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Delito de Opinião

George Floyd

José Meireles Graça, 03.06.20

Temos o privilégio masoquista, que nos dão as redes quase instantaneamente, de assistir a execuções extrajudiciais.

Não a todas, claro, nem sequer à maior parte. Apenas àquelas que são praticadas em sociedades democráticas onde o uso de telemóveis para esse efeito não acarrete riscos sérios para os cineastas amadores, ou onde sejam os próprios justiceiros fardados obrigados a filmar os seus actos, como sucede em alguns estados (ou apenas condados? Não apurei) americanos.

Os States estão a ferro e fogo por causa desta última e, como de costume, proliferam as análises profundas, quase sempre nem tanto, a elaboração de receitas para os males americanos, feita por locais e estrangeiros, e o atrelar pornográfico da indústria de causas a esta desgraça que deveria envergonhar a land of the free, home of the brave – e de facto envergonha um número crescente, que se traduz no gigantismo da parte não-violenta das manifestações.

Não vou resolver o problema da violência americana (das armas, do crime, dos gangs, das minorias violentas e segregadas, das instituições penais, seja a legislação, os tribunais, as polícias ou as prisões) porque não sei. E isso não constitui qualquer embaraço porque o problema é de tal modo complexo que não terá solução para o mês que vem, ou na próxima presidência, e certamente não a teve até agora.

A reivindicação simplista da proibição do porte de armas choca com a cultura americana, com a Constituição (numa leitura discutível, mas em boa parte inútil porque a questão não é de hermenêutica jurídica) e com a tradição do crime com arma de fogo, das quais há incontáveis milhões, o que implica, no caso de proibição, facilitar a vida a criminosos e dificultá-la a quem se quer defender.

Os gangs e as minorias (com excepção da negra, que é um caso à parte) resultam de ser a América uma terra de atracção, e ter desde sempre permitido o maior grau de liberdade cultural e religiosa das suas comunidades, com o único cimento da igualdade dos cidadãos perante a lei, a língua inglesa (esta a abrir brechas) e um patriotismo de adopção fundado na excepcionalidade americana e na consciência de um destino comum. A liberdade de ser diferente, que está na génese da América, está também na génese de um apartheid soft de culturas paralelas, unidas pela Coca-cola, as calças de ganga e a falta de maneiras à mesa, porque o país foi feito com o lúmpen de outros.

O caso dos negros é bem mais complicado por a comunidade descender de escravos e ter um longo e doloroso percurso, bem conhecido, até atingir, apenas nos anos 60, a igualdade perante a lei em todo o território, mesmo assim perdurando um rasto de desvalia factual que as políticas ingénuas de discriminação positiva, criando privilégios que despertam ressentimentos em outras comunidades, e alimentando sentimentos de entitlement na negra, muito pouco têm feito para diminuir. A isto acresce a desestruturação das famílias, os bairros problemáticos onde reina a violência, o tráfico de droga e crimes sortidos, o ensino medíocre para alunos que veem na rua o futuro que não está na escola, e uma litania de vários problemas, mais intratáveis uns que outros

A esquerda, lá como cá, costuma arrumar o problema da criminalidade debaixo da epígrafe “desigualdade”. Com razão: numa sociedade igualitarista há menos progresso material, e polícia mais eficiente porque ainda não se inventaram sociedades igualitaristas sem reforço dos poderes do Estado, e eliminação dos cidadãos. O mesmo poder que serve para destruir as oposições, estrangular a iniciativa e reprimir os que querem cometer o crime de enriquecer serve para controlar os outros. A América não tem porém essa tradição, e foi aliás por não a ter, para além de razões geo-estratégicas, que se tornou numa super-potência, dada a prodigiosa vitalidade do seu aparelho produtivo.

Não tem essa tradição mas tem outras, por exemplo a de eleger magistrados (que não sejam federais) e certos polícias (os xerifes dos saudosos westerns). E isto significa que uns e outros têm um altíssimo grau de dependência em relação à opinião pública, que se comunica aliás ao resto da estrutura policial e judiciária, mesma a nomeada, com excepção talvez dos juízes do Supremo, que o são vitaliciamente. Este sistema tem vantagens mas, no plano criminal, está longe de demonstrado que as concepções populares de justiça sejam… justas. O medo aos criminosos, a ira popular e o simplismo das reacções criam o caldo de cultura para a violência do Código Penal, a desumanidade das cadeias, a negociação de penas contra confissões, na prática extorquidas para o acusador público mostrar serviço ao eleitor, e o reforço dos poderes das polícias, que conseguiram ser legalmente inimputáveis.

Na realidade, pode-se dizer com boas razões que a América tem um sistema penal bárbaro (coisa que os americanistas, que são legião, aliás negam) porque são uma sociedade violenta, ou que o sistema penal contribui (é a minha posição, mas não sou americanista nem sofro de outras doenças infecto-contagiosas) para essa violência.

O que não se deveria dizer é que o assassinato de George Floyd foi necessariamente um acto de racismo porque o crime foi presenciado por outros agentes, dos quais pelo menos dois são de ascendência não-wasp; porque a percentagem de negros que morre às mãos da polícia é maior do que a de brancos, mas o polícia que aborda um negro sabe que a probabilidade de este ser um criminoso é muito maior do que se for um branco; e, sobretudo, porque a alegação de racismo só envenena as coisas: as polícias precisam de ter códigos de conduta que incluam sanções severas por ofensa de direitos de cidadania, que são iguais para todos. Sanções agravadas porque o polícia deve ter especiais obrigações, dado o poder de que dispõe, não especiais direitos. Protegido o indivíduo nos seus direitos, está protegida a comunidade a que pertence – o que carece de sanção são actos ilícitos, não a imaginada ou real motivação.

Finalmente: a escumalha infecta que se associou às manifestações para destruir propriedade, assaltar estabelecimentos e causar confrontos deu uma grande ajuda a Trump, que sabe perfeitamente que o grosso do eleitorado, que está em casa, não aprecia motins. Semelhante facto não me incomoda, mas infirma a tese, corrente entre nós nos meios de gente aguda, de que a direita é estúpida. A de Ventura será sem dúvida primária, por muito sucesso que se lhe atribua (o homem ainda hoje se aliviou de sabão macaco opinativo, a benefício de cowboys justicialistas) mas a esquerdista Antifa, entre nós representada pelos dementes do Bloco, é, além de estúpida, criminosa: gente que coonesta a ideia de que há boas razões para pilhagens e incêndio de casas e automóveis, em nome de uma sociedade alternativa mal explicada, não merece figurar no perímetro da respeitabilidade.

That’s all folks.

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 03.06.20

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João Carvalho: «Fui contactado por um velho amigo ligado ao Movimento Pró-Partido do Norte. Regionalização racional, estruturas de custo mínimo, redução implícita dos custos da política central, sensibilidades distintas em torno de uma causa, assembleia a mudar ciclicamente de cidade e não instalada no Porto nem em permanência na mesma terra, extinção dos governos civis, etc. — tudo com pouca gente ligada aos partidos e com muita gente que hoje não se revê neles. Gostei. Vou aproximar-me. Fazem falta grandes causas e esta pode ser uma. Antes que seja tarde e o centralismo cego encerre este país.»

 

Teresa Ribeiro: «No Relatório da Transparência Internacional sobre 2009, divulgado em Novembro, Portugal caiu três posições no ranking da corrupção. Meses antes o presidente do Observatório da Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo acusava, aos microfones da rádio, os partidos políticos de bloquearem intencionalmente a criação de leis eficazes contra a corrupção.»

Do Minnesota a Portugal

jpt, 02.06.20

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(Ihor Homeniuk)

 

Sobre este assunto começo pela grande canção "American Skin" de Bruce Springsteen, que se não diz tudo tudo sente sobre este acontecimento americano. E que aqui fica também para que alguns irredutíveis não resmunguem que eu estou a apoucar o inapoucável:

Leio no FB emotivas partilhas do fait-divers de que uma jornalista da TVI se comoveu ao apresentar a notícia do assassinato de George Floyd, morto por um polícia após 8 minutos a sufocar, tendo sido incapaz de a concluir. A notícia vem com fotografia e percebo-lhe o fenotipo, presumo-a mestiça ("mulata" como se diz em Moçambique, sem preocupações etimológicas) ou será negra, não posso precisar nem essa destrinça me é relevante.  Vejo também aqui vários amigos reais, e imensas ligações-FB, até académicos, mesmo antropólogos, até antropólogos com trabalho em Moçambique, a partilharem insurgências próprias e lamentos contra este horror acontecido em Minneapolis, no estado do Minnesota, EUA.

Eu tenho duas questões: 1) será que a jornalista da TVI se comoveu até à inacção quando apresentou a notícia do assassinato de um eslavo (lembrai-vos do nome dele? Ihor Homeniuk) cometido por um grupo de agentes do SEF no aeroporto da Portela, na cidade de Lisboa, distrito de Lisboa, Portugal? E, para pormenores aduzo que o tal eslavo - e, já agora, sabeis da ligação etimológica entre "eslavo" e "escravo", e do que isso deixa deduzir sobre as categorias antropológicas negativamente discriminatórias? principalmente diante de um candidato a imigrante ...-, Ihor Homeniuk, não foi asfixiado durante horrorosos oito minutos mas seviciado durante horrorosas não sei quantas horas. Será que a dita jornalista se comoveu tanto que interrompeu a locução do acontecido ali à Encarnação, antes de Sacavém? A menos de 5 euros de taxi da minha casa? E será que estes cândidos, mesmo académicos, até antropólogos com trabalho em Moçambique, se ornamentaram com insurgências, lamentos e perfis eslavófilos? Será que alguém se lembra que Ialta, o apogeu do "compromisso histórico" que obrigou a rasurar tanta da historia de XX, foi há 77 anos? Mas que o 20º congresso do PCUS foi há 64 anos e o fim da URSS há 29. E que com isso não é necessário manter o silêncio, a "dessignificação" da História. Lembrando, por exemplo, que a URSS, avatar da Rússia, e a nossa actual grande aliada Alemanha, mataram mais ucranianos, a deles alteridade, do que todos os mortos, directos e indirectos provocados pelos colonialismos europeus em África durante XX? E nem falo do passado, tão complexo naquela região, como em quase todas as outras. E aduzo, entre não-lágrimas alheias, que nenhum jogador da bola se ajoelhou em homenagem a Homeniuk, nenhum intelectual português usou ícones a propósito de Homeniuk, assassinado, repito, ali à Rotunda do Aeroporto, a 10 minutos do mercado de Alvalade, onde há um bom restaurante de peixe. E mais junto, isto da minha certeza de que um qualquer sueco, alemão ou britânico, também presumivelmente louro, não seria morto ali nos escritórios a cinco minutos da Praça Franciso Sá Carneiro, a sempre Areeiro. Se Homeniuk fosse um sírio, seria uma gritaria a propósito da morte de um "refugiado de guerra". Mas como era ucraniano, provavelmente louro, pouca foi a ira. Se fosse um magrebino, tentando passar a imigrante "indocumentado", seria uma desgraça, mas como era ucraniano, provavelmente louro, nenhuma corrente indignista brotou. Se viesse daquela "África Negra" de antanho seria uma onda de repúdio, mas vindo da eslavónia pouco conta entre os bem-pensantes nacionais. Apesar, não sei se já disse, de ter sido morto a meia dúzia de estações de metro do El Corte Ingles da pequena-burguesia lisboeta.

2) Há um mês dois polícias espancaram até à morte um homem na cidade da Beira, capital de Sofala, Moçambique, cidade celebrizada pela calamidade de 2019. "Os dois polícias interromperam um jogo de futebol de adolescentes em cumprimento das recomendações do estado de emergência devido à covid-19, e depois começaram a jogar, o que levou Abdul Razak, que se encontrava no local, a ameaçar filmá-los.". Não vi quaisquer imagens, só posso presumir os fenotipos dos dois polícias e do cidadão Abdul Razak (e presumo-o cidadão moçambicano pois se não o fosse muito provavelmente não teria criticado a polícia e teria sido identificado pela imprensa como estrangeiro). Mas a notícia informa que ele morreu não após oito minutos de horrorosa asfixia mas após 3 horas de horrorosas sevícias na esquadra da Munhava.

A minha questão é a mesma. Será que a jornalista da tvi se emocionou até à inacção ao ler a notícia da morte de Abdul Razak? E os indignados do FB, mesmo académicos até antropólogos com trabalho em Moçambique, se ornamentaram com insurgências, lamentos e perfis moçambicanófilos? (Sim, eu sei, a notícia nem correu no rincão ...).

Não se trata de discutir a dimensão de um crime, ou a realidade de um qualquer país. Trata-se da pertinência de importar essa realidade, e os seus critérios classificatórios, para entender o resto do mundo. Para direccionar a atenção sobre o resto do mundo. Para balizar e animar os sentimentos, tão bem intencionados, da pobre jornalista da tvi. E dos não tão bem intencionados funcionários públicos ou privados pagos para pensarem a realidade. Utilizando este falsário molde sentimentalão para perseguir objectivos próprios em casa própria.

A (in)utilidade do protesto pacífico

João Campos, 02.06.20

A propósito do texto desta tarde da Maria Dulce Fernandes. Muito poderia ser dito sobre descrever-se motins violentos como terrorismo, mas deixarei de lado essa divagação. Do texto ficou-me sobretudo uma das últimas frases; julgo que não terá sido exactamente isto que a Maria Dulce queria dizer, mas acabou por ser isto que disse:

Não é possível apagar um crime hediondo praticando milhares de outros que tais, igualmente injustificáveis e desprezíveis. 

Não é, de facto. Mas motins violentos e homicídio - George Floyd não foi vítima de outra coisa - não são igualmente injustificáveis e desprezíveis. Nunca serão. 

Protestos pacíficos são muito bonitos e dão fotos catitas para as redes sociais, mas o mundo não muda com toda a gente a dar as mãos e a cantar a Imagine. Protestos pacíficos são, na verdade, uma forma muito eficaz de aparentar movimento sem sair do mesmo sítio, de mostrar apoio a uma causa sem grande convicção e, sobretudo, sem grande compromisso. Sem grande sacrifício. Marcha-se um bocadinho, sorri-se para as câmaras, proferem-se palavras de ordem estridentes e vazias, manifestam-se as melhores intenções do mundo - e, no final, vai cada manifestante à sua vidinha, e o mundo continua a rodar no mesmo sentido. Quem estava bem, continua bem; quem estava assim-assim continuará assim-assim; e quem estava mal, continuará mal.

Toda a gente sabe, afinal, que lugar está cheio de boas intenções.

(Por cá orgulhamo-nos de ter feito uma revolução sem derramar sangue. Esquecemo-nos - fingimos esquecer-nos, não dá muito jeito - é dos quase cinquenta anos de ditadura que aguentámos enquanto povo, mansamente, encolhendo os ombros, incapazes de partir a loiça. Bem vistas as coisas, não foi grande coisa a nossa revolta contra a tirania; salvo raríssimas excepções, limitámo-nos a esperar que o regime caísse de podre. Como teria de cair, inevitavelmente. Calhou terem sido quase cinco décadas; podiam ter sido seis ou sete.)

Mas divago. Colin Kaepernick protestou pacificamente contra a discriminação racial e a brutalidade policial nos EUA. Serviu de muito.

As imagens de violência que chegam das cidades norte-americanas são chocantes, de facto, e a sua fúria esconderá imensas injustiças e inúmeros aproveitamentos de uma indignação mais do que legítima. Mas de todas as imagens que vi até agora dos motins e da destruição causada impressiona sequer uma fracção do que choca o vídeo da morte de George Floyd, esmagado pelo joelho de um polícia e pela indiferença de outros dois ou três. Não houve ali a mais remota tentativa de "proteger e servir", como não houve qualquer esforço de praticar algo que se aproximasse de qualquer ideal de Justiça, por mais imperfeito que esse ideal pudesse ser. Houve, sim, um homicídio. Mais um.

Talvez os protextos violentos não mudem nada, mas desta vez ninguém poderá dizer que não ouviu.

Sobre este tema, e fazendo a ligação a um outro caso muito recente que, apesar de chocante e sintomático, felizmente não acabou com ninguém morto, recomendo as palavras de Trevor Noah.

 

 

Terrorismo

Maria Dulce Fernandes, 02.06.20

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Li hoje na imprensa internacional disponibilizada online que as pessoas aproveitam qualquer pretexto para se amotinar, saquear e pilhar, normalmente em nome da igualdade e da justiça.

A morte de um ser humano às mãos de um seu semelhante nunca é um “qualquer pretexto". É um acto de extrema barbárie, independentemente do contexto. Não tem desculpa nem justificação. É algo deontologicamente desprezível e totalmente inaceitável na cultura ocidental.

Dito isto, pergunto-me se amotinar-se, saquear e pilhar se justificam pelo sentimento de revolta, genuíno e esmagador, em crescendo contínuo na sequência da morte violenta e sem sentido de mais um ser humano às mãos de quem o devia ajudar e proteger. Mortes, violência sem justificação nem sentido acontecem infelizmente todos os dias e a todas as horas, por esse mundo fora, e a grande maioria nunca chega ao nosso conhecimento.

O que é que esta morte por brutalidade policial tem de diferente de todas as outras? Nada. Não tem nada de diferente. É mais um crime contra a humanidade, como tantos milhares de outros crimes. Apenas o mediatismo é extrapolado: apela à revolta, à instabilidade e ao terrorismo. Apela ao medo e à justiça sumária. Apela à selvajaria. Apela ao crime.

Não é possível apagar um crime hediondo praticando milhares de outros que tais, igualmente injustificáveis e desprezíveis.

Se moralmente poderão estes levantamentos populares na sua essência,  serem considerados actos de terrorismo? Podem, sim. Este "fim" não justifica os meios. De modo nenhum.

Falar menos e proceder melhor

Pedro Correia, 02.06.20

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O Presidente da República, na linha do que fizera dias antes a directora-geral da Saúde, lembrou-se este domingo, à entrada para a missa na Sé de Lisboa, de dar um ralhete aos jovens.

«Não faz sentido que os jovens estejam a organizar festas com centenas de pessoas e muito próximas, e sem a preocupação de distanciamento. As normas sanitárias devem valer para todos», declarou Marcelo, num esporádico regresso à sua anterior condição de professor. 

 

Creio que este ralhete presidencial chega um pouco tarde.

Devia ter-se ouvido um mês antes, e com outros destinatários, que funcionaram como péssimo exemplo para os jovens. Refiro-me aos dirigentes da CGTP, que - num claro incumprimento das normas sanitárias e do próprio estado de emergência então em vigor, que interditava a circulação interconcelhia - juntaram cerca de mil pessoas na Alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa, num verdadeiro comício. Mobilizando para o efeito sindicalistas de concelhos limítrofes - incluindo Loures, Amadora e Seixal, que se encontram entre as áreas agora mais fustigadas pela progressão do Covid-19.

As fotografias na altura publicadas, também aqui, não deixaram lugar a dúvidas: foi um acto de inadmissível irresponsabilidade da central sindical. À qual o Presidente e a directora-geral da Saúde assistiram num respeitoso e resignado silêncio.

Esse mesmo mês de Maio chegou ao fim com números preocupantes: centenas de novas infecções diárias; a maioria dos novos casos ocorre na densa periferia de Lisboa, entre pessoas cujas idades oscilam entre os 20 e os 29 anos; e registamos pela primeira vez mais óbitos do que Espanha.

 

Agora, enquanto sustenta (e bem) que não faz sentido algum os jovens andarem por aí a organizar festas em tempo de pandemia, o Chefe do Estado mantém uma posição dúbia e timorata sobre a Festa do Avante!, que continua marcada para um dos epicentros do contágio - o concelho do Seixal.

Concedendo assim ao PCP o mesmo estatuto de inaceitável privilégio que já havia concedido à CGTP no decreto presidencial. Isto quando o PSD e o Bloco de Esquerda, responsavelmente, já cancelaram eventos similares. Isto quando o próprio partido do Governo tomou a iniciativa de adiar o congresso nacional e o processo de eleição do secretário-geral.

 

Marcelo, que muito antes de ser Presidente já era um académico de mérito reconhecido, é o primeiro a saber que a melhor pedagogia não se faz pela palavra, mas pelo exemplo. 

Menos falatório e melhores exemplos: só assim os jovens levarão a sério as gerações dos seus pais e seus avós.

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 02.06.20

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João Carvalho: «Nos tempos difíceis que correm, adivinhava-se que não iam demorar a aparecer aqueles que defendem a redução do número de deputados — e apareceram. O tema é velho e cíclico, mas qualquer discussão séria foi sempre sucessivamente adiada. Agora, em período de dramática austeridade, com visível falta de exemplos nas áreas políticas e de cortes decididos nos orçamentos institucionais, perante medidas que começaram hoje a espremer ainda mais uma fatia cada vez maior da população já seriamente afectada por este atoleiro nacional, o tema tinha de regressar. Em vão. Ainda não é desta que o assunto segue em frente.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Uma campanha destas custa seguramente muitos milhares de euros. Duvido que essa seja a melhor forma da Galp promover o apoio à selecção nacional e melhorar a sua imagem. E como já prevejo o calvário que aí vem até ao final do mundial de futebol, o ideal era que os portugueses se fossem todos plantar à porta dos responsáveis da Galp e os azoassem de manhã à noite com as vuvuzelas. Começa a não haver pachorra para a estupidez de algumas empresas e dos seus responsáveis.»

 

Teresa Ribeiro: «A má qualidade das leis em Portugal custa 7,5 mil milhões de euros ao país, valor que se aproxima da metade do défice do subsector do Estado – notícia divulgada em Janeiro por uma técnica da Presidência do Conselho de Ministros.»

 

Eu: «Só escutei alguns minutos [na Antena 1]. Mas foi o bastante para ter ouvido proclamações carregadas de ódio racial, reles exclamações xenófobas, frases negacionistas pretendendo "desculpabilizar" o nazismo e até instigações abertas ao genocídio. Tudo a pretexto das lamentáveis mortes ocorridas a bordo do navio turco ao largo de Gaza, imputáveis ao Governo e às forças armadas de Israel. Há quem possa chamar a isto serviço público. Eu não.»

Táctica + Estratégia = Agora é que é!

Paulo Sousa, 01.06.20

A aterragem do paraquedista António Costa da Silva no nosso espaço público foi o mais parecido com o envio dos dois astronautas para a Estação Espacial Internacional que o nosso governo nos conseguiu oferecer.

Dizem que o senhor é que vai delinear a estratégia do país. Agora é que vai ser! Se calhar o que tínhamos até agora era apenas uma táctica, o que no fundo é a estratégia dos pobres.

Um bêbado letrado da minha terra dizia que a táctica era delineada com vinho branco e a estratégia com vinho tinto e, vendo bem, essa lógica pode explicar os ziguezaguiantes sucessos do nosso país.

Depois existem aquelas tretas chamadas formalidades democráticas. Para se ser ministro não é necessário ser-se eleito, mas é necessário ir ao palácio do PR tomar posse e assinar uns papéis.

O António Costa II O Estratego, que foi convidado pelo António Costa I O Táctico, foi dispensado de tudo isso porque o nosso regime não prevê ter estratégia alguma. Por omissão então aceita-se sem sobressaltos que o PM angarie alguém, sem esclarecer quem lhe remunera as horas gastas, se há acumulação de funções ou conflito de interesses.

E isto é normal, porque estamos em Portugal.

Um imperfeito anti-herói

Pedro Correia, 01.06.20

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Uma das imagens mais iconográficas da história da ficção televisiva é a de um indivíduo mal vestido, com uma gabardina encardida, de andar trôpego e um eterno charuto apagado ao canto da boca, fazendo perguntas aparentemente sem nexo e aludindo muito à mulher que jamais nos é apresentada. Se o víssemos por aí na rua nada daríamos por ele. Mas tornou-se num dos mais inesquecíveis detectives da televisão: Columbo, magistral criação de Peter Falk, marcou todos os telespectadores da década de 70.

Produzida pela NBC entre 1971 e 1978, esta série americana dessacralizou a figura do detective, equiparando-o a um homem comum. Quase ninguém o associava à imagem de polícia: aquele homenzinho semicurvado que chegava à cena do crime ao volante de um Peugeot 403 descapotável muito fora de moda não inspirava qualquer receio aos delinquentes, convictos da sua impunidade. Todos, aliás, pertencentes à chamada elite: ricos, poderosos, bem-parecidos e aureolados com êxito profissional. Pecam por ganância, soberba, inveja e luxúria: quanto mais têm, mais ambicionam.

Não há aqui um só assassino oriundo da classe média, confirmando a lógica dos folhetins de antanho: o interesse da história é proporcional à conta bancária dos protagonistas. O facto de na ficha artística figurarem estrelas dos anos de ouro de Hollywood - muitas vezes deslocadas do seu registo tradicional - contribuía para condimentar a série. Nomes como Don Ameche, Eddie Albert, Ida Lupino, Kim Hunter, Ray Milland, Anne Francis, Roddy McDowall e Suzanne Pleshette destacam-se nos episódios iniciais.

 

Columbo - com o aliciante suplementar de incluir cenas decisivas quase sempre rodadas em cenários naturais - tinha um verdadeiro achado como chave de argumento: desde o início, o espectador sabia quem cometia os homicídios, invertendo-se assim o estereótipo do género policial. Todo o suspense centrava-se na insólita actuação deste detective sem garbo, involuntário paladino do direito criminal que quase até ao fim parecia baralhado com o labirinto de indícios que lhe surgia pela frente. Descurando por completo as evidências colhidas pela chamada "polícia científica" que viria a estar muito em voga três décadas mais tarde, com o C. S. I. e franquias quejandas.

Tudo se resolvia com base na dedução - isto é, graças ao bom e velho intelecto.

 

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Tive a grata surpresa, faz hoje oito dias, de voltar a ver esta série de que tanto gostei na adolescência. Está a ser exibida na RTP Memória. E o primeiro episódio - que recomendo vivamente - é realizado por um tal Steven Spielberg, então com apenas 24 anos, num fulgurante início de carreira que logo o fez transitar da televisão para o cinema.

Este episódio-piloto, com a duração de um filme médio, intitula-se Murder By the Book e ocupa o 16.º posto na lista dos cem melhores de todos os tempos, organizada pela revista TV Guide.

 

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Cada episódio terminava com Columbo partindo na noite, sempre de gabardina surrada e charuto sem chama.

Cumpria o dever de polícia como se fosse o primeiro a espantar-se afinal com as suas espantosas capacidade dedutivas. Um perfeito exemplo de imperfeito anti-herói.

Paraministro

José Meireles Graça, 01.06.20

A primeira vez que ouvi falar num paraministro foi numa notícia em que Catarina se aliviava de umas banalidades a armar ao sentido de Estado mas não liguei – coisas lá do aquário da politiquice lisboeta e das trincas e mincas da Geringonça.

Que um ministro, ou o Primeiro, ou o Presidente, tenham uns amigos ignotos com os quais trocam umas impressões está no arranjo ordinário das coisas. E que esses interlocutores tenham um café em Freamunde ou sejam empresários do ramo dos petróleos não deve surpreender ninguém. A comunicação social tem até fórmulas consagradas para estes encontros fortuitos, se os topar ou receber encomenda para os noticiar: no primeiro caso trata-se de auscultar a sociedade civil e no segundo inteirar-se dos problemas do sector.

Mas, afinal, o tal paraministro não é mais um gambozino que a Tina da Companhia de Teatro das Visões (In)úteis inventou para o Bloco fingir importância: existe mesmo, fala, e tem opiniões.

Um tipo que navega na massa escura do crude sabe da logística do produto, dos offshores por onde se movimenta o arame, que costas é preciso afagar, quais os números de telefone que convém ter, onde estão os bons restaurantes, e que tudo isso deve estar rodeado de grande discrição. Deve também perceber alguma coisa de relações internacionais e de economia, no que umas e outra podem afectar o ramo, pelo que convém não ter formação naquelas áreas, para não ter o trabalho suplementar de se despir de preconceitos académicos.

O tal Costa Silva parece preencher o quadro. Infelizmente, logo na primeira entrevista, expele uma quantidade prodigiosa de tolices.

Vejamos primeiro o problema, depois a solução, e, finalmente, o que diz o preclaro.

Uma doença nova, comprovadamente benigna, provocou uma sobre-reacção mundial, baseada no medo induzido pela ignorância dos seus verdadeiros contornos, por alguns serviços de saúde terem sido submergidos, pelo facto de afectar sobretudo pessoas de idade, por ser muito contagiosa, por assintomáticos também poderem contagiar, e por parecer ter sido contida por medidas radicais do governo ditatorial de uma superpotência opaca, que as democracias tentaram emular.

As burocracias mundiais ou regionais (OMS ou EU, p. ex.) abraçaram com gosto o reforço da sua importância; os governos cederam às opiniões públicas em pânico, pilotado por uma comunicação social geralmente acéfala que se especializou na facilidade do drama sem perspectiva nem trabalho de contextualização; e as economias afundaram, mesmo para aqueles que adoptaram abordagens menos penalizadoras, por causa das interdependências internacionais.

No nosso caso, o consagrado Ronaldo das Finanças fala numa quebra de 7%, portanto deverá ser entre 10-15%.

Este o problema. Agravado no caso português pelo abismo entre a propaganda dos apoios e a realidade: ninguém sabe ao certo, nem é possível saber porque a informação não é de confiança, que parte do apoio ao layoff é que já foi paga; e até mesmo o reembolso do IRS (resultante em si de uma pilhagem) o próprio ministro reconhece, sem vestígios de vergonha porque não a tem, que está a ser atrasado.

A solução vem de um prodigioso bolo europeu de 750 mil milhões de Euros, dos quais nos tocariam à volta de 26 mil milhões (15 dados e o resto emprestado) se, no complicado processo decisório da EU, o número não levasse um corte de cabelo, como possivelmente levará.

Quem tiver curiosidade pode ler as minúcias da coisa, p.ex. neste texto de um especialista nestas tranquibérnias, no caso o Prof. Doutor Paulo Trigo Pereira (trato-o assim, com os títulos todos, porque o homem é comicamente cioso destes penachos).

Muito dinheiro, em suma: de volta os pacotes Delors, o comboio europeu, o agora-é-que-vai-ser. Não estivesse a expressão tingida da abominação cavaquista, e corríamos o risco de ver ressuscitado o famoso pelotão da frente que aquele grande estadista consagrou, conjuntamente com outros memoráveis disparates.

Não vai ser. Desde logo porque a UE fala de prioridade aos investimentos nas áreas da transformação ecológica e digital, além de outras piedades, que traduzidas para Portugal querem dizer torrar montes de dinheiro em investimentos não reprodutivos e fantasias promovidas por visionários e vigaristas sortidos, que vêm ocupar o lugar deixado vago pelos engenheiros do progresso - na encarnação anterior estavam mais virados para a formação profissional. Depois porque todo o pacote se destina a ser reembolsado com impostos europeus, a começar a cobrar de 2028 em diante, e que se virão juntar aos que já existem. E finalmente porque em lado nenhum, em momento nenhum, se fala de reforma do Estado, o que quer dizer que a economia, logo que recupere com ajuda algum fôlego, continuará a carregar o fardo da classe média. Aquela que, se não fosse o Estado onde se acolhe, segundo o intelectual Pacheco, não existiria; e aquela que é mal paga porque a economia não é eficiente, dada a fatalidade de os empresários não serem dinamarqueses.

Deixemos isto. Que diz ao certo o mago do Plano de Recuperação Económica, que o elaborou em dois dias? A julgar pela entrevista, é um documento de grande arrebatamento, que não deixará decerto, quando vir a luz do dia, de provocar nuns cólicas, noutros gargalhadas, e nos socialistas aplausos.

“… no caso da TAP, o Estado também deve intervir – com o objetivo claro de evitar que ‘empresas rentáveis se afundem e entrem em estado de coma”. E a intervenção terá de contemplar a “preservação dos postos de trabalho” ou a “qualificação dos trabalhadores”.

Ahem, a TAP é uma empresa rentável?! E vai recuperar sem adequar os seus quadros à procura que tiver, e tendo ainda o enternecedor cuidado de dar formação às meninas do balcão das reclamações?

“A médio e longo prazo, o plano é composto por ‘dois eixos estratégicos’ que, realça o gestor, estão ‘limitados aos recursos financeiros’ disponíveis. Num primeiro momento, a aposta é na modernização das estruturas físicas do país, como seja ‘qualificar a rede viária’ ou intervir nas estruturas portuárias, ou de ‘energia’”, fundamentais para alavancar as exportações do país”.

Nós, de eixos, aprendemos alguma coisa durante a crise da Covid, por causa de tanto gráfico com que fomos mimoseados. E isto nos dá a lucidez para adiantar timidamente que mais autoestradas, mais dinheiro em Sines, e mais corrupios no alto dos montes, não nos parece assim muito bem. Da última vez, a receita, em vez de incentivar o desenvolvimento, provocou o risco de calotes e uma demorada penitência.

“Ao mesmo tempo, é preciso ‘acelerar a transição digital’ na administração pública e, em especial, no tecido empresarial das pequenas e médias empresas – um dos pontos do segundo eixo, mais virado para as infraestruturas digitais. E antecipa o ‘enorme impacto na economia’ que o aumento das competências digitais possa vir a ter”.

Isso da transição digital sabemos o que é. Em vez de termos um bilhete de identidade barato temos um cartão de cidadão caro; e em vez de nos zangarmos com funcionários mal-encarados enfurecemo-nos com o computador e os sites do Governo. Quanto ao tecido empresarial das PMEs, Costa, deixa lá isso: as empresas aceitam tudo o que lhes quiseres dar, em troca de fingirem que têm um grande respeito por gurus da gestão de aviário; menos conselhos e apoios para fazerem o que não lhes sirva para nada.

“Costa Silva fala, ainda, em ‘estender a fibra ótica a todo o território nacional’, depois do recurso às tecnologias, durante a pandemia, ter espelhado as desigualdades sociais entre os alunos”.

Parece razoável. Tanto que é legítimo duvidar que se faça. Acontece muito, quanto se está sobrecarregado a fazer uma quantidade de inutilidades, escassear o tempo para o que é preciso.

“À RTP, o gestor garantiu que o Serviço Nacional de Saúde, depois de ter respondido à pressão da Covid-19, vai ver o ‘investimento reforçado’, numa clara aposta em ‘equipamentos e recursos humanos’, concluiu Costa Silva”.

É o que se chama fechar com chave de ouro. Mas não são necessárias pressas: já tanto utente esticou o pernil por causa de consultas, tratamentos e operações adiadas que durante algum tempo a pressão deve diminuir.

Em suma: Dizem deste homem que irá substituir Siza Vieira, que irá substituir Centeno, que irá substituir o Governador do BdP.

Tudo leva a crer que quem o convidou não irá ser substituído. Daqui a uns anos, acontecerá ao glorioso PM que descobre estas pérolas o mesmo que ao malogrado Sócrates: nunca ninguém votou nele.

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 01.06.20

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Ana Margarida Craveiro: «Estamos a falar de fechar escolas em zonas onde as moderníssimas auto-estradas não chegam, nem sequer aparece o alcatrão necessário para remendar estradas com mais de 60 anos, zonas onde o progressista TGV e o novo aeroporto não entram nas conversas. Esse país, esse Portugal ainda tão parecido com 1950, ainda existe. E o governo - qualquer governo - tem a obrigação de governar também para esses portugueses. Fechar-lhes as poucas manifestações de administração central que têm não é a melhor maneira de manter o país habitado - agora já tão escassamente. Empurrar ainda mais esta gente para os subúrbios de Lisboa é a nossa escolha?»

 

Ana Vidal: «Hoje, em vez de dizermos em posts como as crianças são bonitinhas e engraçadas, em vez de lamentarmos as que sofrem e passam fome, as que não têm acesso ao mais básico conforto, as que vivem em cenários de guerra ou são vítimas de todo o género de abusos, façamos alguma coisa de concreto. Se não podemos acudir a todas elas, tratemos de ajudar UMA. Hoje, parece-me um bom dia para divulgar esta notável campanha da Diocese de São Tomé e Príncipe: dando a uma criança uma oportunidade de desenvolver-se mais harmoniosamente, estaremos a melhorar também todas as vidas que ela vier a tocar, no futuro, com os instrumentos que lhe demos.»

 

João Carvalho: «O jovem Clint [Eastwood] fez ontem 80 anos. Esta lembrança está atrasada? Também a da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas está, que ainda só lhe deu quatro Óscares: dois de Melhor Realizador e dois de Melhor Filme, entre oito nomeações. Há-de ser sempre pouco, para este cineasta e autor cuja obra já entrou na História da Sétima Arte. Com uma carreira brilhante e multifacetada, gasta menos do que os orçamentos, filma com rapidez e perfeição e tem fama de só dizer três palavras em trabalho: okayaction e cut

 

Sérgio de Almeida Correia: «As razões que são agora invocadas para [o PS] apoiar Manuel Alegre já eram válidas em 2005. Por isso, aquilo que eu gostaria de ter lido ou ouvido Mário Soares explicar era por que razão o erro grave e fatal é o que o PS comete agora e não foi aquele que atirou Cavaco Silva para Belém e que o deixou, a ele Mário Soares, na história das presidenciais com uma votação típica do Bloco de Esquerda. Depois de ter vencido por duas vezes as presidenciais essa votação foi obra. Eu teria vergonha desse resultado e da falta de visão política que essa candidatura representou. Porém, admito que a memória já não dê para tudo.»

 

Teresa Ribeiro: «Hoje a justiça é pior do que há quatro anos. Esta evidência está a pôr em risco o Estado de Direito.»

 

Tomás Vasques: «Os dados estavam lançados há muito tempo e o PS amarrado a Alegre, desde há muito tempo, nas presidenciais. José Sócrates teve o mérito de impedir uma profunda clivagem no interior do partido, ao apoiar o poeta, sem deixar de se distanciar do apoio concedido. A partir de agora, a batata quente passou para as mãos do candidato que tanto se empenhou na "frente popular" entre a extrema-esquerda e o socialismo democrático, uma quimera provavelmente ainda de origem argelina. Durante os próximos seis meses, Manuel Alegre vai andar num rodopio, em bolandas entre os apelos de Louçã contra os "banqueiros e os capitalistas sanguessugas" e as medidas de austeridade do governo a atingirem também os desempregados. Será um autêntico cata-vento, sem coerência, sem estratégia, sem rumo.»

 

Eu: «Desafia-me o Pedro Lomba a mencionar exemplos concretos de leitura minimalista dos poderes constitucionais [por Cavaco Silva]. Já aqui deixei alguns, relacionados com a representação externa do Estado português, o défice de comunicação do Presidente com os portugueses e uma preocupante dissonância entre as prioridades que Cavaco foi enunciando e a realidade. E aqui vai outro: recentemente, o Chefe do Estado orgulhava-se de nunca ter vetado um diploma do Executivo, o que o torna no maior avalista da prática governativa de José Sócrates. Será mesmo motivo de orgulho?»

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