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Delito de Opinião

Combate cultural

Pedro Correia, 16.01.22

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Um poema de Semónides de Amorgos acaba de ser proibido na Universidade de Reading, do Reino Unido, devido à sua «misoginia extrema», como alegam os censores, preocupados com o «incómodo» que tais palavras pudessem causar aos estudantes. Parecendo ignorar que o texto foi escrito há 2700 anos. 

Considerado um dos pais da sátira nos estudos gregos clássicos, Semónides chocou as sensibilidades das donzelas do século XXI e dos seus tutores masculinos naquele estabelecimento universitário por ter redigido versos como estes: «Nunca passa tranquilo um dia inteiro / todo aquele que com uma mulher convive.»

Eis quanto bastou para as sinetas da interdição soarem em Reading, à revelia do que deve constituir o verdadeiro espírito universitário, livre por definição e natureza. É mais um triste exemplo da chamada "cultura do cancelamento" que vai fermentando um pouco por toda a parte, com a medrosa cumplicidade dos cenáculos culturais e dos meios de comunicação. 

Maite Rico, ex-subdirectora do El País recentemente integrada nos quadros redactoriais do El Mundo, alude à mordaça agora imposta ao velho Semónides na sua "carta de apresentação" da revista La Lectura, que passa a integrar as edições de sexta-feira do diário madrileno de inspiração liberal.

«Não passa uma semana sem vermos os estragos que vem provocando esta onda de fanatismo neopuritano, com origem nas universidades anglo-saxónicas, que pretende impor pela censura e cancelamentos a uniformidade bem-pensante na academia, na cultura, no jornalismo e na política», escreve a excelente jornalista espanhola. Sublinhando que a nova revista «defenderá o valor da palavra e da liberdade de expressão», frente às «febres identitárias e aos chavões populistas, que usam a chantagem emocional e as queixas para calar quem pensa de modo diferente».

Leio estas palavras, não podendo estar mais de acordo com a linha editorial aqui expressa. E penso como faz falta em Portugal um projecto editorial na mesma linha. Em defesa da liberdade sem adversativas, contra todas as formas de censura - por mais politicamente correctas que se intitulem. Aliás um dos mais urgentes combates culturais tem precisamente de ser feito contra a correcção política. Que multiplica anátemas e tabus, silenciando qualquer opinião que ouse beliscar os novos dogmas.

Carlos

José Meireles Graça, 16.01.22

Não vivíamos na mesma cidade há muitos anos e nunca fomos muito chegados, nem sequer quando éramos novos, ele quatro anos mais, o que na adolescência é muito. Gostava de motas e carros, e eu também, mas isso quase todos.

O que não éramos muitos era a apreciar uma boa desconversa. O Carlos sim.

Da última vez que o vi ficamos na mesma mesa, por acaso, um ao lado do outro. Era a apresentação de qualquer coisa de um banco que haveria de ter um destino funesto e estavam os ricos da cidade – os que o eram, os que fingiam e os que julgavam ser. Eu era convidado de um convidado que me apreciava a companhia.

Os presentes distribuíam-se por mesas redondas, muitas, e em cada uma havia um prócer qualquer das finanças, da Academia, da economia ou notabilidades doutras áreas, todos ligados ao banco.

Sucederam-se os discursos, cada um mais chato do que o outro, pintando um Portugal de problemas mas também oportunidades. E a certo ponto levantou-se o Presidente, bateu com o talher no copo, suavemente, fez-se silêncio e começou a falar, calmo e untuoso.

Falou muito de macroeconomia; e citou estatísticas atrás de estatísticas. Tantas que murmurei para o lado se aquelas estatites de que ele estava a falar não seriam umas coisas que havia dependuradas do tecto das cavernas.

O amigo olhou para mim e gotas de suor começaram a aparecer-lhe na careca enquanto uns espasmos contidos o sacudiam. E, desesperado, cobriu os beiços com o guardanapo felizmente generoso, sufocando incontroláveis gargalhadas, vermelho e com lágrimas a correr-lhe pela cara abaixo, enquanto o resto da mesa o contemplava a ele, e a mim a quem o ataque se comunicou, com olhares de gélida censura.

Teve um enfarte, aos 66 anos, e finou-se no hospital. Deixa dois filhos, a quem a mãe já havia morrido num acidente faz cinco anos.

Se no Além calharmos no mesmo sítio, ainda nos havemos de rir. Que santos de pau carunchoso há muitos, e é possível que façam discursos empolgados a gabar as excelências do céu. E, para a troca, ele é menino para ter na aljava uma daquelas piadas foleiras que ambos apreciamos.

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 16.01.22

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Ana Vidal: «De tanto ouvir Bach, acabou por especializar-se na arte da fuga. A última foi de si próprio.»

 

Leonor Barros: «Sempre me encanitou esta obsessão dos portugueses por bater records. Pais-natais, cachecóis, feijoadas, bolos-rei, paellas, narizes, sardinhadas, a lista é imensa e acredito que infindável. Portugal pode até candidatar-se para os mais peculiares ministros da Economia do mundo. O Pinho e o Álvaro são duas figuras impagáveis e não estivessem à frente do país, um tivesse estado, e ririamos desalmadamente, isto se fossem figuras dos Monty Python ou do Little Britain.»

 

Luís M. Jorge: «Álvaro Santos Pereira foi parar ao Governo porque tinha um blog e morava no Canadá. O método de recrutamento, embora singelo, foi bem intencionado: se ele tinha um blog sabia do que falava, certo? Certo. E se morava no Canadá, com certeza não devia ser ladrão.»

 

Rui Rocha: «O pensamento torna-se límpido. E até colorido e refrescante. O próprio ritmo da frase é outro. E assim, a todos aqueles que estão mortinhos por comentar este post dizendo que Cavaco podia ter feito mais com menos (isto é, mais correcção na utilização da língua com a palavra futuro a menos), digo que poder podia, mas que não era a mesma coisa. No fundo, não seria tão divina a comédia.»

Nós

Pedro Correia, 15.01.22

Nos últimos cinco anos, registámos 2,7 milhões de visitas e 6 milhões de visualizações no DELITO DE OPINIÃO. Confirmando a vitalidade do nosso blogue, já no 14.º ano de existência.

Fica o registo, que talvez interesse aos apreciadores de dados estatísticos. E para mais tarde recordar.

Pensamento da Semana

Marta Spínola, 15.01.22

Dia 30 há eleições. Entre programas de cada partido e debates, lá chegaremos. 
Entre eleitores há de tudo: o informado, o que tenta acompanhar ainda que sem grande entusiasmo, o simpatizante que tem referências com 30 anos, mesmo que já tenham mudado, o ministro de bancada.

O desinteressado pode nem aparecer, mas não vamos falar na abstenção. Ou devemos? É geral o desinteresse, desde cedo. É comum o "não me interesso por política" em tenra idade, que se prolonga vida fora. Por não ser próximo? Imediato? Por, simplesmente, não ser emocionante? Por nunca se chegar a acreditar "nos políticos"? Não tenho respostas certas, levanto apenas a questão. Creio que a abstenção vai sempre mais longe que "era dia de praia", ou outras justificações que tentamos encontrar. O desinteresse é geral, não julgo.
Da minha parte, faço o que devo. Desde que fiz 18 anos, não faltei a umas eleições, referendos incluídos. Não sou melhor nem pior, mas quero lá estar sempre, mesmo que com um voto nulo. Não quero que decidam por mim, nem reclamar quando não tive uma palavra a dizer.

Dia 30 há eleições. Faltam 257 debates, lá chegaremos.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Pensamentos convalescentes

Maria Dulce Fernandes, 15.01.22

A história está repleta de eminências pardas, aqueles que na sombra de um dirigente mexem os cordelinhos vitais à governação de uma nação, de um estado, de um partido, de uma empresa, quiçá até da humanidade.

Curiosamente, muitos seriam guias espirituais e chefes eclesiásticos, os Cardeais Richelieu e Mazarino, outros desempenhando altos cargos em hierarquias governamentais ou partidárias, por cá o Conde Andeiro, o  Marquês de Pombal e até o Dr. Paulo Portas nos bons velhos tempos do Dr. Manuel Monteiro.

Muitos deixaram a sua marca na história e tiveram o seu tempo que é já pretérito, perfeito ou imperfeito, consoante os critérios que cada um de nós adquiriu social e culturalmente.

Nunca uma eminência parda conseguiu abrangência à escala mundial como este vírus que há mais de oitocentos dias assola e escraviza a humanidade. Guerras sangrentas e ditadores sangrentos e fundamentalistas passaram bem mais rápido e fizeram muito menos estrago. Ex Machina ou revolta dos elementos, a verdade é que se tornou um déspota incontrolável e incontornável, pois mesmo sendo um organismo morto rege-se pelo princípio da fénix, ressuscitando em novas e sucessivas variantes, qual delas a mais propícia à aniquilação da nossa espécie, que até agora tem sido ela própria a única espécie Galactus de si mesma e do seu próprio mundo.

Todos tivemos medos em criança. O Insonho, Homem do Saco, o Bicho-Papão, o Olharapo ou o Farronca, entre muitos outros, compõem a galeria dos medos infantis, que atingindo a maioridade mudam de nome, porque os medos são outros, mas o princípio é o mesmo: Covid19, IRS, Inflação, Dívida Externa, Governo, etc.

Se temos sobrevivido a tanta malignidade, terá sido por termos aprendido a viver e conviver paredes meias com a ignominiosa tragédia que protagonizamos desde que haurimos a primeira golfada de ar?

Somos mestres na magia da sobrevivência e estrategas natos no que trata em garanti-la. Se não os podemos vencer, juntamo-nos a eles como tão bem sabemos fazer. Minamos-lhe os humores e os âmagos até os fazermos implodir e garantir assim a erradicação total.

Quanto aos parasitas do vírus, esses serão bem mais difíceis de exterminar por terem a capacidade de se auto-clonarem cada vez mais eficaz, rápida e resistentemente.

A incompetência de António Costa

jpt, 15.01.22

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Estamos a quinze dias das eleições, em plena campanha eleitoral. Nos últimos dias o ex-ministro da Administração Interna, Cabrita, é constituído arguido naquele processo de atropelamento, no qual teve, pelo menos, uma prática discursiva patética (o que será uma avaliação universal, independente das simpatias políticas de cada um), para além de uma atitude moralmente condenável (o que já dependerá do ponto de vista de cada um. Mas, caramba, é preciso ser muito faccioso para não lhe apontar o dedo...). E agora o tribunal absolve o ex-ministro da Defesa, Lopes, no grave caso do roubo de armamento militar, por o considerar incompetente para o exercício de funções governamentais (e já nem falo da atitude do ex-ministro ao aceitar essa argumentação para se libertar do processo que lhe fora colocado, uma evidente falta de auto-respeito). Ou seja, ao absolver Lopes o tribunal exara uma clamorosa censura a quem o escolheu para ministro, António Costa.
 
Ambos os ex-ministros foram muito criticados por parte da opinião pública e por alguma imprensa. Mas foram também veementemente defendidos pelos "fazedores de opinião" (comentadores, jornalistas) e pelo PS. E, acima de tudo, pelo Primeiro-Ministro Costa, que os sustentou até ao limite do politicamente possível.
 
Se o primeiro governo de Costa foi muito criticado pela sua "endogamia" (até literal), pelo seu ensimesmamento em torno de um pequeno núcleo socialista, este segundo que agora terminou tentou limpar-se dessa imagem, pelo menos abdicando de integrar relações familiares. E as opções de Costa deram nisto: para pastas fundamentais teve uma confiança total num mero "passageiro" que acaba arguido, imoralizado num acidente mortal decorrido em matéria da sua tutela; uma confiança total num juridicamente considerado inimputável, por incompetência intelectual, para exercer a tutela sobre as matérias que lhe competiam.
 
E é absolutamente inenarrável que a mole de apoiantes do PS, militantes, simpatizantes, avençados, meros eleitores flutuantes, face a isto tudo não encarem Costa com, pelo menos, uma estupefacta suspeição sobre a sua competência para chefiar governos. Ainda por cima, repito, porque estamos a apenas quinze dias de eleições.
 
(Mas, estou certo, muitos deles andarão para aí a botar a conversa sobre a competência e legitimidade do P-M da longínqua e pérfida Albion que deixa o seu gabinete fazer festas durante o Covid. Às vezes é uma desgraça ser... compatriota desta gente).

20 perguntas à civilização

beatriz j a, 15.01.22

1. Valerá a pena a "civilização" se traz consigo a perda da liberdade de desobedecer, da liberdade de ir para outro lugar e da liberdade de criar novos arranjos sociais?

2. Estamos presos numa ideologia individualista ou conseguimos transformar a civilização em ajuda mútua, cooperação social, activismo cívico e hospitalidade?

3. Reduzimos as nossas possibilidades de futuros melhores? Quantas possibilidades nos restam agora, num mundo de políticas cujas populações são em número de dezenas ou centenas de milhões?

4. Estaremos melhor juntos ou separados? Estamos no princípio do fim da era da globalização?

5. Teremos tornado a vida mais difícil para a próxima geração? Será que a próxima geração vai ficar pior?

6. Como usar a tecnologia para abrandar as alterações climáticas provocadas pelo homem?

7. O trabalho escraviza?

8. Qual é a realidade da imigração? Sempre houve migrações, mas nunca o tema foi tão tóxico.

9. O que é a vida?

10. O que é a felicidade?

11. Estamos dispostos a sacrificar o ego à ditadura do diagnóstico médico?

12. Como acabar ou abrandar as desigualdades sociais?

13. Como nos podemos envolver com os problemas que enfrentamos universalmente (isto é, alterações climáticas, crescimento populacional, etc...) de uma forma que seja sensível a todas as religiões, crenças culturais e políticas particulares do mundo?

14. Em que é que grandes nações, como a China, se poderão transformar e transformar-nos a todos: na sociedade, na guerra, na indústria e na política?

15. Há alguma realidade fora da língua que falamos?

16. Seremos capazes de desfragmentar as nossas opiniões e culturas o suficiente para nos unirmos sob um objectivo comum e um esforço colectivo para a melhoria da humanidade e da nossa biosfera?

17. Como contrariar o apelo do irracional?

18. Que objectivos de educação queremos ter?

19. Estamos preparados para seres humanos biónicos?

20. Como preservar a privacidade sem a qual não há liberdade?

 
(também publicado no blog azul)

Frase nacional de 2021

Pedro Correia, 15.01.22

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«Já posso ir ao banco?»

António Costa para Ursula von Der Leyen, 16 de Junho

(eleita por maioria, pelo DELITO DE OPINIÃO)

 

Também mereceram destaque estas frases:

 

«Tenho um excelente ministro da Administração Interna e vivo muito bem com o senhor ministro da Administração Interna.»

António Costa, justificando a manutenção de Eduardo Cabrita no Governo (Maio)

 

«Estou irritantemente optimista.»

Marcelo Rebelo de Sousa, sugerindo que as medidas de restrição impostas pela pandemia iriam ser suavizadas (Julho)

 

«Vejam o parolo que sou.»

Augusto Santos Silva, demarcando-se de Sócrates, com quem trabalhou durante anos (Maio)

 

«Não há vidas insignificantes nem vidas menos importantes. Somos todos seres humanos.»

Gouveia e Melo, ao receber um Globo de Ouro na SIC (Outubro)

 

«Nunca haverá um governo de direita se o BE o puder impedir.»

Catarina Martins, na ressaca do chumbo do Orçamento em que votou com a direita (Novembro)

 

«Eu sou o passageiro.»

Eduardo Cabrita, sobre o atropelamento mortal de um trabalhador pela sua viatura oficial (Dezembro)

 

«O azar de Rendeiro foi haver eleições em Janeiro.»

Rui Rio, numa crítica à Polícia Judiciária que quase ninguém entendeu (Dezembro)

 

«Fiz mal em ir para o Governo, perdi uma fortuna incalculável.»

Manuel Pinho, tentando - sem sucesso - puxar à lágrima em entrevista ao Expresso (Dezembro)

 

«Temos de ir jogo a jogo.»

Rúben Amorim, treinador campeão pelo Sporting ao fim de 19 anos (Dezembro)

 

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Frase nacional de 2010: «O povo tem de sofrer as crises como o governo as sofre.»

(Almeida Santos)

Frase nacional de 2011: «Estou-me marimbando para os nossos credores.»

(Pedro Nuno Santos)

Frase nacional de 2013: «Com a apresentação do pedido de demissão, que é irrevogável, obedeço à minha consciência e mais não posso fazer.»

(Paulo Portas)

Frase nacional de 2014: «Sinto-me mais livre que nunca.»

(José Sócrates)

Frase nacional de 2015: «Temos os cofres cheios.»

(Maria Luís Albuquerque)

Frase nacional de 2016: «Já avisei a famíia que só volto no dia 11 [de Julho] e vou ser recebido em festa.»

(Fernando Santos)

Frase nacional de 2017: «Este ano foi um ano particularmente saboroso para Portugal.»

(António Costa)

Frase nacional de 2020: «Então nós íamos mascarados para o 25 de Abril?»

(Ferro Rodrigues)

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 15.01.22

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José António Abreu: «Continuo a ouvir imensa música, até mais do que por alturas da minha adolescência, quando o dinheiro de que dispunha para a comprar era muito limitado, e continuo a procurar música nova, mas reduzi o grau de profundidade com que a ouço. E o mesmo acontece noutras áreas (na literatura, um pouco menos). A quantidade substituiu não a qualidade dos itens mas a da sua fruição; substituiu a profundidade da análise.»

 

Luís M. Jorge: «Os vates lamentam o apagamento do PS, como se um grande silêncio tivesse descido sobre a terra e numa perversão do um-dó-li-tá colasse por capricho as ventas dos cíceros e quintilianos socialistas. Enquanto o país tagarela, dezenas de almas aflitas perguntam ao vento: porque não falas, Seguro — e no dia seguinte, tendo Seguro falado lamentam, oh, porque não te calaste

 

Luís Menezes Leitão: «Em Portugal o Governo não tem estado infelizmente à altura da crise. Desbaratou todo o seu capital político em nomeações controversas enquanto as reformas marcam passo. Ao mesmo tempo o ministro das Finanças conseguiu o prodígio de já estar a falhar a meta do défice de 2012 em 0,9 % do PIB apenas duas semanas depois de o ano ter começado. Isto simplesmente porque se esqueceu de contabilizar os efeitos em 2012 da transferência dos fundos de pensões efectuada para salvar o défice de 2011.»

 

Eu: «O nosso leitor número dois milhões acaba de nos fazer uma visita. Foi aqui recebido como os restantes 1.999.999: sempre com cortesia e até com carinho. Porque o DELITO DE OPINIÃO não seria o que é sem os seus leitores. Mesmo daqueles que protestam, que se irritam e às vezes nos irritam. Por isso fazemos questão de responder a todos quantos nos comentam.»

Leituras

Pedro Correia, 14.01.22

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«Sobre O Meu Pipi, fica uma dúvida de resposta difícil: seria hoje possível o aparecimento e propagação deste tipo de escrita, sem que os ruidosos movimentos de combate ao sexismo e à homofobia se entregassem à mais profunda indignação?»

Sérgio Barreto MotaA Blogosfera Portuguesa, p. 102

Ed. Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2021. Colecção Retratos da Fundação

Facto internacional de 2021

Pedro Correia, 14.01.22

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ASSALTO AO CAPITÓLIO NOS EUA

Aconteceu logo no início do ano, a 6 de Janeiro de 2021. Todos assistimos, incrédulos e atónitos. Nunca se tinha visto algo assim: uma turba enfurecida subia as escadarias do Capitólio, em Washington, e invadia o histórico edifício, perante a impotência das forças de segurança, colocando em risco senadores e congressistas. Precisamente quando ali se travava um debate fundamental: o que viria a confirmar em definitivo o resultado da eleição presidencial de Novembro de 2020.

Estes milhares de insurrectos, apoiantes declarados de Donald Trump, invadiram e vandalizaram a sede do poder legislativo dos EUA com a intenção deliberada de castigar figuras públicas como a democrata Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Representantes, o líder da maioria no Senado, Chuck Schumer, e o próprio vice-presidente Mike Pence, a quem acusaram de traição por conceder a vitória a Joe Biden, seu adversário político. Algo que Trump ainda hoje não fez.

A sessão foi interrompida, com o mundo a assistir em directo. Mas viria a ser retomada nessa mesma noite, quando a forças da ordem conseguiram travar a multidão em fúria e deter alguns dos cabecilhas, impedindo danos maiores. Com cinco mortos registados, entre eles quatro polícias. 

 

Este brutal assalto ao Capitólio foi para nós o Acontecimento internacional de 2021, com oito votos em 25 emitidos pelos autores do DELITO DE OPINIÃO que participaram nesta escolha. 

Venceu à tangente. Em segundo lugar, com sete votos, foi mencionado o regresso dos talibãs ao poder no Afeganistão, perante a humilhante retirada das forças ocidentais, incluindo as norte-americanas. Aconteceu em 15 de Agosto: foi outro facto que fez chocar o mundo.

Em terceiro lugar, com três votos, a realização dos Jogos Olímpicos de Tóquio, fora da data inicialmente prevista: deviam ter acontecido em 2020 e acabaram por ocorrer só no ano seguinte, entre 23 de Julho e 8 de Agosto. Com uma particularidade: as provas desportivas disputaram-se sem público devido às fortíssimas restrições impostas pela pandemia. Facto inédito, a merecer destaque.

 

Houve ainda votos isolados em vários outros temas, que passo a referir:

- Chegada da missão Perseverance à superfície de Marte.

- Escalada dos regimes autoritários e totalitários em diversos países: China, Rússia, Bielorrússia, Afeganistão, Turquia e Nicarágua.

- Tensão crescente na fronteira entre a Rússia e a Ucrânia.

- Falta de capacidade própria da UE em questões de defesa.

- Missão militar SACD em Moçambique.

- Agravamento da crise de cadeia logística desencadeada pela pandemia.

- Itália, campeã europeia de futebol.

 

O debate mais importante

Pedro Correia, 14.01.22

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O que disse António Costa:

«O doutor Rui Rio preocupa-se muito com os números e isso foi-o tornando insensível às pessoas.»

«Se não tiver maioria absoluta não viro as costas aos portugueses, não viro as costas a Portugal.»

«Eu apresento-me a estas eleições não só com um programa de governo mas com um Orçamento do Estado para aprovar imediatamente a seguir ao governo entrar em funções.»

«170 mil famílias da classe média ficarão isentas do pagamento de IRS.»

«Pela primeira vez na nossa história, temos um nível de qualificação que começa a aproximar-se da média europeia.»

«Há uma necessidade nacional de reforçar a confiança dos cidadãos na justiça.»

«O programa do PSD é muito perigoso relativamente à justiça.»

«Faça um telefonema ao doutor Paulo Rangel para ele lhe explicar porque é que a Comissão Europeia abriu processos contra a Polónia e a Hungria.»

 

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O que disse Rui Rio:

«Todos queremos a maioria absoluta. Mas a probabilidade de termos maioria absoluta é muito próxima de zero.»

«O doutor António Costa não tem condições de reeditar a geringonça mesmo que seja o mais votado.»

«Se o PS ganhar teremos outro primeiro-ministro que não o doutor António Costa e aí tudo leva a crer que é o doutor Pedro Nuno Santos e aí teremos o Bloco de Esquerda mesmo dentro do governo e com ministros do BE.»

«Prioridade: criação de  riqueza. Depois, distribuição. Porque quero o futuro dos portugueses, não quero só o amanhã.»

«Desde 1995, o doutor António Costa teve cargos de responsabilidade em todos os governos do PS. Com António Guterres foi ministro dos Assuntos Parlamentares e ministro da Justiça, com José Sócrates foi ministro da Administração Interna e n.º 2 do governo, e agora é n.º1 do governo. Toda esta linha que foi seguida, que deu os resultados que nós sabemos, com Portugal na cauda da Europa, é a linha que vai continuar.»

«O doutor António Costa quer obter resultados diferentes com a mesma política que sempre seguiu.»

«Agora exibe o Orçamento do Estado para 2022, que a seguir à descoberta do caminho marítimo para a Índia deve ser a coisa mais importante que vai ficar na história de Portugal.»

«Há mais funcionários públicos do que havia e os serviços públicos estão muito pior.»

 

Esta noite, em simultâneo, nos três canais generalistas

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 14.01.22

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Ana Vidal: «Segundo Eduardo Catroga - que aparentemente ninguém consegue calar - foi essa a lógica que presidiu à escolha das nomeações na EDP. Se é assim, sugiro esta espécie de Dona Urraca do carnaval de Loulé para a próxima privatização. Não se pode dizer que não é uma cara conhecida

 

Leonor Barros: «Vida de professor é feita de papéis, papelinhos, destacáveis, comprovativos e tudo o que tenha a ver com papeladas, burocracia sem fim. Nos intervalos de tudo isto sou professora e faço aquilo devia fazer e que o tempo em volta dos papéis me rouba.»

 

Luís M. Jorge: «É a confissão da semana nos blogs liberais. De um dia para o outro a direita portuguesa encheu-se de cheerleaders loiras e alheadas.»

Costa vs Rio

jpt, 13.01.22

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1. O debate acaba com o secretário-geral do PS a chamar "malandro" (ou seja, homem que diz "malandrices") ao presidente do PSD, enquanto nos acena com umas fotocópias encadernadas a argolas, diante do ar macambúzio de Rio, privado de lhe responder à aleivosia apesar de ter falado menos um minuto, segundo os democráticos cronómetros.
 
2. Sei bem que a minha visão do PCP foi construída e continua preenchida com a minha relação com o meu pai, o camarada Pimentel. E nisso sei bem que o "partido" não foi (nem será hoje) a cáfila de dementes sanguinários tal como o foram os avatares brotados do movimento comunista internacional em XX. Mas não é essa minha simpatia, que cruza o meu repúdio ideológico, que me faz dizer isto: o único vencedor desta ronda de debates entre "líderes" (chefes, em bom português) partidários foi o PCP. Ao recusar-se a participar em debates em canais televisivos que não são acessíveis a todos os portugueses - nesta vergonhosa deriva que é a "empresarialização" do debate político eleitoral, particularmente relevante nestas eleições sob Covid, com reduzidas acções públicas. Ainda por cima porque há dois canais públicos, a todos acessíveis, que poderiam acolher todos os debates.
 
Este modelo está a ser um atentado à equidade, que é o cerne do sistema democrático. E o que aconteceu hoje, com estes dois tipos a terem um debate comum, com participantes de todas as tão-poderosas estações, com imensa publicidade (diga-se bem, propaganda) e com muitíssimo mais tempo para se apresentarem e com uma até kitsch, tal a pretensão faustosa, encenação, foi uma vergonha. Uma espécie de "golpe de Estado", nesta era comunicacional.
 
Enfim, apesar de tudo não votarei no PCP, por razões ideológicas e, também, por caturrice. Mas até me apetece, devido a isto. Mas desabafo, diante dos meus "amigos-FB" e interlocutores blogais: não votemos nestes dois gajos, armados em "donos da bola" e nisso contentes. Pois do CHEGA (não sei se o PNR vai a votos) até ao BE (ou ao PCTP-MRRP, se se preferir) há muitas outras opções. Evitemos estes filhos da mãe, arrogantes do caraças... Malandros, estes sim.

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