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Delito de Opinião

CNN Portugal

jpt, 28.12.21

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Há algumas semanas uma estação televisiva portuguesa - há pouco adquirida por um colectivo polarizado por um industrial dos transportes com propaladas ligações ao poder político - atribuiu um dos seus canais ao molde de negócios "franchising", alocando-o ao rótulo CNN. Fê-lo com alarido, a pompa e a cerimónia da gala pirosa, e o vasto apregoar de Doutores comentadores apresentados como "vozes livres e independentes". E logo continuou o seu rumo noticioso que, dizem-me amigos atentos, segue afável para com os poderes incumbentes.
 
Aquando da "abertura" do canal - de facto, um mero "face-lifting" - muita gente, até minha amiga, jornalista e não só, reparou no assunto e saudou a chegada do que se aventou como uma diferente forma de jornalismo televisivo, mais intensa e abrangente, mais problematizadora, se se quiser, ecoando alguma competência e o perfil da estação-mãe, a já velha CNN americana.
 
Hoje o popular SLB mudou de treinador. O tal canal-franchising esteve (pelo menos) entre as 13.45 e as 14.45 a falar do assunto (julgo que antes já estaria, e que terá continuado, apenas refiro o período em que a minha tv esteve ligada), focando a sala de imprensa do Benfica, vazia, enquanto um vasto painel de comentadores dissertava sobre o assunto, tudo emoldurado por um banda sonora repetitiva, um instrumental potenciador de ansiedade. Após as "importantes" declarações, ainda que curtas, do presidente e do treinador de futebol, o painel perorou durante alguns minutos sobre o verdadeiro conteúdo do abraço que ambos haviam trocado.
 
Ou seja, e goste-se ou não da CNN original, em termos de "franchising" isto é o mesmo do que um tipo ir a um Burger King português e comer bacalhau à Brás ou rojões à moda do Minho. Ou, para me centrar no "franchising" na imprensa portuguesa, comprar a National Geographic portuguesa e encontrar uma revista de tipas nuas ou o Le Monde Diplomatique português e receber uma revista de culinária. Por outras palavras, este canal da TVI é uma pura fraude. E são fraudulentos todos os tais Doutores comentadores que ali são colaboradores avençados (de facto sendo colaboracionistas em tamanha fraude).
 
Mas isso ainda é o menos... O que realmente me irrita é a patetice desses que eu conheço que ainda atentaram, saudaram e até aventaram sucessos, a esta tralha mais-do-que-anunciada. Como saberão os que por aqui passam, elementos femininos da minha família vedam-me o uso público do vernáculo. E não será em plena quadra festiva, ainda a 10 dias do libertador Dia de Reis, que vou agredir essa vontade das que me são tão queridas. Por isso fico-me com esta invectiva, dedicada a esses amigos ainda apatetados: ide comer filhoses!! E interpretem-na, à invectiva, como deve ser, pois ida de mim.

Edward O. Wilson

jpt, 28.12.21

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(Edward O. Wilson na Gorongosa, fotografia de Piotr Naskrecki)

Morreu agora nos seus 92 anos o grande Edward. O. Wilson, biólogo que foi um autor crucial nas últimas décadas. O qual - desde a sua primeira visita a África decorrida há cerca de uma década, já ele octogenário - se tornou paladino da preservação do Parque da Gorongosa, que tomou como causa pois considerando-o exemplo máximo de biodiversidade. E sobre o qual publicou o  "Uma Janela Para a Eternidade".

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Dessa investigação, e seus efeitos, a National Geographic publicou uma reportagem, com uma esplêndida recolha fotográfica (de Joel Sartore), que aqui exemplifico, para atrair atenções de hipotéticos interessados:

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Deixo um pequeno filme sobre Wilson naquele terreno.

(The Guide: a bioblitz in Gorongosa, no sítio do Howard Hughes Medical Institute)

Como é óbvio a importância do trabalho do biólogo e do seu impacto em várias outras disciplinas muito ultrapassa a sua recente atenção sobre a ecologia em Moçambique. De um autor com tamanha e tão influente obra, mais do que botar algumas impressões pessoais sobre o seu impacto importa escutar e ler as suas palavras ou quem as conheça com intensidade, é essa a forma adequada de homenagem. Por isso deixo ligação para página com vários filmes de intervenções - todas de enorme interesse - de Edward O. Wilson. E ao seu obituário, escrito por Carl Zimmer, ontem publicado pelo New York Times.

Com todas as letras, sem exterminar consoantes

António Feijó

Pedro Correia, 28.12.21

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Em semana natalícia, despolitizemos algum espaço de reflexão. Por isso hoje se destaca um intelectual verdadeiro, daqueles que não precisam de pôr-se em bicos de pés a soltar estridências para se fazerem notar. António Feijó acaba de ser eleito presidente da Fundação Calouste Gulbenkian. Pelos seus pares, em votação secreta e com efeitos a partir de Maio, mês em que cessa funções a actual titular, Isabel Mota.

Justa consagração para o pró-reitor da Universidade de Lisboa, com um percurso académico e literário que fala por si. Vai gerir a mais rica fundação do país, dotada com fundos próprios que ascendem hoje a 3,2 mil milhões de euros. Não falta quem a considere o verdadeiro Ministério da Cultura português, sendo também referência em áreas tão diversas como a educação, a ciência, a saúde e o ambiente.

António Maria Maciel de Castro Feijó já tinha assento desde 2018 no órgão máximo de gestão da Gulbenkian, como administrador não-executivo. Está habituado a cargos de decisão. Entre 2008 e 2013 dirigiu a Faculdade de Letras de Lisboa, onde é professor catedrático. Em 2014 assumiu a presidência do Conselho Geral Independente, que supervisiona o Conselho de Administração da RTP. Levou até ao fim o mandato de seis anos, deixando inequívoco o seu entendimento do que deve ser esta empresa sempre tão envolta em polémica: «O operador público de rádio e televisão não deve fidelidade a um governo mas deve fidelidade aos contribuintes, àqueles que pagam a chamada contribuição audiovisual.»

Diplomado em Estudos Americanos e doutorado em Literatura Inglesa pela Universidade de Brown, nos EUA, onde viveu durante os mandatos presidenciais de Jimmy Carter e Ronald Reagan, é prefaciador de Agustina Bessa-Luís, especialista na obra de Teixeira de Pascoes, tradutor de Shakespeare e Oscar Wilde. Em 2016 venceu o Prémio Jacinto do Prado Coelho, atribuído pela Associação Portuguesa dos Críticos Literários, distinguindo o seu livro Uma Admiração Pastoril pelo Diabo (Pessoa e Pascoaes) que mereceu insuspeitas palavras de elogio. Rui Ramos, no Observador, chamou-lhe «um milagre de erudição e subtileza».

O recém-eleito presidente da Fundação Gulbenkian assume-se ainda «absolutamente contra» o acordo ortográfico que visava o impossível: unificar as diversas formas de escrever em português. Objectivo que não foi nem jamais será alcançado.

«Temos uma tradição política iliberal de o Estado se arrogar uma série de decisões que não lhe competem. O Estado abstém-se de entrar em certos domínios da economia porque entende que não tem vocação para o fazer. Então porque há-de entrar nas consoantes mudas?», declarou numa entrevista em 2012. Invocando um exemplo que bem conhece: «O inglês entre os EUA e a Inglaterra tolera grafias diferentes. Seria impensável para eles que a ortografia fosse homogeneizada. Nem num país nem noutro alguém presume que pudesse ser objecto de um acordo.»

O nosso idioma merece: há que salvar todas as consoantes da extinção.

 

Texto publicado no semanário Novo

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 28.12.21

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João Carvalho: «O prognóstico é muito aceitável para uma mente linear. Já para o Daniel Oliveira talvez não seja, porque dá-se o caso de tudo isto resultar da actual gestão política do Estado, que ele parece que não aprecia muito. Mas não faz mal. O Daniel não gosta da gestão do Estado? Ele que aprenda a fazer-se eleger para conduzir o país. Palpita-me que eu aprenderei muito mais depressa a conduzir comboios.»

 

Rui Rocha:  «Enquanto a natureza continua a chorar a morte de Kim Jong-il (convém recordar aqui os episódios da ave branca maior do que uma pomba que limpou a neve de uma estátua do Querido Líder, do grou que voou três vezes em redor de uma outra, das pombas que choraram meia-hora ou do ruído ensurdecedor do  quebrar do gelo no monte Baekdu), coisa que aliás não é surpreendente se tivermos em conta que o nascimento do agora defunto foi anunciado por um arco-íris duplo e por uma nova estrela no firmamento junto ao monte Paektu, o dito cujo foi transportado para a derradeira morada numa americaníssima limusina Lincoln. Caso para dizer: so long, buddy

 

Eu: «Percebemos que a degradação do jornalismo atingiu níveis alarmantes quando lemos, em prosa assinada pelo editor de cultura de um dos principais jornais portugueses, que Benjamin Franklin foi presidente dos Estados Unidos da América. A falta de exigência profissional, o esvaziamento das bases culturais, a perda de referências históricas, a incapacidade de formular raciocínios e exprimir ideias que ultrapassem o patamar das conversas de café são notórias nas páginas da generalidade dos periódicos. E este - não tenhamos ilusões - é um dos principais motivos do crescente divórcio entre jornais e leitores. Se enquanto consumidor regular da Internet posso ter mais e melhor leitura, sem gastar dinheiro e sem sair de casa, por que motivo me darei ao trabalho de adquirir um jornal que ainda por cima me trata como se eu fosse intelectualmente desprezível?»

Natal

jpt, 27.12.21

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(Postal para o meu mural de facebook)

Eu sou ateu, nisso um cristão cultural. Mas fui fraco leitor do (nosso) Livro e nunca o estudei, nem à sua exegese. Ainda assim sei que não é preciso ser qual franciscano para se ser bom cristão e que aquilo da renúncia é algo que foi dito como problemático. Bem como da inexistência de qualquer contradição entre o júbilo do Advento e a sua publicitação, numa festividade pessoal, interior, ou colectiva, pública. Mesmo assim há algo que me confunde, e cada vez mais com a idade o sinto: este é um ritual de esperança, de renovação. Nisso de afirmação da incompletude própria, da vontade de ascensão, do seu rogar. E isso nada a tem a ver com todas e tantas estas imagens nas redes sociais, pejadas do pecado da soberba, as mesas fartas, as famílias amorosas e alegres, as viagens magníficas, as casas bem-postas, sei lá mais o quê. Não é um "consumismo" que me afronta, isso que lhes faça bom proveito. É mesmo essa satisfação que patenteiam, as almas fartas, roliças até. Se esta gente vai tão feliz para que precisa do Natal? Para mim, o tal ateu, esta é a época da tal esperança, a de vir a ter tabaco e mortalhas para dar uso a estes filtros. E que nunca me falte o lume. Apenas isso. E acho que vou muito mais cristão que todos estes festivos lampeiros. Crentes.

Encher chouriços sem nada para noticiar

Pedro Correia, 27.12.21

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Voltamos ao mesmo em tempo de directos na cobertura de congressos partidários e de foragidos à justiça enfim apresentados ao tribunal: horas intermináveis de apontamentos de reportagem sem conteúdo de espécie alguma.

Nos últimos dias, a CMTV levou esta tendência ao extremo, sem aparente receio do ridículo. Exibindo um plano fixo de uma porta. Os minutos escoavam-se, só as legendas iam sendo alteradas: «Rendeiro está aqui»; «Rendeiro está atrás desta porta»; «Esta porta vai abrir». Pouco antes, destacava-se em rigoroso exclusivo: «Rendeiro já mudou de T-shirt.» Louve-se, ao menos, o procedimento higiénico do senhor.

Toca a encher chouriços, como se diz na gíria jornalística, para compensar inexistentes vestígios de notícia. Fulano X ou Y entra e sai, mantendo-se em silêncio, enquanto uma chusma de jornalistas procura à força extrair-lhe uma frase, uma sílaba, um mero espirro. Acotovelam-se, atropelam-se, chegam a tropeçar em cabos. Isto só cria ruído inútil, tem valor informativo nulo e fornece aos cidadãos uma péssima imagem do jornalismo em geral.

Tudo leva a crer que os directores de informação serão os primeiros a pensar assim. E tudo leva a crer também que só incentivam os repórteres no terreno a comportarem-se desta forma pelo pior dos motivos, muito à portuguesa: «porque os outros fazem, temos de fazer como eles.»

Raras vezes vemos em canais estrangeiros aquilo que é muito comum por cá: microfones estendidos na direcção de governantes ou dirigentes partidários à entrada e saída dos respectivos automóveis. Com as perguntas mais irrelevantes, que em regra suscitam monossílabos sarcásticos ou desdenhosos. Não é esse o momento nem o local para fazer perguntas, quase sempre aos gritos. Como se houvesse um Prémio Gazeta para o jornalista que mais berra.

Estranhamente, assistimos em paralelo à tendência inversa: conferências de imprensa «sem direito a perguntas» – seja na política, seja no futebol. Os repórteres conformam-se com a humilhante condição de pés-de-microfone. Cena aberrante, cada vez mais frequente, quando esse é precisamente o momento em que o jornalista mais tem o direito – que é um dever deontológico – de fazer perguntas.

Se aceitam emudecer, falham na missão.

Porque se acomodam ao silêncio com tanta resignação? Porque não fazem de conta que está ali um político, um alto funcionário, um banqueiro ou um dirigente desportivo a sair do carro?

Enquanto uns se calam, há quem fale quando e onde não devia. Custa aceitar, por exemplo, que a CNN convide o socialista Fernando Medina, candidato colocado no quinto posto da lista do seu partido por Lisboa, para comentar o congresso do PSD. Falando com a isenção e o desinteresse que se imagina.

Mau serviço prestado aos telespectadores pelo novo canal, que assim repete vícios antigos de outras estações. Temos a legítima expectativa de aguardar mais dele.

 

Texto publicado no semanário Novo

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 27.12.21

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Ana Margarida Craveiro«Nas últimas semanas, tenho andado a braços com um tijolo de 800 páginas. O autor é Steven Pinker, psicólogo social, que nos oferece este The Better Angels of Our Nature - The Decline of Violence in History and Its Causes. O subtítulo explica exactamente o conteúdo: a violência tem vindo a diminuir, ao longo do tempo, e o autor procura as causas desse declínio, recorrendo à história, sociologia, economia, psicologia e filosofia política.»

 

Ana Vidal: «Milagre ou fenómeno científico, o certo é que basta um caso destes para pôr em causa todas as teorias sobre coma, morte cerebral, irreversibilidade clínica, etc. De vez em quando, é bom que alguém nos lembre de que não somos deuses.Vejo, com satisfação, que a miscigenação das classes sociais tem vindo a ganhar terreno de forma saudável e natural. Tudo se vai ajustando. Não são alheias a este facto a diluição de fronteiras e a diversidade de culturas que hoje em dia convivem com a nossa. Os tiques de classe vão, aos poucos, perdendo o seu peso. E ainda bem.»

 

João Campos: «Mais dia menos dia, com mais greve e menos comboio, a CP estoira de vez, e os maquinistas - estes mesmos que boicotaram o Natal de milhares de pessoas e que passaram 2011 a transtornar a vida a milhões - ficam desempregados (pelo menos os de longo curso). Da minha parte, que desde miúdo adoro comboios e que não encontro meio de transporte que se compare ao velhinho pouca-terra (nem o carro), lamento que assim seja. No entanto, quando tal acontecer, que não se queixem os maquinistas: a cama onde se vão deitar também foi feita por eles.»

 

Rui Rocha:  «Se é possível induzir fenómenos de comoção colectiva como aqueles que foram observados na Coreia do Norte a propósito da morte de Kim Jong-il por forma a que a adesão às sessões de choradeira pública tenha natureza aparentemente espontânea e não resulte de mera encenação ou actuação teatralizada? Pois, não tenho a certeza. Mas, às vezes pergunto-me até onde seríamos capazes de chegar com mais meia dúzia de reportagens em directo sobre a doença do Eusébio.»

O peru é para o Natal

Maria Dulce Fernandes, 26.12.21

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Da varanda da casa dos meus pais em Belém a vista era deslumbrante, um autêntico postal de Lisboa, com a Ponte sobre o Tejo a surgir altaneira na ponta esquerda, a Torre de Belém a brilhar no fundo do lado oposto e o rio a espelhar tranquilo a verdejante banda de lá. Dali seguíamos muitos barquinhos da carreira na sua rota que parece de brincadeira entre a estação de Belém e a Trafaria ou o Porto Brandão, contávamos os contentores nas mega-embarcações, tentávamos  imaginar o faustoso interior dos grandes paquetes de viagens e, chegadas as andorinhas e o viçar primaveril, assistíamos ao longe, em cada Abril, à bênção dos bacalhoeiros. Era uma tradição do nosso país, despedirmo-nos dos barcos engalanados que partiam para os gelos do setentrião em busca do Fiel Amigo que, acessível a todas as bolsas, abundava seco e salgado em inúmeras despensas portuguesas.

Sendo durante muito tempo o herói da gastronomia nacional, o bacalhau esteve presente desde que me lembro na mesa da nossa consoada, cozido com as batatas, as cenouras, os nabos e as couves e transformado em Roupa Velha no dia seguinte, sempre consumida antes do galo corado.

Tentando sempre manter a tradição familiar, falhámos redondamente ao tentar transmitir o gosto pelo bacalhau à nossa descendência, mais carnívora e menos paciente com os pescados e respectivas espinhas, incapaz de se deliciar com os prazeres gelatinosos de uma cabeça de garoupa cozida, por exemplo.

Concediam a consoada, mas para o Almoço de Natal acordou-se cozinhar peru.

Bicharoco gringo de carne seca se por descuido, o peru tem que ter truque para ficar dourado, suculento e saboroso. Já não sendo necessária a decapitação após bem borracho e a depena, encomenda-se no talho um macho encorpado com cinco ou seis quilos e com extra miúdos para o arroz. Depois de lavado, chamuscado e limpo dos “canos” das penas, fica a marinar num recipiente grande, de modo a poder ficar totalmente coberto com a marinada.

Coloco sal a gosto, sumo de 2 laranjas grandes, sumo de 2 limões grandes também,  no mínimo 200 ml de cada. Parto 4 laranjas e 4 limões às rodelas. Parto 4 cebolas aos oitavos e junto 2 cabeças de alhos esmagadas. Os temperos são a gosto na quantidade: junto 8 estrelas de anis, 8 folhas de louro, 12 cravinhos inteiros, 4 paus de canela, uma colher de sopa de pimenta em grão e uma colher de sopa de cardamomo. Não ponho pimentas frescas por causa das crianças mas o meu pai punha. Acrescento um litro e meio de aguardente bagaceira forte e meia garrafa de vermute. Junto tudo ao peru na panela e adiciono água até cobrir. Marino o bicharoco durante 24 horas.

No dia de Natal, toca a acordar com o cantar do galo. Limpa-se o animal da marinada. Enche-se a panela com água e sal, põe-se ao lume até ferver e dá-se um “entalão” ao bicho durante cerca de dez minutos. É mais um truque para acelerar o processo, já que um bom peru necessita de uma hora por quilo para ficar bem assado.

Num copo de varinha mágica, coloco 8 alhos, uma colher de sobremesa de colorau, meia colher de chá de cominhos, meia colher de chá de cravinho em pó, uns borrifos de noz moscada, o sumo de uma laranja, o sumo de um limão, uma colher de sopa de banha, 50 ml de azeite, 50 ml de vinho branco, 20 ml de vinho do Porto, uma colher de sopa de mel, trituro tudo num creme pastoso e reservo.

Unta-se o peru com margarina ou manteiga amolecida e vai ao forno quente. Ligo o meu forno para o peru a 190°. Assim que começar a ganhar cor, pincela-se com o creme anteriormente preparado, tarefa a repetir durante todo o processo de assadura. Quando começar a dourar, para não queimar, cobre-se com folha de alumínio. É um processo moroso e que requer alguma paciência.

No final, coa-se e engrossa-se o molho que fica no tabuleiro. Se ficar muito ácido podemos juntar açúcar, caramelo, xarope de ácer…

Normalmente fica um espectáculo.

Sirvo com um belo arroz de miúdos, castanhas assadas no molho e esparregado. Não costumo rechear.

Os melhores romances e novelas portugueses do século XX

XI - Dez menções honrosas

Pedro Correia, 26.12.21

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Casa na Duna, de Carlos de Oliveira (1943)

A Missão, de Ferreira de Castro (1954)

O Anjo Ancorado, de José Cardoso Pires (1958)

O Secreto Adeus, de Baptista-Bastos (1963)

Físico Prodigioso, de Jorge de Sena (1966)

Silêncio Para 4, de Ruben A. (1973)

A Voz dos Deuses, de João Aguiar (1984)

Até ao Fim, de Vergílio Ferreira (1987)

Hotel Lusitano, de Rui Zink (1987)

Era Bom que Trocássemos umas Ideias Sobre o Assunto, de Mário de Carvalho (1995)

Blogue da semana.

Luís Menezes Leitão, 26.12.21

Acompanho com regularidade o blogue Malomil, pelas excelentes análises históricas e de crítica e divulgação literária. Esta semana deu-nos a conhecer as peripécias da edição do Diário de Salazar, uma preciosidade para os investigadores da História do Estado Novo. Quem já teve ocasião de se debruçar sobre a reprodução do texto manuscrito, e com a letra tantas vezes indecifrável do ditador, avalia bem o valor que esta publicação vai ter para as futuras investigações sobre este período histórico. Por esse motivo, é essa a minha escolha para blogue da semana.

Pensamento da Semana

jpt, 26.12.21

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O Dr. Ba ganhou. Já! E não há como rodear isso. Sabe-se que desde 1878 há iluminação eléctrica naquele Chiado. Desde então que por ali calcorrearam os que vieram a ser "vencidos da vida", vigiaram-se monárquicos e republicanos só depois insurrectos, os exasperados com o Ultimatum, e terá gingado a "geração dos centuriões" conquistadores d'África, tão de facto proto-fascistas alguns o foram, os inflamados camonianos, e decerto que depois se acotovelaram carbonários e maçónicos e epígonos de Paiva Couceiro, correligionários do dr. Afonso Costa e seus opositores, todos sempre urdindo, e logo os adeptos do presidente-rei e as deste viúvas, os parcos leitores da (insuportável, há que dizê-lo) "Mensagem" pessoana, seu autor e restantes modernistas, cadetes de Maio já graduados, admiradores do governador Norton de Matos, amanuenses e funcionários do Estado Novo, afadigados no entre Terreiro do Paço e São Bento, mais os que viravam à António Maria Cardoso, entreolhando-se com os do "reviralho", neo-realistas alguns, surrealistas outros, e mais os dignos doutores, sem falar dos crentes no tão dúbio general sem medo, e logo heróis de Abril, socialistas prontos-a-vestir, o dr. Mário Soares no seu barbeiro, excrecências m-l e rudes brejnevistas, gongóricos maçons a sonharem a "comunidade lusófona" de Salazar por naus ortográficas, terceiro-mundistas ainda não "abissais" e europeístas convictos, e até que enfim a boémia europeizada, essa que ao absinto chamou coca e ao velho "delitro" tratou de Vodka-Vodka Gin Vómito, tudo desembocando nisto do agora dos cultores do franchising e da fancaria de tapas e recuerdos ditos pátrios. Amálgama de camadas e crostas, todas, e cada uma delas à sua atrapalhada maneira, louvando execrando resmungando abominando enfatuando enfatizando chorando exultando um país, içando-o catapultando-o de um passado compósito e veemente, cru e cruel, tantas vezes desatinado tantas outras desenrascado, "humano demasiado humano" talvez, e assim fingindo-o, numa olaria mitógrafa pão para a boca. E todas elas sentindo, mesmo se não o tivessem cantado, que para tal terão faltado poetas apesar destes sempre em excesso para tanta outra coisa, como totem alumiador a vigorosa e letal "caravela portuguesa", aquela portuguese man-of-war como até outros lhe chamam. Mas neste agora?, tendo sido já tão repetido sermos apenas corolário de séculos de medíocres e incessantes vilanias, disso triste epílogo, nisso acabrunhados, desvalidos, que fazemos ao Chiado? Alumiamo-lo, iluminamo-nos, com alforrecas, como alforrecas. Não há qualquer dúvida, o dr. Ba ganhou. Já.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 26.12.21

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Ana Lima«A primeira vez que li um livro de Dulce Maria Cardoso, “Campo de Sangue”, o primeiro romance que publicou, tive uma estranha sensação. Senti que aquele livro poderia ter sido escrito por mim, ou melhor, mesmo que o tema fosse outro, aquele seria, pelo estilo, pela construção das frases, o livro que eu escreveria se soubesse e pudesse escrever. Os outros livros que li da mesma autora não tiveram o mesmo impacto em mim mas deixaram-me a certeza que ela é uma escritora que nunca deixarei de acompanhar.»

 

Ana Vidal: «Vejo, com satisfação, que a miscigenação das classes sociais tem vindo a ganhar terreno de forma saudável e natural. Tudo se vai ajustando. Não são alheias a este facto a diluição de fronteiras e a diversidade de culturas que hoje em dia convivem com a nossa. Os tiques de classe vão, aos poucos, perdendo o seu peso. E ainda bem.»

 

Cláudia Köver: «Os Beast são uma banda canadiana que lançou o seu primeiro álbum - também este intitulado "Beast" - em 2008. "Mr. Hurricane" foi o primeiro single.»

 

Fernando Antolin: «Ah e o Jazz de Cascais, ao qual ia nos comboios da defunta Sociedade Estoril. Anos depois, vim a ser colega de local de trabalho do Villas-Boas, ele na KLM e eu na ANA, lá pelo Aeroporto. O Luís já está lá pelo Paraíso dos rifts e free styles desenfreados, eu por aqui ainda vou andando, a ver pasar la vida sin sentirla y sentir la muerte sin pasarla...»

 

Ivone Mendes da Silva: «A festa faz-se, mas o dia seguinte é o cabo dos trabalhos. Não é só a desordem que se instala a fazer caretas a quem teve a casa cheia de garotos aos saltos pelos sofás, sogras inquisidoras ou cunhadas com o firme propósito de não tocar em nada, não fossem as unhas perder o brilho a condizer com a árvore de Natal: há qualquer coisa no dia seguinte que entristece e deprime.»

 

José António Abreu: «Lá por terem comprado 21% da EDP não vamos deixar de criticar coisas como esta: Chen Xi, opositor do regime chinês, preso no dia 29 de Novembro, foi hoje condenado a dez anos de prisão. Há três dias, outro crítico do regime, Chen Wei, havia sido condenado a nove.»

 

Luís Menezes Leitão: «A confiança não se obtém com palavras, ganha-se ou perde-se através de actos concretos. Ora, um Estado que nos últimos tempos fez aplicar impostos retroactivos, cortou salários e pensões, e diz aos cidadãos que o seu futuro está na emigração é um Estado em que por definição ninguém confia.»

 

Patrícia Reis: «Aproveito para desejar um 2012 maravilhoso, dê lá por onde der. Com imaginação, boa vontade e capacidade de rir, dizem-me. Pode ser.»

 

Rui Rocha:  «A partir de 2012, as mensagens de Natal de Sua Excelência o Senhor Primeiro-Ministro serão emitidas à cobrança nos destinatários.»