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Delito de Opinião

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 18.04.21

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André Miguel: «O que parecia uma boa notícia não era senão um pré-alerta para o que estava a chegar. De um dia para o outro, o horror: os dólares acabaram. O mundo, afinal, era muito maior que Luanda e os ventos de lá fora sacudiram o El Dorado com violência, pois chegara a factura pelas dificuldades de financiamento devido à crise internacional e consequente baixa do preço do petróleo. Só às construtoras a coisa atingira uns estonteantes 5 mil milhões de euros. Os angolanos descobriam de um momento para o outro que afinal o petróleo não mata a fome e os portugueses que não há almoços grátis, principalmente na Ilha de Luanda onde nunca custam menos de 100 dólares por pessoa. O pior é que o preço do escritório e do apartamento não baixou, os buracos não se taparam todos, a energia continua a falhar e a água ainda só pinga na torneira; lidar com isto e com facturas por pagar não é para todos.»

 

Bandeira: ««O inspector dobrou a gabardina, poisou-a cuidadosamente sobre as costas da cadeira, encheu o peito de ar e disse, ao mesmo tempo que expirava:

«Foi o Marcelo.»

«O Marcelo, inspector…?», escandalizou-se o guarda Caetano.

«O Marcelo, Caetano.»

Tomás entrou de rompante no gabinete, corado ainda do opíparo almoço.

«Viva, inspector! Viva, Caetano!»

«O Américo, Tomás?», perguntou o inspector.

«Pensei que estava consigo.»

«Comigo? Não o vejo desde ontem. Preciso que você vá com ele e com o Caetano.»

«Fazer o quê, inspector?»

«Buscar o Marcelo», suspirou o guarda. Tomás voltou a sua incredulidade para o cívico:

«O Marcelo, Caetano?»»

 

João Carvalho: «"Basílio Horta diz ter aceitado "com gosto" o convite para encabeçar a lista do PS em Leiria e continua a afirmar-se como "um democrata-cristão".» Ser cabeça-de-lista numa eleição é própria de um democrata, sim. Já mais duvidoso é ser-se cristão e apoiar aqueles que nos arruinaram. Mas cada um sabe de si, não é? Um bom cristão dorme com a consciência tranquila. E quem não foi atirado para a ruína também. Nada como ser-se democrata-cristão em casa socialista.»

 

Teresa Ribeiro: «Num país de crescimento demográfico negativo, a maternidade de referência anda de mão estendida por falta de verbas. O quadro tem uma forte carga simbólica. Sugere-me paisagens desoladas como aeroportos de província desactivados ou cidades fantasmas, como as que vemos em certos westerns. Portugal também ficaria bem a rodar em ecrã gigante, talvez com o som de rock depressivo em fundo. Joy Division ou um daqueles temas incompreensíveis e aflitos de Bjork combinam bem com imagens decadentes, como a da Maternidade Alfredo da Costa a pedir esmola.»

 

Eu: «Como se verá em Junho, quando forem contados os votos das legislativas, José Sócrates cometeu um erro trágico ao manter-se na liderança do Partido Socialista em vez de imitar o que fez Rodríguez Zapatero em Espanha. Uma nova direcção partidária permitiria outro fôlego eleitoral ao PS - à semelhança do que o PSOE vem indiciando nas mais recentes sondagens, feitas após Zapatero ter comunicado que não se recandidataria a novo mandato - e sobretudo recolocaria os socialistas portugueses no centro do palco político português, prontos a estabelecer pontes simultâneas à esquerda e à direita. Precisamente ao contrário do que fez Sócrates, também incapaz de dialogar dentro do partido que lidera e do seu próprio Governo, como testemunha a sua ruptura com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, agora saneado das listas eleitorais socialistas.»

Leituras

Pedro Correia, 17.04.21

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«Escute, Sr.ª Robinson - disse Benjamin. - Penso... penso que é a mulher mais atraente de todas as amigas dos meus pais.»

Charles Webb, A Primeira Noite (1963), p. 78

Ed. Inova, Porto, 1974. Colecção Metamorfoses, n.º 7. Tradução de Eduardo Aguiar

O "Babygro" político: Marcelo Rebelo de Sousa

jpt, 17.04.21

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(Postal também colocado aqui)

Artur Portela (durante décadas conhecido como Portela Filho) morreu há pouco. Das minhas estantes paternas recuperei-lhe alguns livros, em particular estas colectâneas "A Funda", belo mostruário da década de 1970. Deste quarto volume (Editora Arcádia, 1974) retiro este texto, de Janeiro de 1974, um elogio a Marcelo Rebelo de Sousa. Será interessante 47 anos depois não só ler a memória daquele final do Estado Novo, mas também observar o actual presidente a partir deste texto:

O "babygro" político

Era o filho pródigo do Regime. / Fizera, no Direito, a ideologia, a família moral, o destino histórico. / Estava talhado, calibrado, destinado. / Não era um acidente - era uma raça. / Tinha, sobre a cabeça, a estrela. Na fronte, o halo. No olhar, a certeza. No sorriso, a sorte.

E quando passava, nos corredores pombalinos do poder, soltando a sua risada aguda, o seu gesto largo, todos os barões, acercando, cochichadamente, as cabeças, o seguiam com um olhar terno. / Era Marcello. / Era Rebello. / Era De Souza. / E, excessivamente, Nuno.

Foi o escândalo. / Foi o escândalo quando ele, recusando sob Martinez, a reprise, rechaçando, sob Dias Rosas, a tarimba, apareceu por sobre o ombro Pestana & Brito de Francismo Balsemão, a espreitar. / Era a fronda do Expresso. / Não quiseram crer. 

E, no entanto, era bem ele, a vivacidade Tim-Tim, a barba Trotsky, o olhar Harold Loyd. / E o riso fácil, a voz estaladamente metálica, a inteligência extravasante, o brilho incontrolado. / O próprio excesso. / O Regime empalideceu. / A Esquerda riu. E a 3ª Força, ela mesmo, sentiu, naquele Gotha revoltado, naquela lei de  Mendel às avessas, naquela Divisão Azul, um compromisso, uma má consciência, um lastro, uma trela. / Um chumaço. / Uma bala de madeira. / Uma injustiça.

Esperava-se uma imoderação. / Foi uma táctica. / O Regime habituou-se àquela perda. A Esquerda, um momento desperta, mergulhou na sonolência da sua dor. / E os próprios Liberais, por instantes irritados com o metal daquela voz, com a velocidade daquela análise, com a fome daquela super-alimentação política, soltaram, de alívio, um suspiro quando ele se sentou, Z. Zagallo, atrás de Francisco Balsemão.

De resto, que podia Marcello Nuno perante as figuras colossais dos campeões liberais? / Do Norte, chegava, moralmente gigantesco, Sá Carneiro. Do Sul, assomava, consciência viva da Universidade, Miller Guerra. João Salgueiro lançava, para a mesa, na sua luva, o peso inteiro da Sedes, Magalhães Motta movia todo um Congresso. Xavier Pintado desembaciava, do bafo do poder, as suas lentes poderosas. E Francisco Balsemão, de uma rotativa renitentemente Lopes do Souto, arrancava esse "tour de force" que eram 70 000 cópias do "Expresso".

E quando, de trás, da sombra, Marcello Nuno, lápis trémulo, soerguia uma qualquer sugestão, corria, em redor da mesa, um sorriso paternal. / Parecia ser o fim das mais belas esperanças. / O Regime enxugou, por ele, a sua última lágrima. / Fora o príncipe - era o pobre.

Como foi que aconteceu - sabem-no poucos. / Os Liberais, por instantes sob o fogo dos projectores, apagam-se. Um a um. Como lâmpadas de uma peça proibida. / Sá Carneiro é já um bronze a si próprio. A Sedes converte-se num Rotary de quadros. Magalhães Motta está pulindo, inutilmente, a tabuleta de advogado. Xavier Pintado perde o fôlego. E Francisco Balsemão faz Porsche.

Vai-se a ver - e quem está? / Está - quem o diria? - Marcello Nuno. / Só ele se move. Só ele existe. Só ele manobra. / Ele é, nas eleições, a única carta nova dos liberais. O seu único talento. A sua única voz forte e original. A sua única manobra. 

A 2ª página do "Expresso" é ele. A 3ª página do "Expresso" é ele. É ele que flirta com  a Oposição. É ele que desmantela aquele barão A. N. P. / Os títulos são ele. / Os itálicos são ele. / A manobra é ele. / Sá Carneiro faz grandeza. Miller Guerra faz pitoresco. Francisco Balsemão faz charme. / Marcello Nuno faz política.

Há, em tudo isto, a inteligência descompassad da imaturidade? / Há. / Há, em tudo isto, o intelectualismo, a abstracção, o jogo, o luxo, o revanchismo, o edipismo? / Há. / Há, em tudo isto, Freud e Júlio Verne, Luís XIV quando jovem e Douglas Fairbanks Júnior, José António Primo de Rivera e Mickey Rooney? / Há. 

Mas como é possível que a 3ª Força não tenha envergadura para absorver esta descarga eléctrica, para sublimar este escândalo de qualidade, para disciplinar este brilhantismo avulso e lúdico? / Não tem ela a sua disciplina ideológica, a sua hierarquia moral, a sua separação de poderes, o seu ministério sombra, a sua escrita em dia, a sua poeira assente, o seu espírito de seriedade, a sua mochila, o seu colete, o seu polimento? / O seu primeiro jovem turco vai logo a Ataturk? / Que é isto - uma força ou um terreno vago?

Os Liberais acabaram? / Não necessariamente. Mas já fizeram a sua adolescência histórica. / E ainda não sairam dela. / Isto que prova? / Prova que a 3ª Força é a impaciência da 1ª Força. / Prova que a política não é apenas uma generosidade mas também uma hereditariedade. / Prova que a vida política portuguesa se conta pelos dedos - e que a 3ª Força tem o seu Pulgarzinho. / Acontece com Marcello Nuno esta coisa cara aos monárquicos - a vocação política como bem moral de raiz. 

O pai Miller Guerra ofereceu ao filho Miller Guerra, talvez, um estetoscópio de brinquedo. / O pai Sá Carneiro ofereceu ao filho Sá Carneiro, talvez, uma toga de ganga. / O tio Balsemão ofereceu ao sobrinho Balsemão, talvez, uma rotativa de latão. / A Marcello Nuno deram, talvez, 99 000 quilómetros quadrados de esperança e dez milhões de bonecos de pasta. / É o que se chama - um "Babygro" político. 

Tem ainda outra vantagem. / Decisiva, essa. / O ser meu amigo. / E, claro, meu adversário.

Nota: Troquei os parágrafos utilizados pelo autor pela barra ("/") apenas para tornar o texto menos longo no suporte de blog.

 

Medina Carreira :«Nunca fui corrompido»

Quem fala assim... (37)

Pedro Correia, 17.04.21

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«Este país vive sempre no curto prazo, em função do trimestre anterior e do trimestre que há-de vir»

 

Bem ao seu jeito, Henrique Medina Carreira respondeu assim, quando lhe perguntei qual era o seu maior sonho: «Era ver isto governado por gente honesta e competente. Se não mudarmos, Portugal caminha rapidamente para um desastre financeiro e social de proporções históricas.» Numa entrevista telefónica que lhe fiz 18 meses antes da chegada da troika. Quem o conheceu, reencontra o seu tom aqui, do princípio ao fim. Infelizmente, o ministro das Finanças do I Governo Constitucional já não está connosco: faleceu a 3 de Julho de 2017.

 

Tem medo de quê?

Quase toda a gente tem medo de morrer. Eu não. Mas tenho medo da forma como se morre, do sofrimento. Fora isso, não tenho medo nenhum. Sou uma pessoa de vida limpa: nunca enganei ninguém, nunca fui corrompido.

Gostaria de viver num hotel?

De jeito nenhum. Gosto de viver em sossego.

A sua bebida preferida?

Água.

Tem alguma pedra no sapato?

Não. Houve quem me fizesse umas patifarias, mas isso não chega para alterar o meu humor.

Que número calça?

43.

Que livro anda a ler?

Ando sempre a ler vários livros. Neste momento estou a ler com muito interesse um do Vasco Pulido Valente sobre a política nos séculos XIX e XX. Ando a ler também com muito interesse outro livro, da Fátima Bonifácio, sobre o liberalismo.

História é um tema que lhe interessa?

É. Não conseguimos perceber bem o presente nem encontrar soluções para o futuro sem conhecermos o passado. Este país vive sempre no curto prazo, em função do trimestre anterior e do trimestre que há-de vir.

Tem muitos livros à cabeceira?

Na cabeceira só tenho canetas e uma telefonia. Mas tenho livros a toda a volta. Vivo rodeado de livros, desordenadamente e em pilhas. Quando quero um lá consigo encontrá-lo.

A sua personagem de ficção favorita?

As do Eça, sobretudo d' Os Maias e d' A Relíquia.

Falta-nos hoje um Eça?

Não sei se um Eça hoje bastaria.

Rir é o melhor remédio?

Tenho um ar desagraçadamente sisudo, mas gosto imenso de dar umas gargalhadas. Quando estou com pessoas de que gosto costumo rir-me perdidamente.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Choro com frequência, até com notícias da televisão. É uma fragilidade minha.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Gosto muito de conduzir, mas conduzo muito pouco porque há cada vez menos espaço para estacionar.

É bom transgredir os limites?

Depende. Quando são os outros que estão em jogo, não devemos transgredir.

Qual é o seu prato favorito?

Gosto muito de sardinhas assadas, de bacalhau. No fundo, gosto daquilo de que os portugueses gostam.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

Acho que não pratico nenhum. Não tenho a consciência pesada.

A sua cor favorita?

Encarnado. Sou benfiquista.

Costuma cantar no duche?

Não. Ficaria assustado comigo mesmo.

E a música da sua vida?

Sei pouco de nomes de músicas. Mas há uma que me fascina: o Adagio, de Albinoni.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Gosto muito do hino. Refiro-me sobretudo à música, pois reconheço que a letra é um pouco caricata. Mas todas as letras dos hinos são caricatas: basta ouvir as do Benfica ou do Sporting.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Com Mário Soares [falecido em Janeiro de 2017]. Trabalhei com ele e hoje estou em desacordo com ele em quase tudo. Mas é uma pessoa fascinante.

As aparências iludem?

Sou uma pessoa de boa fé. Costumo até dizer que qualquer um é capaz de me vender um carro eléctrico mas ninguém me vende segunda vez um carro eléctrico. Quando me enganam, é definitivo. Na política portuguesa existem aldrabões a mais. Aqueles que me enganam vão para o arquivo...

O que é que um verdadeiro cavalheiro nunca faz?

Desrespeitar os fracos, os idosos, as senhoras. Ainda sou do tempo de dar a direita a uma senhora.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Aquilo que trago agora: uma camisa ligeira e umas calças de ganga. Detesto casaco.

Qual é o seu maior sonho?

O meu maior sonho era ver isto governado por gente honesta e competente. Se não mudarmos, Portugal caminha rapidamente para um desastre financeiro e social de proporções históricas.

E o maior pesadelo?

Tenho um pesadelo frequente: acordo a meio da noite, num local estranho, que não sei qual é.

O que o irrita profundamente?

A aldrabice. Acho-a particularmente detestável.

Qual a melhor forma de relaxar?

Andar. Ler. Passear sem rumo e sem preocupações.

O que faria se fosse milionário?

É coisa a que não aspiro pois não saberia o que fazer.

Casamentos homossexuais: de acordo?

Não. Casamento é uma figura histórica que assenta na ideia de desigualdade sexual. Mas a regulação jurídica de uma relação entre iguais é algo que defendo há muito.

Uma mulher bonita?

Teresa Gouveia. Tem uma beleza serena, ponderada, reflectida, respeitadora.

Acredita no paraíso?

Não. A gente vive aqui e depois vamos todos para o mesmo sítio.

Tem um lema?

Fui educado sob o lema dos Pupilos do Exército: Querer é poder. Ao longo da minha vida tenho sido muito o produto da aplicação deste lema.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (22 de Agosto de 2009)

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 17.04.21

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Ana Sofia Couto: «Nas últimas semanas, mesmo os mais cépticos têm tido razões de sobra para acreditar que em Portugal os acontecimentos políticos escapam a um entendimento racional. Na pastelaria, diz-se que o país é uma anedota. As próximas eleições podem comprovar a tese: se o PS não for fortemente penalizado, ficamos a saber que para muitos eleitores não interessa a responsabilidade - e a culpa - de quem nos conduziu a esta situação.»

 

Rui Rocha: «"Playing for Change" é um movimento que tem como objectivo levar a paz a todo o mundo através da música. Deixo aqui One Love numa versão imperdível. Hei-de trazer aqui outros momentos fantásticos deste projecto.»

 

Eu: «Alguns filmes reconciliam-nos com o cinema. Outros reconciliam-nos com a vida. Mais raros ainda são os que nos reconciliam simultaneamente com a vida e o cinema enquanto o tempo passa. Como este filme, que apetece rever uma vez e outra. Graças a Lost in Translation, seremos sempre felizes em Tóquio. Quem disse que jamais se deve voltar a um lugar onde já se foi feliz?»

Grandes romances (32)

Pedro Correia, 16.04.21

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 A GRANDE MURALHA VERDE

A Selva, de Ferreira de Castro

 

Nenhum romance português foi tão lido por estrangeiros como este. Traduzido para castelhano, alemão, italiano, inglês e francês poucos anos após ter sido publicado, em Maio de 1930, rendeu ao seu autor fama mundial e um desafogo financeiro que lhe permitiu abandonar o jornalismo, tornando-se escritor profissional. Quando foi impressa a 10.ª edição portuguesa, em 1945, já meio milhão de exemplares haviam sido vendidos além-fronteiras e 42 mil por cá.

Em 1973, José Maria Ferreira de Castro (1898-1974) era, precisamente com A Selva, um dos dez romancistas mais traduzidos no mundo, segundo revelou a Unesco. Galardoado em 1970 com o grande prémio Águia de Ouro Internacional no Festival do Livro de Nice, mereceu o voto unânime de um júri presidido por Isaac Singer e que integrava Gore Vidal, Hervé Bazin e Miguel Ángel Asturias. No ano seguinte, em Paris, recebeu o Prémio da Latinidade, partilhado com Jorge Amado e Eugenio Montale. Em parceria com o autor de Jubiabá, seu amigo, chegara a ser proposto em 1968 para o Nobel da Literatura por iniciativa da União Brasileira de Escritores.

Destino de sonho para um menino pobre, nascido numa aldeia do concelho de Oliveira de Azeméis. Órfão de pai aos oito anos, em 1911 viu-se forçado a rumar ao Brasil, onde vivia um tio. Foi sozinho, num navio que o conduziu de Leixões a Belém do Pará. Ali aguardava-o uma vida agreste, duríssima: aos 13 anos, já trabalhava numa plantação de borracha, então um dos produtos mais cobiçados à escala planetária.

«Quatro anos iguais a uma noite escuríssima, onde não é possível acender luz alguma.» Assim o escritor recordaria esses tempos em que se tornou adulto ainda menino, num seringal situado nas imediações de Humaitá, no interior do estado do Amazonas. Dessa experiência trouxe material para mais de meio século de labor literário. Ao ponto de muitos brasileiros ainda o considerarem um dos seus, não lhes faltando razão para isso: Ferreira de Castro contribuiu mais para estreitar os laços entre o país natal e a nação irmã - onde viveu oito anos, até 1919, e que visitaria várias vezes depois - do que todas as entidades oficiais nas duas margens do Atlântico.

 

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A Selva é um livro precursor. Num tempo em que ninguém falava em ecologia, faz da floresta a personagem principal. Capítulo após capítulo, ela arrebata-nos com o seu encanto, o seu sortilégio, o seu feitiço, a sua solidão imensa. A floresta amazónica, pulmão do planeta, é berço de incontáveis vidas. Mas também túmulo de intrépidos e de incautos. Ali todo o cuidado é pouco. E o respeito quase sagrado pela natureza, que nestas páginas assume carácter totémico, é vital para a preservação da espécie humana.

Castro conduz-nos pelas fascinantes alamedas deste império vegetal que lhe ficou para sempre impresso na memória. Navegamos no rio Negro até à confluência com o majestoso Amazonas. Desembarcamos em Manaus, capital amazónica, «cidade onde o homem impusera à natureza virgem muitas das conquistas do seu espírito». Passamos por vilas e cidades que reproduzem as origens dos seus primeiros desbravadores: Santarém, Alenquer, Óbidos, Borba, Faro...

Guiados por ele, assistimos à ganância do homem, o maior predador de todos os animais. Testemunhamos a exploração de mão-de-obra quase escrava, visando os miseráveis que ali aportavam dos confins do Maranhão ou do Ceará e cedo viam o sonho transformar-se em pesadelo.

Vamos com Alberto, português de 26 anos, tardio estudante de Direito, refugiado político no Brasil. Militante anti-republicano, envolveu-se nas conspirações que conduziram à proclamação da efémera Monarquia do Norte, em 1919. A fuga de navio permitiu-lhe escapar ao calabouço, ignorando que acabaria aprisionado ao ar livre, na infernal Fazenda Paraíso, junto ao rio Madeira, rasgando estradas e desbravando troços de floresta às ordens de um desses novos senhores feudais. Ele, burguês letrado, irmanava-se aos humildes trabalhadores braçais, afogados em suor e desespero: a vida ensina-lhe uma lição que jamais encontrará em livro algum.

 

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«Tudo selva, selva por toda a parte, fechado o horizonte na primeira curva do monstro líquido.» Lá seguimos com ele, rio acima, rendidos à insuficiência humana no contraste com o denso império vegetal que se estende quase das bermas do Atlântico até aos confins fronteiriços com a Bolívia e o Peru num trajecto de 40 dias.

Nada a ver com a escala lusitana.

«Evocado dali, Portugal era uma quimera, não existia talvez. Pequeno e lá longe, os que o levavam na memória não estavam certos se viviam em realidade ou se sonhavam com as narrações dos que tinham voltado das Descobertas.» (45.ª edição, 2019, Cavalo de Ferro, p. 72)

Neste sentido, A Selva é uma anti-epopeia. Espécie de reverso d' Os Lusíadas. Nada de navegações gloriosas por mares incógnitos: apenas o combate quotidiano pela sobrevivência, entre o esplendor da paisagem e a degradação humana. Com o alcoolismo a devastar corpos fatigados - «a cachaça era como morfina na vida áspera do seringueiro.» A permanente ameaça dos índios ainda em estado selvagem em busca de cabeças humanas para rituais tétricos. Alusões a pedofilia e necrofilia. E o bestialismo irrompendo naquele cenário sem mulheres, como Alberto descobriu, estupefacto, na noite em que viu algo nunca imaginado: «A égua fora levada para ali e junto dela estava Agostinho, trepando num caixote, com a roupa descomposta.»

O bicho-homem, animal entre os animais. Entre as antas, «a melhor carne que tem o Amazonas». Entre os urubus negros, «cínicos devoradores de cadáveres». E a paca, a cotia, o tamanduá-bandeira, o tatu «com a sua couraça esbranquiçada e focinho agudo perfurador de todas as terras». E o jacaré, senhor dos rios. E a gigantesca sucuriju, cobra também presente nas águas e que «dum só golpe se lançava sobre cães e vitelos descuidados». E legiões de insectos, voadores e rastejantes. Sem esquecer o sapo-boi, cujos urros lancinantes atroam na solidão nocturna daquela «grande muralha verde» que parecia ter vontade própria, transformando seres humanos em títeres submetidos à sua força despótica.

«Ali não existia mesmo a árvore. Existia o emaranhado vegetal, louco, desorientado, voraz, com alma e garras de fera esfomeada.» (p. 144)

 

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Ferreira de Castro entre Eugenio Montale e Jorge Amado (Paris, 1971)

 

Espantoso, o conhecimento que o autor revela da floresta amazónica, conferindo plena validade ao título. António José Saraiva tinha razão ao mencionar Ferreira de Castro como «o primeiro escritor português que não usa gravata». Definição que ajuda a explicar a popularidade deste autor que sobrevive quando muitos dos que recusaram integrá-lo no cânone literário ungido pela Academia desapareceram sem deixar rasto.

Centrado no milenar confronto entre o homem e a natureza, A Selva lê-se como um romance de aventuras - e, à margem de qualquer rótulo erudito, é assim que apetece classificá-lo. Foi também isto que fascinou alguns dos seus leitores mais célebres. Agustina Bessa-Luís, que era parca em elogios, chamou-lhe «obra-prima» e confessou ter-lhe despertado a vocação literária. «Um clássico de nosso tempo, um desses poucos livros definitivos», sentenciou Jorge Amado. «Admirável romance», observou Stefan Zweig já no exílio brasileiro. «Livro inesquecível», salientou Albert Camus ao ler a célebre tradução francesa da obra, assinada em 1938 por Blaise Cendrars - que logo os invejosos cá do burgo, na sua eterna maledicência, se apressaram a dizer que tinha «melhorado muito» a versão original.

 

«A árvore solitária, que borda melancolicamente campos e regatos na Europa, perdia ali a sua graça e romântica sugestão e, surgindo em brenha inquietante, impunha-se como um inimigo. Dir-se-ia que a selva tinha, como os monstros fabulosos, mil olhos ameaçadores, que espiavam de todos os lados.» (p. 97)

Espiavam seringueiros como Firmino, imigrado do sertão naquele desterro sem fim à vista. Espiavam antigos escravos, como o negro Tiago, que trazia a tragédia inscrita no destino e protagoniza a terrífica cena final, de clara inspiração cinematográfica. Espiavam os próprios donos dos seringais, como o ganancioso Juca Tristão, inimigo da liberdade.

Tudo polvilhado com riquíssimo léxico brasileiro, contribuindo - também no plano da linguagem - para tornar este romance numa obra ímpar da literatura portuguesa. 

 

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«Eu devia este livro a essa majestade verde, soberba e enigmática que é a selva amazónica», confessa Castro nas breves linhas introdutórias do romance, escrito a uma velocidade vertiginosa - nas escassas horas vagas deste jornalista que chegou a presidir ao Sindicato dos Profissionais de Imprensa - entre 9 de Abril e 29 de Novembro de 1929. Recuando à década precedente, àquela árdua adolescência na floresta brasileira, quando «não houve um só dia» em que não desejasse evadir-se para a cidade. 

Aos 31 anos, sentiu-se obrigado a relatar este «drama de homens perante as injustiças de outros homens e as violências da natureza». E a nós, que vivemos em atmosfera de conforto, pôs-nos a par da «luta de cearenses e maranhenses nas florestas da Amazónia» perante a indiferença de quem, «no resto do mundo, se deixa conduzir, veloz e comodamente, num automóvel com rodas de borracha - da borracha que esses homens, humildemente heróicos, tiram à selva misteriosa e implacável».

Alberto, enfim amnistiado pelas autoridades republicanas, recebe a boa notícia por carta da mãe e prepara-se para voltar à pátria. Vai um homem mudado. Acima das paixões políticas, quer «justiça para todos»: passou a sonhar com um mundo onde não seja necessário ninguém degradar-se para subsistir. Um mundo onde a lei da selva não predomine fora daquela imensa muralha amazónica, «desse verde eterno e sempre igual».

 

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Anteriores textos desta série:

 

Sinais de Fogo - Do amor e da guerra

A Escola do Paraíso - Esta Lisboa de outras eras

O Anjo Mudo - Sem tecto, entre ruínas

A Tia Julia e o Escrevedor - Ouvir para crer

Os Teus Passos na Escada - O medo nunca morre

A Torre da Barbela - No reino dos mortos-vivos

Para inglês ver

Paulo Sousa, 16.04.21

Ontem ouvi um relato de um telefonema feito por um responsável de uma escola pública, dirigido ao encarregado de educação de um aluno com fraco aproveitamento escolar. Ao referido encarregado de educação foi proposto que dada a situação – entenda-se o perfil do aluno – se ele aceitava que o seu educando participasse nos exames nacionais como sendo aluno externo, evitando assim de prejudicar o ranking da escola.

Lamentavelmente o receptor da chamada não respondeu que aceitaria desde que a proposta fosse feita por escrito, e simplesmente declinou a ideia.

Umas horas mais tarde trouxe esse episódio à conversa com uma pessoa amiga reformada do ensino, e a reacção foi quase como de um encolher de ombros. Sim, essas coisas acontecem.

Lembrei-me de imediato da repetida ladainha de alguns professores que explicam os maus comportamentos de alguns alunos com as deficiências educacionais que estes trazem de casa. Será que podemos perguntar qual a referência moral que uma escola dá aos seus alunos, quando faz uma proposta destas?

Tentando ignorar a vertente ética de tudo isto, podemos dizer que o nosso atraso crónico resulta também desta menorização e desprezo da realidade. Prefere-se de longe as aparências e por elas vale sempre a pena maltratar umas estatísticas e arrendondar umas esquinas.

Depois de tentar arredar tudo isto do meu espírito, soube que o nosso PM quer mudar o modelo de contagem de casos COVID, para poupar o turismo no Algarve.

A atitude retratada pela expressão que dá o título a este postal, e que ganhou forma durante o domínio inglês do nosso país, no início do sec. XIX, faz realmente parte da nossa forma de estar na vida.

A leviandade com que enganamos os nossos compatriotas faz parecer que estamos mesmo convictos de que não nos estamos a enganar a nós próprios.

Separar águas

Sérgio de Almeida Correia, 16.04.21

É evidente que Pedro Delgado Alves está cheio de razão. O problema não é o de separar a fronteira entre a justiça e a política. Essa fronteira há muito que está traçada e as duas realidades não são confundíveis por muito que haja quem goste de procurar esbater as diferenças ou evite destrinçá-las. O que importa sim é separar entre quem deve estar na política e nos partidos e quem deverá estar fora e de preferência longe deles.

Ana Catarina Mendes está profundamente enganada. Talvez por isso também tenha estado tão desconfortável na edição da Circulatura do Quadrado em que se discutiu o "processo Sócrates". 

A discussão deverá ser feita não apenas em torno, muito menos centrada, num dos figurões que mais contribuiu nas últimas décadas para afundar a imagem dos partidos e do regime, mas no modo como esse tipo de "camaradas", e outros como ele, ascendem dentro do partido até ocuparem lugares na estrutura política e nas instituições do Estado, criando uma teia de dependências e clientelas às quais se distribuem lugares, favores e negócios, favorecendo unanimismos e ostracizando todos os que não se revêem no rebanho e não estão dispostos a apoiar e a colar-se a todo e qualquer traste que apareça e que se mostre disponível para juntar a carneirada necessária para fazer a caminhada até à conquista do poder, onde depois se dedicará à distribuição de pelouros e incentivos, recompensando quem lhe for "fiel", ainda que o seja hipócrita e interesseiramente, e sempre na mira de mais qualquer coisinha para a empresa, o cônjuge, o filho, a nora, o primo, o amigo...

Porque os vícios de Sócrates já existiam antes, existem em todos os partidos, e continuam depois dele. No PS até hoje não mudou nada. E os mesmos que o apoiaram, também deliraram com Soares, Sampaio, Constâncio, Guterres, Seguro e Costa, e apoiarão o próximo que aparecer quaisquer que sejam as suas ideias, circunstâncias, percurso ou passado. Como se fossem todos iguais, como se fossemos todos iguais e todos tivéssemos os mesmos méritos.

Não há que temer falar nos problemas, discuti-los abertamente, de forma franca, leal e frontal. Para que todos ouçam, vejam, compreendam. E para os que estão lá fora possam ganhar confiança, perceber que um partido não é uma seita, nem uma extensão do mau funcionalismo público ou de uma qualquer tropa fandanga onde se é promovido por se pertencer à família A ou B, se tomarem cafés com os camaradas ou se estar disponível para comer e calar.

Enquanto isso não for feito hão-de continuar a reproduzir-se os jotinhas, os sócrates e os varas, os que agilizam processos, mais os que engolem papéis, os que vão comprar os livros do "chefe" para atingirem os primeiros lugares das livrarias, os que se vacinam primeiro, os que traficam influências e consulados honorários à sombra do partido, mais os preguiçosos que não conseguem arranjar uma carreira ou uma profissão, e os que estão num buraco qualquer de uma empresa ou de uma repartição porque não dão para mais e anseiam ser promovidos a deputados, para se sentirem importantes; e ainda os que não sabendo fazer nada, não sendo políticos profissionais, mas antes profissionais da política, vão pedir aos líderes dos outros partidos que lhes arranjem um poleiro qualquer numa peixaria quando o seu partido perde eleições, e por aí fora.

Tudo o que não é encarado de frente e com vontade de ser resolvido persistirá ad aeternum. Os maus hábitos quando não são atempadamente corrigidos tendem a fossilizar. Os maus políticos também. E reproduzem-se, entrando pelas medulas, contribuindo para a afirmação dos traços dominantes do carácter. Até se tornarem estruturais. Como até hoje.

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 16.04.21

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Ana Sofia Couto: «Um filme belíssimo sobre a memória, a doença, a beleza, o bem e o mal, e a possibilidade de encontrar em tudo isto a melhor lição de poesia. Venceu o prémio de melhor argumento na edição de 2010 do Festival de Cannes.»

 

João Carvalho: ««A pedido da direcção de Informação da TVI venho informar que as imagens do primeiro-ministro a testar o som, no púlpito, em São Bento, fornecidas pela RTP, não são para utilizar.» Ficamos a saber que S. Bento tem um púlpito, mas... quando um primeiro-ministro, preocupadíssimo com uma comunicação ao País sobre a chegada do FMI, pede a um Luís que lhe diga se fica melhor mostrar a orelha direita ou a orelha esquerda, está a testar o som?»

 

Rui Rocha: «Aquilo de que precisamos não é de menos democracia, mas de mais democracia. De uma democracia que evolua da ideia de que toda a irresponsabilidade é permitida para a consciência de que toda a responsabilidade pode e deve ser exigida. A resposta à crise não pode ser mais ausência e demissão dos cidadãos. Pelo contrário, é fundamental reforçar a participação. Desde logo, nas eleições. Mas, também antes e depois delas. 

 

Eu: «O universo de Raymond Carver é povoado de quadros agrestes, de visões desencantadas de um quotidiano onde a esperança há muito deixou de morar. É um mundo citadino, contemporâneo, cheio de personagens que andam à margem do afecto - um mundo de vencidos da vida, confrontados com a erosão de toda a espécie de ideais. Um mundo onde, apesar de tudo, irrompem uns súbitos lampejos de ternura: é nesta complexa atmosfera que tem feito soçobrar por manifesta incapacidade tantos escritores de renome que o malogrado norte-americano se agiganta, como cronista perfeito da era de todas as imperfeições, sem rasto de heróis. O tédio das sociedades materialistas e o desgaste do amor são temas que lhe são caros.

Era rico mas pedia dinheiro

Pedro Correia, 15.04.21

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Primeiro andamento:

«O que me ofende são algumas afirmações que por aí vejo, de gente... aliás alguns deles próximos de mim, que acham que eu andei a inventar que a minha família tinha posses que nunca teve, que o meu avô não era um homem rico, que nunca trabalhou no volfrâmio, que nunca enriqueceu no volfrâmio. Eu apresentei ao juiz a prova. Fui buscar as escrituras das partilhas da herança da minha mãe feitas nos anos 80. Para provar que a minha família tinha recursos, que a minha mãe era uma mulher rica, uma mulher que tem três heranças nos anos 80.»

«A minha mãe teve um conjunto de heranças que sensivelmente, pelos cálculos que podemos hoje fazer... de cerca de um milhão de contos.»

«A minha mãe teve sempre um cofre em casa, toda a vida. Toda a gente sabia.»

«O meu avô era um homem muito rico, era um homem de muitas posses.»

 

Segundo andamento:

«O engenheiro Carlos Santos Silva fez-me empréstimos em 2013 e 2014.»

«Em 2013 o engenheiro Carlos Santos Silva ofereceu-se para me ajudar porque eu estava a viver em Paris. Decidi ir para Paris para estar com os meus filhos, para fazer um mestrado e para que os meus filhos concluíssem o seu ensino secundário numa escola estrangeira. Não foi nenhuma vida de luxo. Foi um investimento na minha educação e na dos meus filhos. E o engenheiro Carlos Santos Silva decidiu financiar-me, ajudar-me nisso.»

«Estes empréstimos totalizam 560 mil euros.»

 

Excertos da entrevista que José Sócrates deu ontem à TVI

Medíocre

Sérgio de Almeida Correia, 15.04.21

Tudo se resume a uma única palavra: medíocre.

Medíocre a governar, medíocre a liderar o partido, medíocre a mentir, medíocre a defender-se.

Mas talvez não tão medíocre como os que o guindaram à posição que atingiu, o seguiram acefalamente dentro do partido, ainda lá estão como se nada tivesse sido com eles, e o protegeram até ao fim.

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 15.04.21

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Jorge Fonseca Dias: «Podemos apostar no fim da batota. No fim da burocracia. No choque fiscal empresarial. Num posicionamento realmente diferenciador no que toca à tecnologia e activos humanos. Podemos criar legislação que pisque o olho a capital e empresas. Podemos ser sociais para com quem precisa. Podemos ser solidários. Podemos ser palco para inovação na ciência. Podemos usar o mar. Podemos aperfeiçoar na energia renovável. Cada um de nós pode participar. Afinal, o que queremos nós para Portugal?»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Foi capa da L' Espresso. Para Alessandra Mammì é só o mais belo filme de Moretti. Considerado por Marco Politi, um especialista em questões do Vaticano do quotidiano "Il fatto", como uma obra genial, o filme que hoje estreia em Itália de um realizador de excepção é uma viagem pelo Vaticano, pelas suas hierarquias, pelos corredores do poder e pela solidão. Ou o drama de um Papa que depois de eleito para o trono de S. Pedro se confronta consigo próprio, com as suas fraquezas e as suas dúvidas. Michel Piccoli regressa no principal papel. Definitivamente uma obra a não perder.»

 

Teresa Ribeiro: «Pena não se poder fazer como no futebol e contratar no exterior os craques que fazem falta aqui no plantel. Sem o nosso ADN, que é, já não me restam dúvidas, o nosso maior problema estrutural, a governação seria mais fiável. Um alemão nas Finanças e um finlandês na Educação, para começar, não estaria mal. O tal chinês talvez pusesse na Economia. Nada como uns negócios da China para pôr a nossa Economia a funcionar.»

 

Eu: «Fernando Nobre anda a ser criticado, vejam lá, por faltar à palavra: disse que não se envolveria com nenhum partido e acabou por aceitar figurar como independente nas listas do PSD. Quem o critica, em grande parte, é gente que acha muito bem haver um primeiro-ministro que agora governa com o FMI quando há poucos dias jurava que não governaria com o FMI. (...) Não me choco com a duplicidade de critério destes incongruentes, que em larga medida cumprem uma antiquíssima tradição do servilismo lusitano: é de bom tom evitar qualquer crítica ao Governo. Choca-me, isso sim, que Portugal esteja à beira da bancarrota - e que, segundo as estimativas do FMI, venha a ser o único país da União Europeia em crise persistente no próximo ano. De uma coisa tenho a certeza: não foi Fernando Nobre quem conduziu Portugal a este cenário de ruína.»

A Presidente da Junta

jpt, 14.04.21

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Este é o último jornal "Olivais", publicado pela Junta de Freguesia, do qual a directora é a presidente dessa Junta, Rute Lima. Não nos prendamos nesta primeira página coberta com uma fotografia - retocada sob notória estética norte-coreana - da presidente/directora/(também colunista do jornal "Público").

Pois o relevante é mesmo isto: o jornal tem 20 páginas. 18 dessas são dedicadas a uma entrevista dessa mesma presidente/directora, em registo notoriamente auto-elogioso, propagandístico se se quiser. As outras duas páginas são de anúncios a actividades da ... Junta.

É esta gente, praticante deste caciquismo abjecto, propagandeado sem pudor através de publicações pagas pelo dinheiro público, que em 2021 o PS tem para propor para encabeçar uma freguesia da capital, com mais de 30 mil eleitores. E , já agora, que o jornal "Público" convida para colunista.

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