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Delito de Opinião

A propósito da condenação de Seixas da Costa

jpt, 27.09.22

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Seixas da Costa, à esquerda, e seu advogado no início do julgamento no Tribunal do Bolhão a 11 de março, fotografia de Artur Machado / Global Imagens

O antigo diplomata - e também bloguista - Francisco Seixas da Costa foi agora condenado por "difamação agravada" ao treinador de futebol Sérgio Conceição. É um tema interessante, que me toca bem de perto, o que me leva a este postal.  Em primeiro lugar, friso que nenhuma simpatia tenho pelo agora condenado: uma das minhas grandes amigas, hoje em dia já embaixadora, trabalhou sob a sua direcção e tece-lhe os maiores encómios, pessoais e profissionais. Mas não esqueço que ele foi um enérgico activista do socratismo, o que considero ser uma nódoa indelével na pessoa pública. Quanto ao queixoso, e por mais que me irritem os seus modos e, talvez acima de tudo, os seus sucessos, a minha costela futebolística impede-me de esquecer a enorme alegria que um dia ele me proporcionou, algo pelo qual ainda lhe estou reconhecido. Mas o que me convoca a atenção não é o que penso (ou sinto) sobre os intervenientes. É sobre o fundo da questão, e também sobre os trechos de retórica jurídica que os jornais ecoam. E pelo que me aviva a experiência própria.

Pelo que leio Seixas da Costa foi condenado por no Twitter ter chamado "javardo" a Conceição. Alguns pontos iniciais isso me levanta. Leio agora que o tribunal considera negativo que o tenha feito "não (...) durante um jogo no estádio; escreveu-a por trás de um computador, quando tinha tempo para refle[c]tir". Isto é uma extraordinária demonstração da superficialidade do pensamento dos juristas envolvidos (espero que isto não seja passível da instauração de um processo), pois significa que consideram menos gravoso o insulto público - em estádio - quantas vezes em interacção pessoal directa, e ainda mais vezes potencialmente indutor de comportamentos colectivos agressivos. verbais e até físicos, do que uma mera interjeição proferida na efectivamente vácua "nuvem" internética, desprovida de qualquer dimensão potencialmente causal. E sobre a efectiva inadmissibilidade das agressões verbais nos estádios de futebol botei eu neste meu postal "Viva o treinador adjunto de Sérgio Conceição": defendendo veementemente o treinador portista e sua equipa técnica e invectivando os "javardos" adeptos do meu Sporting. No qual disse, explicitamente, "não é legítimo (legal) ir a um local de trabalho insultar os trabalhadores. Como um campo de futebol." Parece que para os juristas do tribunal do Bolhão será...

Um segundo ponto sobre a retórica e o ponderar que foi exarado. O jornal cita "É diferente dizer que é grosseiro ou que é javardo. Podia ter dito tudo o que disse sem ter usado a expressão em causa. Aqui mostra-se a linha que não se deve ultrapassar.". Ora isto é inaceitável. Por mais que isto possa parecer adequado ao senso comum, o culto de um "bom gosto", de uma "boa educação", não é ao Estado - e ao seu sistema jurídico - que compete estipular as "fronteiras" da semântica adequada - e até um feroz estatista como o socialista Seixas da Costa concordará com isto.

Ou seja, nós podemos e até devemos ser sancionados se caluniarmos alguém, se errada ou malevolamente atribuirmos atitudes ou intenções a outrem. Mas estas reclamações jurídicas relativas a injúrias ou aquela nebulosa "difamação" são meras sobrevivências de outros tempos. Pois a proclamada "honra" (esse velho e reaccionário valor nobiliárquico) que a justiça afirma defender com estas condenações, não se coloca acima da fundamental liberdade de expressão, por formato mais deselegante que esta possa assumir - até porque, mas não só por isso, por vezes os termos mais "pesados", um léxico mais plebeu (lá está, a âncora sociológica das punições jurídicas) representam exactamente aquilo que sentimos ou pensamos. E por isso mesmo os acusados de "difamação" ou de "injúrias" que têm recursos económicos e paciência recorrem das sentenças que os vetustos tribunais portugueses exaram, vão de estrado em estrado endógeno e, depois, até Haia. E ganham. Claro que após anos a fio e, repito, de pesados encargos económicos e morais.

Esta notícia tocou-me pessoalmente pois há algum tempo fui alvo de um processo similar instaurado por um correligionário de Seixas da Costa. Ao tomar conhecimento do processo fiquei estupefacto. A minha advogada disse-me ali ter encontrado apenas "liberdade de expressão" mas logo me avisou ser evidente que eu iria ser acusado e condenado. E que poderia recorrer, processo que levaria anos em curso. Aconselhando-me a aceitar a culpabilidade. Assim, desprovido de recursos económicos para sustentar assistência jurídica e - confesso a custo - de coragem moral para enfrentar anos de embate jurídico, ainda por cima face a um dos próceres do regime socialista, anuí (lembro que com ridículas lágrimas de raiva nos olhos) a uma suspensão do processo, em troca de um pagamento, que foi ponderado em 200 euros a doar a uma instituição à escolha do tribunal.

A causa dessa punção que sofri foi este meu postal. Aceito, um texto algo desabrido, com termos ríspidos desnecessários - até porque significaram que "dei o flanco". Mas também por outra razão, pessoal - há alguns anos a minha filha, então ainda adolescente, coligou-se com a minha irmã, exigindo-me a depuração lexical no bloguismo, e disse-me com uma total pertinência: "ó pai, um cavalheiro não fala assim!". Haverá melhor argumento censor do que esta filial imagem do seu pai? É certo que há termos que ajudam a resumir o que pensamos, que bem substituem um parágrafo inteiro. E como me dizem palavroso - e ainda agora vizinhos me disseram isso a propósito de um texto sobre o café do bairro - muitas vezes tendo a socorrer-me dessa bengala sulfurosa. Mas convém utilizá-la com parcimónia e, acima de tudo, "cautela e caldos de galinha" enquanto a Justiça portuguesa não se actualizar. Ou seja, continuo a dizer que quem exerce funções governativas com impertinência, quem no parlamento confunde artistas com terroristas assassinos, e quem é solidário até à última instância com o problemático José Sócrates, não é agregável ao topo da hierarquia jurídica nacional. Mas, e repito-me mais uma vez (palavroso, dizem-me), face às concepções vigentes na Justiça nacional há que doirar a pílula verbal, evitar a tal adjectivação ácida.

Finalmente, e em suma, algo concordo com Seixas da Costa (malgré tout): às vezes pedir desculpas é demais. Chapeau...

Ambiente de trabalho VIII

Teresa Ribeiro, 27.09.22

A glorificação do empreendedorismo abriu caminho à proletarização do trabalho intelectual. A partir do momento em que a iniciativa empresarial se transformou em valor supremo, os dependentes, aqueles que pela sua natureza ou pela natureza do seu trabalho exercem a sua profissão por conta de outrem, passaram à condição de subalternos, independentemente do seu nível de competências.

Esta simplificação, que dividiu o mundo do trabalho em dois, colocou do lado dos assalariados um conjunto indiferenciado de profissionais, de cientistas e arquitectos, a trolhas e empregadas de limpeza. Segundo esta nova ordem, passaram a equivaler-se, na medida em que uns e outros não detêm o único e verdadeiro poder, o do dinheiro.

A curva descendente que levou a que a maioria dos licenciados passasse a ganhar salários absolutamente desajustados do seu nível de preparação e conhecimentos começou com esta desvalorização social indiferenciada dos assalariados, algo que conduziu à desvalorização profissional e correspondente descida de salários.

O argumento de que os impostos são elevados para quem contrata, sempre usado pelos empregadores para justificar porque pagam tão mal, não explica a existência neste país de um fosso cada vez maior entre pobres e ricos. A falta de ética, sim.

Até porque não é só de salários baixos que se faz esta nova cultura empresarial. As ilegalidades são uma constante e praticam-se com crescente despudor. A avaliar pelos casos de abuso que me vão chegando aos ouvidos, através da geração que na minha família está a entrar no mercado de trabalho e da sua rede de amigos, e de amigos de amigos destes, percebo até que ponto a cultura do trabalho, no país, se tem degradado. Há já quem queira admitir jovens licenciados à experiência sem lhes revelar o salário que pretendem pagar e a partir de quando; há quem anuncie sem embaraço que “nas semanas em que há feriado, o feriado conta como folga”; o hábito de pagar um x por debaixo da mesa está instituído; o pagamento de horas extraordinárias está fora de questão; o aumento de salário, idem; o direito a “desligar” à noite e aos fins-de-semana não é sequer tema de conversa. Não admira que os jovens estejam a fugir deste país ao ritmo a que fugiam da guerra colonial nos anos 60.

É a economia? A inépcia de quem nos tem governado? Sim, mas também esta falta de civismo, tão tuga. O oportunismo sonso dos muitos que podiam contribuir para o aumento do salário médio em Portugal, mas que aproveitam os saldos para comprar “talento” ao preço da uva mijona. O talento de que precisam para manter os seus projectos de pé. Porque o espírito de iniciativa não é tudo. Mas isso, claro, quando reconhecem, é no tom paternalista que reservam ao elogio dos subalternos.

Hoje é dia de

Maria Dulce Fernandes, 27.09.22

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Hoje celebra-se O Dia Mundial do Turismo

​​​​"Este dia enaltece o valor social, cultural, político e económico do turismo. Tanto as economias desenvolvidas como as economias em desenvolvimento foram duramente atingidas pelo covid-19. O turismo foi muito penalizado, mas poderá contribuir agora para a recuperação económica
 
A Organização Mundial do Turismo, enquanto agência especializada das Nações Unidas, pretende valorizar o turismo como pilar no combate à pobreza e à redução das desigualdades."
 
Todos somos turistas pelo menos uma vez na vida. Ir para fora cá dentro também é fazer turismo. É verdade que a pandemia abalou os alicerces do turismo português em 2020, mas a recuperação foi visível em 2021 e em 2022 voltámos a ser um destino turístico de eleição. Apesar das nuvens que cobrem o leste da Europa, acredito que o turismo continuará em alta, porque, por muito que a vida encareça para os portugueses, o resto do mundo consegue fazer férias de grande qualidade em Portugal.
 

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Hoje assinala-se O Dia Europeu do Desporto Escolar

"Esta é uma iniciativa da União Europeia integrada na Semana Europeia do Desporto. Teve início em 2015 e visa promover o desporto no nosso continente através de um conjunto alargado de actividades dirigidas a toda a população, independentemente da idade ou do nível de preparação física."

 

A actividade física sempre marcou o ensino nacional (com grande pesar meu, que nunca fui dada a fisicalidades) pela positiva. Vejo pelos meus netos o quão importante é interagir e integrar-se em equipas, nas aulas de ginástica ou natação, por exemplo. 

 

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27 de Setembro é O Dia do Leite com Chocolate

"Esta bebida agora existente em qualquer pastelaria ou café tem origem na Jamaica. O mercado global de leite com chocolate deve crescer a uma taxa de 3,6% até 2024.

As bebidas de chocolate tiveram fins medicinais ao longo da história. Em 1687, o botânico irlandês Hans Sloane foi nomeado médico do Duque de Albemarle, na Jamaica. Naquela terra, Sloane conheceu a água de chocolate e tendo achado as bebidas muito amargas e acrescentou leite para lhe dar gosto. Devido à  posição, foi autorizado a trazer essa bebida para a Europa, onde começou a pregar os seus benefícios medicinais e vendê-la para boticários.

A popularidade do leite com chocolate foi aumentando sempre a partir daí. Hoje é uma das bebidas mais populares do mundo."

 

Bem quentinho, com uns pozinhos de noz moscada e natas, numa noite fria nos arredores de Braga, por exemplo, debaixo de um magnífico céu estrelado, embrulhada num polar, não tem como ter pensamentos tristes, taras são as endorfinas que nos percorrem.

(Imagens Google)

A outra face de Serralves

Ana CB, 27.09.22

Oito e meia da tarde e já está escuro, embora o céu ainda tenha aquele tom anilado típico das noites quentes de Verão. Estamos a entrar no Outono mas não se nota nada, há três dias que estou no Porto e ainda não vesti um agasalho.

 

Apesar do horário pouco usual para uma visita, o portão norte de Serralves está aberto e vão entrando pessoas, aos pares ou em pequenos grupos. O ambiente é tranquilo, um segurança indica que a entrada é mais abaixo, outro pega nos bilhetes e faz-lhes um corte. Serralves está em luz e é altura de conhecer uma face diferente deste mundo, aquela que nunca vi – a sua face nocturna.

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Quando comprámos os bilhetes deram-nos um livrete que explica a exposição, o seu percurso e as várias instalações, mas ignorei-o propositadamente. Prefiro ir à aventura, desconhecendo o que me espera, para não ter ideias preconcebidas e simplesmente sentir o que vou ver e viver. Gosto das experiências cruas, de não saber o que me aguarda, ou saber só o essencial. Mesmo quando preparo as minhas viagens, nunca vou esmiuçar tudo ao pormenor. Sei que há um qualquer sítio que pode ser interessante, marco-o nos meus planos, mas resguardo-me para o factor surpresa.

 

O início do percurso é psicadélico, uma alternância rápida de cores vivas que se reflectem em paredes claras e tubos dispostos em linhas enviesadas que se cruzam. Depois seguimos por um corredor definido por muros baixos de betão, e instala-se a calma. Atrás dos muros há árvores esquálidas iluminadas por focos de cor, e atrás delas a escuridão total. Sinto-me como numa porta de entrada para outra dimensão. Mais à frente, nova mudança de ambiente, esta o negativo da anterior: as árvores são agora silhuetas negras sobre o fundo feérico de cores quentes que tinge a parede do museu, e a janela da biblioteca brilha como um farol.

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O ritmo do passeio é lento, a noite pede sossego e até as vozes baixam de tom. O ar está morno e parado e uma neblina leve desfoca ligeiramente tudo o que me rodeia. Sigo o percurso marcado, algo monótono nesta primeira parte, uma sucessão de árvores e arbustos alumiados a espaços, alternando com zonas de negrume. Há uma banda sonora de fundo, sons musicais que me parecem provir de taças tibetanas, e de vez em quando aparece uma instalação luminosa: o roseiral, declinado em roxo, vermelho e azul intermitentes; o corte de ténis, onde se alinham campânulas de vidro com feixes de luz interactivos, que se movem verticalmente quando os cruzamos – como soldados perfilando-se em sentido à passagem do seu comandante; aros fluorescentes desenhando o contorno dos troncos de gigantescos eucaliptos; linhas de luzes que unem várias árvores acima da minha cabeça, a fazerem lembrar teias de aranha (li depois que a ideia é evocarem as micorrizas, as “ligações entre redes de fungos e as raízes das árvores e plantas”, mas a minha impressão não desapareceu).

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A tranquilidade é quebrada ocasionalmente pela passagem barulhenta de um avião na sua descida para o aeroporto. O ruído e as luzes poderiam fazer parte da exibição, como elemento disruptor, mas são apenas uma coincidência que me transporta bruscamente para a realidade. Felizmente, apenas por alguns momentos. Fora isso, é a imersão total na atmosfera que me rodeia. Caminhar e sentir, caminhar devagar, parar de vez em quando para observar as instalações, tirar fotografias aos cenários criados pelo contraste entre a luz e a sua ausência, às pessoas prensadas em silhuetas bidimensionais. O parque de Serralves está transformado num mundo onírico e, tal como nos sonhos, não sei o que é que vai acontecer a seguir.

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Por entre o arvoredo surgem barras de luz que mimetizam um movimento circular, ora azuis, ora vermelhas, ora alaranjadas, às vezes transformam-se em pontos que me parecem estrelas. Só quando se iluminam todas ao mesmo tempo, brancas e muito brilhantes, é que me apercebo de que estou ao pé do lago. A composição luminosa foi colocada em torno da ilha, as árvores estão engolidas pelo escuro, e a água é uma superfície de breu que apenas reflecte as luzes da instalação, impotentes para iluminar o que as cerca. Mais ao lado, atrás das gigantes pernas de madeira do passadiço elevado, flutuam globos esféricos que mudam de cor, do branco-amarelado ao rubro, jogando às escondidas entre eles e connosco. A seguir subo até à Casa do Cinema por um caminho ladeado de bambus, cujo verde foi substituído por cores cálidas. Na fachada lateral do edifício é projectado um filme que mostra, a velocidade supersónica, silhuetas de elementos vegetais sobre rectângulos de tonalidades fortes roubadas ao arco-íris. O som que acompanha a projecção é uma espécie de martelar rítmico repetitivo e juntos, imagem e música, têm um efeito hipnotizante. Tivessem colocado um sofá naquele sítio e eu poderia ficar ali durante tempos infindos, sem dar por nada do que se passasse à minha volta.

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O percurso leva-me pelo arvoredo ao lado do parterre central. No meio dos troncos há paralelepípedos brancos, cuja iluminação realça as silhuetas dos ramos finos colocados no seu interior. E é ao descer pela alameda que conduz à fonte que tenho o primeiro vislumbre da Casa. Não a conhecesse eu já de outras visitas e teria muita dificuldade em a associar à imagem que vemos nas fotografias. A sua icónica cor rosa-salmão foi mascarada com azul-forte, as janelas e aberturas vibram em tons laranja, amarelo ou rosa – a Casa irradia felicidade, parece estar em festa, a aguardar convidados para uma soirée esfuziante de animação. O parterre é a passadeira vermelha por onde subo até ela, e a enorme escultura de metal negro de Rui Chafes (Comer o coração) que instalaram à sua frente pode bem simbolizar os seguranças que controlam a entrada no evento.

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Mas é só a minha imaginação a trabalhar. Na verdade, a esta hora a casa não está aberta ao público. Há, de facto, um segurança de carne e osso, mas a sua função é precisamente evitar qualquer equívoco, não vá alguém mais entusiasmado achar que pode entrar por ali adentro. O percurso é também muito explícito, com as setas a conduzirem os visitantes pelos caminhos que contornam o edifício. Passo por uma fonte banhada em luz verde-água, depois pelos arbustos podados que escondem no interior uma árvore e um banco de jardim, ambos envoltos na neblina audivelmente vaporizada por uma máquina e iluminada por um projector. Mais à frente, outra árvore está rodeada por uma cerca alta feita de espelhos, percorrida por luzes, que poderia facilmente passar por uma nave espacial. Lá dentro os espelhos replicam o tronco robusto até ao infinito, e as luzes multiplicam-se na sua lenta deslocação, cruzando-se ou chocando umas com as outras.

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Após a passagem por trás da Casa, o ambiente volta a transformar-se. Primeiro aparecem túlipas gigantes, rubras, espalhadas ao longo do caminho. Depois surge uma árvore-fantasma, de que só vemos o tronco parcialmente delineado por fios de luz azul. Até que desemboco no parterre lateral e sinto que entrei novamente num filme – talvez de ficção científica, ou talvez de terror. Da Casa iluminada, ao fundo, parecem emanar feixes de luz vermelha, rentes ao chão, como se ela estivesse prestes a erguer-se nos céus, viajando para outro planeta, ou então fosse habitada por um espírito demoníaco, lançando raios de fogo sobre os incautos que dela se aproximam.

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A realidade é bem mais prosaica. São apenas raios laser colocados junto ao solo, completamente inofensivos, que atravesso tal como os outros visitantes, convertida em simples silhueta negra ambulante, quiçá com movimentos de zombie. Já passaram duas horas desde que entrei em Serralves, o dia foi longo e o corpo ressente-se, os músculos e a coluna gritam por uma pausa para descanso. O percurso de três quilómetros está quase no fim. A alameda dos liquidâmbares, por onde é habitualmente feita a entrada no parque, leva-me agora até à saída. Também ela é atravessada por grupos de raios laser colocados nas árvores, ligando-as umas às outras. Os aspersores de neblina pulsam ruidosamente; fecho os olhos, e parece-me que são as próprias árvores a respirar. Abro-os e vejo a alameda embrulhada em azul; as luzes estão dirigidas para cima, para as copas ainda exuberantes com a folhagem que dentro de poucos meses terá desaparecido, e quase não vejo onde ponho os pés.

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Depois da The curious vortex de Olafur Eliasson (um dos autores do fantástico Harpa de Reiquiavique), que mal se adivinha, o piso é inundado pela cor vermelha, que cria sombras acastanhadas nos liquidâmbares; tal como vermelha é a cor da gigantesca Colher de Jardineiro (de Claes Oldenburg, falecido em Julho deste ano, e Coosje van Bruggen), uma das esculturas mais chamativas do Parque. A caminho do portão de saída, um último vislumbre da fachada do Museu, iluminado à maneira de um pôr-do-sol, e onde se recorta a escultura de Rui Chafes que dá nome à mostra dos seus trabalhos actualmente em exposição: Chegar sem partir.

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Serralves é um mundo onde coabitam algumas das minhas “coisas” preferidas: a natureza, a arte e a educação. Tive a sorte de visitar este mundo pela primeira vez quando o espaço tinha aberto ao público há poucos meses e a Casa ainda funcionava como museu. Ao longo dos anos o projecto cresceu e consolidou-se, e embora eu não seja visitante assídua, de cada vez que volto nunca fico desiludida. É sempre uma satisfação regressar a um local onde a cultura é tão bem tratada e descobrir, em cada vez, mais uma faceta deste mundo que consegue, por vezes, fazer-me viajar para outros mundos.

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 27.09.22

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Ana Margarida Craveiro: «Não estamos a falar de cortes, mas de roubo puro e duro. As Finanças não cortaram nenhuma gordura, limitaram-se a apropriar-se do pouco dinheiro que recebo por trabalhar.»

 

Fernando Sousa: «Não estou aqui, estou numa cama de um hospital, público, português, corre Setembro de 2012, já não tenho a inteligência ligada à saúde, apenas rezo, eu, que sempre achei a oração como um desperdício da razão, para que os médicos se tenham enganado, o que às vezes acontece, ou haja um milagre, o que também não é raro, ou então para que me apague como uma pessoa e não uma rubrica do Orçamento de Estado.»

 

João Carvalho: «Lembram-se quando havia um pote de ouro na ponta do arco-íris? Bons tempos...Ver a ponta do arco-íris à frente dos olhos já é invulgar.»

 

Luís Menezes Leitão: «Passos Coelho acha que, apesar da força da corrente que contra ele está, e apesar de "injuriado" continuamente, como se viu na própria sessão de homenagem, esforçando-se como o vento, através de "assopros", há-de conseguir "iradamente" fazer "vencer a grão corrente". O problema é a falta de fôlego, que há muito parece atingir o seu governo

 

Rui Rocha: «Tirando o corte com a afundação do Magalhães, o resto são 45.600.000€ (quarenta e cinco vírgula seis milhões de euros, assim por extenso que é para não haver dúvidas) e o mais é treta. Uma farturinha. Carrega, Passos.»

 

Teresa Ribeiro: «É preciso manter o foco. N sabe-o, mas os dedinhos dos neurónios estão sempre a puxá-la para baixo. Tempos houve em que se via como uma mulher de sucesso, eficiente no trabalho e despachada na cama. Agora envergonha-se das baixas sucessivas e para escapar a indagações isola-se. Já correu metade dos psiquiatras da praça, mas para aquela tristeza funda não há cura.»

Amor, amor

Maria Dulce Fernandes, 26.09.22

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No tempo do era uma vez, as donzelas eram belas, castas e prendadas, conquistavam o coração dos seus amados, encantados ou encantadores, e depois dum sem número de peripécias, angústias, terror e sofrimento, acontecia o final feliz, selado com um beijo do verdadeiro amor e eram felizes para sempre, tudo isto enquadrado num cenário idílico, com maravilhosos pores do sol, passarinhos a chilrear e arcos-íris no céu.

Quem não gosta dum final feliz?

Eu, que sou o paradigma da chorona carpideira, em tudo o que é filme, série, mini-série, novela, cartoon, livro, revista e jornal ou caderninho de Sudoku, e que deveria receber a medalha de honra e mérito na categoria de melodrama, eu, que “num dia daqueles” vibro com as histórias das Floribellas desta vida e gasto resmas, paletes de lenços de papel, torço sempre para que a princesa fique com o sapo e vivam felizes para sempre, com uma trupe fandanga de girinos atrás.

Como diria Lavoisier, na natureza nada se perde, tudo se transforma, e os tais finais felizes, à força de se renovarem, reinventarem e estarem sempre in, acabam muito mais in-felizes, do que se pretenderia.

No espaço dum mês servi de ombro amigo, tia emprestada, psicóloga, médica, expert em coisas do coração, confidente e mentalista, não a duas, mas a dois piquenos de coração estraçalhado, cujas princesas encantadas os arquivaram na categoria de sapos, e deram às de Vila Diogo, deixando-os a afogar as mágoas, ou melhor, a afogarem-se nelas.

Já não há donzelas como antigamente! Onde é que param as pálidas e etéreas criaturas, tão dependentes, tão frágeis como dentes de leão ao vento? Muitas estão na Universidade, outras trabalham; umas criam novas amizades com interesses em comum mais cativantes, outras puxam pelos galões de Femmes Fatales, entram numa onda de curtir a vida e originam verdadeiras cenas de faca e alguidar que, declamadas por João Villaret, fariam do Fado Falado uma cantiga infantil.

Eles, os que deveriam cavalgar meio mundo, armadura resplandecente e montados num corcel branco para proteger as suas donzelas, revelam-se criaturas invertebradas, fracas e tristes, quais D. Quixotes montados em paus de vassoura, que escorraçados pelas Dulcineias, ficam sem força até para dar um espirro.

Quando acabam os argumentos, ou partem para a ignorância, ou recorrem á compaixão. Coisa triste de se ver...

O que me dói mais é ver gente que não sabe estar, que não sabe ser gente sequer! Eu sou daquelas que antes quebrar que torcer e nunca, mas nunca me haviam de ver rastejar atrás de quem me enxotou. Diz Pascal que o coração tem razões que a própria razão desconhece, mas então e se a razão do coração não tem razão nenhuma?

Será possível que aquele fogo que arde sem se ver a que chamamos amor se resuma a uma reles anedota de novela de cordel?

Esta gente doida sabe lá o que é o Amor!

 

(Imagens Google)

Chéquia - Portugal (0-4): o futebol não é para mulheres

jpt, 26.09.22

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Anteontem assisti ao Chéquia-Portugal, jogo não só importante para a qualificação à fase final da secundária Liga das Nações mas também muito relevante para se aquilatar das capacidades da "equipa de todos nós", quando se apresta a cumprir o Mundial, ao qual já há meses o seleccionador Fernando Santos se apresentou como candidato à vitória.

Fiquei verdadeiramente surpreendido. Pois, ao invés do que se tornara hábito, antes do apito inicial os jogadores não se ajoelharam em gesto solidário. Como não o tinham feito durante a execução do hino nacional ou mesmo na realização do fotografia protocolar. Nenhuma atitude simbólica.

Ora há dias a iraniana Mahsa Amini foi assassinada pela polícia iraniana, devido a ter sido considerado incorrecta a forma como expôs os cabelos. Tal atitude das autoridades estatais provocou manifestações de repúdio naquele país, e até ao dia deste nosso jogo de futebol já haviam sido mortos pelo menos 36 pessoas pela polícia iraniana. E os nossos jogadores, que se vinham habituando a usar os jogos da selecção para saudavelmente exprimirem opiniões políticas de solidariedade internacional, deixaram-se mudos e quedos. Não há qualquer dúvida do sentido daquilo que os nossos campeões quiseram significar: "o futebol não é para mulheres!".

De qualquer forma, logo nesse início do jogo, fiquei mais capaz de compreender outras posições semelhantes. Pois ficara surprendido com a ausência de manifestações solidárias com Mahsa Amini, sua família e sua "comunidade", convocadas por instituições mais tendentes a estas causas solidárias, como os partidos LIVRE e BE. Tal como, talvez distraído e nisso relapso no folhear, notara a inexistência de textos veementes, e apelando à mobilização geral para esta "causa", publicados no jornal do grupo SONAE, este muito vinculado ao sempre solidário Bloco de Esquerda. E ainda me surpreendera por não ter visto ecos nas redes sociais - às quais ando um pouco alheado, dado um incómodo ciático que me acometeu e que tanto me impacienta - das habituais geniquentas feministas, da abissal Coimbra e não só, sempre lestas a contestar o heteropatriarcado normativo do explorador capitalismo ocidental. Enfim, de tudo isto retiro a confirmação da tal velha máxima: "o futebol não é para mulheres!".

Enfim, após aquela reflexão sobre questões de "género", lá vi os seguintes 89 minutos (+ tempo de compensação) do jogo da selecção. Esta está bem e recomenda-se. Espero que assim se mantenha, feita de homens talentosos, de barba rija e de máscula organização.

Hoje é dia de

Maria Dulce Fernandes, 26.09.22

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A 26 de Setembro celebra-se O Dia Mundial da Saúde Ambiental 

"Este ano o Dia Mundial da Saúde Ambiental comemora-se sob o tema “Priorizar a Saúde Ambiental para Comunidades mais Saudáveis na Recuperação Global” para assinalar a ligação que existe entre o ambiente, a saúde e a economia, assim como a importância de investir em soluções de recuperação económica verdes e saudáveis.

O Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, através do seu Departamento de Saúde Ambiental, faz investigações nas áreas da avaliação da qualidade da água e do ar, bem como na área da saúde ocupacional. Como sabemos, diversas doenças podem ser transmitidas através da água e do ar. É fundamental, por isso, reforçar a vigilância ambiental."

 

Cólera, hepatite, febre tifóide, rotavírus, toxoplasmose, legionella, gripe, sarampo, malária... vírus ou bactérias passíveis de serem transmitidas pela água que bebemos ou pelo ar que respiramos. No nosso PNV está prevista a Imunização contra a maioria destas maleitas, mas é no tratamento das águas que consumimos e das águas residuais que começa a verdadeira prevenção. 

 

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Nesta data assinala-se O Dia Mundial da Contracepção 

"Esta comemoração iniciou-se em 2007. Ocorre hoje em 70 países e tem como objectivo alertar a opinião pública para a importância da Saúde Sexual e Reprodutiva. Compete ao Estado garantir a educação sexual, o acesso ao planeamento familiar, e a assistência na interrupção de gravidez em condições equitativas e de segurança. 

Nas últimas décadas, temos assistido em Portugal a um crescimento constante do uso de contraceptivos e uma redução muito significativa no número de gravidezes não desejadas e do recurso ao aborto. 

Mesmo com limitações, as escolas portuguesas deram, a partir da década de 90, um contributo muito importante para esta mudança."

 

Aprender sobre a sexualidade e a contracepção nas escolas até há bem pouco tempo era tabu. Não só não deveria ser tabu, como deveria ser obrigatório, necessário e até fundamental. O excesso de puritanismo poderá implicar muito sofrimento desnecessário, a destruição de famílias e até perda de vidas.  

 

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Este é O Dia Internacional para a Eliminação Total das Armas Nucleares 

"Este evento que se assinala a 26 de Setembro desde 2018, por iniciativa da ONU, procura alertar para a necessidade do desarmamento nuclear a nível planetário. 

Este dia constitui um alerta muito especial para a ameaça à paz e à segurança que a utilização de meios nucleares significa.

Ainda existem cerca de 13.080 armas nucleares. Desde o fim da Guerra Fria nenhuma arma foi destruída ao abrigo de um tratado."

 

Quando visitei New York, comoveu-me tremendamente a estátua "O Bem Derrota o Mal", escultura alegórica de S. Jorge, o padroeiro de Portugal, a derrotar a besta nuclear do Apocalipse, que se encontra nos jardins da ONU, e ainda mais sabendo que tinha sido um presente da ex-URSS em 1990, como símbolo de um desarmamento acordado e cumprido após a Guerra Fria. Tanta gente trabalhou tanto para a segurança de todos, para apenas os desmandos de um doido virem pôr tudo mais uma vez em causa. E o mundo aguarda impassível.

 

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A 26 de Setembro assinala-se O Dia Europeu das Línguas

"Em 2001 celebrou-se pela primeira vez o Ano Europeu das Línguas (AEL), por iniciativa conjunta do Conselho da Europa e da Comissão Europeia, visando celebrar a diversidade linguística como uma riqueza do património comum da Europa a preservar. Foi ainda objectivo de AEL-2001 promover o multilinguismo e motivar os cidadãos europeus para a aprendizagem de línguas.

Foi, então, instituído o Dia Europeu das Línguas (DEL), que se celebra todos os anos a 26 de Setembro. As competências linguísticas são essenciais para garantir a equidade e a integração. Na actual conjuntura de crescente mobilidade, globalização da economia e tendências económicas em constante mudança, é mais óbvia do que nunca a necessidade de aprender línguas e desenvolver uma competência plurilingue e intercultural."

 

Comunicar é fundamental. Quando vou por aí numa das minhas viagens programadas e arquitectadas a dois, uma das primeiras coisas que aprendemos são as palavras e expressões  principais do dia a dia: bom dia, por favor, obrigada/o, com licença, água, comida, desculpe, etc. A partir daí as abordagens, indicações e interacções são sempre mais fáceis de conseguir e entender.

 

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Este 26 de Setembro é também O Dia Nacional do Farmacêutico

"O dia 26 de Setembro corresponde, no calendário litúrgico romano, ao Dia de São Cosme e São Damião, santos padroeiros da profissão farmacêutica. A data tem especial significado para os farmacêuticos portugueses, tendo sido adoptada, em 1989, como Dia Nacional do Farmacêutico. Desde então, a Ordem dos Farmacêuticos assinala a efeméride com a realização de várias iniciativas marcadas pela valorização do papel destes profissionais de saúde na sociedade.

A
s comemorações do Dia do Farmacêutico são organizadas todos os anos, de forma rotativa, pelas três Secções Regionais da Ordem e envolvem várias acções em diversos pontos do País."
 
 
As farmácias de bairro e seus funcionários desempenham um papel preponderante nas comunidades em que se inserem. Sabendo que os estabelecimentos são negócios como outros quaisquer, as pessoas que neles trabalham são muitas vezes o único apoio e a voz amiga que os idosos solitários, por exemplo, conhecem. Ajudam na obtenção de medicamentos a quem os não pode pagar e na assistência em casa, contactando juntas de freguesia e associações de auxílio, sendo de lá que partem amiúde os primeiros alertas de desaparecimento público.
 
 

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Hoje é O Dia Europeu do Ex-Fumador

Dia celebrado com o apoio da Comissão Europeia e a colaboração da Fundação Europeia do Pulmão, o "Dia do Ex-Fumador" procura sensibilizar o público para questões de saúde, sendo assinalado em várias capitais europeias. 

Esta primeira data de sensibilização para a saúde através da celebração da vitória dos ex-fumadores propõe como exemplo as 400 mil pessoas que procuraram deixar de fumar com a ferramenta de saúde gratuita iCoach, lançada no âmbito da campanha "Os Ex-Fumadores são Imparáveis", lançada em 2011. Lamentavelmente esta ferramenta online deixou de estar activa.

A nível dos países-membros da UE, Portugal ocupa o 4.º lugar entre os países que detêm mais utilizadores nesta ferramenta gratuita. Um em cada 100 fumadores portugueses já conhece e utiliza esta ferramenta de saúde."

 

Não sei se a ferramenta ajuda. Comigo nada ajudou, a não ser a família. Ah! E as pastilhas! Qualquer desconforto era preferível ao sabor nauseante das infernais pastilhas de nicotina.

(Imagens Google)

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 26.09.22

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Ana Margarida Craveiro: «Estive sempre convencida de que uma fundação era um legado para o futuro. Uma pessoa rica morre, e deixa os seus bens a uma fundação por ela criada, para que o seu nome fique perpetuado a bem da sociedade, num qualquer campo de acção escolhido. Mas não. Em Portugal, uma pessoa rica que quer deixar um legado para o futuro morre, deixa os bens aos filhos, e cria uma fundação com dinheiro dos contribuintes. Está certo.»

 

Ana Vidal: «Queixamo-nos, e com razão, da baixa qualidade do nosso jornalismo actual. Mas há pior. Oh, se há.»

 

Fernando Sousa: «Por qualquer motivo, naquele dia fui atrás dos pés até à caserna da minha secção, um lugar esconso nas traseiras do DRM. Depois do pequeno quintal, uma nesga de luz debaixo da porta mostrava que estavam todos ainda a pé; eram nove da noite, hora incomum para visitas em Moçambique.»

 

José Maria Gui Pimentel: «Numa altura em que o mediatismo é levado ao extremo e os políticos são constantemente chamados a fazer declarações perante perguntas – por vezes disparatadas – sem preparação, seria de esperar que se percebesse que as calinadas são inevitáveis e que pouco reflectem a opinião de quem as diz. É muito fácil nessas circunstâncias qualquer um de nós dizer um disparate não reflectido ou uma frase mal articulada.»

 

Laura Ramos: «A agenda escondida dos partidos também não é nacional. Parece que interessa criticar tudo a eito, mesmo aquilo que se vai fazendo, coerentemente, e bem, porque de facto se dói, deve doer a todos

 

Luís Menezes Leitão: «O que o Governo deveria fazer era acabar com todo e qualquer apoio estatal às fundações. Uma fundação deve ter fundos, se não não é fundação. Fundações a viver do Orçamento do Estado, não obrigado. Os contribuintes não têm que pagar estes devaneios.»

 

Rui Rocha: «Os excessos de escrutínio não são simétricos do défice de legitimidade. Aqueles são pontuais e este tem sido permanente e estrutural. Aqueles contribuem para descredibilizar o sistema. Este faz apodrecer o sistema por dentro.»

Leituras

Pedro Correia, 25.09.22

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«Só pelo comando se podia estimular e incitar o desenvolvimento de uma intensa e forte relação de camaradagem verdadeira, a qual deve existir entre os homens que partilham os rigores e as atribulações do combate, sendo esse o maior valor humano do combate. Todo o resto só pode levar ao fraccionamento, não à unidade. E é por essa unidade que os humanos se diferenciam dos diversos animais que existem no mundo.»

James Jones, Os Sãos e os Loucos, p. 101

Ed. Publicações Europa-América, s/d. Tradução de Bernadette Pinto Leite. Colecção Livros de Bolso Europa-América, n.º 321

Blogue da semana

Cristina Torrão, 25.09.22

Os barbudos que odeiam as mulheres

Pedro Correia, 25.09.22

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Teocracia islâmica oprime o Irão há 43 anos

 

O Irão está em pé de guerra. Não contra outro país, mas contra si próprio. Ou antes: o Estado teocrático dos aiatolás declarou guerra ao povo iraniano. Sobretudo às mulheres. Pelo simples facto de serem mulheres. 

Há estados totalitários onde impera o ódio de classe ou o ódio racial. No Irão sob a bota dos clérigos barbudos impera o ódio sexual. Os aiatolás - alvos de tanta tolerância e "compreensão" em círculos bem-pensantes do Ocidente - odeiam as mulheres. E agem em conformidade, exercendo sobre elas uma repressão permanente, que agora suscita um gigantesco levantamento popular neste país sujeito há 43 anos a uma das mais ferozes ditaduras do planeta.

 

Tudo começou no dia 16 com a morte de uma jovem iraniana curda, detida e agredida pela imoral "Polícia da Moralidade" por mostrar parte do cabelo na via pública, algo interdito neste Estado que em 1979 mergulhou nas trevas medievais.

Mahsa Amini, de apenas 22 anos, sucumbiu à violência policial. As suas imagens, já agonizante, indignaram milhões de jovens de ambos os sexos que agora arriscam a vida nas ruas. Revoltam-se contra a brutalidade do totalitarismo islâmico neste país onde nascer mulher é sofrer dupla indignidade.

 

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Mahsa Amini, assassinada aos 22 anos no Irão por «mostrar o cabelo»

 

Os clérigos, assustados com a revolta popular em todas as províncias do país, fizeram aquilo em que mais se especializaram: ordenaram aos esbirros do poder que atirassem a matar. Pelo menos 50 pessoas já tombaram sob as balas assassinas. A tropa está a ser mobilizada para esmagar a rebelião civil, entre apelos públicos da ala mais extremista do regime à execução sumária dos jovens que se atrevem a desafiar o Governo.

Mas a rebelião cívica continua: mulheres sem véu exibem com orgulho o cabelo na via pública, jovens registam imagens que divulgam nas redes sociais apesar de o Governo ter imposto sérias restrições à internet. Nas ruas, a palavra mais escutada é «liberdade».

 

A nova vaga de protestos pode ser afogada em sangue, como aconteceu em 1999 e 2009, às ordens de um regime repugnante, que apenas subsiste pelo aparelho repressivo montado ao longo destas quatro décadas. Detenções ilegais de opositores e a prática de tortura nas prisões tornaram-se banais no Irão, como tem denunciado a Amnistia Internacional.

Estes barbudos que odeiam as mulheres são hoje fortes aliados de Vladimir Putin e da sua corte de oligarcas, algo que faz todo o sentido. Estão bem uns para os outros.

Hoje é dia de

Maria Dulce Fernandes, 25.09.22

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A 25 de Setembro assinala-se O Dia Mundial do Pulmão

"Este dia pretende consciencializar a população mundial para as doenças respiratórias – que, em Portugal, representam a terceira causa de morte. “Cuide dos seus pulmões” é o mote para este ano reafirmando a existência de quatro pilares fundamentais para uns pulmões saudáveis:

– Dizer não ao tabaco: a cessação tabágica é a melhor forma de cuidar dos pulmões, sendo o tabaco o principal responsável pelas doenças pulmonares e causando a morte a mais de oito milhões de pessoas anualmente;

– Proteger os pulmões através da vacinação: isto pode evitar uma série de doenças infecciosas e ajudar a manter os pulmões saudáveis. Pneumonia pneumocócica, covid-19, gripe e tosse convulsa são alguns exemplos de doenças respiratórias que podem ser prevenidas pela vacinação;

– Respirar ar puro: a poluição atmosférica mata todos os anos aproximadamente sete milhões de pessoas. Dados da Organização Mundial de Saúde referem que nove em cada dez pessoas respiram ar com altos níveis de poluentes.

– Praticar exercício físico de forma regular: isto melhora a qualidade de vida e é uma forma de cuidar dos pulmões.

“A Sociedade Portuguesa de Pneumologia promove, há muito, diversas acções de sensibilização para as doenças respiratórias. É fundamental todos estarmos conscientes do peso que estas doenças assumem na mortalidade, quer a nível nacional quer a nível mundial, e reconhecermos o papel que algumas medidas assumem na prevenção das doenças pulmonares, entre as quais se destaca a cessação tabágica."

 

Já fumei. Devo ter fumado durante uns bons vinte anos. Era o meu calmante. Bastava-me apenas acender o cigarro e aspirar profundamente a primeira golfada de fumo para me acalmar, nem precisava acabar o cigarro. Deixei de fumar há cerca de quinze anos. Não foi tão complicado como pensava que fosse. Só sinto a falta do ritual e os meus pulmões agradecem todos os dias.

 

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Neste dia 25 celebra-se O Dia Mundial do Sonho

"Este dia foi criado por iniciativa de um instrutor na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, em 2002 para reflectir nos nossos sonhos e na forma como os atingir, fazendo do mundo um melhor lugar para se viver. 

Neste dia as pessoas são incentivadas a partilhar ideias que permitam realizar sonhos de todo o tipo, contribuindo para a melhoria da comunidade global."

 

Os nossos sonhos são aqueles que sonhamos a dormir, plenos de peripécias e aflições, ou serão aqueles que sonhamos acordados e que expressam as nossas aspirações e desejos para um futuro do qual desconhecemos tudo? Seja como for, mesmo sem saber se "o mundo pula e avança", a expectativa devolve-nos todos os dias a nossa eterna criança, com os medos e as inseguranças, que afinal não aprendemos a combater, apenas escondemos melhor para afastar a ansiedade.


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Este é O Dia Mundial dos Rios

"Os rios são as artérias do nosso planeta. São linhas de vida, no sentido mais verdadeiro.” - Mark Angelo 

O Dia Mundial dos Rios, criado em 2005 pela ONU, festeja-se anualmente no quarto domingo de Setembro. Nesta data, destacam-se os valores dos rios para incentivar a sua preservação, numa altura em que enfrentam uma série de ameaças, desde a poluição às alterações climáticas. 

Sendo a água doce a base da vida no planeta, o seu uso abusivo e inadequado constitui ameaça crescente à própria humanidade."

 

Há bem pouco tempo o Tejo estava tão poluído que seria impensável pescar ou nadar nele, com os esgotos de Lisboa a desaguarem sem tratamento no seu estuário, em frente à cidade. Em 1989 o Presidente Marcelo quase "ganhou" Lisboa numa campanha meio alucinada, em que, entre outros feitos asterixianos, propunha a travessia a nado do Tejo. Após uma bateria de vacinas, concretizou o seu intento de rivalizar com o Mark Spitz, mas a câmara ficou para Sampaio. 

Presentemente a presença de fauna diversa e principalmente o regresso de golfinhos mostram que a aposta das últimas administrações da cidade foi neste âmbito, bem conseguida.

 

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Hoje é também O Dia Mundial das Pessoas Surdas

"A ONU assinala este dia todos os anos, no último domingo de Setembro, para informar sobre as dificuldades que as pessoas surdas enfrentam diariamente, motivá-las a aprender linguagem gestual e promover o seu acesso à educação e às tecnologias modernas.

Estima-se que 590 milhões de pessoas em todo o mundo tenham problemas de audição. Devido à evolução demográfica tem-se verificado um progressivo envelhecimento da população e também o aumento do risco de surdez. Conscientes destes problemas, os especialistas aconselham a todas as pessoas, e em especial com mais de 50 anos, a realizar rastreios auditivos com regularidade de forma a identificar precocemente este problema."

 

Presentemente os primeiros rastreios auditivos são realizados com dois dias de vida. É importante haver acompanhamento, porque a perda de audição pode acontecer em qualquer idade, por motivos tão triviais como uma gripe, por exemplo. Existe um sem-número de intervenções que podem melhorar a capacidade auditiva desde simples exercícios até à implantação do ouvido biónico, que deixou há algum tempo de pertencer ao reino da ficção científica. 

 

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A 25 de Setembro assinala-se O Dia Mundial do Migrante e do Refugiado

"A Igreja tem vindo a celebrar o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado desde 1914. É sempre uma ocasião para exprimir preocupação pela diversidade de pessoas vulneráveis que se deslocam; para rezar por elas dado que enfrentam muitos desafios; e para aumentar a sensibilização acerca das oportunidades proporcionadas pelas migrações.

Esta data é sempre assinalada no último domingo de Setembro. Como título da sua mensagem anual, o Santo Padre escolheu "Construir o futuro com os migrantes e os refugiados".

 

É cada vez maior o número de deslocados que, por força de circunstâncias adversas, procuram santuário fora daquela que deveria ser a sua zona de conforto mas deixou de oferecer segurança. Se alguns conseguem melhorar as condições de vida, a grande maioria acaba votada ao esquecimento num qualquer campo, num qualquer canto do mundo, sobrevivendo na dependência de organizações humanitárias. Diz a Bíblia que quem salva uma pessoa, salva o mundo inteiro, mas é tão difícil deixar de ouvir a consciência.

(Imagens Google)

Pensamento da semana

Pedro Correia, 25.09.22

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O melhor referendo à monarquia, no Reino Unido, ocorreu  com as centenas de milhares de pessoas - não apenas súbditos britânicos, mas também canadianos, australianos, neozelandeses e jamaicanos, entre outras nacionalidades -- que acorreram a Westminster e se inclinaram perante a urna de Isabel II. Observando estas imagens inapagáveis, questionei-me quantos presidentes de repúblicas, em regimes democráticos como o do Reino Unido, suscitariam na hora da morte tanto respeito, tanto carinho e tanta demonstração de genuíno apreço e sincera dor.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 25.09.22

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José António Abreu: «Há uns meses, revelando insuperável consciência social (digna, afinal, desse anjo chamado Steve Jobs que, nos tempos de desenvolvimento do Macintosh, perante o cansaço dos trabalhadores, mandou distribuir t-shirts com a frase Working 90 Hours a Week and Loving It), a Apple assegurou que os erros do passado seriam corrigidos e que nenhum trabalhador chinês teria de trabalhar mais de 60 horas por semana. Com as encomendas do novo iPhone precisando de ser satisfeitas, é duvidoso que mesmo tão simpático valor esteja a ser cumprido.»

 

Luís Menezes Leitão: «Confesso que quando ouvi esta homenagem de Miguel Macedo aos trabalhadores, empresários, agricultores e comerciantes deste país, só me lembrou foi outra fábula: a da raposa que se põe a gabar as lindas penas do corvo, na esperança de que ele deixe cair o queijo.»

 

Rui Rocha: «Se nas sessões seguintes não analisarem uma colectânea de Fábulas de Esopo, a jogabilidade do Fifa 2013 e a edição electrónica do Borda d' Água, nem são homens nem são nada.»

 

Eu: «Os protestos são, portanto, não apenas legítimos mas podem até constituir um imperativo de cidadania. O que não nos deve fazer esquecer esta evidência: com todos os seus defeitos, a democracia representativa é o sistema que assegurou períodos mais longos de paz e prosperidade nas sociedades humanas. Criticá-la nas suas debilidades, nas suas perversões e nos seus erros é um direito e em certos casos até um dever. Mas atacá-la nos seus fundamentos, rejeitando o sistema de representação 'um homem, um voto' e contestando os deputados enquanto legítimos representantes da soberania popular, é totalmente inaceitável.»

Leituras

Pedro Correia, 24.09.22

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«A juventude é essa terra de ninguém, uma hesitação em que se balança para a frente e para trás. Pior é quando a vida se suspende, sem caminhos no horizonte, nem sequer encruzilhada.»

Ernesto Rodrigues, A Terceira Margem, p. 143

Ed. Guerra & Paz, 2021