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O que parece nunca é.
Este pensamento acompanha o DELITO durante toda a semana
Olho o rio desde a banda de cá pela primeira vez, neste ano. Em rigor, em oito. É quase dia. De tanto olhar, emerge uma memória que não é minha. Dois irmãos no Mar da Palha durante a noite de Natal de sessenta e sete ou sessenta e oito, algures entre o Sul e Sueste e o Barreiro. Figuro o barco cheio de gente preocupada com a preocupação dos seus, mas nada a fazer. A rapariga e o rapaz, como os mais, nem telefones, nem água de beber, nem nada para além das prendas para as primeiras crianças da família. À espera de maré num mar interior. Daqui e agora o Tejo parece correr calmo, cendrado. Rente à ponte surge alguma claridade. Percebo-me a chegar a casa.
Vejamos as principais potências da União Europeia: o Reino Unido confirmou nas urnas a sua saída do clube; em Espanha, há um novo governo progressista, com maioria de dois votos, que depende das cedências que forem feitas aos independentistas catalães e que serão inaceitáveis para mais de metade do país; em Itália, a direita na oposição tem ampla maioria nas sondagens e um governo chefiado pelo populista eurocéptico Matteo Salvini pode estar à distância de escassos meses; em França, um presidente impopular enfrenta protestos de rua contra reformas urgentes, que a cada dia se mostram mais improváveis; na Alemanha, a chanceler Merkel perdeu autoridade e o seu partido está fraco nas sondagens, pelo que, se houver eleições, o país pode ficar numa situação ainda mais pantanosa; entretanto, na Europa Central, cresce uma aliança de países liderada pela Polónia, em contestação da ortodoxia de Bruxelas. Os europeus continuam a depender da energia russa e da protecção militar americana. Em pleno abrandamento económico, a União Europeia demonstrou mais uma vez, na crise iraniana, que deixou de contar na ordem global. E, apesar de tudo, os noticiários continuam a dizer que a Europa se prepara para liderar isto e dar cartas naquilo.
![MXwyMzY4NTMzMnwxOTY3NDk1N3wxNTc1NDE3NjAwMDAw[1].jp MXwyMzY4NTMzMnwxOTY3NDk1N3wxNTc1NDE3NjAwMDAw[1].jp](https://c8.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B80170cae/21659126_9SY0g.jpeg)
Crónicas de Fim de Século, de Helder Bastos
Comunicação, média, jornalismo e internet
(edição Afrontamento, 2019)
![5650278_2tELh[1].jpg 5650278_2tELh[1].jpg](https://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Be418ac5e/21663081_iU0yU.jpeg)
Um dia hei-de perguntar a alguém com muito mais experiência e muito mais memória do que eu - ao professor Galopim de Carvalho, por exemplo - se o fim da Idade do Gelo, há 12 mil anos, também se deveu às emissões de metano e dióxido de carbono.

João Carvalho: «Tornou-se corrente e repetitivo ver na televisão o estafado recorte de uma velha ida do governo anterior ao Palácio de Belém para apresentar cumprimentos, quando a troca de votos natalícios ainda se confundia com uma troca de piropos. De cada vez que revejo essas imagens e a respectiva frase recortada do discurso do primeiro-ministro, ocorrem-me sempre as conhecidas qualidades do verniz: brilhante e estaladiço.»
Teresa Ribeiro: «Admito. A maioria das fotos que constam dos nossos álbuns de família são lugares comuns. Demasiados repuxos e canteiros de flores em fundo, expressões e poses batidas, uma falta de imaginação confrangedora. Somos demasiado quadrados, é o que é. Falta-nos criatividade e ousadia.»
No maravilhoso mundo da nova comunicação, o futuro pede escala, fragmentação e vazio. O consumidor de informação passou a ser o produto e, em troca, nem sequer recebe informação, mas entretenimento. O poder está nas plataformas agregadoras. Os jovens deixaram de ler e já só vêem vídeos; em média, as pessoas olham sete horas e meia por dia para ecrãs de todo o tipo. É aqui que está o negócio, milhões a seguirem histórias inexistentes, como o cão com a cauda na cabeça ou a irritação das massas com a vedeta que não mencionou os fogos na Amazónia do ponto de vista das alterações climáticas. Activismo, celebridades, política light, esta é a mistura para as próximas décadas, numa espécie de revolução cultural descerebrada e pós-moderna, em que multidões em fúria vão agitar o pequenino livro vermelho das banalidades. Um cretino terá mais força do que o maior especialista. Os factos deixaram de importar, o voto deixou de contar. A internet é a verdadeira realidade.
George W. Bush foi eleito em 2000 com menos votos populares do que o seu adversário. Cedo surgiram comentários visceralmente indignados. Era anti-democrático, diziam. Recordo ler análises que encontravam a causa do problema na natureza capitalista do sistema, sempre favorável à direita.
A vaga de irritação repetiu-se em 2016, com a chegada de Donald Trump à Casa Branca. Mais uma vez, os Estados Unidos da América entregavam o poder a um candidato que não obtivera a maioria do voto popular. O sistema eleitoral era perverso, pois desequilibrava a competição democrática. Trump era o poster boy de todos os males da democracia representativa, sempre favorável aos interesses instalados e contrária à vontade popular. Por cá, os suspeitos do costume rasgaram as vestes e por pouco não apelaram à revolução.
Ontem, Pedro Sánchez foi eleito presidente do governo espanhol no Congresso dos Deputados. Os votos a favor da investidura representam cerca de 10,9 milhões de eleitores e os votos contra cerca de 11,3 milhões. Não ouvi qualquer crítica. Será porque ainda é cedo – e nada terá que ver com a orientação política do partido de governo e das forças políticas que o respaldam. Estou certo que mais dia, menos dia alguém se imolará.

Não sei o que se passa no Irão/Iraque - e estou certo que não serei o único. Creio que dentro de alguns anos um Oliver Stone mais ou menos o demonstrará, num ritmo mais ou menos trepidante, e com uma visão mais ou menos crítica do sistema americano, e elegendo como herói protagonista e exemplo salvífico um funcionário mais ou menos desalinhado. Trata-se do molde western da (auto)crítica dominante no indústria cinematográfica, de facto seguidora do corberismo de Lampedusa, aquilo mais ou menos do tem que se mudar algo para não se mudar nada ...
Dito tudo isto, e face à iraniofilia que grassa na esquerda portuguesa, muito gostei deste cartoon. O autor é o renomado iraniano Mana Neyestani, há anos exilado em França. É evidente o que o eixo BE-PCP-Livre-PS (MES) dele diz ou diria (se o conhecesse): é um "dissidente", um "agente da Voz da América".
Os mais novos não se lembrarão desta retórica. Os mais velhos lembram-se, decerto. Dominou durante décadas, de apoio às piores das ditaduras em nome do anti-americanismo e, de facto, da aversão à democracia. Serviu para tudo justificar, para a tantos insultar e perseguir. Continua viçosa, vê-se, pois ""não há nada de novo sob o sol" (Eclesiastes 1:9).
![Bianco_e_Nero[1].png Bianco_e_Nero[1].png](https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Be31701f6/21662354_tkoDU.png)
Dois jovens foram assassinados no «quarto país mais seguro do mundo» (António Costa dixit). Com cinco dias de intervalo, em duas cidades diferentes. Um em Bragança, outro em Lisboa.
O primeiro foi morto por espancamento, o outro por esfaqueamento.
Um chamava-se Luís, o outro chamava-se Pedro.
Eram ambos estudantes. Um tinha 21 anos, outro 24.
Um está a suscitar marchas e vigílias de homenagem póstuma a nível nacional. O outro, não.
«Barbaramente assassinado», proclama o Esquerda.net - órgão nacional do Bloco de Esquerda - perante um destes revoltantes crimes.
Sobre o outro, nem uma linha.
A deputada Joacine Katar Moreira expressou «consternação e repúdio» sobre um destes homicídios.
Sobre o outro, nada.
Há muitas formas de racismo. Distinguir os cadáveres de dois jovens em função da pigmentação da pele é uma delas.
Instrumentalizando um deles, de modo obsceno, com fins políticos.
![mw-860[1].jpg mw-860[1].jpg](https://c6.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Be4175db6/21659125_SkniA.jpeg)
Leitão de Barros, de Joana Leitão de Barros e Ana Mantero
Biografia
(edição Bizâncio, 2019)

André Couto: «Hoje é um dia feliz para a felicidade. Passará a ser uma palavra mais abrangente, justa e cheia de si olhando nos olhos mais uma minoria sem mudar de passeio. Cresceu-lhe o ego. Fico feliz por ela e por sentir que vivo numa sociedade que amadureceu libertando-se das teias de aranha do antigamente.»
João Carvalho: «Portugal é o sexto país europeu e o oitavo do mundo a aprovar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Não me lembro de termos sido tão lestos desde a abolição da pena de morte. O fim da pena de morte salvou a vida a grandes criminosos. Espera-se que o casamento homossexual possa salvar alguém de qualquer coisa, já que o resto do país continua sem ilusões de vida.»
Sérgio de Almeida Correia: «O melhor mesmo é acabar com a agricultura e com os agricultores e transformarmo-nos todos em térmitas. Sempre poderíamos ir comendo alguma madeira, sei lá, sobreiros, contraplacado de fusão produzido por algum chef da Estação de Loulé. É tudo muito transparente, como é bom de ver.»
Eu: «A isto chegou o PS de Mário Soares e Salgado Zenha: uma massa informe, submetida ao chefe, incapaz do mínimo gesto de rebeldia em nome da firmeza de convicções.»
![39952hd[1].jpg 39952hd[1].jpg](https://c2.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Ba8180d67/21661337_amvZh.jpeg)
Solo la Muerte
Hay cementerios solos,
tumbas llenas de huesos sin sonido,
el corazón pasando un túnel
oscuro, oscuro, oscuro,
como un naufragio hacia adentro nos morimos,
como ahogarnos en el corazón,
como irnos cayendo desde la piel al alma.
Hay cadáveres,
hay pies de pegajosa losa fría,
hay la muerte en los huesos,
como un sonido puro,
como un ladrido sin perro,
saliendo de ciertas campanas, de ciertas tumbas,
creciendo en la humedad como el llanto o la lluvia.
Yo veo, solo, a veces,
ataúdes a vela
zarpar con difuntos pálidos, con mujeres de trenzas muertas,
con panaderos blancos como ángeles,
con niñas pensativas casadas con notarios,
ataúdes subiendo el río vertical de los muertos,
el río morado,
hacia arriba, con las velas hinchadas por el sonido
de la muerte,
hinchadas por el sonido silencioso de la muerte.
A lo sonoro llega la muerte
como un zapato sin pie, como un traje sin hombre,
llega a golpear con un anillo sin piedras y sin dedo,
llega a gritar sin boca, sin lengua,
sin garganta.
Sin embargo sus pasos suenan
y su vestido suena, callado como un árbol.
Yo no sé, yo conozco poco, yo apenas veo,
pero creo que su canto tiene color de violetas húmedas,
de violetas acostumbradas a la tierra,
porque la cara de la muerte es verde,
y la mirada de la muerte es verde,
con la aguda humedad de una hoja de violeta
y su grave color de invierno exasperado.
Pero la muerte va también por el mundo vestida de escoba,
lame el suelo buscando difuntos,
la muerte está en la escoba,
es la lengua de la muerte buscando muertos,
es la aguja de la muerte buscando hilo.
La muerte está en los catres:
en los colchones lentos, en las frazadas negras
vive tendida, y de repente sopla:
sopla un sonido oscuro que hincha sábanas,
y hay camas navegando a un puerto
en donde está esperando, vestida de almirante.
Pablo Neruda, Residencia en la Tierra (1933)
Este postal não se insere na série das efemérides à volta da formação de Portugal, mas não quis deixar de assinalar o aniversário da morte de D. Dinis, pois ele e D. Afonso Henriques são os dois reis mais significativos da nossa Idade Média. Além disso, aproveito para falar da sua ligação às cidades com que os identificamos.
D. Dinis morreu a 7 de Janeiro de 1325, com sessenta e três anos, depois de um reinado longo e sobejamente preenchido. Apesar de ter sido coroado com apenas dezassete primaveras, D. Dinis estava, desde o início, perfeitamente vocacionado para a sua tarefa. Pode-se dizer que foi um monarca feliz, se exceptuarmos a recta final do reinado, marcada pela guerra civil contra o seu próprio herdeiro, conflito que tanto o amargurou e desgastou, que bem pode ter acelerado a sua morte.
De todas as medidas que tomou ao longo dos 46 anos de reinado, a fundação da Universidade é a que mais se recorda, levando-nos a acreditar que o Rei Poeta preferia a cidade de Coimbra, onde terá vivido a maior parte do seu tempo, escrevendo poemas nas margens românticas do Mondego. Esta imagem, porém, não passa de uma fantasia. Apesar de gostar de Coimbra (como gostava, ou amava, todo o seu reino), D. Dinis identificava-se, acima de tudo, com Lisboa, a sua cidade-natal e, de longe, a preferida. E foi precisamente na nova capital do reino (desde o tempo de seu pai, D. Afonso III) que a Universidade (inicialmente apelidada de Estudo Geral das Ciências) foi fundada.
A 12 de Novembro de 1288 redigiu-se, em Montemor-o-Novo, a carta ao papa Nicolau IV, pedindo autorização para a criação do Estudo Geral das Ciências em Lisboa. Em resposta, o papa emitiu, a 9 de Agosto de 1290, a bula De Statu Regno Portugaliae, confirmando o ensino de Cânones, Leis, Medicina e Artes e autorizando a concessão de grau de licenciado pelo bispo ou vigário da Sé lisbonense.

Cerca de dezassete anos mais tarde, porém, é feito o pedido de transferência do Estudo Geral para Coimbra. Das razões, pouco se sabe. Na sua biografia de D. Dinis, o Professor José Augusto Pizarro refere conflitos com a Casa da Moeda em relação ao terreno que D. Dinis doara para a construção do edifício do Estudo Geral, no Campo da Pedreira à Lapa, perto do Mosteiro de São Vicente de Fora. Também haveria conflitos entre os estudantes e a população de Lisboa, embora, como referi, os motivos, tanto para uns, como para outros, não sejam hoje claros. A transferência foi autorizada por Clemente V a 26 de Fevereiro de 1308 e, a 15 de Fevereiro de 1309, pela Charta magna privilegiorum, D. Dinis estipulou os estatutos do Estudo Geral de Coimbra.
O assunto, no entanto, não ficou por aqui. A Universidade mudaria várias vezes de local, sempre entre Lisboa e Coimbra, e só ficou definitivamente instalada junto ao Mondego em 1537, mais de duzentos anos depois da morte do Rei Poeta.

Fotografia: © UC | Ana Zayara
Para a identificação de D. Dinis com Coimbra contribuíram, não só a fundação da Universidade e a estátua inaugurada, nos anos 1950 como o facto de D. Isabel ter vivido recolhida, depois de enviuvar, no mosteiro de Santa Clara, junto ao Mondego, por ela própria mandado construir, e ter lá ficado sepultada. Ao contrário de D. Dinis, que preferiu ficar junto a Lisboa, no mosteiro de Odivelas, também por ele fundado.

Túmulo de D. Dinis em Odivelas. Foto ©José Custódio Vieira da Silva
Na verdade, quem devia ser identificado com Coimbra era D. Afonso Henriques! Não ponho em causa a importância de Guimarães no início da nossa nacionalidade. Apesar de haver reservas quanto ao facto de o primeiro rei lá ter nascido, foi lá que ele assentou arraiais, ainda infante, ao afastar-se de sua mãe e de Fernando Peres de Trava. Como sabemos, o conflito viria a desembocar na Batalha de São Mamede, junto ao castelo de Guimarães, na sequência da qual D. Afonso Henriques atingiu o poder sobre o condado Portucalense. Lembremos, porém, que, à altura deste prélio, o nosso primeiro rei tinha apenas cerca de vinte anos. Viria a morrer com cerca de setenta e cinco - são mais de cinquenta anos de diferença… vividos em Coimbra.
Foi de facto na cidade junto ao Mondego que D. Afonso Henriques estabeleceu a sua corte, fundando o mosteiro dos Cónegos Regrantes de Santa Cruz, no início dos anos 1130, data a partir da qual poucas vezes terá estado em Guimarães, até à sua morte, em 1185.

Afonso I - Óleo de Carlos Alberto Santos
Nota: O estado degradado em que se encontra a sepultura de D. Dinis, levou um grupo de cidadãos, há alguns anos, a criar uma página no Facebook, vamos salvar o túmulo do rei D. Dinis, a fim de alertar para a necessidade da sua recuperação. Graças a esta iniciativa, já se efectuaram alguns melhoramentos.
Há pessoas que se incomodam muito com tudo aquilo que sai da narrativa oficial. Preferem as versões confortáveis e as versões habituais. É natural, a sociedade portuguesa é profundamente conservadora, tem horror a mudanças e desconfia de imediato de todas as ideias que não sejam conforme aquilo que é o costume, ou seja, as ideias que não repitam a lengalenga folclórica, as banalidades regimentais, as barbaridades da praxe. Em Portugal, sempre se incineraram os pensamentos divergentes. Nada mudou. A diferença irrita e merece o exílio. A controvérsia é sempre uma escolha de trincheiras. É por isso que não temos debates nem sociedade civil. Qualquer pensamento que não tombe no conformismo é logo confrontado com críticas incompreensíveis e ataques que torcem a argumentação até que esta esteja docilmente domesticada. Isto explica em grande parte a nossa vocação para cauda da Europa.
![250x[1].jpg 250x[1].jpg](https://c9.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B4e18225e/21659122_g1CJJ.jpeg)
História do Império Habsburgo, de Pieter M. Judson
Tradução de Miguel Mata
(edição Bookbuilders, 2019)
![Albert-Camus[1].jpg Albert-Camus[1].jpg](https://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bff17fc17/21661300_II99Y.jpeg)
«Camus foi o meu primeiro escritor. Antes houve muitos livros, mas autor cuja obra me tenha realmente abalado as fundações, foi Camus o primeiro. Albert Camus, meu primeiro sismo literário. Recebi O Mito de Sísifo aos 15 anos, não sei já se no aniversário ou no Natal. O tio que mo ofereceu, o único familiar próximo com algumas leituras, garantiu-me a qualidade e, naquele tempo, eu tomava essas garantias do Tio Baptista como um selo de qualidade (agora que penso nisso, acho que nunca me defraudou).
Fiquei convencido de que se tratava de um romance, mesmo com o subtítulo "ensaio sobre o absurdo" na capa. E não nego que me causou dificuldades. Mas aqueles dois primeiros parágrafos, "Nunca vi ninguém morrer pelo argumento ontológico. Galileu, que possuía uma verdade científica importante, dela abjurou com a maior das facilidades deste mundo, logo que tal verdade pôs a sua vida em perigo. (...) Em contrapartida, vejo que muitas pessoas morrem por considerarem que a vida não merece ser vivida. Outros vejo que se fazem paradoxalmente matar pelas ideias ou pelas ilusões que lhes dão uma razão de viver". Não exagero se lhe disser que foram mote para anos de leituras.
Muitas vezes damos connosco a pensar como determinados eventos pessoais exerceram influência decisiva no rumo que depois seguimos, momentos-chave das nossas vidas. E não posso deixar de pensar como certos livros - e, está claro, autores - também exercem papéis semelhantes no modo como pensamos. Não nas grandes ideias, mas nos pequenos sulcos, quase imperceptíveis, que modelam o leito do rio do nosso pensamento.»
Do nosso leitor P. N. Ferreira. A propósito deste meu texto.