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A pandemia dentro da pandemia

por Pedro Correia, em 22.09.20

Durante o recente estado de emergência em Espanha, 59 cadáveres ficaram por reclamar em Madrid. Imagino que terão sido pessoas como qualquer de nós: riram, choraram, conviveram, sonharam, amaram. Foram a «palha pensante» de que falava Pascal, aludindo à fragilidade da condição humana.

Na nudez absoluta da morgue, ninguém as procurou: incineradas ou depositadas na vala comum sem um lamento fúnebre, tornaram-se mero dado estatístico para discussões à hora do jantar. 

Esta é uma pandemia dentro da pandemia: a de que menos se fala mas a que mais devia preocupar-nos, pois comprova como se tornaram inóspitas as sociedades que criámos, gerando desenfreadas correrias que conduzem a lugar nenhum. Quantos dramas humanos se ocultam sob as luzes citadinas? Quanta dor silenciada na perpétua vigília de quem é incapaz de adormecer? Quanta solidão povoada de fantasmas assombrando noites que nunca verão nascer o sol?

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 22.09.20

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Ana Margarida Craveiro: «Que o primeiro-ministro não me é propriamente simpático, já toda a gente sabe. Mas confesso que a nossa relação piora quando o oiço dirigir-se a jornalistas. No jornal da hora de almoço de hoje, na SIC, Bernardo Ferrão não lhe fez a vida fácil: as perguntas complicadas sucederam-se, como se espera de um jornalismo que vigia o poder. Em resposta, José Sócrates soltou um dos seus habituais "você queria era isto, você veio com a perguntinha, mas você queria era perguntar", etc. Foi toda uma sucessão de você para aqui, você para ali, numa sucessão de más-criações em ritmo acelerado. Sempre fui ensinada de que não se tratam as pessoas por você, muito menos quem não tem qualquer intimidade connosco.»

 

Filipe Nunes Vicente: «Se supusermos que cada dia é uma unidade finita, que se renova incessantemente, os anos desperdiçados são uma falácia. Esses pedaços de tempo ficaram lá, nos dias que habitaram.  Podem então ser considerados perdidos? Não, porque tal classificação supõe que podem ser recuperados. Não podem: são como a  água que despejamos num rio. Resta saber se podemos considerar a perda. Um velho paradoxo grego explica que ainda temos tudo o que não perdemos (perguntem a um amigo se perdeu recentemente um par de cornos...). As partes da nossa vida, por piores que tenham sido, ainda são nossas. Temos memória, rugas e  úlceras que o podem confirmar. Resumindo: não podemos recuperar o tempo perdido,  porque o tempo não é nosso. O passado, ensinava Séneca, é tudo o que temos.»

 

João Carvalho: «Afinal, a linha de alta velocidade do Poceirão fica (ou ficava) pelo dobro do preço indicado pelo Ministério das Obras Públicas. O ministro Mendonça, claro, já explicou que há o custo das "acessibilidades" (são os acessos) e outras coisitas de somenos que são inerentes à obra. Ora, precisamente por serem inerentes à obra é que fazem parte do custo da obra, não é? Ninguém ergue um hospital a partir do primeiro andar se o vazio do rés-do-chão não tiver uma escadaria ou um elevador de ligação com a parte de cima (a integrar no orçamento da obra), nem se fabrica vestuário sem operários têxteis (cujo salário faz parte do preço da roupa).»

 

Paulo Gorjão: «Amuaste, diz Azeredo 'Calimero' Lopes, com o dedinho em riste, ao mesmo tempo que com a outra mão guarda os berlindes imaginários no bolso dos calções. Ora aqui está, quem sabe, o ponto de partida para mais um belo romance, porventura em parceria com José Rodrigues dos Santos.»

 

Eu: «O Caçador é um filme que começa com um casamento e termina com um funeral - duas faces do mesmo espelho. Mas é um filme que não nos fala de uma América crepuscular: fala-nos de uma América capaz de ressurgir com maior vigor de cada desaire da História, digam o que disserem os críticos acometidos de miopia. Uma América que, para esse efeito, não necessita de heróis: necessita de gente comum. Gente como Linda, Axel, Angela, Steven, John, Stanley e Mike. Gente que trabalha e que se diverte e que bebe cerveja e que vai à caça e que reza e que chora e que ri e que canta God Bless America. Não como um louvor patrioteiro mas como um hino à vida. O que tem duplo valor para quem viu a morte de frente.»

Pensamento da semana

por Pedro Correia, em 22.09.20

 

Dependemos sempre do acaso, o outro nome que atribuímos ao desconhecido.

 

Este pensamento acompanha o DELITO durante esta semana

 

Canções do século XXI (1268)

por Pedro Correia, em 22.09.20

A História por cinco euros

por Pedro Correia, em 21.09.20

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Frequentar alfarrabistas, como vou fazendo apesar das restrições impostas pelo novo coronavírus, tem as suas compensações. Aconteceu-me recentemente, ao encontrar num desses estabelecimentos muitos exemplares de uma antiga colecção de revistas Paris-Match que tiveram repercussão histórica. Pertenciam a uma senhora que faleceu com 103 anos. Como tantas vezes acontece, os herdeiros desmancharam a casa e desfizeram-se de livros e revistas, que acabam dispersos um pouco por toda a parte.

Cheguei a tempo de adquirir alguns exemplares. Por exemplo, o n.º 758 da Match de 19 de Outubro de 1963, dedicado em grande parte ao falecimento de Edith Piaf e Jean Cocteau, ocorridos no mesmo dia. Ou ao n.º 777,  de 29 de Fevereiro de 1964, reservado em larga medida a pormenores então inéditos do duplo homicídio de Dallas (visando o presidente John Kennedy e o seu suposto assassino, Lee Oswald).  Ou ao n.º 617, de 4 de Fevereiro de 1961, centrado no assalto ao navio de cruzeiros Santa Maria, tomado em alto mar por um grupo de declarados opositores ao salazarismo. 

Na altura a Paris-Match foi a única a entrar a bordo do navio sequestrado, fotografando e relatando o que lá se passava numa edição que teve eco em todos os continentes. «A fantástica aventura de [Henrique] Galvão e dos piratas da revolução», titulava a revista nessa capa - exclusivo mundial do repórter (mais tarde romancista) Dominique Lapierre, hoje com 89 anos, e do fotógrafo (também actor e duplo de cinema) Gil Delamare, que se lançou de pára-quedas sobre o navio. 

Edições que fizeram história. Abandonadas por alguém num alfarrabista. Trouxe-as, a cinco euros por exemplar: agora posso chamar-lhes minhas. Garanto que ficam em boas mãos.

Frases de 2020 (28)

por Pedro Correia, em 21.09.20

 

«Se o Benfica conquistar tudo o que quer conquistar, o País será feliz.»

Luís Filipe Vieira, presidente do Benfica (3 de Agosto)

Portugueses que nos honram

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.09.20

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"Double portugais au Mans. Filipe Albuquerque premier et António Félix da Costa deuxième en LMP2"", titulava a notícia desta manhã. E não é caso para menos. O resultado fala por si num ano que está a ter tanto de estranho quanto de fantástico para o automobilismo e o motociclismo nacionais. A classe dos pilotos portugueses continua a brilhar mundo fora. Enquanto Miguel Oliveira ganhava lugares na Riviera de Rimini, depois de duas quedas nos treinos, partindo de 15.º para alcançar um notável quinto lugar e ser actualmente o primeiro dos pilotos da KTM no MotoGP, outros dois portugueses mostravam toda a sua classe nas 24 Horas de Le Mans na super competitiva classe de LMP2.

Para quem ainda tivesse dúvidas, caíram todas pouco depois da vigésima quarta hora no circuito de La Sarthe com a vitória de Filipe Albuquerque nas 24 Horas de Le Mans, no seguimento da pole position que fez para a corrida.

Com o António Félix da Costa, já campeão do mundo de Fórmula E, em segundo lugar na prova francesa deste fim-de-semana, Portugal passará a ter dentro de alguns dias dois campeões do mundo. Ao Filipe bastar-lhe-á alinhar à partida da última prova, no Barém (Bahrein), para inscrever o título de campeão do mundo de resistência no seu palmarés.

Para todos todos eles, mais do que um abraço de parabéns, segue daqui o meu obrigado pela classe que vão exibindo dentro e fora das pistas, e pela forma como, com o seu profissionalismo, honram o nome de Portugal.

Quem nos dera que fôssemos todos como estes.

5f662afa77a6c.jpg(créditos: Arhur Chopin, ACO)

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 21.09.20

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Adolfo Mesquita Nunes: «Se o FMI entrar por aqui adentro, não foi apenas o Governo que falhou. Foi Cavaco Silva que redondamente se encostou a uma qualquer bananeira que encontrou por Belém e que preferiu, afinal também ele, a aparência à realidade. É por isso que Cavaco nem quer ouvir falar de FMI, sobretudo nesta altura de pré-campanha eleitoral.»

 

Ana Vidal: «Retomo aqui, no Delito de Opinião, uma série dedicada a um dos meus pintores preferidos - René Magritte - que em tempos iniciei noutro blogue. Irreverência, ironia, subtileza, clarividência, ousadia, inteligência, talento. Todos estes adjectivos (e muitos outros mais) se aplicam a esta mente privilegiada, que interpretou a realidade que a rodeava de uma forma única. Não tenho, naturalmente, nem uma vaga ilusão de estar à altura dos quadros que inspiraram os textos. Leiam-nos como uma homenagem, nada mais do que isso.»

 

David Levy: «A Embaixada de Israel prestou apoio à 14.ª edição do Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa - Queer Lisboa 2010. Esse facto aparentemente passou  despercebido durante algum tempo aos auto-intitulados defensores dos palestinianos e de todas as causas politicamente correctas. Descoberto o patrocínio, imediatamente se abriram as portas do Inferno. Já há manifestações de repúdio contra o apoio israelita a um festival que devia ser promotor da aceitação dos homossexuais, da tolerância e da paz. Causas bonitas e que estão sempre na boca de algumas pessoas, excepto quando colidem com os seus interesses.»

 

João Carvalho: «Com o fantasma do FMI a pairar cada vez mais perto, o que fazer? Como alguém já disse, a receita é simples e conhecida: bastaria que Portugal aplicasse as medidas que estão a funcionar na Grécia sob a batuta do FMI, com a vantagem de podermos fazê-lo sozinhos, por iniciativa própria e sem ingerência externa. Já alguém assistiu ao encerramento de organismos e instituições que parasitam por aí? E qual é o tamanho real do buraco financeiro em que a verdade completa das contas públicas está metida, escondida nas empresas públicas e nas chamadas empresas municipais? E quanto custa ao Estado (e com que proveito) a teia infindável de fundações que o governo esconde?»

 

Paulo Gorjão: «A propósito disto, há quem confunda a crítica à substância do exercício de um direito, com um ataque ao direito propriamente dito, num exercício de vitimização digno de um qualquer Calimero. Enquanto isto não tiver sido percebido, é impossível passar a um nível de maior elaboração. Resta-me apelar a que deixem jogar o Mantorras, que é como quem diz, por favor, leiam e oiçam sem reagir a tudo o que o presidente da ERC disser, caso contrário serão acusados de perpetrarem um vil e atroz ataque à liberdade de expressão. Fantástico...»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Deixou um vazio grande. Ela sabia que ia deixar. A mim, que sou gente como os outros também. E eu não ficaria de bem com a minha consciência se não vos dissesse o quanto gostei de conhecê-la. O quanto lhe estou agradecido pelo vazio que em mim deixou. Não serei hoje um homem melhor, nem um cidadão mais militante ou melhor companheiro. Apenas vejo com outros olhos. É uma sorte encontrar alguém que nos faz ver com outros olhos. »

 

Eu: «Assunção Cristas - que passou pela blogosfera antes de enveredar pela política - tem sido uma das presenças mais fortes na bancada democrata-cristã, onde não faltam bons oradores. Faz intervenções sérias, fundamentadas e incómodas para o Governo no plenário, incluindo nas sessões onde tem estado o primeiro-ministro. E desenvolve um trabalho digno de registo na comissão parlamentar de Economia e Finanças, onde coordena os deputados do CDS. Com o debate do Orçamento à porta, repetirá certamente o protagonismo evidenciado na anterior sessão legislativa. Sem partidarites, não é necessária demasiada argúcia para apontá-la como um valor em ascensão na política portuguesa: vamos ouvir falar ainda mais dela no futuro.»

Canções do século XXI (1267)

por Pedro Correia, em 21.09.20

Conversas em família (6)

por Maria Dulce Fernandes, em 20.09.20

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Uma espreguiçadeira ao sol, calor, água fresquinha, o som das ondas a marulhar uns metros abaixo... O livro aberto em cima da barriga molhada era um excelente indicador de total relaxamento e de preguiça também.

Primeiro ouvi o grito. Depois o choro. Em seguida as vozes dos comentadores da insipiência que se avolumavam. Sentei-me meio arrelampada tentando focar a figura que corria na minha direcção com a criança nos braços, que chorava e gritava copiosa e desalmadamente.

Peixe-aranha, diz ele com a respiração entrecortada. Foi um peixe-aranha. Peguei-a no colo. O André do concessionário já tinha ido pelo nadador-salvador. Posso ver, neta? Não! Não mexas! Dói! Dói muito, conseguia perceber-se balbuciado por entre o pranto incontrolado.

O salva-vidas chegou rapidamente, já equipado com um recipiente com água muito quente. Falou-lhe mansamente e depois de uns goles de água fresca pela garganta e rosto, conseguiu que se acalmasse um pouco e explicou como seguir à risca as instruções de pé in - pé out. Estiveram neste preparo uns bons 20 minutos. Só depois conseguimos ver o arranhão e o inchaço. Parecia ter pegado de raspão!

A neta estava sentada no meu colo, embrulhadinha que nem um rebuçado mole e lambuzado, sequiosa e a recompor-se do SPT  de todas as emoções.

Já não dói tanto, neta? Dói um bocado, mas tenho mais é uma sensação esquisita no pé. É natural, todo aquele calor de escaldão para sair a toxina, deixaram-te o pé, que já estava inchado, um bocadinho dormente.

Sabes avó, não sei como o peixe-aranha me mordeu. Eu estava distraída a brincar com o avô à beira-mar e não o vi chegar, mas não percebo como é que me mordeu sem eu o ver. Por exemplo, se um cão ou um gato me mordessem o pé, eu tenho a certeza que via, a não ser que fossem invisíveis. Bem, o peixe-aranha não é invisível, mas engana a vista. Enterra-se na areia apenas com os olhos de fora… E com a boca também avó, senão como é que pode morder? Pois, a questão é assa mesmo. O peixe-aranha não morde. Olha, avó, a ti não sei, mas a mim mordeu-me bem. Sabes que os peixes têm barbatanas? Sei. A barbatana dorsal é aquela que abre em leque na costas. Esse peixe, que é um patifório da pior espécie e tem uma espécie de veneno chamado toxina na barbatana, enterra-se na areia com a dita cuja aberta de modo a poder ser facilmente pisado por um pezinho incauto que ande a cirandar pela beira-mar. Eu não andava a cirandar, andava a molhar o meu avô e não fiz mal ao peixe-aranha para ele me picar. Pois não, calhou. Estavas a passar pelo sítio em que ele estava escondido e pisaste-o na altura em que ele tinha a barbatana aberta. Então foi mesmo por acaso. Foi, foi mesmo coincidência. Mas sabes, avó, “essa coincidência foi mesmo muito dolorosa e causou uma estranha impressão”.

E eu tenho a impressão que a minha neta nunca irá parar de me surpreender, coincidência ou não.

Amanhã acaba o verão.

Leituras

por Pedro Correia, em 20.09.20

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«A orfandade tanto aos trinta como aos dez anos deixa-nos sempre mais fracos e desprotegidos

Teresa Veiga, A Paz Doméstica, p. 126

Ed. Cotovia, 1999

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 20.09.20

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João Campos: «No cinema, o cyberpunk, sub-género da ficção científica, foi inaugurado com polémica em 1982 com Blade Runner, adaptação de Ridley Scott ao romance Do Androids Dream of Electric Sheep?, de Philip K. Dick, hoje considerado uma obra-prima, não só do género, como do cinema em geral. Digo com polémica porque, à época do seu lançamento, Blade Runner não foi um filme consensual, tendo sido devastado pela crítica e rejeitado pelo público. O tempo - no fundo, o grande juiz da arte - deu razão a Ridley Scott, que no início da década de 80 realizou um filme que estava à frente do seu tempo. Mas é possível que essa antecipação tenha contribuído para o entusiasmo que, dois anos mais tarde, conheceu o romance Neuromancer, de William Gibson, premiado com os mais importantes prémios do género.»

 

João Carvalho: «Cada vez somos menos auto-suficientes e mais dependentes do que vem de fora. Agora até importamos óvulos e (pasme-se!) espermatozóides (por falta de produção, supõe-se). Ao que nós chegámos. Que coisa.»

 

Leonor Barros: «É que não são só as palavras, não é apenas o miolo, não conta simplesmente o diálogo entre as personagens e o leitor, por vezes entre o escritor e o leitor. Não é o que se lê, o que sente, o que emociona e enfurece. É o objecto. As centenas de páginas agarradas umas às outras, as capas coloridas, o cheiro, sim, um cliché, eu sei. O texto na contracapa, as palavras insossas nas badanas. O prazer de o abrir e espreitar. Um livro não é apenas palavras. Um livro é uma companhia. E são muitos os que me acompanham casa fora. Os que repousam caoticamente no chão ao lado da minha mesa-de-cabeceira, os que me colorem as estantes cá de casa, os que se espalham por aqui e ali. E depois o prazer. A procura. Os momentos em frente das estantes Estava aqui, guardei-o aqui, tem de estar por aqui. A tranquilidade de horas a folheá-los na senda do excerto perdido, a curiosidade dos minutos à procura de uma novidade entre as páginas, a certeza de se encontrar sempre algo novo.»

 

Paulo Gorjão: «Alguém imagina o presidente da ERS ou da ERSE a escrever qualquer coisa como isto

 

Sérgio de Almeida Correia: «O estado em que vive a estrutura dirigente do futebol português já não é de catástrofe. E no grau zero da credibilidade seria estultícia esperar alguma coisa. Há situações clínicas em que os esclarecimentos do paciente se tornam dispensáveis. Tudo o que possa ser dito por Madaíl a partir deste momento só poderá ter interesse científico.»

 

Vítor Cunha: «O famoso Estado Social deixou-se matar pelo pecado, neste caso o da gula. Em nome dos bons princípios o Estado cresceu tanto que destruiu a vontade solidária das comunidades. Até porque os nossos impostos há muito deixaram de pagar apenas as políticas públicas de redistribuição da riqueza: hoje pagamos a luxúria de uns tantos privilegiados. O Estado não soube limitar a despesa e agora arrisca destruir o que de bom se conquistou em quase um século.»

 

Eu: «Os comunistas têm feito boas apostas na renovação da sua bancada em São Bento, sinal de que alguma coisa se move na orientação política do partido, pelo menos na frente parlamentar. É o caso do jovem deputado João Oliveira, que se distinguiu pela sua perseverança na comissão de inquérito às alegadas interferências do Governo nos órgãos de comunicação social. Mostrando-se sempre bom conhecedor dos assuntos em causa, soube fazer perguntas acutilantes nos momentos certos e revelou respeito pelos portugueses que o elegeram com a missão não só de legislar mas sobretudo de fiscalizar o Executivo e as suas múltiplas ramificações.»

Pensamento da semana

por Sérgio de Almeida Correia, em 20.09.20

Cada um tirará as suas conclusões acerca da presença do primeiro ministro na comissão de honra de Luís Filipe Vieira, mas aproveitamos a oportunidade para assegurar que esta candidatura será sempre pela separação escrupulosa entre a política e o futebol", diz um dos candidatos à presidência do Sport Lisboa e Benfica.

O primeiro-ministro já está a levar no toutiço, como aliás seria de esperar. E é bem dado.

Já não vou pelo caminho do Novo Banco, que estamos todos a pagar, pelos processos judiciais, que até hoje deram zero, ou pela clubite, que de uma forma ou de outra, até no desprezo, a todos nos afecta.

Nem sequer me agarro à mais do que indecorosa "recontratação" do treinador Jorge Jesus, por valores absolutamente incompatíveis com a qualidade de vida da maioria dos portugueses, com a carga fiscal que suportam à conta da mais do que enraizada má escolha de governantes e dirigentes e da incapacidade das lideranças políticas, e com o prestígio e a história da instituição.

Mas ainda que assim não fosse, pergunto se é razoável um primeiro-ministro andar metido em comissões de candidatura de "gajos da bola". Sim, de "gajos da bola".

Bastava ouvir o Seara a fazer a sua defesa para se ficar com uma ideia da argolada. 

Não chegava já lá estar o Medina, que até é presidente da Câmara. Como não era suficiente um apoio discreto, distante, não comprometido, que não afectasse o desempenho da função, a liderança do partido e não suscitasse mais anti-corpos do que aqueles que neste momento geram as suas aparições.

Era ainda preciso vestir uns calções e atirar-se de cabeça para a pilha dos pneus para o desconchavo ser absoluto.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante esta semana

Canções do século XXI (1266)

por Pedro Correia, em 20.09.20

Quem fala assim... (14)

Carlos Mendes: «Canto em todo o lado»

por Pedro Correia, em 19.09.20

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«O meu maior sonho é sair-me o euromilhões. Mas não me sairá nunca porque não jogo»

 

Arquitecto e compositor, duas vezes vencedor do Festival da Canção RTP, Carlos Mendes respondeu sem rodeios mal atendeu o telefone. Sem enrolar palavras nem esconder que canta um pouco em toda a parte. E confidenciando que chorou quando lhe morreram duas cadelas de que gostava muito.

 

Tem medo de quê?

Tenho medo da pobreza, da fome e da miséria que se vão espalhando pelo mundo.

Gostaria de viver num hotel?

Já pensei muitas vezes nisso. Se fosse solteiro, admitia essa hipótese.

E escolheria alguma cidade em particular?

Paris, sem dúvida. Sinto um grande fascínio por Paris.

A sua bebida preferida?

Gosto de vinho tinto. Do Douro, de preferência. Pelo contrário, não ligo nada às bebidas "espirituosas" - uísque, licores, etc.

Tem alguma pedra no sapato?

Não sou pessoa para ter pedras no sapato. Resolvo sempre as coisas rapidamente. Sou muito directo na forma como falo, o que pode provocar alguns dissabores até porque as pessoas, em geral, não estão habituadas à franqueza. Mas prefiro assim: as pedras ficam nos sapatos dos outros e não nos meus.

A propósito: que número calça?

Nunca sei muito bem se é o 41 ou o 42. Talvez seja o 41,5.

Que livro anda a ler?

Estou a ler um livro estimulante, intitulado Renovar a Ligação Social, do [sociólogo e professor universitário francês] Roger Sue. Tem a ver com um tema que me interessa muito e que merece reflexão séria nos dias que correm: será possível mantermos o espírito colectivo nesta época ou não conseguiremos deixar de olhar em exclusivo para o nosso próprio umbigo?

A sua personagem de ficção favorita?

O Mandrake.

Rir é o melhor remédio?

Exactamente. Houve até um crítico que certa vez sublinhou o facto de eu me rir muito, como se isso lhe causasse enorme estranheza. Mas devemos rir-nos muito: é mesmo um grande remédio.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Lembro-me muito bem de uma situação em que chorei copiosamente, o que acabou por me surpreender a mim próprio. Foi quando morreram duas cadelas minhas de que gostava muito - a Gata e a Lua.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

É conforme. Se for no carro, gosto mais de ser eu a conduzir.

Transgredir é bom?

Sim, às vezes.

Qual é o seu prato favorito?

Gosto muito de bacalhau com broa. No Âncora Mar, em Vila Praia de Âncora.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

A preguiça, às vezes.

A sua cor preferida?

É o verde.

No futebol também?

Também.

Costuma cantar no duche?

Costumo. Sempre. Canto em todo o lado.

E a música da sua vida?

Como músico que sou, tenho grande dificuldade em referir uma música da minha vida.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Não. Está bem assim. É um símbolo nacional, representa uma tradição já enraizada entre nós. Mesmo que a letra seja algo disparatada, mesmo que a música não faça muito sentido. As tradições são o que são.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Não posso jantar com ele, pois já morreu. Mas gostaria muito de ter conhecido o Franco Corelli, um cantor de ópera que sempre admirei.

As aparências iludem?

Sim. E particularmente no mundo do espectáculo, que vive de aparências e de ilusões.

O que é que um verdadeiro cavalheiro nunca faz?

Um verdadeiro cavalheiro nunca passa à frente de uma senhora numa porta.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Neste momento é o boné. Porque sinto frio na cabeça e já estou careca.

Qual é o seu maior sonho?

O meu maior sonho é sair-me o euromilhões. Mas não me sairá nunca porque não jogo.

E o maior pesadelo?

Seria perder o euromilhões por um número.

O que o irrita profundamente?

A estupidez e a ânsia de protagonismo de tantos chico-esperos.

Qual a melhor forma de relaxar?

Dormir.

O que faria se fosse milionário?

Tornava-me pobre outra vez. Gastava o dinheiro num instantinho.

Casamentos gay: de acordo?

De acordo, embora ache essas convenções uma parvoíce. Sou um pouco "agnóstico" nestas coisas.

Uma mulher bonita?

A Maria Filomena Mónica. É uma mulher lindíssima.

Acredita no paraíso?

Não.

Tem um lema?

Trabalhar, trabalhar. E aprender sempre.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (27 de Fevereiro de 2010)

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 19.09.20

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Ana Margarida Craveiro: «Tendo em conta a agenda do sr. primeiro-ministro, quando são as eleições?»

 

Paulo Gorjão: «Elísio Oliveira consegue reagir primeiro do que Azeredo Lopes e Estrela Serrano à demissão de Luís Gonçalves da Silva da ERC. Percebe-se a estratégia. Em teoria, a reacção de um elemento da ERC nomeado pelo PSD à demissão de um elemento nomeado pelo PSD é muito mais eficaz. Em qualquer história, há sempre alguém que desempenha o papel de idiota útil.»

 

Eu: «Ligo ao acaso a televisão, deparo na TVI24 com a enésima entrevista de Carlos Cruz na fase pós-condenação, desta vez conduzida por Manuel Luís Goucha. Cruz, condenado a sete anos de prisão, deixa entender que foi envolvido no caso Casa Pia por ser "a segunda pessoa mais credível de Portugal", logo após Mário Soares. "Assassina-se na praça pública uma pessoa inocente", diz o entrevistador, condoído com o destino do entrevistado. Cruz avisa: "O que me aconteceu a mim pode acontecer a qualquer outro. Pode acontecer-te a ti." Goucha remata: "É só levantar a suspeita." E dá-lhe a deixa: "Tu terias que ser condenado para salvar a face da justiça?" Cruz concorda, claro. Por mim, fiquei esclarecido. E mudei de canal.»

Canções do século XXI (1265)

por Pedro Correia, em 19.09.20

Leituras

por Pedro Correia, em 18.09.20

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«Os amores felizes não têm história

David Mourão-Ferreira, Um Amor Feliz (1986), p. 53

Ed. Presença, 1989 (5.ª ed). Colecção Novos Continentes, n.º 15

Tem estado bem Paulo Rangel, e o PSD, no acompanhamento desde há meses no Parlamento Europeu da situação em Moçambique relativa à guerra no Cabo Delgado. E fez ontem uma boa intervenção, adequada àquela instituição, fundamentada e ponderada.

Deixo também aqui a Resolução do Parlamento Europeu, de 17 de setembro de 2020, sobre a Situação Humanitária em Moçambique (2020/2784(RSP) [basta aceder: Resolução PE Moçambique.pdf], que sistematiza a preocupação com a situação militar e humanitária e explicita a inadmissibilidade das gravíssimas violações de direitos humanos consagrados nas convenções internacionais (convém sublinhar isto, pois vou lendo gente em Moçambique defendendo que em guerra, em particular com estes "insurgentes", vale tudo ...).

Realço a pertinência do ponto Z. desta Resolução: "Considerando que, apesar da brutalidade e da perda terrível de vidas, a situação em Cabo Delgado não conseguiu atrair a atenção internacional, o que significa que se perdeu tempo precioso para resolver o problema mais cedo".

Mas não deixo de notar e muito lamentar o clamoroso erro, do ponto Z. 22. "Recorda que a população de Moçambique, tanto da fé cristã como muçulmana, vive há muito em coexistência pacífica e manifesta convicção de que este modelo de tolerância e de solidariedade prevalecerá ...". Um reducionismo inadmissível, pois é mais do que exigível que políticos e seus assessores percebam um pouco mais sobre as realidade sobre as quais elaboram. Mera questão de cultura. 

(Lateralmente: ao ver esta intervenção interrogo-me sobre a imagem que o Parlamento Europeu transmite para o seu eleitorado. Ou seja, sobre a total cegueira e surdez face aos efeitos das dimensões representacionais dos órgãos políticos. Pois, e se é certo que o funcionamento do Parlamento Europeu não presume que a sala esteja cheia, dado que há múltiplas tarefas dos deputados, assistir a uma comunicação relevante - e esta é-o particularmente - feita numa sala vazia constrói a imagem de um parlamento relapso. 

E se é para falar nas dinâmicas de representação, da imagem que os políticos dão às populações do seu comportamento e o das suas instituições, alguém poderia dizer ao deputado luxemburguês Charles Goerens que é simbolicamente letal, sendo ele o único atrás de um colega de bancada que aborda uma situação dramática, estar, sossegadamente, esparramado na cadeira, só lhe faltando coçar a micose. Um verdadeiro "morcon", como se dirá em francês ...)

Terminar em beleza

por Pedro Correia, em 18.09.20

 

Há poucos dias, numa troca de impressões com o João Lisboa, descobri que temos gostos muito semelhantes em matéria cinematográfica. Incluindo uma devoção mútua pelo filme britânico O Terceiro Homem, realizado em 1949 por Carol Reed, a partir de um argumento concebido por Graham Greene, e com Orson Welles, Joseph Cotten, Alida Valli e Trevor Howard nos principais papéis. 

Costumo até eleger o magnífico desfile de Alida Valli pela vasta alameda bordejada de árvores despidas, ignorando a presença suplicante de Cotten, como a minha preferida de todos os finais de longas-metragens que já vi. Sem necessidade de uma palavra, só com a cítara dedilhada por Anton Karas a realçar a cena. A expressão terminar em beleza parece ter sido inventada aqui.

Proponho-vos que partilhem comigo as vossas preferências nesta matéria. Que finais de filmes mais vos tocaram por algum motivo?

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