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Delito de Opinião

A extinção do "australopithecus futebolis"?

João Campos, 28.07.20

No fim-de-semana, comentei cá em casa que os comentadores do "Governo Sombra" estavam mais bem acompanhados na grelha televisiva no canal antigo - na SIC o programa vai para o ar na madrugada de Sexta para Sábado logo a seguir a um reality show manhoso (passe o pleonasmo), enquanto na TVI era antecedido pelo "Mais Futebol", provavelmente o único programa civilizado sobre futebol da televisão portuguesa. Não que acompanhe programas de futebol, modalidade à qual ligo menos a cada ano (não me consigo lembrar de qual foi o último jogo que assisti na íntegra, agora que penso nisso), mas sempre que por algum motivo passava pela TVI 24 durante a emissão do programa e lá parava durante alguns minutos não podia deixar de notar no tom cordial e animado da conversa, e em algumas rubricas curiosas. E este tom era notório pelo contraste para com a esmagadora maioria dos programas de "comentário" de futebol dos canais por cabo. Comentário entre aspas, entenda-se, pois aqueles espaços resumem-se aos marmanjos iletrados que compõem os painéis a ladrar e a rosnar uns para os outros durante horas, mais ou menos como fazem os cães lá na aldeia às duas da manhã quando alguém passa e um se lembra de ladrar.

Vem isto a propósito da decisão anunciada pela SIC de terminar dois dos programas de "comentário" de futebol que têm nos seus painéis comentadores que representam clubes de futebol - ou, para ser rigoroso, comentadores que representam os "três grandes", pois dos restantes ninguém quer mesmo saber (diz-se que em Portugal só se liga a futebol, quando se fala de desporto, o que é manifestamente falso - na verdade, só se liga ao futebol de três clubes. O resto é cenário). O motivo para este cancelamento, ao que parece, é a "toxicidade" dos programas - uma toxicidade que não é de agora, mas que se terá porventura tornado mais evidente após os quase três meses de sossego a que a pandemia obrigou. Não sei se entre Março e Junho alguém sentiu falta daquelas horas de gritaria inútil nos canais de notícias; da parte que me toca, no que à comunicação social diz respeito a paragem forçada da bola terá sido uma das raras consequências positivas do confinamento. Houve muita coisa de que tive saudades durante os últimos meses (de algumas ainda tenho), mas não tive de todo saudades de passar por canais de notícias e de ver três ou quatro australopithecus futebolis a rosnar por causa de rumores da bola em vez de, sei lá, noticiários, documentários e outros programas informativos. Programas que até podiam não me interessar, mas que pelo menos não apelam aos piores instintos de quem neles participa, e da audiência que os segue.

E, ao que parece, a TVI já seguiu o exemplo da sua concorrente de Carnaxide, anunciando também o fim de dois destes programas.

É claro que, por si só, a decisão da SIC e da TVI de terminar os programas em causa não erradica, talvez nem reduza de forma significativa, a toxicidade de tudo o que rodeia o futebol contemporâneo, cada vez mais um factor de divisão, de segregação e de tribalismo cego e menos uma competição desportiva capaz de agregar adeptos rivais - não inimigos, mas rivais, a diferença é subtil e determinante. Mas nem por isso deixa de ser um sinal. Esperar que isto seja o início da extinção do australopithecus futebolis na televisão portuguesa talvez seja excesso de optimismo - há as audiências, claro, e é sempre possível que outros canais aproveitem o vácuo para reforçar os seus painéis de gritaria. Mas talvez haja mais canais a seguir o gesto, dando menos tempo de antena à intriga e à guerrilha promovidas pelos departamentos de comunicação de três agremiações e mais espaço ao que interessa no tema: à modalidade, ao futebol em si. Para já ainda é pouco, mas se isto contribuir para um bocadinho menos de ruído inútil na televisão, já não será mau.

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 28.07.20

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João Carvalho«Freepór? Ah, pois, o Freepór. Não deixaria a noite chegar sem fazer um comunicado sobre o Freepór, claro. O dia tivera uma agenda apertada com o seu ponto alto em Sines, no seu seapór e no futuro Harbor Freight Transpór. Tivera de falar na alta velocidade, mas sem se referir ao novo airpór. A seguir, dispensaria o motorista para dar uma volta no seu carro de spór. Depois de jantar, iria calhar bem um cálice de Pór wine doce. Onde é que se produz? Será em Pór-au-Prince? Ou em Davenpór? Não interessava. Esperava-o uma noite bem dormida. Queria levantar-se cedo, chamar o transpór oficial e ir fazer uma corridinha junto ao cais, lá para as bandas do Taguspór. Se o dia fosse mais calmo, aproveitaria para rever aquele velho compêndio de inglês técnico.»

 

João Tunes: «Se tento afastar de mim o cálice das Obras Públicas, estas, nos últimos anos, teimam em não me largar. Primeiro, Santana Lopes ministeriou um tipo que, antes e quando presidente da empresa em que eu trabalhava, tentou “despedir-me com justa causa” por umas coisas que escrevi num fórum interno da empresa. Santana caiu e subiu ao Ministério das Obras Públicas um meu antigo camarada de partido com quem tive colaboração próxima e de quem não só tinha boa opinião como acrescia uma estima pessoal. Mas não tardou que ele se saísse com boutades atrás de boutades e, inclusive, me pusesse a viver no meio do “deserto”, ofendendo-me e ao resto da malta da margem sul. Percebi, assim, que este amigo e antigo camarada, por força de enturmar na equipa de Sócrates, se tornara um trapalhão.»

 

Paulo Gorjão: «Estou aqui a tentar perceber qual foi a utilidade que teve a utilização da golden share. O resultado final parece-me muito semelhante -- para não dizer igual -- ao que já se antecipava como sendo possível nessa altura. Basta consultar os jornais. Tudo não passou de uma manobra estéril para o Governo mostrar autoridade? Para o Governo ceder sem parecer que o estava a fazer? É para isso que serve a golden share

Leituras

Pedro Correia, 27.07.20

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«Admito que as pessoas precisem às vezes de se encontrar sozinhas. E uma das formas de se encontrarem sós pode ser a de se acharem no meio de estranhos, ou de amigos

Isabel da Nóbrega, Viver com os Outros (1964), p. 51

Ed. Portugália, 2.ª ed, 1965. Colecção Contemporânea, n.º 75

Os rangers da COVID-19

Teresa Ribeiro, 27.07.20

A intrépida dona da frutaria, onde costumo abastecer-me, esteve desde o começo da pandemia a fazer o seu statement diário. Sempre muito atarefada, movimentava-se na loja sem máscara - enquanto tal foi permitido - e a espalhar olhares de desdém por quem lá passava, devidamente protegido. É claro que com esta atitude levou vários dos seus funcionários a inibirem-se de usar máscara. A balda era tanta que deixei de lá ir. Há dias reparei que tinham a porta fechada e nela colado o aviso: "Encerrados por motivos de COVID-19". Seis infectados, soube entretanto. De uma equipa de 12.

Na tasca perto do escritório, o ambiente que se via da rua era igualmente descontraído, com o dono a aviar copos ao balcão de máscara ao pescoço, a um friso de clientes, na sua maioria idosos, sem protecção. Também fechou. E vão dois.

Há gente que todos os dias se arrisca, mas não tem alternativa. Gente obrigada a deslocar-se em transportes públicos em hora de ponta e pessoal de saúde, entre muitos outros. Estes, que agora estão de molho, tinham. Mas preferiram mostrar ao vírus quem era mais macho. Agora já sabem.

Amar ou odiar, ou tudo ou nada

Pedro Correia, 27.07.20

 

"Uma pequena história narrada numa escala épica." A definição é de Barry Norman, um dos mais prestigiados críticos de cinema britânicos, e parece a que melhor capta a essência deste filme desmesurado, que transcende todos os padrões do cinema conhecido no final da década de 30, e de algum modo antecipou tendências: E Tudo o Vento Levou funciona como raiz ancestral de todas as ficções telenovelescas que se tornaram uma maçadora banalidade dos nossos dias. A receita não voltou a pegar. Reveja-se O Gigante (George Stevens, 1956), por exemplo: não há comparação possível.

A diferença reside no carácter pioneiro desta ficção que pretende celebrar os "valores" sulistas dos EUA totalmente ao arrepio da torrente da história na América progressista de Franklin Roosevelt: há um certo charme neste assumido anacronismo. E é também uma questão de escala: tudo foi concebido em grande pelo produtor do filme, David O. Selznick -- megalómano, ególatra, dotado de uma tenacidade quase lendária, produtor ímpar da era de ouro do cinema norte-americano.

 

Selznick só sabia mesmo pensar em grande. Para ele, mais era sempre sinónimo de melhor: nunca se contentou em ficar a meio caminho. Reuniu a maior equipa técnica, o maior naipe de figurantes, o maior número de estrelas. Conseguiu o maior número de nomeações (onze, obtendo um total de oito estatuetas) para os Óscares de Hollywood. E sobretudo alcançou a maior receita de bilheteira: se actualizarmos o valor da inflação, E Tudo o Vento Levou foi provavelmente o maior campeão de bilheteira de todos os tempos.

O génio empresarial de Selznick ficou logo patente nessa brilhante jogada publicitária que foi a escolha do elenco para o filme, estreado no cinema Fox, em Atlanta, a 15 de Dezembro de 1939. Todas as actrizes conceituadas da época e muitas aspirantes ao estrelato, de uma forma ou outra, manifestaram interesse em conseguir o papel principal, o de Scarlett O' Hara.

A lista, para não variar neste empreendimento, era quilométrica: Bette Davis, Katharine Hepburn, Joan Crawford, Paulette Goddard, Joan Bennett, Greer Garson, Norma Shearer, Loretta Young, Lana Turner, Irene Dunne, Ida Lupino, Barbara Stanwyck, Jean Arthur, Miriam Hopkins, Talluah Bankhead, Carole Lombard, Anita Louise, Ann Sheridan, Claudette Colbert, Susan Hayward, Margaret Sullavan, Frances Dee, Catherine Campbell. Um megaconcurso de testes cinematográficos que acabou por servir de rampa de lançamento para a fama de uma britânica de 25 anos, em início de carreira. Chamava-se Vivien Leigh.

 

Sem ela, E Tudo o Vento Levou não seria o que foi. Não seria o que é. Se compararmos o cinema às grandes criações literárias, a Scarlett de celulóide equivale a uma das grandes personagens romanescas de que há memória. Com a sua força de carácter, a sua vivacidade, o seu apego tenaz aos valores familiares, à herança do sangue, aos vínculos afectivos à terra-mãe. Numa das cenas mais marcantes do filme, o pai de Scarlett, Gerald O' Hara (grande interpretação de Thomas Mitchell, um dos secundários mais talentosos de Hollywood), diz-lhe: "A terra é a única coisa do mundo por que vale a pena lutar ou morrer."

Ela faz desta frase um lema de vida. E remete tudo o resto a um plano inferior, fiel ao juramento que fará mais tarde: "Deus é testemunha que não deixarei ninguém derrotar-me." Indiferente aos ventos da história, que sopram implacáveis contra o orgulhoso Sul tão bem descrito pelo capitão Rhett Butler (Clark Gable) em vésperas da eclosão da guerra civil norte-americana: os sulistas, sublinha ele, "só têm palavras, escravos e arrogância".

 

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Olivia de Havilland (1916-2020)

 

Guerra e amor, os dois maiores condimentos do cinema clássico, estão presentes em Gone With the Wind. Mas o que mais prende a atenção do espectador, num filme que tem largas dezenas de personagens, é o destino de um quarteto: Scarlett, Rhett, Melanie (Olivia de Havilland) e Ashley. Personagens convictas, cada qual a seu modo, de que aquela guerra significaria "o fim do nosso mundo", como um angustiado Ashley (Leslie Howard) diz à sua apaixonada Scarlett em vésperas da mobilização geral no Sul.

Ironias do destino: no momento em que o filme estreou, também na vida real se travava uma guerra que mudaria para sempre a face do mundo. E o britânico Leslie Howard estaria envolvido nela, como agente de Churchill, acabando por ser abatido em 1943, num voo entre Lisboa e Bristol, pela aviação nazi.

 

Selznick, um homem que gostava de mulheres, estava certo: sem o fabuloso desempenho de Vivien Leigh, E Tudo o Vento Levou seria quase uma ficção banal. A belíssima britânica faz toda a diferença em cada cena da longa-metragem, transmitindo-lhe uma autenticidade quase inigualável na história do cinema. Não foi por acaso que recebeu o Óscar, suplantando os colegas do sexo masculino: Howard parece sempre um pouco deslocado neste filme e Gable limita-se a fazer o papel de... Gable.

Vivien só encontra aqui duas competidoras à altura do seu talento. Ambas negras, ambas vítimas do racismo sulista que não as deixou brilhar na memorável estreia de Atlanta: Hattie McDaniel, no papel de Mammy, e Butterfly McQueen, no papel de Prissy (que gozaria enfim de um merecido destaque nas celebrações das bodas de ouro do filme, em Dezembro de 1989).

 

E Tudo o Vento Levou é uma película cheia de momentos memoráveis. Momentos visuais e também auditivos: as primeiras quatro notas do Tema de Tara, composto por Max Steiner, são ainda hoje reconhecíveis em todo o mundo. Como esquecer as cenas do baile (que serviu de inspiração a outros filmes que deixaram rasto, como O Padrinho e O Caçador), o incêndio de Atlanta, as imagens do fim da guerra e da subsequente devastação que atingiu o sul dos EUA, a morte da criança e a vasta escadaria na mansão da família O' Hara que serve de excelente metáfora das relações sentimentais -- os degraus parecem poucos quando o amor predomina e dir-se-iam intermináveis quando o ódio prevalece)?

Qual o segredo de Selznick para que este filme de 1939 parecesse muito à frente da sua época e ainda hoje permaneça no imaginário dos espectadores? O segredo de sempre: soube rodear-se dos melhores. Entre a equipa de argumentistas, por exemplo, figurou um tal Scott Fitzgerald. Capaz, como outros, de reduzir as 1037 páginas do romance de Margaret Mitchell, galardoada com o Pulitzer, para cerca de um terço. Por uma vez sem exemplo, less was more.

 

Comecei por falar em Selznick, acabo o texto também a invocá-lo. Porque nenhum outro grande protagonista do cinema como ele perturbou tanto a "política de autores" teorizada na década de 50 por alguns críticos franceses, que centravam as suas análises no realizador, apontando-o como o verdadeiro autor de um filme.

Selznick era uma carta fora do baralho: é dele que se fala ainda hoje, quando se fala de Gone With the Wind. O filme chegou a ter quatro realizadores: Victor Fleming, único que figurou nos créditos finais, George Cukor (responsável por algumas cenas marcantes, como a da discussão inicial entre Scarlett e Mammy), Sam Wood e o fotógrafo William Cameron Menzies. Mas é um filme de Selznick, sem sombra de dúvida. Num tempo em que o produtor concebia a obra de arte e o realizador era apenas o seu artífice. Outros tempos, outros costumes. Numa cena capital, Rhett diz para Scarlett: "É um momento histórico. Pode dizer aos seus netos como viu o Sul desaparecer numa noite."

A última frase do filme, proferida por uma Vivien Leigh em estado de graça, é uma das mais célebres de sempre na Sétima Arte: "Amanhã será outro dia." Verdade histórica, verdade cinematográfica. O facto é que o cinema não voltaria a ser o mesmo.

 

Gone with the Wind. Ou na versão portuguesa, que sempre preferi, E Tudo o Vento Levou. Já que estamos mergulhados num melodrama, carreguemos nas tintas melodramáticas. Como escreveu o poeta Fausto Guedes Teixeira, num poema que certamente Scarlett apreciaria: "Amar ou odiar / Ou tudo ou nada: / O meio termo é que não pode ser / (...) Amemos muito como odiamos já! / A verdade está sempre nos extremos / Pois é no sentimento que ela está."

Às vezes convém trair a letra para permanecer fiel ao espírito. É o caso.

 

Texto reeditado em memória de Olivia de Havilland, agora falecida, aos 104 anos.

Retrato

José Meireles Graça, 27.07.20

Ando a coligir elementos para pintar um retrato do português médio. Exclui comunistas porque não quero uma coisa demasiado soturna; e bloquistas típicos porque não pretendo perder tempo com jovens parvalhões, mesmo que sejam velhos.

Das pesquisas que tenho feito já conclui que o tal português acha que: Marcelo leu livros em barda, é muito inteligente, muito dado com a gente do povo, pessoa muito simples e grande amigo de banhos de mar, tanto que até muda de calções, por causa das assaduras, sem se esconder, o que irrita muito os fachos; Costa é muito bem disposto, governa com grande habilidade e nunca se esquece dos pobres; Rio é menos hábil do que Costa, mas muito sério, embora dos pobres se lembre raramente; os outros andam lá e está muito bem porque Portugal é uma democracia. Mas não precisavam de ser pr’aí trezentos, 20 ou 30 chegavam perfeitamente, se a Europa achasse bem; nesses outros há um tal André que lhes diz as verdades nas ventas, mas é do Benfica; os portugueses são muito bons, basta ver o que fez Amália cá dentro, e Mourinho e Jesus lá fora, os patrões é que não prestam; Cristina Ferreira, se fosse americana, metia aquela preta Oprah ou lá o que é num chinelo.

Com este material e dadas as minhas qualidades, que peço licença para referir, de analista social, já estava habilitado para fazer um post jeitoso, logo que aprofundasse um ou outro ponto junto de dois filósofos populares que conheço, de Freamunde.

Porém, hoje, de regresso do Porto, dei-me conta de que há cada vez mais carros de todas as idades, incluindo chaços com mais de uma dúzia de anos, com as novas matrículas.

Sucede que entre cada letra ou número deve haver um espaço de um centímetro, mas entre cada grupo de duas letras ou números a distância deve ser de dois centímetros. Ora, com as pressas de fingir que tem um carro recente, muita gente colocou matrículas que não respeitam estas regras, e os centros de inspecção periódica obrigatória, e a GNR, estão atentos e vão ser implacáveis.

A diferença para as matrículas anteriores é que desapareceu a data do registo do carro, que figurava do lado direito, com fundo amarelo porque o burocrata que a pariu gostava de cores berrantes, e desapareceram os pontos que separavam os grupos de duas letras ou números. Mantém-se a bandeira de uma potência estrangeira, com a indicação da região onde o automóvel foi registado.

Isto a mim parece-me um fenómeno prenhe de implicações sobre a prepotência das autoridades, a ingenuidade dos eleitores, perdão, dos condutores, o desamor ao que serve em benefício do que é moderno, a vaidade azeiteira do cidadão motorizado, e a triste sociedade em que as pessoas não são o que são, mas o que parecem ter.

Coisas de grande profundidade, que carecem de reflexão. De modo que o retrato fica para outra maré.

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 27.07.20

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João Carvalho: «Em 2013, haverá uma linha de alta velocidade Poceirão–Madrid, que servirá também para mercadorias.» Estas palavras foram proferidas hoje pelo primeiro-ministro. Já não me lembro qual tinha sido a última versão e também ficou por se saber como é que a obra irá ser paga, mas agora varreram-se quaisquer dúvidas, porque a frase foi claríssima. Mais a mais, quem fez a afirmação foi o próprio José Sócrates. Portanto, pode dar-se como certo que a linha não será para mercadorias, não será Poceirão–Madrid e não será de alta velocidade. Nem será em 2013.»

 

Luís M. Jorge: «Segundo o Google Reader, este post foi publicado por mim às nove e quarenta e três de segunda-feira. Este, foi publicado pelo Miguel Abrantes às nove e cinquenta e nove do mesmo dia. Gosto muito de colaborar com os assessores do senhor primeiro-ministro.»

 

Eu: «Quais as empresas que "não estamos dispostos a ceder"? Serão a TAP, a ANA, a EDP, a GALP, a CP e os CTT, que o Governo quer privatizar rapidamente e em força? Será a Vivo brasileira, que suscitou o recente conflito entre a PT e a Telefónica espanhola, agravado com a interferência de Sócrates? O regresso ao nacionalismo económico num mundo globalizado é um sinal de "progresso"? A hipotética reabertura dos postos alfandegários em Quintanilha, Vilar Formoso e Vila Verde de Ficalho significaria "progresso"? E o que sucederá enfim aos interesses empresariais portugueses e espanhóis se o Presidente Lula - rendido à receita de Freitas 'Krugman' do Amaral - anunciar a nacionalização da Vivo? Regressamos orgulhosamente sós ao doce cantinho peninsular, como nos tempos de Salazar e Franco, a dedilhar guitarras e a tocar castanholas?»

PCP "festeja" em tempo de luto

Pedro Correia, 26.07.20

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O PCP decalcou a sua badalada Festa do Avante! da Fête de l' Humanité, aludindo ao jornal L' Humanité, órgão central do Partido Comunista Francês (PCF). A tal ponto que até copiou o título, embora este resulte bem melhor em francês (Festa da Humanidade) do que em português.

O festival comunista por terras de França é uma tradição bastante mais enraizada: a edição inaugural do evento ocorreu em 1930, muito antes de Jerónimo de Sousa ter nascido e quando o próprio Álvaro Cunhal - líder histórico do PCP - contava apenas 16 primaveras.

 

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Apesar disso, o PCF não hesitou: acaba de anunciar o cancelamento da 85.ª edição da sua "Festa da Humanidade", invocando o que qualquer pessoa ou qualquer organização partidária responsável têm a obrigação de reconhecer em nome do mais elementar bom senso: o «contexto sanitário actual». Isto apesar de, no momento actual, França registar menos casos de infecção pelo novo coronavírus por milhão de habitantes do que o nosso país: 2.765 lá, 4.900 casos cá.

Sabendo-se ainda por cima que o festival dos comunistas portugueses se realiza na Área Metropolitana de Lisboa, precisamente a que tem sido mais fustigada por novos surtos da pandemia, é cada vez mais incompreensível a obstinação dos dirigentes do PCP, que teimam em levar a sua avante. À revelia de todas as recomendações sanitárias e da solidariedade que é devida não apenas aos familiares das vítimas mas aos profissionais da saúde que se mantêm firmes no duro combate à doença.

É caso, além do mais, para questionar o PCP: o que haverá para "festejar" num país onde todos os dias surgem novas famílias enlutadas pelo Covid-19 e numa sociedade tolhida pelo medo crescente de novas infecções?

A Antígona e o covid

Paulo Sousa, 26.07.20


Antígona condenada à morte por Creon,  Giuseppe Diotti

Há cerca de 2500 anos, Sófocles escreveu a Antígona.
Pelo que sei, esta foi apenas uma de sete outras representações teatrais que chegaram aos nossos dias. Muitas outras terão sido perdidas pela voracidade do esquecimento.
Esta obra relata a defesa apresentada por Antígona perante um coro de anciãos de Tebas, que representam a polis.
Depois de inúmeras maldições que lhe fulminaram a família, os seus irmãos, Etéocles e Polinices, combateram e morreram em lados opostos numa luta que levou o tirano Creonte ao poder.
O cadáver de Etéocles, por vontade do novo soberano, foi tratado de acordo com a justiça e a lei, sendo homenageado honrosamente e recolhido a um sepulcro.
Polinices, pelo contrário, seria deixado por enterrar. Seria um tesouro bem-vindo para as aves de rapina. Por ordens de Creonte os cidadãos ficaram impedidos de o lamentar e até o facto de o seu cadáver ter sido coberto com pó, fez o guarda que assegurava o cumprimento da sentença correr risco de vida .
A outra irmã deles, Ismena, teme a lei tirânica e tenta dissuadir Antígona dos seus planos.
Durante a representação diz Ismena:
- Sou incapaz de de actuar contra o poder da cidade.
E responde-lhe Antígona
- Eu por mim vou erguer um túmulo ao meu irmão tão querido.
- Ai desgraçada como temo por ti!
- Não temas por mim. Assegura a tua vida. (…) Mas deixa-me a mim e à minha loucura, a sofrer este mal terrível. Eu por mim, não creio que haja outro tão grande como morrer sem honra.

 

Não quero ser spoiler e não vou revelar o desenrolar do drama, até porque se trata de uma obra que se lê num dia. E merece ser lida.
Perante isto, perante a sabedoria dos clássicos, questiono-me sobre que causas na actualidade levariam um cidadão a ir contra a polis a ponto de arriscar a própria vida.
A tecnologia permitiu-nos alargar a duração da vida e a resposta ao “até quando vale a pena viver?” tem diversas formas. A polis vacila entre a defesa da eutanásia e a proibição do tabaco. No geral privilegia-se o prolongamento da vida, o que é um bom critério.
Mas questiono-me se, apenas porque é possível, é motivo suficiente para prolongar a vida?
A Covid trocou-nos a voltas em muitos detalhes do dia a dia e, entre outras coisas, colocou os anciãos da actualidade num isolamento que mais não é que um ensaio para o além.
As residências de idosos, especialmente neste tempo de pandemia, não são mais do que antecâmaras da casa velório.
Quantos dos nossos, que para lá estão emprateleirados, não trocavam três ou quatro meses mais de uma existência asséptica, com cortinas de acrílico, com cheiro a desinfectante e habitada por andróides de máscara e viseira, por uma dúzia de abraços sentidos, por um passeio à beira mar, por uma sardinhada ou uma matança do porco, a ouvir crianças aos gritos, com o sol a bater na testa, com os pássaros a cantar, com vinho tinto entornado na toalha da mesa, com uns bafos de cachimbo e, no final, com o esterno enxaguado por uma aguardente velha?
Já nem é de honra que falo, mas apenas de propósito.

PS:
O coro de anciãos de Tebas, do além, deixou um recado para os animalistas:
- Muitos prodígios há; porém nenhum maior do que o homem.

Blogue da semana

Pedro Correia, 26.07.20

Columbo continua em reposição na RTP Memória: uma boa iniciativa que veio ao encontro de um público interessado e fiel, como ficou evidente quando aqui publiquei um texto sobre esta série de culto. Com entrada directa para o top ten dos postais mais comentados de sempre no DELITO DE OPINÃO.

Muitos apreciadores da série gostariam de saber mais sobre ela. Pois encontram tudo neste blogue norte-americano assumidamente columbófilo. Lido por fãs de todo o mundo.

The Columbophile é o nosso eleito da semana.

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 26.07.20

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Luís M. Jorge: «Portas, o justiceiro, relata ao país cinco julgamentos de meliantes da Amadora ou da Damaia, não percebi bem, que sobressaltaram velhinhas nos autocarros e foram absolvidos. Um escândalo, uma vergonha. Um minuto depois, Crespo pergunta-lhe pelos submarinos. Portas, homem de estado, responde-lhe que não comenta casos concretos da justiça

 

Nuno Gouveia: «Existe uma velha cartilha ideológica que diz que a esquerda é amiga dos pobres, enquanto a direita, essa maléfica trupe de malfeitores, defende apenas os ricos e os capitalistas. Este simplismo ideológico, que muito boa gente genuinamente acredita e defende, tende a dificultar um debate sério sobre o desenvolvimento de uma sociedade. Claro que em países politicamente maturos esta cartilha não é tão evidente no debate público. Mas em Portugal, onde o partido mais à direita se chama Centro Democrático Social e o grande partido de centro-direita é o Partido Social Democrata, esta divisão adultera muitas vezes o debate.»

 

Eu: «A paixão partilhada por Laura – deslumbrante Gene Tierney, escolha perfeita para este papel – traz à tona as piores facetas dos homens que se deixam sucumbir pelo seu feitiço. De tal maneira que saber quem a matou passa a ser a questão que menos interessa perante a certeza de que todos seriam capazes de matar por ela. Incluindo o polícia que se perdeu de fascínio pelo seu retrato. «O homem mata o que ama», dizia Oscar Wilde. O amor em excesso pode ser fatal. E a ilusão do amor também.»

A falta que fazem os Jogos

Cristina Torrão, 25.07.20

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Não fosse a pandemia e ter-se-ia realizado ontem a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Tóquio. E dei comigo a pensar que o cancelamento e/ou adiamento de eventos deste tipo podem ser bem mais prejudiciais do que pensamos.

No início do confinamento, ainda houve quem pensasse (eu incluída) que a Humanidade saísse reforçada desta crise. Seríamos levados a reflectir sobre os nossos hábitos e sobre aquilo que realmente queremos para o nosso mundo. Mera ilusão. A falta de contacto social e de convívio, o desespero e a insegurança, têm o efeito contrário, ou seja, a polarização e o radicalismo. Não mudámos nada desde a Idade Média, continuamos a acreditar naqueles que nos prometem fórmulas milagrosas. E continuamos a procurar bodes expiatórios, crendo em teorias da conspiração, como antigamente se acreditou que os judeus eram os culpados pela Peste Negra, pois teriam envenenado as fontes.

Eventos como os Jogos Olímpicos não deixam de ser polémicos, seja por implicarem custos astronómicos, seja por transmitirem uma harmonia mundial fictícia, seja pelos escândalos de doping. Penso, porém, que são responsáveis por um importante efeito psicológico. Em que outra cerimónia vemos quase todos os países do mundo a festejarem juntos? As imagens que nos chegam mostram pessoas de todas as nacionalidades e etnias em celebração e convívio. E nós, os do outro lado do ecrã, também vibramos, quanto mais não seja, quando o nosso próprio país entra no estádio, cheios de expectativa pelos resultados, mal podemos esperar pelas competições. Onde há aqui lugar para pensamentos negativos?

Os vencedores dão a volta ao estádio com a sua bandeira pelas costas e os espectadores seus compatriotas acham-se os melhores do mundo. Mas é uma alegria saudável, até porque é comum os detentores do pódio abraçarem-se, confraternizarem, juntando bandeiras das mais diversas origens. Assim como se vêem vencedores a consolar perdedores. E quantas vezes o estádio vibra com algum/a atleta, seja de que nacionalidade for, perante uma performance desportiva de excepção?

Penso que imagens dessas são importantes, não duvido que têm um efeito psicológico positivo. Certo, os racistas não deixam de o ser. Mas dão menos importância a essa sua característica, até a escondem, porque no fundo, sabem que está errada. É essa a mensagem dos Jogos. A pandemia, por outro lado, faz sobressair o ódio por aquilo que é diferente. Temos medo, queremos distância, centramo-nos na desgraça do nosso país sem ligar aos outros, procuramos bodes expiatórios, veneramos quem confirma certos comportamentos e tendências, que em situação normal, se desaprovam. A vergonha cai.

Também o adiamento do Campeonato Europeu de Futebol masculino para 2021 pode ser mais grave do que pensamos. Mau grado toda a corrupção existente no futebol, este é igualmente um evento que cria uma atmosfera muito especial, apesar das rivalidades. Quem não se lembra do ambiente de excepção (no bom sentido) gerado no nosso país, em 2004? Claro, há hooligans e cenas menos bonitas nos estádios. Também as existem nos Jogos Olímpicos (incluindo um grave atentado em Munique). No cômputo geral, porém, o resultado é francamente positivo. As imagens de eventos desportivos que juntam nações são uma espécie de pausa nos ódios e nos rancores. E pausas dessas fazem muita falta.

 

P.S. O próprio Festival da Eurovisão, odiado por tantos,  é bem mais benéfico para a saúde mental de milhões de pessoas do que se pensa.

Ana Bola: «Sou muito boa boca»

Quem fala assim... (6)

Pedro Correia, 25.07.20

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«Tenho muita pena de não ter feito Medicina. Leio muita coisa sobre temas médicos»

 

Soam gargalhadas do lado de lá do telefone. A actriz que se habituou a trabalhar nos mais diversos palcos - e a cantar bem, além de representar - sente-se à vontade na comunicação. Ou não fosse do signo Gémeos. Recordo que a conversa com ela foi particularmente bem-disposta. Mais a sério, confessou-me que sonhou ser médica.

 

Qual foi a maior decepção que sofreu até hoje?

Foi tão grande, tão grande, tão grande que não posso falar dela publicamente.

Gostaria de viver num hotel?

Neste momento, não. Mas gosto muito de hotéis, desde que tenha espaço para mim. Acho graça à ideia de imitar a Beatriz Costa, que viveu anos no Hotel Tivoli.

A sua bebida preferida?

Depende dos momentos. Pode ser água. Ou vinho. Ou chá. Ou sumo de laranja.

Que número calça?

38.

Que livro anda a ler?

Na Praia de Chesil, de Ian McEwan. 

Está a gostar?

Muito. Gosto muito da escrita dele.

A sua personagem de ficção preferida?

Neste momento estou muito presa ao Dr. House. Acho o actor [Hugh Laurie] magnífico. Além disso, interesso-me por tudo quanto seja ligado a hospitais e remédios e operações. Hoje tenho muita pena de não ter feito Medicina. Leio muita coisa sobre temas médicos. Interesso-me por diagnósticos, que sempre encarei como algo misterioso.

Considera-se uma pessoa saudável?

Sim. Tenho alguns cuidados com a saúde. Mas mantenho maus hábitos: fumo de vez em quando um cigarrinho, por exemplo. É um equilíbrio no desequilíbrio.

Qual é o seu prato favorito?

Sou muito boa boca. Gosto de tudo - até daquilo de que quase todas as pessoas não costumam gostar, como rins.

Diga lá um prato que aprecie mesmo muito...

Adoro uma coisa que é nojenta: língua de vaca. Com puré de batata, é do melhor que há.

Gosta de cozinhar?

Gosto muito. De repente, apetece-me fazer uma feijoada. Ou um prato leve. Ou um risotto. Ou comida indiana. Vou a todas...

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

Hoje em dia, se calhar, é a gula. Mas já tive tempos melhores.

A sua cor preferida

O azul, nas suas mais diversas tonalidades.

Costuma cantar no duche?

Não. Costumo cantar, mas não necessariamente no duche.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Não. Deixem lá estar o hino como está. Já existe há tantos anos...

As aparências iludem?

Iludem. Cada vez mais. Hoje em dia, então, iludem tanto...

Qual é a sua peça de vestuário preferida no Verão?

Túnicas indianas, fininhas. Têm a vantagem de tapar a anca...

O que a irrita profundamente?

A estupidez e a burrice, mais do que a falta de cultura ou a ignorância. Imagine o que tenho de me irritar todos os dias!

Com quem gostaria de jantar?

Com a Madonna. Acho fascinante como é que uma mulher que não canta quase nada consegue manter uma carreira tão profissional durante tantos anos.

Qual o seu maior sonho?

Ter tempo para fazer apenas o que realmente me apetece.

E o maior pesadelo?

Ver partir à minha frente os meus familiares e amigos, sobretudo os que são mais novos do que eu.

O que faria se fosse milionária?

Faria certamente alguma filantropia. E compraria tempo só para mim.

Casamentos gay: de acordo?

O valor que mais prezo é a liberdade. Estou de acordo que façam o que pretendem, no pleno uso dessa liberdade.

Um homem bonito?

Zé Pedro, dos Xutos e Pontapés.

Acredita no paraíso?

Não.

Tem um lema?

A vida deu-te limões, faz limonadas.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (11 de Agosto de 2007)