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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 30.05.20

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Frágil é o Lago do Silêncio, de Carlos Frias de Carvalho

Poesia

(edição Glaciar, 2019)

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Pensamento da semana

por João Sousa, em 30.05.20

Depois de meses a ouvir constantes apelos ao "distanciamento social" nas homilias de pivots de telejornais, nas intervenções de especialistas, nas sessões de propaganda política e nos infindáveis directos jornalísticos onde se gastaram horas a repetir em alvoroço todos os nadas que já tinham sido relatados em directos anteriores, muitos ficarão durante longo tempo prisioneiros de uma debilitante "desconfiança social".

 

Este pensamento acompanha o DELITO durante toda a semana

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 30.05.20

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João Carvalho: «Olho atentamente para o gang delituoso e pergunto-me: «Que faço eu aqui, além de me babar todo?» Cheio de Anas, de abraços e de carinhos por todos os lados, entre tantas beldades talentosas e tantos gurus de primeira água, sinto que este meu primeiro encontro com a quadrilha me tolhe a lucidez. Não me atreverei a estar no próximo jantar. Como? Depois do Verão, os jantares passarão a ser mais regulares? Nunca mais faltarei.»

 

Paulo Gorjão: «O Presidente não é apenas um garante da constitucionalidade dos diplomas aprovados. Se a única função do Presidente fosse essa então mais valia extinguir o cargo de Presidente da República e instituir que todos os diplomas fossem automaticamente alvo do crivo do Tribunal Constitucional.»

Canções do século XXI (1153)

por Pedro Correia, em 30.05.20

Até sempre, Barata

por Pedro Correia, em 29.05.20

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Sou há muitos anos cliente assíduo da Livraria Barata, na Avenida de Roma. Tenho até cartão de cliente, que permite um desconto residual em livros, de que ali me abasteço regularmente. Também nesta livraria lisboeta habituei-me a comprar com regularidade imprensa estrangeira há quase década e meia.

Desde que foi declarada a pandemia, a Barata fechou - como aconteceu com todos os estabelecimentos do ramo, que já atravessavam uma severa crise antes de o Presidente da República e o Governo - sabe-se lá porquê - terem considerado que as livrarias não mereciam ficar abertas durante o "estado de emergência". Ao contrário dos quiosques, das mercearias e das tabacarias. 

Na altura, não ouvi um sussurro de protesto dos chamados "agentes culturais". Todos acenaram, em sinal de concordância.

 

Entretanto, a Barata reabriu.

Acontece que desde então já tentei duas ou três vezes, mas ainda não consegui lá entrar. Motivo? Embora tenha uma área muito grande, só permitem um máximo de dez pessoas dentro do estabelecimento.

Em pelo menos duas ocasiões vi uma fila à porta, estendendo-se para o passeio: gente forçada a usar máscara, aguardando à torreira do sol, suando em bica, com notório desconforto.

Disse logo com os meus botões: nem pensar em aturar isto. E rumei a outras paragens.

 

Hoje, ao fim da manhã, tentei uma vez mais - talvez a última - entrar na Livraria Barata.

Não vi nenhuma fila à porta, fui avançando. Deparo-me então com o Presidente da República, mais a respectiva comitiva, acrescida de um batalhão de jornalistas. Todos juntos, perfaziam mais do dobro do limite máximo de pessoas estipulado. As regras "rigorosíssimas" haviam sido mandadas às malvas.

Disseram-me que Marcelo Rebelo de Sousa estava ali para "declarar o apoio" à livraria, que enfrenta sérias dificuldades de tesouraria, sem saber se conseguirá pagar os salários neste fim de mês. Aplaudo a generosidade do Chefe do Estado. E espero que Marcelo faça o mesmo com milhares de outras empresas deste país onde muita gente trabalha sem ver a remuneração a que tem direito. Pelo mesmíssimo motivo.

 

Tudo isto é muito bonito. Acontece, no entanto, que voltei a ver-me impedido de ali entrar. Escorraçado pelo sol, pelas filas, pelas absurdas regras de "confinamento" e hoje até pelo Presidente da República mais a sua comitiva.

Sem acesso à livraria, rumei ao talho mais próximo, onde me abasteci de imediato com 600 gramas de entrecosto, e vim para casa preparar o almoço. Despedindo-me da Barata, por prazo indefinido. Com um até para o mês que vem ou um até nunca mais, não faço ideia.

Há sempre um fim para tudo.

Belles toujours

por Pedro Correia, em 29.05.20

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Marta Temido

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 29.05.20

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Ronda, de António Modesto Navarro

Poesia

(edição Página a Página, 2019)

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DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 29.05.20

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Paulo Gorjão: «A realidade encarrega-se quase sempre de inviabilizar cenários perfeitos. Não estou seguro que o surgimento de uma candidatura de direita, porventura patrocinada pelo CDS, não contribuísse para a vitória de Aníbal Cavaco Silva. Se, por um lado, essa alternativa poderia desviar votos, por outro seria um factor de mobilização para muitos dos eleitores que votaram em Cavaco Silva em 2005 e que sentem nesta altura alguma insatisfação com o mandato do Presidente da República. Claro, tudo isto é mera teoria e as campanhas podem gerar dinâmicas imprevisíveis. Isto dito, repito, parece-me precipitado o receio.»

 

Teresa Ribeiro: «A maioria dos portugueses embora critique o fenómeno, pratica-o, embora em pequena escala. Hipocrisia? Nem tanto. O whisky no Natal para alguém que meteu uma cunha, as notinhas entaladas à pressa nas mãos de burocratas e os jantares-convívio oferecidos a candidatos autarcas são caracterizados nesta obra como "singularidades portuguesas" consideradas legítimas pela maioria da população.»

 

Eu: «"A eleição de Cavaco Silva não foi uma batalha de valores", disse esta noite um comentador alinhado com o Presidente da República num programa de televisão, procurando justificar o injustificável. Sem perceber, este comentador só dá razão a quantos criticam a leitura minimalista dos poderes presidenciais que tem sido feita por Cavaco desde que chegou a Belém: vale a pena eleger um Presidente da República por sufrágio universal se esse escrutínio não resultar de "uma batalha de valores"? A resposta é obviamente negativa. Mas é escusado levar a novidade à tribo de incondicionais do actual inquilino de Belém.»

Canções do século XXI (1152)

por Pedro Correia, em 29.05.20

Miscigenação

por Cristina Torrão, em 28.05.20

A conversa à volta da fotografia de Elyas M'Barek, na rubrica "Always handsome" desta semana, um actor muito popular na Alemanha, de nacionalidade austríaca e filho de pai tunisino, deu azo a conversas que eu não teria imaginado. Nada tenho contra, pelo contrário: as conversas são como as cerejas e é bom trocar informações. Porém, alguns comentários seguiram rumos que sinceramente não aprecio e não posso deixar de referir certos pontos.

 

Depois de quase trinta anos de vida no estrangeiro, não sou de opinião de que os emigrantes/imigrantes portugueses sejam melhores do que os outros, tese criada a fim de distanciar os ilegais portugueses dos anos 1960 de todos os outros ilegais. Quem quiser viver nessa ilusão, pois faça favor! Se há algo que aprendi, nestas últimas décadas, é que, em todo o lado, e oriundas dos mais variados países, há pessoas boas e más, pessoas trabalhadoras e preguiçosas, pessoas honestas e vigaristas.

 

Também não sustento a ideia de que os portugueses gostem mais de regressar do que os africanos, pelo menos, no que respeita aos norte-africanos muçulmanos. Conheço portugueses reformados em Hamburgo que aqui se mantêm, desistindo de um regresso definitivo. Quanto às férias: quem viaja de carro entre França e Portugal, em Agosto (e eu, vinda do Norte da Alemanha, tenho de atravessar a França de lés a lés), verifica um verdadeiro êxodo de marroquinos, tunisinos, etc., junto com os portugueses, de regresso aos seus países-natais. No Norte de Espanha (País Basco e arredores) há placas em português e em árabe, assim bem juntinhas (que sacrilégio!), assegurando que esses viajantes não se enganem no caminho. Os norte-africanos são encaminhados para Algeciras, os portugueses para a fronteira de Vilar Formoso.

 

É pena que, em contextos destes, haja tanta compreensão, tanto elogio e tanto carinho, da parte dos portugueses residentes no seu país, em relação aos compatriotas residentes no estrangeiro, e que, na prática, quando os emigrantes invadem Portugal, em Agosto, só haja desprezo e sarcasmo para os "aveques", que se armam ao pingarelho a falar francês.

 

Também acho curioso que aqueles que tanto atacam o machismo dos muçulmanos sejam eles próprios machistas. Se abordo aqui no Delito assuntos feministas (os comentários à minha publicação Upskirting foram bem elucidativos), sou atacada sem dó, nem piedade. Falando-se de muçulmanos, surgem indignações sem limites, defendendo-se os direitos da mulher com unhas e dentes.

 

Conclusão: um actor como Elyas M'Barek é muito melhor aceite em países com fama de racistas do que no nosso jardinzinho plantado à beira-marzinho.

Palavras para recordar (67)

por Pedro Correia, em 28.05.20

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MARCELO REBELO DE SOUSA

Diário de Notícias, 5 de Junho de 2003

«É insensato que as magistraturas vão atrás da rapidez mediática, expondo-se no exercício da sua função. Mas também é insensato que a Comunicação Social chame a si o exercício da função dos tribunais.»

Estádios, aviões e televisão

por Pedro Correia, em 28.05.20

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2 de Maio:
O transporte aéreo de passageiros vai ser limitado a dois terços da lotação normalmente prevista para cada aeronave, definiu o Governo, em portaria no Diário da República.

21 de Maio:
A partir de 1 de Junho, o transporte aéreo vai deixar de ter um limite máximo de lotação, anunciou o Ministério das Infraestruturas.

 

Comecei por não entender. Agora, até julgo que entendo. E, por isso mesmo, fiquei irritado. Refiro-me ao duplo critério que o Governo tem vindo a adoptar, distinguindo o futebol de outras actividades.

Há dias, numa das suas conferências de imprensa quase diárias, a ministra da Saúde revelou-se muito firme na contínua recusa de jogos presenciados nos estádios. «Haver as habituais concentrações em determinados espaços, por ocasião das competições desportivas, é evidente que é algo que não vai poder acontecer da forma a que estávamos habituados a assistir», declarou Marta Temido.

Atalhando neste discurso cheio de rendilhados, isto significa que todos continuaremos proibidos de frequentar os estádios. Os jogos que faltam para completar a temporada 2019/2020 ocorrerão à porta fechada. E, aparentemente, não serão transmitidos pela televisão em sinal aberto. Duas espécies de encerramento, portanto.

 

Há aqui vários erros que convém denunciar desde já.

Que imperiosa lógica sanitária leva o Governo a interditar em absoluto estádios com capacidade para largos milhares de lugares sentados, ao ar livre, enquanto acaba de dar o dito por não dito, autorizando que sejam retomadas viagens aéreas - em cubículos estreitos, com ar rarefeito e onde as pessoas estão a centímetros umas das outras por vezes durante horas - sem qualquer limite máximo ao número de passageiros?

Alegam os decisores políticos que é vital proteger e revitalizar a aviação civil. Pois esta mesma lógica pode e deve aplicar-se à chamada indústria do futebol, que gera cerca de 80 mil postos de trabalho, directos e indirectos, em Portugal e movimenta receitas que abrangem quase 1% do PIB nacional. 

É um absurdo manter as bancadas dos estádios vazias enquanto se enchem aviões, em condições sanitárias de muito maior risco. Autorizar que pelo menos um terço dos lugares sentados nos estádios fossem preenchidos - nomeadamente pelos sócios que pagaram lugares de época - seria uma opção razoável. Tanto mais que o Governo - contrariando outra intenção inicial expressa em sinal oposto - acaba de dar luz verde à utilização de 14 estádios para disputar os jogos que faltam. Na prática, só não jogará em campo próprio quem não quiser.

 

Ao contrário do que sustenta a ministra da Saúde, as concentrações de maior risco a pretexto do futebol não ocorrerão junto aos estádios, mas longe deles. Em locais públicos e numa infinidade de reuniões privadas onde irá aglomerar-se muita gente, em todos os recantos do País, para assistir aos jogos caso se mantenha a intenção de que estes só sejam exibidos em canais codificados, nada acessíveis ao actual rendimento médio dos portugueses.

E é por isto que não entendo, de todo, o sururu criado em torno de Pedro Proença, só porque o presidente da Liga se atreveu a sugerir, em carta ao Presidente da República, a intervenção do poder político para que as partidas de futebol remanescentes possam ser exibidas em canais abertos, com a devia compensação financeira proporcionada com verbas públicas aos operadores televisivos.

Caiu o Carmo e a Trindade quando afinal Proença estava cheio de razão. Como o futuro próximo demonstrará.

 

Leitura complementar:

DGS queria "o menor número possível de estádios" e entretanto foram aprovados 14. O que aconteceu? Nada, era "apenas uma indicação".

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 28.05.20

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Uma Pedra Sobre a Boca, de João Moita

Poesia

(edição Guerra & Paz, 2019)

"A presente edição não segue a grafia do novo acordo ortográfico"

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DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 28.05.20

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Ana Cláudia Vicente: «Em busca de um livro que há tempos me escapava tropecei no Conocer el Autor, portal ibero-americano similar ao original born in U.S.A, bem como ao congénere britânico. Do que pude ver, o da língua vizinha em nada lhes fica atrás. Aos que gostam de ouvir os que escrevem deixo a sugestão.»

 

Ana Margarida Craveiro: «Suponho que agora vai ter lugar a versão "o primeiro-ministro José Sócrates, oficialmente, nunca recebeu qualquer sms de Armando Vara". É que o telemóvel deve estar só em nome do José Pinto de Sousa.»

 

Ana Sofia Couto: «Numa sociedade perfeita (que, como diz um poema de que gosto muito, é daquelas coisas que não há mas há – existem utopicamente, em pensamento ou ideia), o trabalho e a vida não se opõem. Num sistema demasiado imperfeito, o trabalho está mais perto da morte do que da vida. É nesse sistema que é possível que "uma empresa peça aos funcionários para assinarem documentos a garantir que não se vão suicidar". E quando nem os monges budistas podem ajudar, o melhor é colocar umas redes para travar as quedas.»

 

Ana Vidal: «Nessa altura não o sabia ainda, mas o meu optimismo salvou-me, uma vez mais. Ganhei eu, em todas as frentes. Venci as palavras, venci os envelopes mensageiros da escuridão. Passaram dez anos. Venci os envelopes, sim, mas eles rogaram-me uma praga, como vingança: a de ter de abri-los, para o resto dos meus dias, com um misto de medo e de esperança, mas nunca mais com a confiança que tinha antes. Há dez anos que os abro, há dez anos que ganho eu. Hoje foi dia de abrir envelopes, e uma vez mais me intimidaram. Mas hoje, uma vez mais, a caverna de Ali Babá só tinha pérolas e ânforas de ouro para mim.»

 

José Gomes André: «Primeiro, não havia crise. Depois havia crise, mas Portugal estava imune aos seus efeitos. Em seguida, Portugal já não estava imune, mas estava preparado para enfrentá-la. Depois já não estava assim tão preparado, mas foi o primeiro país a sair da crise. Em seguida aceitou-se que a crise continuava, mas logo se afirmou que era igual em todo o lado. Depois já não era igual em todo o lado e Portugal estava muito mal, mas a culpa era do ataque especulativo.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «O mundo está cheio de homens de boa vontade e nunca serão suficientes os que há. Maus políticos é que já temos demasiados, [Fernando] Nobre podia ver isto. Não o vendo, com sorte, arrisca-se a não passar a fasquia dos 3%.»

 

Eu: «O barómetro de Maio da Marktest para a TSF e o Diário Económico dá hoje as melhores intenções de voto ao PSD das últimas duas décadas e a pior de sempre ao PS sob a batuta do actual primeiro-ministro, números que só podem espantar os mais fanáticos ou os mais distraídos. É cada vez mais evidente que o País está cansado de Sócrates.»

Canções do século XXI (1151)

por Pedro Correia, em 28.05.20

Não lhes cai a máscara (4)

por Pedro Correia, em 27.05.20

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Ana Paula Félix, jornalista da SIC, na praia de Carcavelos

Always handsome

por Cristina Torrão, em 27.05.20

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Elyas M'Barek

© Reiner Bajo

Cambada de imbecis

por Pedro Correia, em 27.05.20

 

13 de Maio:

VÍRUS PODE NUNCA DESAPARECER

Michael Ryan, director-executivo da Organização Mundial de Saúde (OMS) para Emergências Sanitárias, declarou que, na pior das hipóteses, o novo coronavírus pode nunca desaparecer, passando a integrar o lote de vírus que todos os anos afectam a população mundial.

 

17 de Maio:

VÍRUS PODE DESAPARECER NATURALMENTE

Karol Sikora, director médico dos Centros para o Cancro de Rutherford e antigo chefe do programa de oncologia da Organização Mundial de Saúde, afirmou que «há uma possibilidade real de o vírus desaparecer naturalmente antes que alguma vacina seja desenvolvida».

 

25 de Maio:

SEGUNDA VAGA É IMPROVÁVEL

A directora do departamento de Saúde Pública da Organização Mundial de Saúde, Maria Neira, considerou «cada vez mais» improvável uma segunda grande vaga do novo coronavírus, Na sua perspectiva, «há muitas possibilidades, desde novos surtos pontuais a uma nova vaga importante, mas esta última possibilidade é cada vez mais de descartar».

 

25 de Maio:

SEGUNDA VAGA ESTÁ QUASE A CHEGAR

O director-executivo do programa de Emergências Sanitárias da Organização Mundial de Saúde, Michael Ryan, alertou que «não podemos supor [que os números de novas infecções] vão continuar a descer», advertindo que «temos alguns meses para nos preparamos para uma segunda vaga».

 

A partida de uma lenda

por Sérgio de Almeida Correia, em 27.05.20

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(SCMP)

O seu estado de saúde era de há muito periclitante. Mais dia menos dia seria natural que todos viéssemos a ser confrontados com a notícia do seu passamento.

Aconteceu hoje [ontem], num dia quente, sombrio e húmido onde a chuva e o ribombar dos trovões se fizeram sentir intensamente durante toda a tarde. Como se essa nota dos deuses correspondesse à sua recepção num outro mundo.

Durante mais de cinco décadas a sua figura alta, elegante e simpática, na pista de dança, no court de ténis ou mesmo nos momentos mais cruciais de qualquer negociação, deixava transparecer a força da sua vontade, o carisma do empresário, a visão estratégica de longo prazo e o pragmatismo do homem de negócios que sabia acomodar os seus interesses aos tempos e aos políticos com quem se ia cruzando.

Sempre disponível para ajudar os que o procuravam, creio que via no exercício filantrópico uma forma de compensar a sociedade e todos os outros por tudo aquilo que lhe davam a ganhar nos seus casinos.

Homem inteligente e perspicaz, bem-disposto e com sentido de humor, que não enjeitava uma oportunidade de defender os seus pontos de vista, fosse na concretização de um projecto empresarial ou numa negociação contratual, contribuiu para o desenvolvimento de Macau e a sua projecção internacional como nenhum outro, em especial a partir da década de Oitenta do século passado quando se operou a revolução nas infra-estruturas que preparou a transferência de administração para a China em 1999.

Ciente do património genético que consigo transportava, fez dele um instrumento para o engrandecimento de Macau, a aproximação de diferentes comunidades e para o diálogo intercultural.

Amigo da gente da terra e de muitos expatriados, não foram poucos aqueles a quem deu a mão, ajudando-os a singrarem profissionalmente e nos negócios.

No entanto, ficará sempre a convicção de que poderia e estaria disponível para dar muito mais à cidade e à sua população se tivessem sido diferentes as preocupações e outra a estirpe da tropa que o império para cá mandou, como aliás se viu nas diversas vezes em que foi preciso com ele renegociar a concessão do jogo, algumas cláusulas e as respectivas contrapartidas.

Se já era possível distinguir um Macau antes e outro depois dele, isso tornou-se mais evidente nos últimos anos, depois de ficar doente e se retirar dos negócios, e à medida que o seu vasto património foi partilhado pelos diversos braços da sua prole. Quanto menos mandava, e mais longe estava, mais Macau perdia.

De Stanley Ho, para aqueles que tiveram o privilégio de o conhecer e de acompanhar uma parte do seu percurso empresarial, ficará a lembrança do homem e da sua obra, que permanecerá indelével enquanto também ela não se transformar em pó. Mas só o nome e a sua lenda perdurarão para além do tempo. E será esta última que lhe conferirá maior grandeza pela Eternidade fora.

(texto publicado na edição de 27/05/2020 do Ponto Final)

Uncle Stanley

Stanley Ho: o último rei de Macau

A visão, o pragmatismo e as referências de Stanley Ho

 

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 27.05.20

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Alma, de Manuel Alegre

Prefácio de Mário Soares

Romance

(reedição D. Quixote, 16.ª ed, 2019)

"Este livro segue a ortografia anterior ao Novo Acordo"

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Pág. 1/10



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