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As vindimas acabaram há poucos dias. Os cestos já foram lavados e o vinho já está na curtimenta. Basta agora esperar pelo dia de São Martinho para as provas oficiais.

A quantidade foi mediana e as medições do álcool estimado foram generosas, ultrapassando em diversos lotes, nomeadamente de Touriga Nacional, os 14 graus. Estes valores fazem repetir a frase que descreve as uvas de bom grau e que só se ouve em alguns anos: Até se colam aos dedos!

Além da solenidade que é colher o resultado de mais um ciclo das plantas, a vindima tem também uma importância cultural, social e familiar.

Nos tempos em que beber vinho era dar o pão a mais de um milhão de portugueses, a vindima era um acontecimento vivido com muita intensidade no mundo rural.

Havia trabalho para todos até para as crianças. Cortar os cachos para dentro de um balde era tarefa para as mulheres e para os mais novos. Os adolescentes e jovens adultos recolhiam o conteúdo de vários baldes para os poceiros que acartavam ao ombro para as tinas de madeira colocadas em cima dos carros de bois. Os poceiros eram feitos em madeira e com aduelas metálicas, o que fazia deles tão pesados como o conteúdo, especialmente quando ficavam molhados. A aduela do fundo deixava profundas marcas nos ombros mal protegidos por um saco de serapilheira colocado a tiracolo.

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O meu avô materno era tanoeiro e isso duplicava a importância da vindima. Além da produção do vinho recebia as encomendas de pipos, tinas, celhas, poceiros e baldes. O trabalho começava vários meses antes antecediam a vindima.

Quando chovia no inicio de Outono os caminhos ficavam muito difíceis.  Segundo alguns relatos o clima no tempo do Estado Novo era incrivelmente pontual. As parelhas de bois lutavam com o peso das tinas em cima dos rodados de madeira, que rodavam num eixo do mesmo material. Para reduzir a fricção entre a roda e eixo usavam-se borras de azeite que eram transportadas dentro do corno oco de um bovino morto há muito. A lama espessa parecia não querer deixar que as uvas chegassem ao lagar e ninguém sabia se eram mais difíceis as subidas ou as descidas. Guiar uma parelha de bois era uma tarefa exigente. Uma lesão numa pata de um animal equivalia ao seu abate com o respectivo prejuízo patrimonial. Em compensação pelo esforço, os bichos recebiam um pequeno alento. Nestes dias exigentes eram alimentados com a melhor ração disponível e que consistia nos crutos de milho. As extremidades desta planta eram consideradas as mais nutritivas e por isso eram separadas, secas nas eiras e guardadas para a vindima. Quando a repetida passagem das rodas afundava os buracos ao ponto de poder assentar o eixo do carro ou partir um rodado, enchiam-se as covas com molhos de vides, que mais não eram que sobras das podas.

Chegar ao lagar era um alívio para os bois, mas não para os agricultores. Estava na hora despejar as tinas à forquilhada para as rampas que desciam até ao lagar. A nossa arquitetura rural era determinada por este processo. No piso térreo, ao lado da porta onde deve caber um carro de bois, existe sempre uma janela em frente ao lagar. Era construída na altura certa para permitir descarregar as uvas da grande tina de madeira, rampa abaixo, até ao esmagador que se encontra já dentro do lagar.

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Tina após tina o lagar vai enchendo até chegar o momento em que as uvas, já esmagadas, vão ser pisadas.

Tenho uma memória muito antiga de participar neste processo com o meu avô paterno e outros senhores já velhotes como ele. Lembro-me da solenidade com que as coisas eram feitas. Nos dias anteriores tudo era cuidadosamente lavado. As ferramentas, as tinas, o lagar, os depósitos e os restantes recipientes. Tudo tinha de estar imaculado para o grande dia.

Já com o lagar cheio de uvas esmagadas, arregaçavam as calças, lavavam os pés e benziam-se. Um ano de trabalho e esforço seria agora materializado, o que não era coisa pouca. Se alguma coisa corresse mal tudo poderia ser perdido e isso justificava fazer o sinal da cruz. Se durante a Eucaristia, na consagração, o sacerdote levanta o cálice com vinho e apresenta a oferenda dizendo “Fruto da terra e do trabalho do homem”, e se depois disso o transforma no sangue de Cristo, então Cristo pode ser invocado quando o vinho está a ser feito. Se fazer vinho não é uma coisa solene, então o que é que é solene?

Lembro-me também do doce cheiro das uvas esmagadas que invadia todos os recantos da adega e da cor tinta que corava as pernas dos agricultores, pálidas de nunca verem o sol. Lembro-me também de provar o doce sumo de uva ainda não fermentado e por isso ainda não alcoólico. Algum era logo retirado na bica do lagar para mais tarde se misturar com aguardente vínica e fazer vinho abafado, a panaceia das constipações.

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Quando o vinho era abundante tinha pouco valor comercial. A oferta e procura assim o determinava, e nem a socialista Constituição de 76 se atreveu a revogar essa lei.

Muito vinho barato equivalia a mais consumo e mais consumo equivalia a mais bebedeiras. Todas as terras tinham meia dúzia de bêbados crónicos e mais uns quantos mal disfarçados. O alcoolismo nestes meios sempre andou de mão dada com a pobreza e com a miséria. Tal como o ovo e a galinha não se sabe qual deles iniciou o ciclo.

O ónus social existia mas desde que o bêbado não fosse mal educado nunca seria proscrito. Eram dignos de dó, lamentava-se a falta de sorte dos desvalidos filhos que por caridade eram alimentados pelos vizinhos e às vezes vestidos com os raros restos das outras crianças.

Nesses anos de especial abundância, os consumidores mais compulsivos desculpavam-se com o pecado que seria desperdiçar a dádiva divina que é o vinho. E quem é que se atrevia a argumentar contra tal elaboração teológica?

Algumas destas figuras, assim como as suas frases características, são ainda hoje recordadas. É curioso como tem uma presença muito mais efectiva na memória colectiva do que a dos homens sóbrios, que são apenas lembrados pelos seus familiares directos. Será que isso acontece porque os bêbados quando etilizados exerciam a liberdade de mostrar na rua o que lhe ia na alma? Será que os outros, os que bebiam com moderação, quando morreram, a memória pública do que eram diluíu-se com a de todos os outros que bebiam responsavelmente?

Apesar de a tradição vitivinícola remontar por aqui aos tempos romanos a região nunca teve identidade que lhe permitisse ser uma região demarcada. Nos primeiros anos da PAC, após a adesão à CEE, esta estreita faixa de terreno entre a costa e a Serra dos Candeeiros foi destinada à fruticultura. A Maçã de Alcobaça é a marca de referência e reúne a produção de pequenos e médios produtores dos concelhos a sul de Alcobaça até aqui ao de Porto de Mós. Em resultado desta especialização na maçã e na pêra rocha, a vinha perdeu importância comercial. Apesar disso, as pequenas vinhas continuam a existir. Alguma produção é ainda entregue às adegas cooperativas da Batalha e de Alcobaça. O valor comercial deste vinho, classificado como corrente, é reduzido e insuficiente para remunerar condignamente o esforço e empenho necessário à sua produção. As cooperativas apelam à substituição de castas como forma de valorizar o produto final mas o investimento não é aliciante até pela elevada idade dos produtores.

Além desta trajectória descendente junta-se o cerco fiscal. A Autoridade Tributária exige que cada sócio da cooperativa declare esta actividade junto da Repartição de Finanças.

Num universo maioritariamente constituído por reformados com pensões de baixo valor, o receio de ter de começar a pagar IRS leva a que se abandone este magro complemento de rendimento. As cooperativas terão dados rigorosos sobre os valores desta realidade mas baseado-me em algumas conversas posso avançar que estamos a falar de rendimentos máximos de 600€ por ano, entregues mais de um ano após a colheita. É em casos destes que percebemos quão forte um governo consegue ser perante os fracos. Noutros palcos encolhe-se respeitosamente.

Apesar disso existem algumas vinhas novas com castas de renome e algumas até importadas. A produção continua destinada a consumo próprio e pontualmente é vendido a conhecidos. Há dias comprei um garrafão de tinto daqueles que mesmo com o rótulo rasgado - deu para reconhecer - era de água do supermercado. Cinco litros por 5,50€. Nunca poderia passar por vinho de enólogo mas sabe àquilo que é, a vinho corrente, razoavelmente honesto, feito com teimosia, com um forte aroma a homenagem aos tempos em que as uvas viajavam nos carros de bois e com ligeiras notas de desafio ao Ministro das Finanças. Uma combinação perfeita.

 

As quatro últimas fotos apresentadas foram tiradas por mim na vindima de 2008. Todos os intervenientes directos dessa vindima já faleceram.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 18.10.19

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A Conspiração Oligárquica, de Rui Ramos

Ensaios e artigos

(edição Cinco Um Zero, 2019)

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Belles toujours

por Pedro Correia, em 18.10.19

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Katarina Čas

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DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 18.10.19

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Ana Vidal: «Será possível que, em quase meio século, não tenhamos evoluído nem um milímetro?»

 

João Carvalho: «Desde o início que o PS fez tudo mal, em relação à candidatura autárquica no Porto, onde deixou a estrutura federativa e a distrital com mais outro tema de discórdia: uma a favor e outra contra a candidata portuense. Depois de tantas cenas gagas, só faltava que os independentes eleitos pelo PS não tivessem o apoio do partido.»

 

Eu: «Há 70 anos, uma jovem cantora chamada Vera Lynn cativava milhões de britânicos que a escutavam na telefonia com dois dos maiores sucessos de sempre no mundo da canção. Esses temas, que perduram na memória de muitos, ajudaram o Reino Unido a resistir à tirania nazi, fazendo frente às legiões armadas de Hitler. Chamavam-se We'll Meet Again e The White Cliffs of Dover: na voz de Vera Lynn ganhavam uma vibração semelhante aos discursos de Churchill, tornando-se autênticos hinos de resistência. Nesses tempos de trevas, ela contribuiu como poucos para manter bem elevado o moral britânico.

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Pensamento da semana

por José Meireles Graça, em 18.10.19

A democracia é o pior dos regimes com excepção de todos os outros, terá dito Churchill, muito mais vezes citado nesta boutade do que o número de charutos que fumou. Pois é. E, às vezes, dá resultados curiosos: Costa, que fez uma legislatura como PM sem ter ganho as eleições, agora que as ganhou duvida-se que a acabe.

 

Este pensamento acompanha o DELITO durante toda a semana

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Canções do século XXI (928)

por Pedro Correia, em 18.10.19

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Sobre a Catalunha (1)

por Pedro Correia, em 17.10.19

Estes dias de tensão política na Catalunha, onde se sucedem os actos violentos por parte daqueles que sempre juraram usar apenas meios pacíficos para defender a secessão desta comunidade autónomas, confirmam uma evidência: existe em solo catalão uma facção separatista claramente minoritária, apostada em impor a sua cartilha ideológica à maioria dos habitantes da Catalunha, que não quer cortar os vínculos políticos com o Estado espanhol e se revê no actual quadro constitucional e estatutário, de resto sufragado por via referendária - o que jamais aconteceu com a Constituição portuguesa.

Para início de conversa, há que arrumar ideias. Sublinhando os factos que enunciei no parágrafo anterior. Assim se evitam comparações espúrias com a situação de Hong Kong, como Pacheco Pereira, cego e surdo às evidências mais gritantes, fez ontem na TVI 24. Prestando um péssimo serviço ao debate de ideias e ao esclarecimento dos portugueses, que andam demasiado desatentos ao que ali se passa.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 17.10.19

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Conduz o Teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos, de Olga Tokarczuk

Tradução de Teresa Fernandes Swiatkiewicz

Romance

(edição Cavalo de Ferro, 2019)

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DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 17.10.19

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João Carvalho: «Quem ainda mexe é Maria de Lurdes Rodrigues. Do discurso, só ouvi qualquer coisa sobre o ensino básico e que «todos podem aprender». Concordo. Por terem recusado aprender antes, alguns só acabam por aprender à sua própria custa. É básico.»

 

Teresa Ribeiro: «Gosto desta foto da Nan Goldin. O pé sujo e bem desenhado da rapariga dá-lhe graça. Aliás, é o que resume a fotografia. Fico a perceber que uma planta de pé encardida pode exercer forte atracção num homem. Nota-se bem a tensão sexual entre os dois. Ela atrevida, badalhoca, displicente. Displicente na sua badalhoquice e ele a picar-se com o desleixo. Com a soberba que revela esse desleixo.»

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A exumação de Franco (e uma sugestão para o substituir)

por João Pedro Pimenta, em 17.10.19

Já é oficial. Depois de anos de contendas, discussões políticas e recursos judiciais vários, os restos mortais do generalíssimo Franco vão mesmo ser exumados. Dentro de dias, proceder-se-á à complicada operação de tirar a pesadíssima laje do altar-mor da basílica do Vale dos Caídos e levar a urna para o jazigo de família, onde repousará ao lado de Carmen Polo, sua mulher de sempre.

A operação, exigida por familiares de vítimas do regime franquista e por grupos de esquerda, além do próprio governo de Pedro Sanchez, em conformidade com uma alteração à controversa Lei da Memória Histórica, esteve sucessivamente adiada. Não é caso para espanto. Uma tal decisão, tomada finalmente pelas instâncias judiciais superiores espanholas, nunca poderia ser levada a cabo de ânimo leve. Porque mesmo que tenha passado sem problemas nas Cortes, sem votos contra, não deixou por isso de atrair a crítica dos partidos de centro e de direita, apesar da sua abstenção, de que era uma operação sem qualquer carácter de urgência e que poderia desenterrar (literalmente) ainda mais velhas feridas de guerra.

É verdade que há boas razões para que o "Caudilho" saia dali. Desde logo a razão jurídica, porque a intenção era a de albergar os restos mortais das vítimas de guerra, dos dois lados, e Franco, ao contrário de José António Primo de Rivera, que jaz ao seu lado, não o era. Depois porque o próprio Franco nunca manifestou vontade de ser levado para ali depois de morto. E sobretudo porque o mentor de uma longa ditadura de décadas, responsável por boa parte das mortes da guerra, incluindo as de alguns ali sepultados, nunca poderia ser considerado um factor de reconciliação. Sejamos justos: o Vale dos Caídos é antes de mais um altar ao triunfo dos nacionalistas, e não, como oficialmente se pretendeu, à reconciliação da Espanha "una, grande y libre".

Também há razões contrárias atendíveis: os espanhóis têm mais com que se preocupar além da exumação, remexer nas feridas da guerra, de que quase não restam sobreviventes, não prima pela sensatez, além do gosto duvidoso e dos custos da operação e da entrada de máquinas num recinto religioso. E é sabido que para alguns grupos, como o Podemos, bom era dinamitar todo o conjunto do Vale dos Caídos, Cruz, basílica, abadia, etc, e exumar antes os milhares de corpos que lá se encontram, como se isso fosse tecnicamente possível. Contrariando a norma de que "a história é feita pelos vencedores", a da Guerra Civil de Espanha é cada vez mais feita pelos vencidos.

Este ano logrei finalmente ir ao Vale dos Caídos, aproveitando uma ida a Madrid. Para quem vem de longe nem sempre é tarefa fácil, já que fecha relativamente cedo, e desde a entrada do parque há que fazer alguns quilómetros até ao santuário propriamente dito. O conjunto é impressionante, com a colunata, em frente a um amplo terreiro de onde se avista Madrid ao longe, a guardar o enorme pórtico que dá acesso à basílica. Em cima, dominando o conjunto, a emblemática e colossal cruz de granito, que se vê a muitos quilómetros de distância, com 150 metros de altura. No templo propriamente dito, escavado sob a montanha, obra que se diria construída por ciclopes, uma comprida nave conduz ao altar-mor, onde (ainda) se podem ver os túmulos de Franco e de Primo de Rivera. Há inúmeras capelas adjacentes. Numa delas rezava-se missa segundo o "rito antigo", com o padre virado para o altar. É expressamente proibido tirar fotografias lá dentro.

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Tudo isto num estilo totalitário-cristão, que se não fossem os símbolos poderia perfeitamente fazer parte dos planos de Albert Speer ou da Moscovo estalinista. A abadia que se esconde atrás da montanha é mais modesta e harmoniosa, mas ainda assim de grande dimensão. A sensação é de temor, admiração e algum desconforto. Não se vai a um tal monumento de ânimo leve. Até porque afinal de contas se trata de uma necrópole, e sob ela jazem quase trinta e cinco mil vítimas da guerra.

Franco vai sair dali, não restam dúvidas. Mas ainda que sem o "caudilho", o carácter do Vale dos Caídos permanece igual, sem que os ânimos estejam apaziguados. Houve propostas para se mudar também Primo de Rivera, mas é extremamente improvável. Fica portanto um vazio no altar-mor. É certo que já não se enterram pessoas nas igrejas, mas não se poderia pensar em substituir o espaço vazio com um símbolo de verdadeira reconciliação? Para isso, teria de ser alguém do lado dos vencidos. Mas alguém que além de vítima de guerra, fosse digno de estar ali. Seria estranho enterrar num templo católico um anticlerical. Haveria uma escolha perfeita. Digo "haveria" porque também nunca se encontrou o seu corpo.

Falo, evidentemente, de Federico Garcia Lorca, fuzilado por falangistas (que o conseguiram subtrair a outros falangistas, num processo ainda hoje obscuro), enterrado numa vala comum ainda hoje por descobrir. Lorca, o maior poeta do seu tempo, era odiado por Franco e outros do seu "lado", mas recolhia igualmente a admiração de muitos nacionalistas, a começar por Primo de Rivera, com quem se dava e que apreciava imensamente a sua obra. Liberal, homossexual e boémio, Lorca não era evidentemente apoiante do lado nacionalista. Mas também estava longe dos radicalismos republicanos, comunistas ou anarquistas que dominavam o outro lado. Era no entanto, segundo o próprio, "católico, comunista, anarquista, libertário, tradicionalista e monárquico", e "espanhol integral".

Lorca seria a peça ideal em falta para a reconciliação na basílica do Vale dos Caídos. Também ele um "caído" por aquilo em que cria, uma vítima da guerra, um liberal cosmopolita e cristão, os seus restos mortais poderiam repousar ao lado no altar-mor do templo, ao lado de Primo de Rivera, morto pelos mesmos dias pelo bando oposto. Seria o remate perfeito e simbólico do fim da guerra, cuja memória continua a envenenar Espanha. Talvez um dia os seus despojos sejam encontrados e se possa proceder ao enterro digno a que nunca teve direito. Se isso acontecer, quem sabe se as memórias desses anos de chumbo não ficam apaziguada

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Canções do século XXI (927)

por Pedro Correia, em 17.10.19

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 16.10.19

«Portugal é um país estranho. Explorar petróleo na costa causa indignação (não me consta que a Noruega, que o faz, tenha problemas ambientais, antes pelo contrário). Explorar lítio? Credo. Como se não existissem formas de obstruir danos ambientais. Todavia, o lítio é a fonte que alimenta alguns carros eléctricos, os telemóveis por onde se marcam tantas manifestações em defesa do ambiente, etc, etc, etc. (...) Agora o alvo é o olival intensivo. Também não é possível, gritam alguns. Ora, a oliveira é das árvores que menos consomem, se não a que menos consome. Queremos viver de quê, afinal? De um turismo que pode ser efémero (é deixar acalmar certas latitudes...). Queremos ser um país só de serviços?»

Paula Teixeira da Cruz, no Público

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Palavra de ordem: Apertar

por Diogo Noivo, em 16.10.19

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Há pouco menos de um mês o Centre d'Estudis d'Opinió, um instituto de estudos sociais na dependência da Generalitat (Governo autonómico da Catalunha), inquiriu os catalães sobre sentimentos de pertença nacional. Insuspeita de ser uma maquinação españolista, a sondagem ofereceu resultados claros: 41.2% sentem-se tão catalães como espanhóis e 20.1% apenas catalães – dividindo-se os restantes em ‘apenas espanhol’, ‘maioritariamente espanhol’ ou ‘maioritariamente catalão’.

Entre outros méritos, estes resultados demonstram que a violência urbana em curso na Catalunha é sobretudo o reflexo de um conflito entre catalães. Não é Espanha que se está a romper, mas sim a Catalunha.

 

Os tumultos dos últimos dias têm como causa imediata a sentença do Tribunal Supremo que condenou 12 líderes independentistas a penas de prisão que vão de 13 anos a 1 ano e 8 meses. Sobre esta sentença muito há a dizer, mas são dois os pontos essenciais. Primeiro, as condenações eram inescapáveis. No seu conjunto, estes indivíduos violaram deliberadamente a Constituição, violaram deliberadamente o estatuto de autonomia da Catalunha, ignoraram com dolo sentenças de vários tribunais, e ignoraram advertências dos técnicos do próprio parlamento catalão. Para cometer os crimes recorreram a dinheiro público, o que constitui em si mesmo um crime. Em Espanha, como em qualquer Estado de Direito, as condenações eram uma inevitabilidade.

Segundo, a sentença é leve. As penas definidas pelo Tribunal são consideravelmente inferiores às pedidas pela Fiscalía (Ministério Público) e, mais importante, o crime de Rebelião, o mais gravoso de todos, foi descartado. Além do mais, o Tribunal deixou a porta aberta à aplicação do regime penitenciário de tercer grado, que na prática significa que os condenados apenas terão de pernoitar na prisão de segunda-feira a quinta-feira. A decisão sobre a aplicação deste regime não depende das instituições espanholas, mas sim das instituições catalãs que estão na dependência da Generalitat. Sentença mais leve era impossível.

 

Se a sentença é leve, qual a razão da violência nas ruas? São duas. Por um lado, unir uma família desavinda. Desde o alegado referendo de 1 de Outubro de 2017 que os partidos e movimentos independentistas vivem em ambiente de tensão e desconfiança mútuas. Mais grave, perderam influência sobre os seus eleitores, que se sentem manipulados (prometeram-lhes uma independência que, sabemos hoje, os líderes partidários nunca tiveram real capacidade e intenção de cumprir). A sentença do Tribunal Supremo ofereceu aos partidos e movimentos separatistas um expediente ideal para mobilizar e reunir as hostes. Não foi por acaso que Quim Torra, presidente da Generalitat, homem favorável a teses étnicas sobre a nação catalã, disse aos manifestantes que é preciso “apertar”.

Por outro lado, o radicalismo catalão aposta numa repetição do passado. Os dois últimos anos de tensão na Catalunha mostram que o único momento em que o separatismo foi capaz de suscitar simpatias internacionais ocorreu na sequência da intervenção policial destinada a impedir o suposto referendo. A reacção de Espanha pagou dividendos ao nacionalismo radical. Assim, é preciso provocar – e provocar muito – uma nova reacção policial que permita ao nacionalismo catalão remendar os rasgões internos e potenciar a sua causa além-fronteiras. Logo, e mais uma vez, é preciso “apertar”.

Resta saber quem mais sofrerá com tantos apertos.

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Palavras para recordar (56)

por Pedro Correia, em 16.10.19

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MANUELA FERREIRA LEITE

Rádio Renascença, 21 de Abril de 2008

«Só seria candidata [à presidência do PSD] caso não houvesse outra pessoa mais bem posicionada do que eu.» [Na véspera de anunciar a candidatura]

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 16.10.19

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Testamento de VGM, de Vasco Graça Moura

Poesia

(reedição bilingue português-francês, Quetzal, 2019)

"Por expresso desejo manifestado por Vasco Graça Moura, as suas obras são publicadas com a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990"

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DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 16.10.19

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João Carvalho: «Fico pouco espantado que Deus Pinheiro tenha sentido necessidade de vir, tarde e a más horas, dar uma desculpa qualquer sobre a sua inesperada e traiçoeira deserção. Ainda assim, a pressão porventura sentida não resultou em mais do que uma qualquer desculpa esfarrapada e sem nexo.»

 

Jorge Assunção: «Um não caso transformado em grande caso pelos que querem correr com Ferreira Leite da liderança do PSD. Tem um valor simbólico negativo? Certamente. Mas, objectivamente, qual é a diferença entre ter lá Deus Pinheiro ou Pedro Rodrigues? Nenhuma. Votei em Bacelar Gouveia quando decidi votar PSD aqui no Algarve? Obviamente que não. Ficaria muito incomodado se Bacelar Gouveia renunciasse ao mandato? Não, ficaria até agradado.»

 

Paulo Gorjão: «Os "Jovens com Marcelo" querem uma personalidade que não seja dos anos setenta e vão buscar um deputado à Assembleia Constituinte... Mais. Os "Jovens com Marcelo" querem alguém que as pessoas "não conheçam" e que entendam, "uma injecção de juventude", "novos rostos", "vontade de renovar" e vão buscar um ex-líder do PSD...»

 

Sérgio de Almeida Correia: «No momento em que entra em vigor nova legislação sobre o crédito à habitação, o aviso do presidente da Associação de Bancos, de que o custo das novas regras será pago pelos cidadãos que não têm outra alternativa para arranjar uma habitação condigna que não seja através da compra de casa com recurso ao crédito, tem tudo de indecoroso.»

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Canções do século XXI (926)

por Pedro Correia, em 16.10.19

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Booker mais que merecido

por Pedro Correia, em 15.10.19

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Margaret Atwood não ganhou o Prémio Nobel, como antevi há seis dias, mas acaba de vencer o Booker. Mais que merecido.

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Palavras para recordar (55)

por Pedro Correia, em 15.10.19

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JOSÉ PACHECO PEREIRA

Abrupto, 30 de Março de 2008

«Não vai ser fácil [afastar Luís Filipe Menezes da presidência do PSD] porque vai mesmo ter que ser "à bomba".»

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 15.10.19

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Vigilância Massiva, Registo Permanente, de Edward Snowden

Tradução de Mário Dias Correia

Autobiografia

(edição Planeta, 2019)

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