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Delito de Opinião

Uma jovem de vinte anos, uma égua e uma viagem da Alemanha até Portugal (5)

Cristina Torrão, 31.01.25

Depois de ver o pai ir-se embora, deixando-a no meio daquela região seca e solitária, na região de Burgos, Jette não conseguiu evitar a tristeza. Preocupava-se igualmente com a Pinou, já um pouco emagrecida. Conseguiria encontrar relva fresca, por aqueles caminhos de cascalho, que tinham ainda a desvantagem de acelerar o desgaste dos  “sapatos” da égua?

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Jette fixou a sua atenção nos aspectos positivos. O sol brilhava e a temperatura era amena (17ºC). E encontrava fontes pelo caminho, como aliás já lhe haviam dito ser usual em Espanha, onde a Pinou podia matar a sede.

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Para a primeira noite, Jette encontrou, inclusive, um relvado com uma fonte, à saída de uma aldeia. Teve algumas reservas em montar a tenda em terreno público, sem permissão, mas ninguém reclamou. Pelo contrário. Várias pessoas passeavam por ali, com os seus cães, e cumprimentavam-na. Muitas tentavam conversar com ela, mas Jette quase nada entendia. Mesmo servindo-se do tradutor do Google, a comunicação era difícil. E ela estava cansada. Não obstante a simpatia das pessoas, a situação mostrava-lhe as dificuldades que teria de enfrentar, naquele país. Quando se recolheu na tenda, a moça sentiu-se muito sozinha.

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Nos dias seguintes, Jette tinha dificuldades em encontrar onde dormir. Sucediam-se as aldeias e quintas abandonadas.

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Num certo serão, era já bem tarde, quando encontrou uma localidade habitada. Sem vontade de procurar um lugar adequado, montou a tenda num parque infantil relvado. Ainda ali brincavam algumas crianças, preocupando Jette, pois os pais poderiam não ficar satisfeitos.

Mas niguém reclamou. Na verdade, os petizes ficaram muito entusiasmados com aquelas viajantes exóticas e até arranjaram maneira de carregar o powerbank de Jette.

Numa outra aldeia, parcialmente abandonada, Jette sentia os olhares curiosos pousados sobre si, quando lá entrou. Acabou por encontrar os obrigatórios fonte e relvado. Montou a tenda e encontrava-se a planear a rota para o dia seguinte, quando um carro parou à sua frente. Um espanhol começou a falar com ela. Sem o entender, Jette acabou por responder apenas “Sí”. O homem abalou. Passado um quarto de hora, surgiu-lhe com um saco de comida. E a surpreendida Jette acabou por jantar bem melhor do que pensava.

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Depois de mais uma noite passada na tenda, uma mulher veio ter com ela, convidando-a para tomar o pequeno-almoço e autorizando-a a tomar duche em sua casa. Lá chegada, Jette constatou que o marido sabia falar inglês, tornando a comunicação bem mais fácil.

Surpreendeu-se com o pequeno-almoço, onde abundavam os croissants e as bolachas. À despedida, ainda lhe deram um saco de comida.

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Numa outra aldeia, quando estava a montar a tenda, foi abordada por uma idosa, que tinha vivido oito anos na Alemanha e sabia falar alemão. Os outros habitantes aperceberam-se da conversa animada entre as duas e, inteirando-se da jornada de Jette, trouxeram-lhe o jantar. A idosa, apesar de não ter um quarto para a moça, quis mostrar-lhe a sua casa, onde vivia sozinha e onde as duas passaram o serão a ver fotografias da sua família.

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Apesar destes bons momentos, Jette passava dias inteiros sem encontrar ninguém, pelo caminho, enquanto percorria o planalto seco. Além disso, os dias ficavam cada vez mais curtos e, à noite, a temperatura chegava a descer aos 8ºC, com vento. Condições difíceis para dormir na tenda.

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A 31 de Outubro, o 54.º dia da viagem, Jette atravessou o Douro (Duero), a caminho de Traspinedo, perto de Valhadolid.

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Ao serão, escreveu no diário (tradução minha): “Neste momento, apenas desejo chegar ao destino. Segundo o Maps, são ainda 330 km até Castelo Branco, embora eu saiba que acabarão por ser mais. Sinto-me esgotada e noto que também a Pinou está cansada. Talvez a bonita paisagem nos consiga ainda animar, mas, por agora, estamos as duas cheias desta jornada."

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Logo a seguir, porém, tentou animar-se (admiro esta sua capacidade de olhar, sempre, para os aspectos positivos): “Por outro lado, fascina-me a confiança total que a Pinou deposita em mim. Ela seguir-me-ia incondicionalmente para todo o lado. E constato que, em Espanha, as pessoas são generosas, muitas vezes, melhores do que se pensa. Tenho de ter sempre presente este tipo de experiências, nos meus pensamentos – uma oportunidade enorme, um presente inacreditável."

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Compensou acreditar na generosidade das pessoas. A hospitalidade de nuestros hermanos não deixou de surpreender Jette. Talvez eu própria, ao ler o seu diário, tenha ficado ainda mais surpreendida do que ela.

Num serão, depois de encontrar um relvado, a moça preparava-se para tirar a sela a Pinou, quando uma mulher veio ter com ela. Sabia falar inglês, morava ali mesmo ao lado e convidou-a para jantar e pernoitar em sua casa. Veio mesmo a calhar, sendo as noites já tão frias.

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Numa outra aldeia, foi abordada por várias pessoas e, quando ela disse não falar espanhol, foram logo buscar quem soubesse inglês. Este “tradutor” convidou-a para jantar e pernoitar na casa da sua família, podendo a Pinou ficar no terreno relvado do vizinho. Além disso, entrou em contacto com conhecidos na aldeia onde Jette programara passar a próxima noite, logo lhe arranjando alojamento.

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Talvez não fosse assim tão difícil continuar até à fronteira portuguesa, em pleno Novembro...

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Nota: Todas as fotografias e informações aqui divulgadas foram retiradas do diário de viagem de Jette:

https://www.instagram.com/jette.horse.journey/

@jette.horse.journey

O Rol dos Espiões...

jpt, 31.01.25

Antes de tudo é interessante notar que até simpatizantes socialistas encolhem os ombros e constatam agora que os governos de Costa foram ... tempo perdido. Um político hábil, um governante medíocre, nada mais do que isso. E, já agora, como todos que conhecem a Bélgica poderão confirmar, nenhum "prestígio" adveio àquele reino pelo simples facto de ter tido Charles Michel como presidente do Conselho Europeu - ao invés do saloio argumento aqui promotor da elevação do nosso antigo PM ao posto...

A governação de Costa teve um objectivo inicial, trancar a débâcle do PS face ao desvario de Sócrates e à cumplicidade e/ou complacência de todo o "universo PS" diante daquilo, no que "coabitou" perfeitamente com o Presidente que nos coube, por decisão eleitoral. E foi sobrevivendo acobertado pelas políticas financeiras europeias.

Durante esses anos Costa teve o condão de se rodear de gente dotada de tétrica incompetência, como tanto o exemplificaram os ministros - agora comentadores televisivos - Eduardo Cabrita e Azeredo Lopes (este ao menos reconheceu essa sua característica, invocando-a em tribunal para se safar das sequelas da sua pantomina ministerial). Mas para além de gente desse calibre Costa precisou de mais, de homens de mão. Soube fazê-lo, e os escândalos com dois dos seus chefes de gabinete teriam sido letais noutros países democráticos. Mas por cá ainda se lhe dá o estatuto de "prestigiante"... Talvez ainda mais agora, quando - sem pingo de pudor - se transgenderiza em "minoria étnica", mesmo se não especifica a "etnia" a que pertence.

Enfim, esta situação de ter "à mão de semear" o rol de agentes de informação é tétrico. Claro que o rasteiro Escária será cutucado (mas nunca crucificado) por isso, e não se questionará a peculiar concepção de exercício de poder do seu antigo chefe, que convocava esta inaceitável situação. Mas esta é arrepiante.

A situação - escandalosa - faz-me lembrar uma similar, acontecida em 1999, quando o abjecto "Independente" publicou o rol de espiões. Vivi-a em Maputo. E anos depois, tendo conhecido um simpático "ex-espião", até tive mais alguns detalhes do que acontecera, já invocados em registo cómico. Em 2006 escrevi um postal no ma-schamba sobre essa memória, que agora transcrevo. Mas antes recordo que em 2008 o então ministro Jaime Gama queria uma lei que impedisse este tipo de vazar de informações delicadas... Foi insuficiente, como se vê, mostrando não apenas a insuficiência do "Legislador" mas também como a lei é sempre insuficiente quando os incumbentes... não prestam. Ou são dados à imbecilidade, como a soberba de Augusto Santos Silva provocava, ao anunciar à imprensa em 2011 que Portugal ia instalar espiões no Líbano - e foi este tipo presidente da AR e sonhou-se PR!...

Enfim, passa um quarto de século e as coisas não melhoram. Porquê? Porque são os mesmos tipos no poder. Temos mesmo de aprender com os moçambicanos, e clamar "Anamalala"!

(Aqui deixo o postal com 19 anos sobre a devastação que o poder político faz dos serviços de informação)

Liberdade de expressão?

Em 1999 Veiga Simão, então ministro da Defesa de Portugal, velho homem de Estado e dignissimo universitário, espantou ao despachar a lista dos membros dos serviços de informação portugueses para uma Comissão Parlamentar. Logo alguém dessa comissão, muito provavelmente um deputado da República, remeteu a lista para os orgãos de comunicação social.

Voz amiga telefonou-me de Portugal - qualquer leitor de Greene ou Le Carré imagina um adido cultural, mesmo se seu amigo próximo, algo associável a este tipo de coisas, mesmo que fosse eu completamente excêntrico a esse "ramo" - informando-me do que iria acontecer, na ironia do "amanhã a lista dos espiões sai no Independente, vê lá quem são os daí", deixando-me a balançar entre a gargalhada descrente e o nojo por portugueses que partilham, apesar de mim, o meu país. Logo lhe solicitei o envio daquela "bomba", e na alvorada seguinte recebi no gabinete um fax (era ainda o tempo dos faxes, imagine-se) com a cópia do jornal "Independente" onde constava uma lista de dezenas de indivíduos. Os nomes riscados, aparentemente a marcador (como se isso impedisse uma leitura por parte de profissionais interessados), mas os países de colocação bem à vista. Foi logo um reboliço telefónico, irónico e curioso, amigos cuscando se alguém sabia ou imaginava quem eram os dois agentes colocados em Moçambique, coisa que iria durar ainda uns dias. De imediato imaginei os dois homens, decerto avisados de véspera, que tudo aquilo foi inopinado, abandonando o país no mais madrugador avião para Joanesburgo ou, mais certo, cruzando nos primeiros alvores da matina a Namaacha, Ressano Garcia ou mesmo Machipanda, a inquietude dessa derradeira noite postados diante das fronteiras, avessas que são elas ao trânsito nocturno. E imaginei também, leituras velhas construindo imagens, homens e mulheres partindo em contido alvoroço de dezenas de países. E ainda o súbito encerramento de empresas nos arrabaldes lisboetas, filiais de seguradoras, consultoras, contabilidade, sei lá que tipo de coberturas escolhidas nesses sombrios Rios de Mouro ou Paios Pires tão a jeito para realidades feitas filmes, e o espanto de mulheres a dias, fornecedores e vizinhos com o vácuo então criado.

Veiga Simão retirou-se de uma longuissima, e até contraditória, vida de serviço público. E nada mais. Mudaram-se governos, a oposição subiu a poder e regressou a oposição, os das comissões subiram a observados e regressaram às comissões, os então observados tornaram-se observadores e de novo ascenderam a observados. Deputado algum, assessor algum, foi confrontado com a evidente traição ao país. Uma traição não metafórica. Linear. Pura e simples. A Assembleia da República, ao que agora se bloga prenhe de mictórios entupidos e de deputados que apenas do próprio mijo se lembram na hora da crítica fácil porque tão tardia, fez por esquecer, e esqueceu, o facto de acoitar traidores e nisso continuar impávida.

Os jornais publicaram, decerto em nome de um qualquer interesse público - confundindo, cientes disso, "público" com "do público" - e da sacrossanta liberdade de expressão. O povo nunca se lembrou disto, continua a votar nos traidores e nos que os protegem (alguém acredita que ninguém saiba quem denunciou os serviços de informação?). Contente, ulula julgando-se patriota, assim reconfortado, tv aos gritos no jogo da selecção, bandeira nacional numa mão, jornal Independente, o lixo traidor, na outra.

Anos passados ninguém liga, ninguém se lembra. A rapaziada de esquerda, relativizada, apupa a liberdade de expressão, dizendo-a máscara da falsidade ocidental ou até mesmo da inexistência ocidental, ainda que lhe reconheça, se cutucados, o mérito de denunciar a perfídia espionagem nacional, vista arma de exploração de inocentes alheios, esses inocentes porque alheios, porque diferentes, porque outros. A rapaziada menos relativista, reza loas à liberdade de expressão, coisa absoluta, tanto que até lhes dá para trair o país, nos intervalos de declarações pomposas sobre nação e quejandas. Coisa sem limites, dizem. E, escroques, realizam. No remanso do piadismo fácil e do "linkismo" ignorante. Punhetam, viris. Ambos os todos.

A propósito destas questões um amável comentador aqui afirmava há dias, "não compreendo o que dizes, mas entendo que te sintas longe": Longe, eu?! Foda-se..., eu estou aí. Isso é meu. Quem está longe, quem está bem longe, quem nem sequer merece isso, é essa corja. Corja não, que parece queiroziano. É essa vara, fica melhor. Estais longe.

(texto escrito em estado de liberdade de expressão relativa e sobriedade absoluta)

Um burro chamado Joachim Raphaël Boronali

Paulo Sousa, 31.01.25

A ideia surgiu em Paris em Março de 1910. A capital francesa, que foi também a capital do século XIX, ainda vivia a centralidade cultural que viria a perder nas décadas seguintes. A lista de artistas, intelectuais e inventores que por ali se estabeleceram nesses anos é extensa e toca em inúmeras áreas da ciência, da cultura e da arte. 

Os antigos muros que limitavam Paris serviam principalmente para que todos os bens que entrassem na cidade fossem taxados. Na proximidade do actual Boulevard de Clichy, ficava um desses pontos de cobrança e isso queria dizer que o vinho era mais barato do lado de fora da fronteira. Essa é uma das explicações para que ali confluísse o tipo de público que explica que o bairro de Montmartre se tenha tornado num dos epicentros da vida nocturna e boémia da capital francesa. Os seus cabarés, cafés, vielas apertadas, ruas esconsas e inclinadas são as imagens de marca daquela zona de Paris. 

Outra particularidade de Montmatre tem a ver com a sua topografia elevada, tendo no seu topo o Santuário do Sacré-Cœur, de onde se tem um vista que alcança a maior parte da cidade. Foi a topografia que justificou que ali existissem moinhos onde os cereais eram moídos antes de passarem pela fiscalidade para depois entrarem em Paris. O herdeiro mais conhecido desta tradição, pese embora ter mudado de tipo de actividade, será o Moulin Rouge que é também um dos poucos que ainda sobrevivem. Menos conhecido, mas igualmente digno de relevo é o Moinho da La Galette, que inspirou Renoir no seu quadro que retrata o ambiente de baile da época, mas também Van Gogh e muitos outros. Encontramos outra referência mais recente aos moinhos de Montmartre num dos meus filmes favoritos O Fabuloso destino de Amélie Poulain. Fica a poucos passos do Boulevard de Clichy o Café des Deux Moulins, onde a fabulosa Amélie trabalhava. 

Rua a rua, quase que passada a passada, as histórias ali não têm fim, ora sejam os ateliers de pintura com os seus janelões virados a norte para assim conseguir uma luz mais regular, ora a residência e estátua de Dalida a cantora, que adoptou Montmartre e foi igualmente adoptada por Montmartre, é também ali que se encontra a estátua que retrata Dutilleul a personagem do conto Le Passe-muraille, sem esquecer o jardim no local onde Saint-Dennis, o primeiro bispo de Paris, que por causa da sua fé foi decapitado e que, transportando na mãos a sua cabeça, terá parado na sua última caminhada de cerca de seis quilómetros até ao local onde fica agora a Basílica erigida em sua memória. 

Mas, como dizia no início, a ideia surgiu em Março de 1910. A robustez financeira de quem fazia vida por Montmartre definia os locais frequentados. A irreverência boémia e os bolsos pouco abonados empurravam os marginais para os locais menos recomendáveis. O cabaré onde se passa esta história já tinha muitos anos e já tinha conhecido vários nomes. O mais antigo era o Au rendez-vous des voleurs e se tivesse conservado esse nome tteria certamente merecido visitas regulares do nosso ex-governante que se mudou para a capital francesa, e não me estou a referir a Afonso Costa. Mas, adiante. Segundo as memórias da cidade, certa noite alguns bandidos que entraram como normais clientes só saíram depois de terem assassinado o filho do proprietário. O trágico acontecimento foi divulgado pelos jornais e o novo proprietário, explorando o filão de notoriedade, mudou o seu nome para Le Cabaret des Assassins. O nome seguinte do referido estabelecimento, e que perdura até à actualidade, surgiu após uma pintura mural feita pelo caricaturista Andre Gill, onde um coelho é representado a fugir a uma caçarola. O que teria sido no início Le Lapin à Gill evoluiu para Le Lapin Àgile e depois para Cabaret Au Lapin Agile. 

Artistas falidos, o que é quase uma redundância, ali parodiavam sobre as tendências da arte, mais especificamente da pintura. Era o impressionismo que dava cartas mas, imaginaram eles, importava dar o passo seguinte. E foi assim que numa noite mais bebida alguém se terá lembrado de fazer uma partida aos entendidos em arte. Recorrendo aos préstimos de Lolo, o jumento que pertencia ao dono do cabaré, foi pintada uma tela. Em vez de usarem pincéis, recorreram à cauda do Lolo, que este agitava de cada vez que lhe davam mais uma cenoura. E este foi o resultado. 

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O título escolhido para o quadro foi Et le soleil s'endormit sur l'Adriatique. O nome artístico do autor era Joachim-Raphaël Boronali, supostamente um italiano desconhecido que pintava segundo o estilo “excessivista”, algo que nunca ninguém tinha ouvido falar, mas que os foliões se encarregaram de descrever num extenso manifesto. Importa referir que a execução da obra foi testemunhada por um notário que assim pôde documentar todo o processo.

A reacção não se fez esperar. Houve quem criticasse a nova corrente artística, mas também quem se entusiasmasse e não hesitasse em afirmar que se tratava de “uma maravilha da arte expressionista”. A revelação do que estava por de trás da nova corrente “excessivista” foi feita pouco tempo depois. O choque e a gargalhada revelaram-se na medida exactamente inversa das reacções iniciais. O vencedor de longo prazo foi o Cabaret Au Lapin Agile, que neste episódio conquistou um espaço na memória colectiva de Montmartre e assim conseguiu durar até aos dias de hoje.

Marianne Faithfull

jpt, 31.01.25

(Marianne Faithfull - Broken English Live)

Eram mesmo outros tempos, tínhamos muito menos informações. À Marianne Faithfull cheguei na adolescência apenas por apanhar este LP "Broken English" - comprado na do Apolo 70?, na loja de discos baratos da Baixa? - que teria ouvido num ápice na rádio. Não sabia quem era ela, o enorme pedigree rock que tinha - sabia lá eu que teria sido a musa da canção da minha vida, a "You Can’t Always Get What You Want" dos Stones, sabia lá eu do implícito desta "Broken English"... Ficou-me ela para sempre. E ainda mais quando fui crescendo e sabendo quem era ela.
 
Morreu agora. Lembro-a não como a beldade do panteão rock. Mas como esta matrona imensa... intensa.

Marxista, tendência Google

Pedro Correia, 31.01.25

Ah, como é cómodo ver a realidade a preto e branco.

Ah, como é útil definir tudo como um confronto entre imperialismo capitalista e socialismo revolucionário, à boleia do que escreveu um senhor de longas barbas no século XIX.

Ah, como é intelectualmente estimulante solucionar cada dilema vergastando verbalmente os Estados Unidos da América com as palavras de ordem que constam do manual.

Ah, como faz bem ao espírito bradar contra o actual inquilino da Casa Branca, Richard Nixon.

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Ah, como é revigorante contemplar o Muro erguido para a eternidade como sentinela de cimento do bloco soviético nestes tempos de Guerra Fria.

Ah, como é doce lançar anátemas contra a Europa democrática sentado no conforto de um sofá da Europa democrática.

Ah, como é revolucionário escrever incansavelmente as palavras burguês e burguesia, à semelhança do que faz qualquer genuíno marxista, tendência Google.

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 31.01.25

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José António Abreu: «José Sócrates já declarou apoio à candidatura de Luís Figo à presidência da FIFA?»

 

Luís Naves: «Há diferenças entre Podemos e Syriza, mas um elemento em comum: ambos absorveram o eleitorado comunista e estão a conquistar o espaço político dos socialistas. Na Grécia, as primeiras vítimas foram PASOK e KKE, que em 2009 somaram mais de metade do eleitorado grego e agora têm apenas 9,5% (somados). Em Espanha, a IU ameaça implodir e o PSOE surge nas sondagens em terceiro lugar, com uma votação muito inferior aos valores tradicionais.»

 

Teresa Ribeiro: «No escritório:

- Estive hoje com a Tânia.

- Ai sim, então como é que ela está?

- Cheia de problemas, coitada.

- Por causa da besta do namorado?

- Pois.

- Mas porque é que ela não o deixa?

- Já esteve a fazer contas e não dá. O ordenado não lhe chega para pagar casa e faculdade sozinha.

- Então por que não volta para casa dos pais?

- Os pais estão a viver na terra, em casa dos avós, porque lhes penhoraram a casa.»

Um ano com D. Dinis (1)

Lavrador, Trovador, Legislador, etc.

Cristina Torrão, 30.01.25

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No passado dia 11 de Janeiro, publiquei aqui uma fotografia do busto de D. Dinis, depois de ter sido feita a reconstrução do seu rosto. Entretanto, e como há gente que, como eu, se entusiasma por estes assuntos, encontrei esta foto-montagem, no Facebook, que lhe dá mais majestade. Penso, assim, ser mais fácil admitir haver D. Dinis tido este aspecto, nos últimos anos da sua vida.

A reconstrução do rosto do rei-poeta foi apresentada no dia 7 de Janeiro, por ocasião dos 700 anos da sua morte, depois de terem sido analisados os seus restos mortais. E no decorrer deste ano, estão previstos vários eventos que recordarão e darão mais informações sobre este importante monarca.

Ora, em 2016, eu criei um blogue para ir acompanhando D. Dinis ao longo de um ano, realçando datas importantes do seu reinado. Passou, porém, despercebido e decidi, agora, aproveitar muito desse material para igualmente fazer de 2025 um ano de D. Dinis, aqui no Delito. Tendo falhado este mês que está a chegar ao fim, começarei a recordar essas datas a partir do próximo, ficando Janeiro para 2026.

D. Dinis é conhecido por ter sido poeta, fundador da Universidade portuguesa (aliás em Lisboa e não em Coimbra) e mandado plantar o pinhal de Leiria, o principal motivo para lhe darem o cognome de Lavrador.

Na verdade, o sexto rei de Portugal não terá mandado plantar apenas aquele pinhal. Na Idade Média, gastavam-se quantidades exorbitantes de madeira e o desaparecimento das florestas era já um problema. O pinheiro bravo é das árvores que mais rapidamente crescem e, por isso, D. Dinis teria optado pela sua plantação em vários locais. Além disso, foi um grande impulsionador de todo o tipo de agricultura.

Mas o cognome de Lavrador não lhe faz justiça. D. Dinis foi igualmente um grande impulsionador do comércio, da pesca, da exploração mineira e um extraordinário legislador, além de ter expandido a fronteira portuguesa para leste do Guadiana, conseguindo ainda a inclusão da região de Ribacoa no reino. A fundação da Universidade e a sua poesia não foram igualmente os seus únicos contributos culturais. Ao decidir adoptar o português como língua oficial dos documentos régios (que até à altura eram redigidos em latim, ou em galaico-português), D. Dinis contribuiu para a uniformização do idioma, dando condições para o seu desenvolvimento, pois diminuiu as enormes diferenças regionais. Pode-se dizer que, até ao início do século XIV se falavam várias línguas no nosso país. Dificilmente um nortenho entenderia um lisboeta, ou um sulista (e vice-versa). D. Dinis deu o primeiro passo para que a língua portuguesa se uniformizasse.

Ao longo deste ano, iremos conhecer melhor este monarca.

 

Nota: as minhas informações sobre D. Dinis baseiam-se na sua biografia, escrita pelo Professor José Augusto de Sotto Mayor Pizarro (Temas e Debates 2008).

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"Zé, então e como está aquilo em Moçambique?..."

jpt, 30.01.25

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(Venâncio Mondlane em Tete, julgo que ontem)

"Zé / Zezé, então e como é que está aquilo em Moçambique?...", perguntam-me diariamente amigos, agora que "as coisas" de lá se afastaram um pouco dos "escaparates" da imprensa. Substituídas por questões prementes, como a do deputado ladrão de malas - repararam como o Ventura, após o seu estupor inicial, agora aparece a reclamar-se "primeiro denunciante"?; as inanerráveis malfeitorias laborais dos bloquistas - face às quais o prévio vereador Robles surge como um simpático agente prenhe de empreendedorismo; a relativa inflexão de PNS sobre imigrantes - que põe os seus camaradas a clamar contra qualquer esforço alheio de adaptação às mundividências nacionais (a "cultura portuguesa", para se falar de modo simples) e o colunista-Expresso Raposo dispara(ta)ndo um lusotropicalismo actualizado: "para semos um V Império, que é um império-cais, onde o mundo pode atracar...", sim o homem escreveu isto; mais as demissões no núcleo governamental devido a trapalhadas privadas, recentes e actuais - mas quem escolhe estes tipos?; e, acima de tudo, o drama da "linguagem de rua" do treinador Lage. Já para não falar das minudências que ocupam os espaços mortos dos telejornais e comentários, o frenesim trumpiano, aquela maçada de Gaza, e a cansativa exigência de Putin em defender o "espaço vital" da sua Mãe Rússia, para se falar como a intelectual Mortágua...

Enfim, com tudo isto a gente distraiu-se de Moçambique. Eles também já estavam a abusar da nossa paciência, é certo... Por isso as perguntas dos meus amigos, essa repetida "Zé / Zezé, então e como é que está aquilo em Moçambique?...", até porque interrompi a saraivada de postais sobre o assunto (os quais sublinho pela sua divulgação telefónica, para aborrecimento de alguns deles, presumo). Costumo responder que talvez seja melhor ouvirem o que dizem sobre o assunto os nossos antigos ministros, reciclados em facilitadores de negócios e até administradores das grandes empresas - "não lhes escrevas os nomes", "não te metas com esses gajos", "não ganhas nada com isso", avisam-me amigos, não tão juniores assim...

Então, e para responder a esses amigos que se foram interessando pelos destinos daquela minha Não-Pátria, resumo o que sei: o candidato Venâncio Mondlane regressou ao país e anunciou três meses sem manifestações  (deu os consuetudinários "100 dias de estado de graça" ao novo governo). O partido Frelimo nomeou um novo executivo, com tantos membros oriundos do anterior poder que aparenta ser de continuidade ("uma evolução na continuidade", como diria Marcello, o original). A mortandade entre os militantes oposicionistas nas localidades - incluindo jornalistas - terá amansado, mas não abundam as investigações sobre a responsabilidade dos desmandos sanguinários dos últimos meses. Ainda assim, de quando em vez a polícia usa de violência seguindo-se represálias populares, algo significativo em especial aquando no Sul de país, antiga zona monopólio de implantação frelimista.

Entretanto, a predisposição para entabular conversações com o oposicionista Mondlane, que fora enunciada pelo novo presidente, ainda não se concretizou, e segue o poder Frelimo na sua muito habitual postura esfíngica - "índica", como muitos referem, em particular os dirigentes socialistas portugueses quando em "visitas de Estado" e que agora se arrepiam ao ouvir falar de algumas características comuns às mundividências e práticas portuguesas (mais depressa se apanha um mariola do que um paraplégico, como é consabido...). Os velhos partidos oposicionistas, Renamo e MDM, que se haviam recusado a integrar o novo parlamento estão já a arranjar as micas, dossiers e as pastas de executivo para assumirem lugares.

Nisto Venâncio Mondlane, que se autoproclamara "presidente do povo", encetou uma digressão, uma ronda de "presidências abertas", por assim dizer... Recebo imagens de uma curta visita ao Hospital Central de Maputo, causando um enorme júbilo entre os ali situados. E de gigantescos banhos de multidão em Bobole - perto de Maputo - e em Tete, a Norte. Situações que muito denotam com quem está o povo, a quem o povo apoia. Por mais que custe aos "empreendedores" lusos. E a alguns outros.

Adenda: no sábado (dia 1 de Fevereiro, às 16 horas) estarei na biblioteca municipal de Setúbal, instituição que teve a gentileza de me convidar para falar sobre o meu livro "Torna-Viagem". E, quem sabe, pois dependendo do interesse dos que comparecerem, depois de tentar impingir a colecção de crónicas (2/3 das quais decorrem naquele país) poder-se-á falar um pouco sobre "como está aquilo em Moçambique". Se algum dos leitores do Delito de Opinião estiver nas cercanias será um prazer vê-lo por lá.

Disparo sem pólvora

Pedro Correia, 30.01.25

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«Já dizia Sun Tzu há quatro mil anos: o bom general é aquele que ganha uma guerra sem disparar um tiro.»

Agostinho Costa (CNNP 24 de Junho de 2023) 


Pergunta:

Sun Tzu seria visionário? Já falava em "tiros" milénio e meio antes da descoberta da pólvora.

Resposta:

Sun Tzu viveu no século VI a. C. «É fazer as contas», como dizia o outro. Há 2600 anos. Nada a ver com «quatro mil».

Há majores-generais com muita falta de pontaria: não acertam uma...

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 30.01.25

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Helena Sacadura Cabral: «Muito por onde escolher. Um mundo que vai do 38 ao 48. O problema não está no número mas sim na forma como nos servimos dele. É o começo da abertura da moda a modelos mais reais. Que, ao mesmo tempo que nos fazem lembrar as pinturas de Rubens, nos permitem encarar o nosso corpo com maior auto estima.»

 

José António Abreu: «Depois da tristeza que constituiu a perda da liderança do Bloco, estes são os dias felizes de João Semedo. Depois da tristeza que constituiu a prisão de Sócrates, estes são os dias felizes de Mário Soares. Depois da tristeza que constituiu o 'assassinato' dos Kouachi e de Coulibaly por parte da polícia francesa, estes são os dias felizes de Boaventura Sousa Santos.»

 

Luís Naves: «Não é preciso muito esforço para compreender que o novo governo de Alexis Tsipras pretende levar a Grécia a abandonar a zona euro, não hesitando em fazer exigências que os europeus não podem cumprir. (...) A Grécia recusa-se a negociar com a troika, ameaça torpedear as sanções europeias à Rússia e, cereja em cima do bolo, aprovou um salário mínimo que torna impossível a assinatura de empréstimos europeus por vários países onde os salários médios são muito inferiores. As pessoas já se esqueceram, mas um governo eslovaco foi derrubado num resgate anterior à Grécia. O problema do Syriza é que três em cada quatro eleitores dizem estar contra a saída da zona euro. A única maneira de atingir o objectivo é convencer os europeus a empurrarem a Grécia para fora.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «A minha zona de conforto fica em casa. A minha zona de conforto não é pública. (Não há liberdade sem escolha. Não há liberdade sem afirmação política. E é-me infinitamente mais querida a liberdade, ainda que dolorosa, do que o mainstream) O Delito de Opinião é uma afirmação de liberdade fora da minha zona de conforto.»

Latim: língua morta?

Pedro Correia, 29.01.25

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Cena do filme Júlio César (1953), com Marlon Brando

 

Há pouco tempo, um daqueles leitores que adoram falar sobre o que desconhecem garantiu aqui que hoje «já ninguém quer saber do latim para nada».

Está equivocado. Todos os que proclamam a inutilidade do latim como «língua morta» usam palavras e locuções latinas no dia-a-dia. Por vezes até sem se aperceberem disso.

Nas últimas duas semanas, anotei estas, lidas ou escutadas no espaço público. São mais de cento e vinte:

 

a latere

a posteriori

a priori

ab initio

ad aeternum

ad hoc

ad hominem

ad infinitum

ad lib(itum)

ad nauseam

alea jacta est

alter ego

alma mater

alumni

annus horribilis

audaces fortuna juvat

aurea mediocritas

avis rara

bis

bona fide

campus

carpe diem

casus belli

census

citius altius fortis

Cogito, ergo sum

coitus interrumptus

consummatum est

continuum

contra naturam

credo

cum laude

curriculum vitae

delirium tremens

de jure

delirium tremens

de profundis

Deo gratias

Deus ex machina

dixit

dura lex, sed lex

e pluribus unum

ecce homo

errare humanum est

etcétera

ex-aequo

ex libris

facies

fiat lux

finis patriae

forma mentis

grosso modo

habeas corpus

habemus Papam

habitat

homo erectus

homo homini lupus

homo sapiens

honoris causa

idem

in absentia

in dubio pro reo

in extremis

in illo tempore

in loco

in memoriam

in vino veritas

in vitro

inter pars

ipsis verbis

ipso facto

lato sensu

mare nostrum

mea culpa

memento mori

mens sana in corpore sano

modus faciendi

modus operandi

motu proprio

nec plus ultra

numerus clausus

Opus Dei

quo vadis?

panem et circenses

pari passu

pater familiae

per capita

per se

persona non grata

post factum

post mortem

post scriptum

praxis

pro bono

quid pro quo

quis juris

quod erat demonstrandum

quorum

reductio ad absurdum

reductio ad Hitlerum

requiescat in pace (RIP)

rigor mortis

semper fidelis

sic

sic transit gloria mundi

sine die

sine qua non

statu quo

stricto sensu

sui generis

tempus fugit

ultima ratio

ultimatum

urbi et orbi

vacatio legis

vade retro

veni vidi vici

versus

via crucis

vice versa

vox populi

 

Certamente os leitores do DELITO se lembrarão de mais.

Não está mal, para uma «língua morta».

 

Leitura complementar: Ela estava lá.

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 29.01.25

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Hoje lemos: Nguyen Phan Que Mai, "Quando as Montanhas Cantam".

Passagem a L'Azular: “Nos  livros escolares, não encontrará nada sobre a Reforma Agrária nem sobre as lutas internas do Viet Minh. Uma parte da história do nosso país foi apagada, juntamente com a vida de inúmeras pessoas. Estamos proibidos de falar sobre acontecimentos relacionados com erros passados ​​ou com acções ilícitas de quem está no poder, pois dão-se o direito de reescrever a história. Mas já se tem idade suficiente para saber que a história se escreverá na memória das pessoas e, enquanto essas memórias viverem, podemos ter fé de que podemos fazer melhor.”

E se não nos acautelamos, nos livros escolares não encontraremos nada do que aprendemos, porque os livros escolares reflectem cada vez mais uma linha de pensamento que quer esponjar o passado, como se o passado, a história de todos nós, tivesse sido sempre envolto em trevas, pecados e horrores indescritíveis. E com o passar do tempo, até nós seremos esponjados das recordações dos nossos netos e bisnetos, por sermos obsoletos, irreais e ameaças à verdade única, aquela superior e inigualavemente  ministrada desde o berço. A fonte de todo o saber.

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 29.01.25

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Helena Sacadura Cabral: «Agora é que as reais dificuldades vão começar. Mas, entretanto, o governo já aprovou medidas cujo financiamento não está garantido no quadro da manutenção da Grécia na zona euro. Irá o país ter a coragem de voltar à moeda nacional com todas as consequências que tal arrastará? E terá a comunidade europeia a coragem de deixar sair este seu membro?»

 

José António Abreu: «O desvelo dos socialistas nacionais para com a vitória do Syriza não configura apenas oportunismo mas também um erro monumental. Se a Grécia entrar em colapso ou tiver que recuar nas políticas anti-austeridade, nem os favores de que continua a gozar na comunicação social serão suficientes para disfarçar a perda de credibilidade de António Costa. (Ironia assinalável: a fuga de capitais dos bancos gregos mostra que existe por lá bastante gente menos crédula do que os socialistas portugueses.) Mas se o governo de Tsipras conseguir forçar uma mudança de rumo na União Europeia, então o PS tornar-se-á irrelevante.»

 

Eu: «Na prática, Atenas rasga o Tratado de Maastricht, que criou o sistema monetário europeu estabelecendo um conjunto de direitos e deveres aos estados signatários, e o Tratado Orçamental, que impõe limites à expansão do endividamento na UE. Lança assim novas achas na imensa fogueira da dívida pública grega ao prometer um pacote de gastos desmesurados com dinheiro que não tem. Exigindo o impossível com a sonora retórica da esquerda pura aliada à vibrante oratória da direita dura num país que representa menos de 2% do PIB comunitário.»

Pela Europa 2

Cristina Torrão, 28.01.25

Em França, há cada vez mais plantações de colza. Nunca li nada sobre o assunto, mas parece-me que têm vindo a substituir as de girassol. Também da colza se faz um óleo alimentar muito bom e saudável, adequado a todo o tipo de cozinhados. Há muito que uso o óleo de colza (além do azeite), pois, na Alemanha, abunda esta planta, o que torna o produto barato. Deduzo que a colza seja robusta, pois aguenta Invernos muito rigorosos. Talvez seja esta a razão para se ter imposto ao girassol.

Quando vim para a Alemanha, em 1992, já havia colza (que eu nem conhecia). Mas só nos últimos anos a observo em França. E começa a haver igualmente na Espanha.

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