, 90% são "não filiados".
O lucro do evento Cross Laminha é proveniente do apoio municipal e reverte totalmente para a igreja local.
O evento Cross Laminha dedica-se ao divertimento sadio de todos os seus participantes.
O evento Cross Laminha promove a prática da Corrida em meio florestal e fora de estrada.
O evento Cross Laminha limpa e promove a limpeza de trilhos na natureza, visando a prática desportiva da Corrida e caminhada nestes locais.
Por estes motivos, a Organização não se revê e não concorda com a posição da FPA, que "obriga" a uma taxa injusta e injustificada para quem apenas quer fazer da corrida um passatempo saudável.
Não sendo viável fazer o evento para apenas participantes filiados ou federados, que seriam entre 10 a 30 participantes, tomámos a seguinte decisão:
A manter-se a posição atual da FPA, que será prejudicial para o Atletismo amador português e para a esmagadora maioria das organizações, informamos que a edição do Cross Laminha 2026 não se realizará!
Sem participantes não existimos.
Obrigado pela compreensão

Cross Laminha.png

Geralmente afasto-me com a agilidade possível de tudo quanto sejam turbes, mas deste vez recomendo mesmo que se assine esta petição pela para a Revogação da Licença Obrigatória nas Competições de Atletismo.

À organização do Cross Laminha sugeria apenas que na imagem que adoptaram para este evento, fardassem o bode com o emblema da Federação que não federa.

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