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Delito de Opinião

O Estado que desconfia dos cidadãos

Pedro Correia, 07.05.21

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Passam as décadas, passam os governos, mas algo nunca muda: a problemática relação entre o português que cumpre as obrigações de cidadania e o Estado que tantas vezes nos ignora. Proporcionando serviços de péssima qualidade, transportes públicos caóticos, protecção civil que deixa arder metade do património florestal do País, uma educação pública que não chega a todos, saúde sem meios físicos nem humanos capazes de corresponder às crescentes necessidades de uma população envelhecida, justiça insuficiente e caracterizada por uma lentidão exasperante. Ao contrário do que sucede nos países nórdicos, por exemplo, os portugueses dificilmente encontram retorno dos impostos que pagam em melhorias efectivas da qualidade de vida.

O zelo que o Estado - através do Governo - dispensa aos seus funcionários não tem paralelo na forma como se relaciona com o cidadão comum, encarado essencialmente como contribuinte. E, nesta óptica, considerado culpado até prova em contrário, numa inaceitável inversão do princípio constitucional da presunção da inocência, como há dois anos se verificou em operações stop realizadas pela Autoridade Tributária em parceria com a GNR para apanharem supostos infractores fiscais na via pública. Esquecendo-se o próprio Estado da sua condição de grande devedor: só as dívidas aos fornecedores e credores do Serviço Nacional de Saúde totalizavam 2,9 mil milhões de euros em 2017, segundo uma auditoria do Tribunal de Contas divulgada em 2019.

Em Portugal, ao contrário do que sucede nouros países, a regra não é o Estado confiar nos cidadãos. A regra é o Estado desconfiar dos cidadãos. Como se existisse para servir-se de nós e não para nos servir, como é nosso direito e seu dever.

Pensamento da semana

Alexandre Guerra, 07.05.21

Os comentadores e politólogos que se movimentam e opinam em circuito fechado continuam a abordar o fenómeno do populismo na sociedade portuguesa exclusivamente a partir do sistema político e nunca a partir do tecido social. Enquanto não tentarem perceber o que move e o que pensam muitos dos cidadãos normais, nunca conseguirão encontrar respostas sustentadas.

 

Este pensamento acompanha o DELITO durante toda a semana.

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 07.05.21

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João Campos: «Frequento desde criança a praia da Zambujeira do Mar. É verdade que não sou grande adepto de "fazer praia", mas a haver uma praia da qual gosto incondicionalmente, é a Zambujeira do Mar. Gosto das escarpas em permanente ameaça de desabamento. Gosto das rochas traiçoeiras que dão acesso a outras pequenas praias, encaixadas nas falésias. Gosto do mar, invariavelmente agressivo (nunca vi aquela praia sem ondulação). Por tudo isso, e por me recordar de aquela praia ser muito suja em tempos não muito distantes, fico muito contente por saber que este ano, a praia da Zambujeira do Mar vai exibir a bandeira azul

 

Rui Rocha: «As perguntas essenciais sobre o passado recente estão agora respondidas. O responsável pela governação que nos trouxe até aqui foi José Sócrates. O chumbo do PEC IV não foi uma irresponsabilidade. Pelo contrário, forçou um pedido de ajuda externa que deveria ter acontecido mais cedo. E deu origem a um programa de reestruturação que justificou o entusiasmo do próprio Sócrates. Ao ainda primeiro-ministro não restam mais argumentos. Na falta deles, a sua campanha eleitoral vai ser a de um animal político. Em fuga. E não bastará a Sócrates esconder-se atrás dos arbustos da máquina de propaganda socialista. Neste momento, já nem uma floresta permite ocultar a sua evidente responsabilidade. Pessoal e intransmissível.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Estrabão relatava que a cidade fora fundada pelas Amazonas. Veneravam Arthémis. Ao que parece terá sido por volta do século XIV a.C., mas foi depois da conquista de Alexandre Magno, em 334 a.C., e, em especial, a partir de 133 a.C., quando  se tornou, com os romanos, a grande capital da Ásia menor, que conheceu maior prosperidade. E essa prosperidade sente-se quando se percorre a Via dos Curetes, entre a majestosa Biblioteca de Celso e a Ágora, entres mármores brancos e azuis e campos polvilhados de papoilas. Aqui viveram Demócrito e Heráclito. Por estas ruas que agora piso andaram os apóstolos Paulo e João. Foi aqui que S. João escreveu o seu Evangelho.»

 

Eu: «A Líbia constitui "o pior pesadelo" dos dias que correm. A opinião, sem rodeios de qualquer espécie, foi ontem expressa por Mohamed ElBaradei nas Conferências do Estoril, que encerraram esta segunda edição com chave de ouro ao darem o palco ao ex-director-geral da Agência Internacional de Energia Atómica, Prémio Nobel da Paz de 2005. Durante cerca de hora e meia, que pareceu pouco a quem assistia no Centro de Congressos do Estoril, o candidato à próxima eleição presidencial no Egipto defendeu uma intervenção mais activa da comunidade internacional para impedir a continuação dos massacres da população civil às ordens dos esbirros de Muammar Kadhafi, o ditador que permanece no poder desde Setembro de 1969, cego e surdo às aspirações de liberdade dos líbios.»

Notas curtas

Sérgio de Almeida Correia, 06.05.21

An employee at the German pharmaceuticals company BioNTech works in a facility for mRNA production in Marburg, Germany.(Photograph: Biontech Se Handout/EPA)

Interrompo a ausência dos últimos dias chamando a vossa atenção para três curtas notas, que são ao mesmo tempo evidências do contraste entre a actuação do novo inquilino da Casa Branca face ao seu antecessor, à retórica confrontacional de Pequim e aos abusos que estão a ser cometidos em nome do rule of law na RAE de Hong Kong.

A primeira diz respeito à decisão ontem revelada pela Embaixadora dos Estados Unidos junto da Organização Mundial do Comércio (WTO no acrónimo inglês), Katherine Tai, de que o Presidente Biden deu instruções no sentido da suspensão das protecções da propriedade intelectual, de maneira a que possam ser disponibilizadas para todo o mundo, ricos e pobres, as patentes das vacinas da COVID-19, no que constitui um passo extraordinário no combate à pandemia.

Mas mais do que isso, os EUA não estarão apenas a partilhar patentes e tecnologia. Este é o culminar dos primeiros cem dias de governo do novo presidente, a pérola que brilhou quando se abriu a ostra.

Não sei qual será o efeito prático deste movimento. Estou, todavia, convicto de que este é um sinal muito forte no sentido do desanuviamento da tensão internacional, uma ajuda consistente aos países menos desenvolvidos e a transposição de um discurso inflamado e balofo para acções que podem fazer a diferença, ajudando os EUA a limparem a má imagem internacional deixada por Trump e a sua pandilha de cantinfleiros.

Em sentido oposto, o discurso cada vez mais belicista do mais alto responsável chinês. Pode ser que seja apenas um discurso para dentro e destinado a impressionar os seus fiéis, Taiwan e Hong Kong, em ano de grandes comemorações internas, embora seja difícil acreditar nisso.

A retórica da invencibilidade não é própria de quem defende a paz e uma coexistência pacífica e cooperante com todas as nações e povos do mundo, em especial se for acompanhada daquelas conferências de imprensa surreais dos porta-vozes do MNE chinês, plenas de ameaças e acompanhadas de exibições de força no Mar do Sul da China e no estreito da Formosa.

A forma como Pequim reagiu anteriormente a um simples pedido feito por Camberra de realização de uma investigação independente ao surgimento da COVID-19, que viria depois a permitir no âmbito da OMS/WHO, e o modo como agora suspendeu toda a cooperação com a Austrália a propósito do China-Australia Strategic Economic Dialogue, revela a utilização de dois pesos e duas medidas.

Iguais reacções não surgem quando em causa estão decisões da União Europeia ou dos EUA que colocam em crise interesses chineses, o que mostra como é fácil ser contido com os mais fortes e desabrido com os mais pequenos. Ou como se as razões de segurança nacional, quando seriamente invocadas, e não com uma cortina para outro tipo de actuações à margem do justo e do legal, constituíssem um exclusivo de um qualquer país. 

Quando começar a fase da contenção de danos talvez seja tarde para se alterarem os sentimentos que, desgraçadamente, amiúde começam a surgir em diversos países relativamente a tudo que traga a marca identitária chinesa. É mau para a imagem do país, é mau para o seu povo, é mau para o desenvolvimento e o equilíbrio global.

Uma última nota para a decisão proferida pelo District Court de Hong Kong de aplicar penas de prisão a alguns activistas. Isso seria expectável tendo presente a natureza do regime, tudo o que aconteceu nos últimos dois anos e a forma desastrada como as autoridades locais e o Governo central lidaram com o problema.

Cada um fará a sua leitura, alguns apenas aquela que será compatível com os seus interesses pessoais.

Em todo o caso, não deixa de ser preocupante que um tribunal se permita, independentemente de se poder discutir se foi um motim ou não, condenar os arguidos afirmando expressamente que não existe qualquer prova de que os arguidos tenham desempenhado qualquer papel efectivo no tumulto (riot).

Se a isto se somar a dispensa de uma jornalista por colocar perguntas difíceis em conferências de imprensa, começa-se a ter o filme completo da extensão da substituição do rule of law pelo rule by law.

Nem pensar

Pedro Correia, 06.05.21

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Li há dias, no editorial de um jornal muito influente, em prosa assinada pelo respectivo director, que um óbvio substantivo é afinal... um adjectivo. Vinha logo na primeira frase.

Isto sem qualquer sombra de ironia da parte do articulista.

 

Quando se chega a este ponto, quase tudo se torna possível.

 

Mas não só no jornalismo (mea culpa, quanto à profissão que exerço) a iliteracia galopante é cada vez mais notória.

Reparo que muitos escritores consagrados cometem erros de palmatória. Alguns fariam corar pessoas comuns, com o diploma da quarta classe antiga. E validados por prestigiadas editoras nacionais.

 

Lamento escrever isto, mas é verdade.


Cada vez estou mais convencido de que estes assuntos devem ser debatidos na praça pública, sem tabus nem "respeitinho". Doa a quem doer.

Aliás vamos respeitar o quê? O analfabetismo pintado de sabedoria?

Nem pensar.

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 06.05.21

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Luís M. Jorge: «Muito se podia escrever agora sobre política feita com os pés, sobre idiotas úteis, etc. Mas este blog tem uma indisfarçável vocação para a caridade cristã.»

 

Rui Carmo: «Desde Marrocos até ao Irão assiste-se a uma onda de instabilidade, potenciada pela crise económica e desespero quanto ao futuro de uma larga faixa das populações de Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia, Egipto, Síria, Irão e Yémen. Em comum estes povos, importa lembrar, têm a não existência de “direitos” políticos e económicos – e por eles aspiram e insurgem-se. Todos aqueles países (ou quase) foram beber inspiração estrutural no socialismo soviético.  Destas “revoluções” não se espere uma mudança tal que leve a uma transformação radical do islão político.»

 

Eu: «Ambos veteranos de debates eleitorais, Jerónimo e Portas confirmaram méritos anteriormente revelados em televisão. O líder comunista transmite sempre uma imagem de convicção e sinceridade, apesar de não evitar a repetição de clichés discursivos que soam algo estafados - expressões como "um governo patriótico e de esquerda" e "os que menos têm e menos podem". O presidente democrata-cristão tem uma grande destreza argumentativa, bem patente quando rebateu com eficácia as soluções comunistas alternativas ao resgate financeiro de 78 mil milhões de euros, nomeadamente a venda de fundos públicos para comprar dívida pública: "Isso não excederia cinco mil ou seis mil milhões de euros. Portugal precisa quatro vezes mais que isso."»

Regresso ao futuro

José Meireles Graça, 05.05.21

Imaginemos que eu era um jovem atraentíssimo (ou o que as mulheres em grosso geralmente assim consideram, isto é, um pamonha com ar de artista punk ou um estivador à antiga, é conforme) e que elas já detinham a maior parte dos postos de comando (o que é provável que venha a acontecer porque já são, na maior parte dos cursos, a maior parte dos licenciados). E a minha chefa, no caso um grande camafeu, insinuava umas coisas razoavelmente explícitas sobre a grande curiosidade que a consumia em explorar alguns detalhes da minha intimidade.

Com delicadeza, tirava-lhe as lúbricas esperanças. Daí para a frente, duas coisas podiam suceder: Não se passava mais nada, pelo que guardava o episódio junto com outros segredos – toda a gente os tem, excepto os santos, os parvos e o Manuel Luís Goucha; o grande estupor começava a lixar-me a carreira.

Que faria? Depende: Ou neste futuro o ambiente já era de pouca tolerância para estas iniciativas brejeiras ou a impunidade dos abusos das harpias era a norma. No primeiro caso arranjaria maneira de coligir provas, ao menos indiciárias, porque não era com certeza o único – cesteira que faz um cesto faz um cento. E no segundo?

Com a carreira a fechar-se, mas o silêncio consagrado nos costumes, mais uma vez dependeria: Ou tinha alma de herói e tratava de denunciar com alarido; ou não tinha e dava uma cambalhota com a atrevida, ou calava e aceitava a malapata, ou mudava de ramo ou de estabelecimento.

Engolindo o ego amassado, calando, e convivendo com a situação das três formas que acima alinhavei, que fazer se passados uns bons anos, quando começassem a soprar ventos de mudança de costumes vindos de paragens onde eles evoluem mais depressa, pôr a boca no mundo deixasse de ser um problema?

Bom, contar histórias pregressas sem nomes, sim; pondo os nomes aos bois não, por causa da lei penal – não é crime o que assim não é considerado à data da prática, e mesmo que fosse há aquela coisa da prescrição, cuja razão de ser que vá estudar quem for curioso.

Nada disto tem a ver com o presente, como é óbvio. Mas é preciso prever para prover. E tendo deste modo resolvido este problema do futuro com uma argúcia que creio me honra, despeço-me com amizade.

O meu encontro com Julião Sarmento

Pedro Correia, 05.05.21

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Um quadro de Julião Sarmento (1948-2021)

 

De poucas coisas na vida me arrependo. Alguma excepção, confirmando a regra, está sempre relacionada não com o que fiz mas com aquilo que deixei por fazer. Talvez nenhuma tão grande como naquele dia, na primeira metade da década de 80, em que entrevistei o pintor Julião Sarmento - então ainda longe de ser um dos nomes mais sonantes das artes plásticas portuguesas. Essa conversa, para um semanário que deixou há muito de publicar-se, correu bem apesar da timidez do pintor. De tal maneira que, à despedida, ele disse que gostaria de oferecer-me uma pintura. «Passe pelo meu atelier e leve uma à sua escolha», disse-me, generosamente.

Era uma espécie de regra de cortesia, corrente à época. Outros pintores que entrevistei na mesma altura - recordo Stella de Brito, Martins Gomes e Maria Fernanda Amado, por exemplo - ofereceram-me quadros que tinham ali disponíveis, na sequência imediata de entrevistas. 

Agradeci a Julião, mas acabei por não passar por lá. Por falta de tempo, falta de paciência, falta de motivação, falta de interesse ou outro motivo que não recordo. Coisas que se fazem (ou não fazem) aos vinte e poucos. À época, jamais pensei no possível valor não apenas estimativo mas monetário daquela pintura que poderia ter sido minha. Só reflecti nisso demasiado tarde, ao saber que obras suas foram vendidas em leilão por 30 mil euros. Ou 37 mil. Longe dos 250 mil euros que vale um quadro de Vieira da Silva. Ou até dos 90 mil euros em que foi avaliada uma obra do magnífico Júlio Pomar. Mesmo assim, uma quantia muito apreciável. Que podia ser potencialmente minha. Mas nunca foi.

Veio-me isto à memória ao saber ontem a triste notícia da sua morte - ainda prematura, aos 72 anos. Guardo a grata recordação dessa conversa com aquele homem alto, esguio, de óculos, ar contemplativo e voz pausada. E da sua generosidade que não aproveitei por estupidez juvenil.

De pouco me arrependo: só do que não fiz. Há coisas que só mesmo o tempo cura. 

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 05.05.21

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Adolfo Mesquita Nunes: «Porque nunca quis fazer do Delito uma espécie de prolongamento da minha actividade política, podem ler-me, até às eleições legislativas, na Rua Direita, o blogue que junta algumas das pessoas que entendem que o CDS deve crescer eleitoralmente. Vou mas com V de volta. Até logo!»

 

Ana Vidal: «Ouvi ontem uma comovedora declaração de um rapazinho de cabelo em pé, cor de palha seca, afirmando esta coisa espantosa: "Eu antes tinha qualidade mas não tinha cabeça. Agora, graças ao Mister Jesus, tenho qualidade e já tenho cabeça. Sou um homem feliz." À parte o tom informal e pouco respeitoso com que o miraculado se referiu a Jesus Cristo - a tradição já não é o que era e a anglofonia impera, assim na terra como nos céus - gostei de saber que ainda há milagres deste calibre no séc. XXI. Já agora, mais um jeitinho e Jesus podia ter tido a caridade de mudar-lhe também o nome. Nenhum homem, mesmo com uma cabeça nova em folha, merece chamar-se Fábio Coentrão.»

 

Pedro Adão e Silva: «Em Portugal, as colunas de opinião ou assentam na ideia estrambólica de que quem escreve opinião tem de ter rasgo literário (o que explica a sobrevivência de colunistas onde o brilhantismo estilístico serve para esconder a preguiça intelectual) ou limitam-se a um conjunto de afirmações que dispensam sustentação ou, pior ainda, dependem de um par de trocadilhos combinados com uma ou duas frases de belo efeito, preferivelmente no registo engraçadinho que tem feito escola. Quando a opinião deveria partir da defesa de um argumento com base em factos, ideias ou conhecimento disponível (por exemplo académico), o que nos é oferecido em Portugal é, frequentemente, um exercício preguiçoso baseado na fulanização, em processos de intenção e na desvalorização da capacidade de raciocínio.»

 

Rui Rocha: «O Braga acaba de consumar um feito histórico. A vitória sobre o Benfica nas meias-finais da Liga Europa representa o culminar de um percurso coerente. O desempenho nas competições da UEFA foi, durante toda a época, absolutamente brilhante. Equipas como o Sevilha, o Celtic ou o Liverpool que o digam. No jogo desta noite, os minhotos souberam sempre o que queriam. E queriam sofrer, com humildade e determinação, a caminho do impossível. Em esforço e ambição o Braga foi superlativo. O sentido colectivo foi enorme. Tanto que não é justo fazer qualquer destaque individual. Ao contrário, o Benfica nunca pareceu uma equipa. E as individualidades falharam.»

 

Teresa Ribeiro: «Creio que foi em 2007 que o governo de Sócrates, alegando a necessidade de reduzir custos ao Estado social, acabou com alguns subsistemas de saúde. Eu, que era beneficiária de um deles, claro que não gostei, mas aceitei os fundamentos da decisão. O que não engoli foi o facto de terem acabado afinal só com alguns, os que não ameaçavam os interesses das corporações que por tradição os governos nunca enfrentam (militares, polícias, justiça) e não incendiavam os sindicatos (Função Pública).»

 

Eu: «Tive o privilégio de assistir a uma magistral lição de jornalismo, pronunciada por um dos maiores especialistas da matéria: Larry King, brindado com uma prolongada ovação em pé ao fim da manhã de hoje no Centro de Congressos do Estoril, onde foi o principal orador do dia. O mais célebre entrevistador do planeta, que durante um quarto de século foi o rosto mais conhecido da CNN, mostrou-se igual a si próprio: divertiu-se e divertiu o auditório, comoveu-se e comoveu a plateia neste segundo dia das Conferências do Estoril. (...) Deixou algumas mensagens que merecem registo. Desde logo, esta: "Nunca sabemos tudo. Só sabemos um bocadinho. Aprendo coisas novas todos os dias." Ele, que deu os primeiros passos no jornalismo em 1957, ainda hoje não entende em pormenor "como se faz a radiotransmissão em apenas um segundo" das suas palavras por todo o mundo. Larry King trouxe ao Estoril outras mensagens importantes. Esta, por exemplo: "Ninguém aprende nada enquanto está a falar." Nada mais certo. E também esta: "Nunca utilizo o termo eu numa entrevista." Mensagens que bem merecem ser meditadas num país em que tantos narcisos medíocres peroram durante horas a fio à frente dos microfones sem terem verdadeiramente nada a comunicar.»

Australopiteco

Pedro Correia, 04.05.21

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De repente, assistimos ao milagre da multiplicação de "empresários" neste país. As revistas cor-de-rosa e a imprensa desportiva estão infestadas de gente que assim se intitula. Sem possuir qualquer empresa, sem ter gerado um só posto de trabalho, sem nada contribuir para a criação de riqueza - excepto, e nem sempre, a que consta das respectivas contas bancárias.

Há dias o país assistiu, atónito, à agressão de que foi alvo um repórter de imagem da TVI por parte de um destes sujeitos que se intitulam "empresários" e se pavoneiam de bar em bar, copo na mão e sorriso no rosto, exibindo um verniz que mal oculta a grunhice sempre pronta a vir à tona. Logo se difundiu a notícia de que o agressor é "empresário". Fatal como o destino: são mais do que as pedras da calçada.

Vai-se a ver e o fulano afinal é mero angariador de jogadores de futebol para o FC Porto. Assim uma espécie de porta giratória: traz um, despacha outro, embolsa as mais-valias deste árduo esforço de intermediação. É quanto basta para o tornar personagem muito requisitada em festarolas fotografadas nas redes sociais.

Porém, mal a equipa dele empata noutro estádio nortenho, logo o dito "empresário" solta o australopiteco que transporta lá no fundo. Vai daí, arremete contra as ventas do parceiro mais à mão. Esvai-se o sorriso, fecha-se o punho, estala o verniz. Perde-se qualquer esboço de civilidade.

Só não se perde mais um "empresário" porque este afinal nunca existiu.

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 04.05.21

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Ana Margarida Craveiro: «O BE e o PCP opõem-se ao acordo, e anunciam que era muito melhor uma renegociação da dívida, sem nada destas "má soluções". A minha proposta é a seguinte: e porque não deixá-los tentar? Força, amigos. Nós suspendemos isto tudo, até porque é uma chatice equilibrar contas ao mesmo tempo que se está em eleições, e damo-vos duas semanas para renegociar. Ao mesmo tempo, até podem subir salários, pensões e subsídios, como tanto exigem. E logo vemos no que dá. Embora tentar?»

 

Eduardo Saraiva: «A poluição, o meio ambiente, a ecologia são temas que há pouco tempo prenderam a atenção dos cientistas. Por vezes, os homens, apesar de terem consciência das ameaças que os rodeiam, continuam desconfiados das consequências que daí podem resultar. Depois de termos assistido ao homem a pisar o solo lunar (passaram 42 anos sobre essa maravilhosa “aventura” cientifica) onde, presentemente, a ida dos foguetões à Lua parece entrar no dia-a-dia das pessoas, é importante que o homem tome consciência do seu meio ambiente.»

 

Luís M. Jorge: «Observar um país que se prepara, com uma mistura de horror e incredulidade, para reeleger a súcia que o arruinou.»

 

Rui Rocha: «Neste momento, enquanto não se abre a caixa de pandora, a conclusão provisória só pode ser uma de duas: ou estamos perante mais uma farsa protagonizada por Sócrates (se as medidas ou condições da ajuda não tiverem a suavidade que este pretendeu atribuir-lhes), ou é completamente incompreensível que Sócrates tenha adiado por tanto tempo o pedido de auxílio externo. Em todo o caso, a intervenção do primeiro-ministro tem o efeito de eliminar qualquer imputação de responsabilidade ao PSD pela não aprovação do PEC IV. Se o pacote de ajuda é assim tão favorável, com juros razoáveis, o PSD fez muito bem. Se não é, a encenação de Sócrates é de tal maneira condenável que anula qualquer outro juízo de valor negativo. Uma coisa é certa. Os pavões de S. Bento fazem muito mais barulho do que Teixeira dos Santos.»

 

Eu: «Alguém devia dizer com urgência a Pedro Passos Coelho que é impossível comunicar eficazmente com os portugueses recorrendo a um discurso cheio de jargão empresarial, incompreensível para a larga maioria daqueles que o escutam. Há pouco, numa entrevista à RTP, ouvi-o utilizar termos como coremix e utilities. Ninguém entendeu o que ele queria afirmar com isto. Dir-me-ão que são detalhes. Mas qualquer actividade, em moldes profissionais, é trabalhada ao detalhe. Não há outra forma de ter sucesso na política.»

Amigos improváveis - o Gorby

Maria Dulce Fernandes, 03.05.21

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O meu pai morreu novo. O passamento foi rápido e fulminante como uma vela que se apaga sem a chama tremeluzir. Para o meu pai acabou o mundo e para nós,  os que ficámos por cá sem saber como reagir aquele vazio que de repente se instalou, começou uma dura caminhada de revolta, conformação e aceitação que dura até hoje, como um livro no qual não conseguimos escrever o capítulo final.

Meses depois da tristeza se instalar, decidiu a minha mãe arranjar um bichinho de estimação que nos distraísse e nos animasse. Depois de estudar e aprofundar várias hipóteses, decidiu-se, com o beneplácito do meu irmão mais novo, por um husky de olhos azuis, estouvado e brincalhão, que fez as delícias de miúdos e graúdos.

Veio para a nossa família com três ou quatro meses, um traquinas com pedigree e um nome todo pomposo e impronunciável na caderneta do Clube de Canicultura, mas como tinha uma mancha na fronte, passou a ser o Gorby, sem títulos nem berço.  Era o nosso cão.

A casa dos meus pais em Belém num espaçoso terceiro andar, tinha a vista para o Tejo mais bonita das redondezas. Tinha também a escada mais íngreme e desgastante de subir de que tenho memória num prédio de três andares. Isto aliado ao gosto eclético da minha mãe por peças de decoração e mobiliário que atafulhavam profusamente  toda a área, tornou a vivência do Gorby lá em casa algo limitada. Ao princípio, enquanto cachorrinho, esgueirava-se facilmente por entre os exíguos espaços vazios. Depois cresceu. Cresceu muito. A mesa da sala debaixo da qual gostava de se refugiar, perdeu em tamanho e tornou-se numa armadilha com a pesada pedra de mármore a cair com estrondo sempre que o Gorby se levantava e a carregava nas costas.

E ir á rua? Só o meu marido e os meus irmãos tinham arcaboiço para a proeza, pelo que se iam revezando todos os dias.

Passados cerca de dois anos, sempre dócil e brincalhão jogava qualquer de nós de cangalhas em brincadeiras, tal não era a sua força. Com a patas dianteiras nos meus ombros, quase ficávamos equiparados em altura. Todos os dia tinha ralhete por destruir qualquer coisa lá por casa.

Um fim de semana, o padrinho do meu irmão mais novo foi de visita à minha mãe e encantou-se com o Gorby. Morava numa casa com jardim ali para os lados da Fonte da Telha e ofereceu-se para levar o Gorby por uma semana para a minha mãe descansar. Tinha crianças pequenas e foi uma alegria. O Gorby esteve dois dias tristonho, com saudades, mas depressa se habituou aquela casa e aquela gente que tão bem o tratava e lhe dava espaço para correr e o levava em longos passeios na praia todos os dias ao entardecer.

Depressa entendemos que aquela semana de férias duraria uma eternidade e que o “lado de lá" se tornaria em peregrinação obrigatória de muitos fins de semana.

Falar no Gorby trouxe lágrimas por muito tempo, mas também exultação com os vários prémios que ganhou em concursos nacionais e estrangeiros e muitas gargalhadas com as histórias das suas tropelias.

Nunca se esqueceu de nós nem da nossa casa. Quando chegava nas imediações começava a ficar inquieto e a ladrar de satisfação. Cada visita era um acontecimento de afagos e lambidelas.

Viveu uns felizes 15 anos.

Nunca mais quis ter um cão.

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