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SIR SEAN CONNERY (1930-2020)

por João Sousa, em 31.10.20

Não penso ser possível fazer justiça a Sean Connery num par de parágrafos - por isso nem o vou tentar.

Considero a mais eloquente prova do talento de Sean Connery o facto de, apesar de ter sido o primeiro (e para muitos, incluindo este escriba, o melhor) James Bond, ter conseguido que isso fosse apenas uma das alíneas de um invejável currículo. Filmou com grandes realizadores como Sidney Lumet, Brian de Palma, Hitchcock e Spielberg. Representou um personagem de Umberto Eco. Participou em clássicos como Um Crime no Expresso do Oriente; épicos como A Bridge Too Far; bizarrias como Zardoz; pequenas preciosidades como Robin and Marian; falhanços como The Avengers e atrocidades como The League of Extraordinary Gentlemen. No fim disto tudo, recordo muitos grandes filmes, vários maus filmes que ele não conseguiu salvar - mas nenhum que tenha sido mau por causa dele. E possuía a saudável auto-estima para, depois de ter sido este:

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(imagem promocional de Goldfinger)


fazer um filme nestes preparos:

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(Zardoz)

Leituras

por Pedro Correia, em 31.10.20

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«Deus fez-nos à imagem da sua solidão

Vergílio FerreiraAté ao Fim, p. 257

Ed. Bertrand, 1987

Quem fala assim... (20)

Fernando Vendrell: «Irrita-me a burocracia»

por Pedro Correia, em 31.10.20

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«O meu maior pesadelo é trabalhar em cinema em Portugal»

 

Produziu Belle Epoque, a longa-metragem do espanhol Fernando Trueba que em 1994 ganhou o Óscar de melhor filme estrangeiro. E realizou ele próprio vários filmes, de Fintar o Destino (1998) a Aparição (2018). Fernando Vendrell começou a responder de forma lacónica mas foi-se soltando ao longo da entrevista.

 

Tem medo de quê?

Do cão.

Gostaria de viver num hotel?

Prefiro o hotel ao campismo.

Tem alguma coisa contra o campismo?

As formigas.

A sua bebida preferida?

Água.

Em qualquer estação do ano?

Há momentos em que prefiro o vinho.

Tem alguma pedra no sapato?

Tenho.

Não há maneira de sair?

Não depende de mim.

Que número calça?

40.

Que livro anda a ler?

Ando a ler vários. Destaco A Faca não Corta o Fogo.

Está a gostar?

É fabuloso. Só podia, sendo do Herberto Helder.

Tem sempre muitos livros à cabeceira?

Muitos. Entre cinco (mínimo) e dez.

E se a cabeceira fosse maior...

Teria 25 livros.

A sua personagem de ficção favorita?

Buster-Keaton: uma pessoa-personagem.

Rir é o melhor remédio?

Sim. É um dos melhores remédios. Mas há outros.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Não me recordo. Se calhar, de propósito.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Normalmente gosto mais de conduzir. Mas pode dar-me grande prazer ser conduzido. Depende muito das circunstâncias.

É bom transgredir os limites?

Acho que se deve tentar sempre transgredir os limites.

Qual é o seu prato preferido?

Depende dos dias. Hoje o meu prato preferido é bacalhau com broa.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

A luxúria.

A sua cor preferida?

Azul.

Costuma cantar no duche?

Não. No duche costumo ficar mudo. É o lugar onde se pode chorar de forma mais discreta.

E a música da sua vida?

São as Sonatas para Violoncelo, de Bach.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Como todas as coisas, o hino também está sujeito a mudanças. Mas sou ainda mais radical: preferia uma boa alternativa de hino a modificar o que já existe. Devia ser considerada a hipótese de fazer um novo. O conteúdo bélico do hino não me satisfaz, embora respeite as condições históricas em que foi feito.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Com Barack Obama.

As aparências iludem?

E de que maneira...

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Um bom par de calças.

Qual o seu maior sonho?

Poder ser feliz.

O maior pesadelo?

É trabalhar em cinema em Portugal.

O que o irrita profundamente?

A burocracia, a hipocrisia e as pessoas que respeitam estas premissas.

Qual a melhor forma de relaxar?

Sentir-se livre.

O que faria se fosse milionário?

Faria o mesmo que faço agora, mas certamente conseguiria fazê-lo com mais meios.

Casamentos gay: de acordo?

Não tenho qualquer objecção.

Uma mulher bonita?

A minha mulher.

Acredita no paraíso?

Não. Mas acho que devia existir.

Tem um lema?

Não é um lema, mas é um axioma de Melville, que vem no Moby Dick: «Ó tempo, força de vontade, dinheiro e paciência.» É a expressão profunda da condição humana.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (18 de Outubro de 2008)

Travar os turcos

por João Pedro Pimenta, em 31.10.20
A avaliar por algumas leituras rápidas, o culpado destes casos de terrorismo que ocorreram em França nos últimos dias é Emmanuel Macron devido às suas declarações. Só que Macron não incitou ninguém à violência; limitou se a dizer o que devia ser dito: que aquele país tem regras, que não podem ceder à violência de fanáticos e que quem não gostar de viver naquela sociedade tem de se sujeitar às leis vigentes, dentro do sistema democrático e da liberdade de expressão que este concede.
 
Se alguém deve ser condenado é em primeiro lugar Recep Erdogan, um dos maiores incendiários do nosso tempo. Só este ano já enviou tropas para a Líbia para proteger a sua facção, reconverteu Santa Sofia, outrora a maior igreja da cristandade e nas últimas décadas um museu, em mesquita, apoiou o Azerbaijão na guerra contra a Arménia na questão do Nagorno-Karabakh invectivando os arménios de forma inaceitável (um chefe de estado turco a dizer coisas semelhantes aos arménios equivale à chanceler alemã a insultar judeus) e agora diz que Macron tem "problemas mentais" e apela ao boicote à França; ou seja, a França é atacada no seu território por extremistas gritando "Alá Akhbar"e ainda recebe ameaças deste fulano.
Relembre-se que Erdogan já tinha um extenso currículo com a repressão aos curdos, a participação na guerra da Síria (onde atacou mais os curdos que o Daesh, por vezes até favorecendo este nos ataques que realizava às YPG) e a reacção à tentativa de golpe de estado de 2016 com a prisão de milhares de pessoas. Tentou fazer comícios às populações emigrantes turcófonas em países europeus a quem, perante a evidente recusa, acusou de serem "nazis", etc, etc.
Por importantes que sejam as relações comerciais da União Europeia com a Turquia, já é tempo de pôr esta sinistra criatura no seu lugar e de chamar os bois pelos nomes. Se assim não for, o sultão de opereta vai continuar a insultar e a incendiar impunemente, aproveitando-se de qualquer fraqueza para estender a sua influência neo-otomana. Agora talvez se perceba porque é que a Grécia tem uma fatia tão grande do PIB reservada à defesa.
 

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DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 31.10.20

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João Carvalho: «Para o Governo, o acordo com o PSD sobre o Orçamento «tem um custo»: 500 milhões de euros, retirados das receitas. Peanuts. Nada que o Governo não esteja habituado a desperdiçar num estalar de dedos. O problema vai ser compensar esse montante do lado das despesas, visto que o Governo não está habituado a poupar.»

 

Paulo Gorjão: «Vital Moreira considera que os €500 milhões de receita que deixarão de ser arrecadados pelo Estado na sequência do acordo entre o Governo e o PSD poderão conduzir à intervenção do FMI em Portugal. Tem graça que eu pensava que a eventual entrada do FMI em Portugal se devia à incapacidade do Governo em controlar a despesa.»

 

Eu: «Um simples olhar à lista dos dirigentes em funções no mundo há meio século, no início de uma das décadas mais memoráveis de sempre, revela-nos muito do que eram aqueles tempos. Em 1960 mal se haviam dissipado ainda os ecos da II Guerra Mundial: dois heróis daquele conflito, o mais sangrento da História, ocupavam funções presidenciais – Dwight Eisenhower na Casa Branca e Charles de Gaulle no Palácio do Eliseu. A política de blocos – capitalista e comunista – estava no auge, o que se revelava bem na existência de três países divididos: Alemanha (Konrad Adenauer era o chanceler no Ocidente, Walter Ulbricht era o número um da Alemanha de Leste), a Coreia (com o pró-soviético Kim Il-sung a norte e o pró-americano Syngman Rhee a sul) e o Vietname (Ho Chi Minh era o líder em Hanói e Ngo Dinh Diem em Saigão).»

Entre os mais comentados

por Pedro Correia, em 31.10.20

Em 22 destaques feitos pelo Sapo em Outubro, entre segunda e sexta-feira, para assinalar os dez blogues nesses dias mais comentados nesta plataforma, o DELITO DE OPINIÃO recebeu 21 menções ao longo do mês. 

Incluindo dois textos na primeira posição, cinco na segunda e cinco na terceira.

 

Os textos foram estes, por ordem cronológica:

 

Always handsome (21 comentários) 

Lindo (28 comentários)

Belles toujours (36 comentários, terceiro mais comentado do fim de semana)

Foi preciso esperar 66 anos (34 comentários, terceiro mais comentado do dia) 

Republinárquico ou monarquicano (46 comentários)

A liberdade e os outros (117 comentários, terceiro mais comentado do dia)  

Mafalda e o fim do jornalismo (66 comentários, segundo mais comentado do dia)

Ana Gomes é a dama no tabuleiro de xadrez de Pedro Nuno Santos (24 comentários)  

Os 35 mais infectados (48 comentários, segundo mais comentado do dia)   

Natal virtual (52 comentários, terceiro mais comentado do dia) 

O princípio que nunca houve, o mandato único que jamais existiu (38 comentários, o mais comentado do dia) 

O pregador recém-convertido (36 comentários, terceiro mais comentado do dia) 

Líder da oposição (46 comentários) 

A vizinha de António Costa (48 comentários, segundo mais comentado do dia)

Do meu baú (4) (22 comentários) 

Os meios e os fins (116 comentários, o mais comentado do dia)

Tantos que não servem para nada (42 comentários) 

"Arejar um pouco a malquerença" (24 comentários)

Organização Mundial da Doença (44 comentários, segundo mais comentado do dia) 

«Para eles, Trump é um Messias» (51 comentários)

Pecado (78 comentários, segundo mais comentado do dia)

 

Com um total de 1017 comentários nestes postais. Da autoria da Cristina Torrão, da Teresa Ribeiro e de mim próprio.

Fica o agradecimento aos leitores que nos dão a honra de visitar e comentar.

Canções do século XXI (1307)

por Pedro Correia, em 31.10.20

Da candidata Gomes

por jpt, em 30.10.20

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Morreu Sindika Dokolo, genro de Zedu, marido de Isabel dos Santos, ao que foi noticiado devido a um acidente de mergulho. Goste-se ou não da elite angolana esta reacção da candidata Gomes é vergonhosa. Pois de imediato alude a teorias conspiratórias, típicas não dos informados analíticos mas dos desinformadores e dos ignorantes. Mas muito pior é esta reprodução de uma mísera "boca", a de que o sinistrado "morreu offshore".

Breve momento a mostrar o carácter e a mundivisão desta candidata Gomes. 

O ataque dos índios

por Luís Naves, em 30.10.20

Nos melhores westerns costuma haver uma cena em que uma das personagens diz qualquer coisa inócua, seguindo-se a brutal irrupção do ataque dos índios. Em Stagecoach, de John Ford (um dos exemplos) alguém que viaja na diligência diz aos outros passageiros: como não nos voltamos a encontrar, proponho um brinde. Todos concordam, ele está a beber da sua pequena garrafa, de repente ouvimos um som sibilante e o velhinho mais simpático do grupo cai morto e trespassado por uma seta. A ideia do filme é desviar a atenção do perigo para, de súbito, podermos ser surpreendidos. Funciona muito bem na narrativa, mas na vida real é uma coisa patética. Ontem, houve um atentado islamista em Nice: um terrorista entrou numa igreja católica e esfaqueou várias pessoas, matando três. O caso está a causar certa comoção, porque a França esteve sob fortes críticas das autoridades de países muçulmanos (incluindo o presidente turco) a propósito dos supostos excessos retóricos na reacção à morte de um professor de liceu, degolado há uma semana por um islamista, após ter mostrado as caricaturas de Maomé na aula. A indignação dos fanáticos nem se entende bem, pois a resposta francesa foi a do costume, com manifestações e discursos, vigílias e textos indignados, muitas palavras, mas nenhuma acção concreta. Pelo contrário, houve tentativas de relativizar o problema, como se o país não estivesse sob o ataque de fanáticos. Um bispo português, num twitter mais do que lamentável, culpava os europeus por não respeitarem as religiões (ainda bem que isto não foi na igreja dele). Um comentador da rádio pública fazia uma salgalhada entre o ataque do terrorista em Nice e a defesa que os conservadores polacos estão a fazer das suas igrejas, no contexto da contestação ao tribunal constitucional da Polónia, que emitiu uma decisão controversa sobre a lei de aborto, desencadeando manifestações contra os católicos. Para este radialista, em ambos os casos estamos perante o mesmo tipo de obscurantismo religioso. É cada vez mais evidente que nós, europeus, capitulámos na defesa da nossa liberdade. De alguma forma perversa, a culpa é nossa, por não sermos suficientemente tolerantes com estes maluquinhos que nos querem cortar a goela. Deixámos de entender o perigo que enfrentamos e, provavelmente, esta é uma excelente altura para surgir alguém a propor um brinde, já que é improvável que nos voltemos a encontrar.

Nice

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.10.20

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A motivação, o pretexto, se quiserem, é cada vez menos compreensível. E pela forma como se exprime, saindo violento das entranhas guturais das bestas, resume-se a uma frase banalizada. A grandeza Dele é ofuscada pela sua miséria moral.

O que aconteceu em Nice e regularmente se repete numa espiral incontrolável, muito mais em França, também na Bélgica e noutros locais outrora marcados pela aceitação do vizinho, de quipá ou com turbante, e pela outorga de um espaço de liberdade e responsabilidade a cada um, numa fraternidade serena e acolhedora mesmo quando as marcas da vida tornaram os dias mais longos e as noites difíceis e sofridas, tornou-se uma distante recordação.

Agora já não se trata de recebermos o outro com fraternidade e igualdade. O outro vai obrigar-nos a repensar a nossa relação, a deixar tudo o que se construiu para trás. Porque na violência insana nada se constrói, e nem mesmo o que foi erguido com o sacrifício de todos se mantém de pé.

Quando uma igreja, local de entrega, reflexão e paz se torna em local de emboscada para os indefesos, quando a loucura faz dela um talho onde o cutelo processa a degola dos sacrificados inocentes, e as bestas se comprazem vendo o sangue fresco escorrer pela pedra fria e silenciosa, não há diálogo possível.

Deixou de ser um problema de diálogo intercultural ou inter-religioso para se tornar num problema de sobrevivência. De todas as civilizações. Da humanidade.

Sim, porque se a violência, a barbárie, o terror, tudo isso a que estamos a assistir e cujo nome já não faz a diferença, é afinal, como escreveu Camus, "l'hommage que de haineux solitaires finissent par rendre à la fraternité des hommes", então não se poderá continuar a assistir à homenagem passivamente, deixando que a indiferença, o relativismo moral e ético e a banalização do mal, de que falava Hannah Arendt, façam apodrecer o que ainda resta de saudável para se voltar a construir.

É preciso matar o caruncho que se apoderou das estruturas e subiu pelas colunas dos templos. Há que domar a besta, trazê-la de novo ao caminho da razão. Sem vacilar.

A esperança é um pranto. A tolerância está de luto.

Belles toujours

por Pedro Correia, em 30.10.20

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Marta Temido

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 30.10.20

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André Couto: «Alguém lhe explica [a Jerónimo de Sousa] que por muito que queira que as cassetes vivam, a "fita de filmagens" é coisa não utilizada há mais de uma década? (Já agora mentalizem-no também que, em breve, a resma de papel também perderá actualidade. Diz que é a desmaterialização.)»

 

Bandeira: «Se acha que vale a pena deixar uma pequena biblioteca aos rebentos mas não tem espaço e a vizinha do lado não permite que instale mais estantes em casa dela, reflicta um pouco. Há por aí uns discos baratos que levam monstrabytes de livros digitais e duram, quê?, uma eternidade (desde que mantenha os seus filhos longe do teclado e o Universo não seja finito). E não me venha com a conversa de que não consegue ler num computador. Livros digitais podem sempre ser passados a papel. Pelo menos os que não estão protegidos contra impressão por essas empresas amigas do… eh… meio ambiente, digamos assim.»

 

João Carvalho: «Primeira pergunta: quantas vezes um Orçamento foi chumbado no passado? Resposta: nenhuma. Segunda pergunta: quantas vezes um Orçamento foi cumprido? Resposta: nenhuma. Orçamentos rectificativos, Orçamentos suplementares, desorçamentações, receitas extraordinárias e por aí fora, manobras à vista e esquemas escondidos — o cardápio é longo e conhecido.»

 

Paulo Gorjão: «A tese do ministro das Finanças, Fernando Teixeira dos Santos, segundo a qual as exigências do PSD abriram um buraco de €500 milhões é, no mínimo, hilariante. Como se não fosse a incompetência do Governo e a sua incapacidade para cortar na despesa a verdadeira razão da pesada carga de impostos que pagamos.»

 

Eu: «Título de capa do Expresso hoje: "Clara F. Alves entrevista A. Damásio". O meu sonho é um dia conseguir um título de capa assim: "Pedro C. entrevista Penélope C."»

Canções do século XXI (1306)

por Pedro Correia, em 30.10.20

Pecado

por Pedro Correia, em 29.10.20

Ontem senti-me transgressor: fiz duas deslocações entre concelhos. Bem sei que a interdição só ocorre a partir de amanhã, mas esta noção difusa de pecado vai-se entranhando no nosso inconsciente à medida que direitos, liberdades e garantias são comprimidos a pretexto do combate ao novo coronavírus. 

Se tivesse feito o que ontem fiz enquanto vigorou o estado de emergência teria sentido o quê? Talvez me imaginasse sindicalista da CGTP. Sem necessidade, portanto, de expiar qualquer pecado.

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 29.10.20

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Ana Matos Pires: «Nos últimos anos surgiram evoluções importantes no que à VD [violência doméstica] diz respeito, sobretudo em termos legislativos. É agora altura de nos preocuparmos com uma rede operacional, a funcionar no terreno, capaz de dar uma resposta mais efectiva e eficaz. Neste sentido, como já escrevi, importa discutir  o papel dos agentes da saúde mental no processo. Onde entramos nós? A que nível do processo? Com que instrumentos e com que objectivos? Como nos devemos articular com as estruturas sociais já existentes, sejam ou não organismos estatais? Qual a contribuição deste flagelo para o  estado geral da patologia mental em Portugal? Estas são algumas das questões a que importa responder tendo em vista melhorar a resposta e a assistência a estes casos.»

 

João Campos: «Diz que a Baixa alagou, como alaga sazonalmente. Idem para Alcântara. Passei lá de manhã, no autocarro, estava o dilúvio a começar. (...) Um tipo fica a pensar: mas se isto acontece todos os anos, por que motivo nada se faz para prevenir a inundação? Talvez, para começar, não seja necessária grande engenharia para a coisa: limpar as sarjetas já deve ajudar, e para ver isso até um independente engenheiro de domingo deve servir. Este é o lado perverso do internacionalmente famoso desenrascanço português: nunca planeamos nada, mesmo quando enfrentamos o mesmo desastre a cada Outono. Este ano ainda não acabou, mas podemos ficar descansados: para o ano, por esta altura, as zonas baixas de Lisboa voltam a alagar. É certinho.»

 

Luís M. Jorge: «Posso parecer um patêgo... / Mas xou um homem do mundo / Já vi o mar no Rebordelo / E passei férias no Dafundo! // Por isso só leio testos / D’ ilevada cualidáde / Ejijo português de lei / E respeito pla actualidáde. // Há seis meses fiz um blog / E tenho já cinco leitores! / A minha burra, o meu cão, / A minha mulher e dois doutores.»

 

Eu: «A diferença entre um demagogo e um estadista é que o demagogo pensa na eleição seguinte e o segundo pensa na geração seguinte. Martine Aubry merece, sem dúvida, o primeiro dos qualificativos e está muito longe de justificar o segundo. Nem por isso lhe auguro sucesso nas próximas eleições francesas.»

Canções do século XXI (1305)

por Pedro Correia, em 29.10.20

«Para eles, Trump é um Messias»

por Cristina Torrão, em 28.10.20

Excertos de uma entrevista dada pelo sociólogo norte-americano Philip Gorski, Professor na Universidade de Yale, à edição de 11 de Outubro de 2020 do Jornal Católico da diocese alemã de Hildesheim, em que se analisa o apoio incondicional dado a Trump pelos evangélicos norte-americanos:

Qual a razão de muitos evangélicos serem apoiantes incondicionais de Trump?

Para eles, o essencial é a condenação do aborto e do casamento entre homossexuais. Até podem criticar a política migrante de Trump, ou não aprovar o comportamento pessoal do Presidente - no fim, tudo isto é secundário. Aqueles dois temas estão acima de quaisquer outros.

Porque consideram eles esses temas tão mais importantes do que outros temas cristãos, como a justiça social, o clima, ou a proteção dos refugiados?

Isso explica-se, em parte, do ponto de vista psicológico. Muitos temas políticos permanecem abstractos para certos conservadores norte-americanos, como impostos, alianças internacionais ou protecção do ambiente. Têm dificuldades em estabelecer uma relação com questões desse tipo. Já no que concerne ao aborto ou ao casamento homossexual, estabelecem, de imediato, uma ligação emocional, porque vêem aí uma ameaça aos seus valores familiares tradicionais. O casamento monogâmico e heterossexual é, para eles, muito central - pretendem manter a sociedade limpa de todos os comportamentos que não se coadunem com estes seus valores. Os Republicanos vêm propagando a ameaça a estes valores familiares nos últimos anos, a fim de espetar uma cunha entre os conservadores católicos e o Partido Democrata.

Como se explica que especialmente os evangélicos brancos se sintam ameaçados?

Para eles, os Estados Unidos da América são uma nação branca e cristã, fundada por Protestantes brancos e prósperos. Sentem esta identidade ameaçada pela secularização, pela imigração e pelos não-cristãos. Sentem-se realmente como o grupo mais ameaçado e perseguido dos EUA. E consideram necessitar de um protector forte e impiedoso, que os defenda a todo o custo.

E esse protector é Trump?

Exactamente. Muitos acreditam mesmo que Trump é um enviado de Deus, um instrumento de Deus. Trump é, para eles, um Messias. Comparam-no ao rei Ciro do Velho Testamento, que libertou os israelitas do cativeiro babilónico. Muitos evangélicos leva a Bíblia à letra e estabelecem permanentemente paralelos entre a política actual e o Apocalipse. Consideram estar no meio de uma luta entre o Bem e o Mal. Eles, os evangélicos, estão naturalmente do lado do Bem - os seus opositores políticos e culturais corporizam o Mal.

E Trump fomenta essa sua crença?

Sim, ele vê o mundo tal como eles: divide-o entre amigo e inimigo, Bem e Mal. O seu princípio é olho por olho, dente por dente (…) Ficaria surpreendido se me dissessem que ele, em toda a sua vida, tivesse mais de uma hora de leitura da Bíblia. Mas, como todos os demagogos, ele possui grande capacidade de sentir como o público reage à sua pessoa e de escolher os temas que provocam a reacção mais forte.

Quão importante é para os eleitores cristãos a manutenção da democracia?

Não tão importante como se possa pensar. Sobretudo os brancos evangélicos e muitos católicos conservadores vão tomando uma direcção cada vez mais autoritária. Eles consideram inclusive a democracia ser um obstáculo que os impede de alcançar os seus fins políticos. Muitos dizem abertamente desejarem uma ditadura.

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por Cristina Torrão, em 28.10.20

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Gabriel Macht

 

Já por mais que uma vez que estive para aqui escrever sobre o 45 graus, o podcast de José Maria Pimentel. Ele é economista de formação, define-se como curioso por natureza e convida para uma conversa descomprometida especialistas e pensadores de várias áreas. Neste podcast, conversa-se sobre ciência e tecnologia, mas também economia e gestão, e mesmo ciências sociais, como sociologia, ciência política ou psicologia. E não só: discute-se também história e política internacional; filosofia e religião; sociedade e educação.
Parte do parágrafo anterior foi copiado da respectiva apresentação.
No episódio mais recente, o 96º (!!), o convidado foi Nuno Palma, que é professor de economia na Universidade de Manchester e investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Nuno Palma tem-se dedicado sobretudo à área da História Económica.
O que se pode concluir se compararmos a evolução económica desde o século XIV de vários países da Europa ocidental, como Portugal, Espanha e Inglaterra? As conclusões são surpreendentes especialmente pelo enfoque que é dado à qualidade das instituições.
 
"Mas porquê medir a qualidade das instituições? Porque cada vez mais percebemos que o que determina o desenvolvimento económico dos países — ainda hoje –, mais do que políticas económicas no papel, e para lá dos recursos naturais, é a qualidade das suas instituições. Instituições aqui significa, por exemplo, as limitações impostas ao poder executivo ou o cumprimento dos contratos. Em termos simples, desenvolvem-se os países cujas instituições permitem e encorajam as pessoas a dedicarem-se a atividades produtivas; não se desenvolvem aqueles onde o poder está concentrado nas mãos de uma elite, que vive à custa do resto da sociedade. Soa-vos familiar?"
 
Recomendo vivamente a audição desta conversa, assim como a que se siga este projecto.

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 28.10.20

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Adolfo Mesquita Nunes: «Com este Governo, com este primeiro-ministro e este ministro das Finanças, poderemos dizer que estamos perante gente responsável, capaz e com respeito pelas gerações futuras? Não me parece. Estamos por isso na eventualidade de oferecer um fósforo a um pirómano que se prepara para entrar numa floresta e deixá-la em cinzas. Isto é, estamos na eventualidade de dar aos socialistas (rima com despesistas) a possibilidade de continuarem a gerir o nosso dinheiro, deixando-o, precisamente, em cinzas.»

 

Ana Vidal: «No dia em que tudo ruiu, fez-se à estrada. Não olhou para trás. Não procurou entre as cinzas, soterrados nos escombros de uma vida, sonhos desfeitos que ainda pudessem respirar. Não socorreu memórias sobreviventes, deixou-as asfixiar no fumo que sobrou da grande fogueira que tinha ateado, ainda inconsciente da catástrofe que se avizinhava. Passou por cima de gestos e de palavras, pisou sorrisos agonizantes com os pés nus, já calçados para a viagem. Escorraçou todas as lembranças que teimavam em agarrar-se-lhe à pele e afugentou fantasmas, velhos conhecidos a quererem transpor com ela a porta de entrada. Ou de saída. Só de saída, nesse dia.»

 

Helena Matos: «A doença fascina-nos. Falar sobre doenças é uma mania nacional. E sobretudo a doença é a porta de saída para o que não se quer ver, ouvir e dizer. Os colegas são insuportáveis? Mete-se baixa. A família não funciona? Diagnostica-se uma depressão. A vida corre mal? Sofre-se de um síndroma raro. Tudo somado, não existe um português saudável.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «De um aviso afixado em papel cor-de-rosa no Tribunal de Família e de Menores de Vila Franca de Xira: "Procedimentos a evitar na sala de audiências: Mascar pastilha elástica / Usar telemóvel / Óculos de Sol na cabeça / Mãos nos bolsos". Quando em casa ninguém diz nada e a escola pública não ensina, acabamos a ler coisas destas nos tribunais.»

 

Teresa Ribeiro: «Há dias, como o de hoje, em que os jornais ganham vida própria. Lemos na primeira página que o primeiro-ministro está a fazer um esforço e esse título persegue-nos, mesmo quando já passámos para outras notícias. Inteiramo-nos sobre o desemprego na construção civil e na foto vemos suspensa dos andaimes a progressiva dificuldade dos portugueses em comprar casa, que é a matéria da informação que está ao lado. Os cortes no abono de família, em vigor na segunda-feira, é outra notícia que nem por isso nos distrai do tal esforço do PM.»

 

Eu: «Estamos a ser testemunhas de um dos momentos mais tristes da História: o do fim do estado de bem-estar, do estado social, do estado-providência que levantou a Europa das cinzas da guerra. Este período prolongou-se por 60 anos e teve os seus heróis: Alcide de Gasperi, Konrad Adenauer, Clement Attlee, Robert Schumann, Paul-Henri Spaak, Jean Monnet (europeus), Harry Truman e George Marshall (norte-americanos). Foi um período ímpar de crescimento económico e paz social, com largos anos de pleno emprego e um cortejo de conquistas em vários planos - da queda drástica da mortalidade infantil à virtual erradicação do analfabetismo. Foi uma revolução sem bombas nem mortos - uma revolução silenciosa que levou o progresso a centenas de milhões de pessoas no continente europeu e, por natural contágio, a outras partes do mundo. Um longo caminho se percorreu dos heróis de então aos vilões actuais, coveiros do estado social que garantiam proteger. De uns e outros falará a História - a que se deixa seduzir pelos factos, não pela propaganda.»

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