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Convidado: LUÍS NAVES

por Pedro Correia, em 06.08.10

 

Crítica dos críticos

 

Muito agradeço este desafio de escrever um texto como convidado do Delito.

Tive dificuldade em escolher um tema, até assistir no São Carlos à récita de Eugene Onegin, de Tchaikovsky. O espectáculo teve a concorrência do Alemanha-Inglaterra do campeonato do mundo de futebol e talvez por isso a pequena sala do teatro não tenha esgotado. Ou terá sido assim? Os espectadores assistiram a uma récita memorável. Orquestra, cantores, maestro, encenação. Nenhum destes elementos teria destoado em qualquer bom teatro europeu. E no final o exigente público do São Carlos aplaudiu de pé.

O futebol talvez explique alguns dos lugares vazios na sala, mas temo que haja outra justificação para as lacunas: as críticas pouco positivas. Para mim, foi claro que as críticas não corresponderam ao que vi, que os textos foram injustos e afastaram público. E sei que escrevo uma espécie de heresia, pois em Portugal os críticos estão para além da crítica.

 

É considerado de mau tom responder a críticas negativas. Interpreta-se como forma de pressão do autor sobre a liberdade intelectual do crítico. As interferências são tidas como censura. As pessoas confundem a opinião pessoal expressa em conversas sem consequência com opinião influente que determina a sorte de um trabalho. Há situações de difícil explicação, de bons espectáculos que só recebem críticas negativas, como foi o caso. A maior fatia dos textos é dedicada a tentar encontrar defeitos que nunca existiram ou, no caso de artistas jovens, a fasquia está mais alta, por muito bom que seja o trabalho deles.

Na história da crítica há exemplos de opinadores influentes que não perceberam a importância de um movimento estético inovador ou de um artista que viria a ser importante. Recentemente, li uma revista literária antiga e espantei-me com os ataques que os críticos consultados então dispensaram a António Lobo Antunes, escritor que hoje nenhum crítico se atreve a analisar de forma negativa.

 

O erro faz parte do sistema, mas aqui existe outro fenómeno. Para explicar melhor, recorro à analogia do futebol. Em Portugal, as televisões têm programas de crítica futebolística onde os analistas (os mesmos há anos) não têm relação anterior com o desporto ou conhecimentos especiais sobre o tema.

Não sabendo mais do que o comum dos mortais sobre futebol, sendo apenas bons oradores em televisão, estes analistas representam clubes e desfazem reputações. A sua influência junto dos adeptos é enorme porque eles podem falar horas a fio.

O interessante em tudo isto é que as previsões destes comentadores raramente acertam. Enfim, pelo menos não mais do que as minhas, que aprecio futebol mas não sei distinguir uma transição de um remate de meia-distância. Então, o que justifica o pedestal para estas figuras? O seu estatuto intocável? Embora reflictam apenas respeitáveis opiniões de cidadãos comuns, os infindáveis programas de crítica futebolística estão para além da crítica.

Recentemente, as televisões inovaram e começaram a colocar em antena pessoas que sabem deste jogo. A linguagem é hermética, alguns falam de cátedra, mas o resultado é melhor. Acho que os jornais deviam seguir este exemplo nas críticas sobre arte e regressar a uma prática que já foi a norma: quem escreve críticas sabe com profundidade do que escreve.

 

Luís Naves


3 comentários

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De Pedro Correia a 06.08.2010 às 12:39

Viva, Luís. É um gosto ver-te por cá. E tens toda a razão no que escreves sobre a arte e os críticos.
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De João Carvalho a 06.08.2010 às 12:48

Bem-vindo, meu caro.

Acho que a crítica, hoje em dia, pode talvez dividir-se entre os falsos críticos (a maioria) e os que são críticos por saberem do que falam.
Os primeiros abundam por aí. Falam, escrevem e tornam a falar e tornam a escrever. São vazios, mas nem sempre são inconsequentes, como deviam ser. Infelizmente.

Os que sabem estão em vias de extinção, provavelmente porque se sentem livres para destoar. Por isso, são paulatinamente silenciados. Restam certamente alguns, confinados pela maioria aos sectores mais distanciados do grande público.

Em conclusão:
- queremos ir a um restaurante ou a um filme que os críticos gabaram, mas o risco é evidente, porque nenhum hoje em dia se atreve a dizer sem rodeios que comeu mal, que foi mal servido, que teve uma mosca na sopa, etc., que o realizador não teve meios, que a fita é comercial para ter sucesso de bilheteira, que ficou desiludido;
- só podemos confiar na crítica se estivermos virados para a ópera ou para o golfe e pouco mais.

Um abraço, Luís.
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De Ana Vidal a 06.08.2010 às 19:08

Gostei, Luís. A sacralização dos críticos, essa espécie de habitantes do Olimpo que não pode ser contestada, é muito mais prejudicial à arte do que é útil a informação que prestam ao comum dos mortais com as suas opiniões. Irrita-me sempre quem se julga imperador de Roma, erguendo ou baixando o polegar ao trabalho dos outros como coisa indiscutível.

E gostei de vê-lo por cá. Parabéns pelo novo blogue, que vou espreitar sempre que puder.

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