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Fora da caixa (2)

por Pedro Correia, em 06.09.19

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«Tanto me faz estar como não estar.»

Rui Rio, entrevistado pela TVI 24 (3 de Setembro)

 

O estatuto de ex-presidente do PSD é um dos mais ambicionados na política portuguesa. Dá um bocado para quase tudo - desde administrador não-executivo do grupo financeiro multinacional Goldman Sachs (Barroso) até comentador de futebol na TVI 24 (Menezes). Por isso não admira que Rui Rio ande obcecado por atingir tal meta. Na corrida eleitoral em curso dir-se-ia até que este é o grande objectivo que o anima.

Para lá chegar, deu ontem mais um passo decisivo. No suposto frente-a-frente com Assunção Cristas, em directo no Jornal da Noite da SIC - afinal um monólogo a duas vozes, onde era gritante (até pela linguagem corporal de ambos) a nula empatia ali reinante.

Sem necessidade, como todas as sondagens indicam, o ainda presidente do PSD tudo fez para afugentar ainda mais o que resta do seu eleitorado fiel. Posicionou-se no espaço já ocupado por António Costa: «Eu não vou disputar eleitorado à direita. Disputo mais eleitorado com o PS do que com o CDS.» E saudou como filho pródigo um trânsfuga que nas europeias de 2014, durante a governação PSD-CDS, aceitou figurar no tempo de antena socialista e em Junho de 2015 foi brindado com aplausos frenéticos na Convenção Nacional do PS ao atacar a coligação e exprimir a sua «plena confiança» em Costa.

Rio - que voltou a não proferir uma palavra sobre o anterior Executivo liderado pelo seu partido - dobrou-se em vénias ao trânsfuga, gabando-lhe o «currículo notável» e enaltecendo-o como «pessoa altamente respeitável na sociedade portuguesa». Acelera para a derrota com tão convicta pedalada que já ninguém duvida: conseguirá atingir a cobiçada meta.

Antevejo-o já como comentador no Expresso aos sábados e na RTP3 às quintas. Um futuro auspicioso.

Marxismo, tendência Groucho.

por Luís Menezes Leitão, em 06.09.19

Groucho Marx disse uma vez que se recusava a ingressar em qualquer clube que o aceitasse como membro. António Capucho pelos vistos tem a perspectiva inversa.

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 06.09.19

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O Banquete, de Platão

Prefácio de José Pacheco Pereira

Tradução, ensaio e notas de Maria Mafalda Viana

Filosofia

(reedição Tinta da China, 2019)

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Belles toujours

por Pedro Correia, em 06.09.19

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Sophie Auster

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DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 06.09.19

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João Carvalho: «Ainda há muita gente a ver o caso TVI só com um olho. Mesmo entre pessoas que pontuam na comunicação social, o que é mais espantoso ainda. Consigo entender a confusão de um leigo nestas matérias, como de alguns comentários que temos recebido aqui, de quem está menos atento e mais afastado destas coisas e tem outras preocupações. Entendo, sim. Mas – que diabo! – começa a ser altura de distinguir o que está em causa. Era o que eu esperava, pelo menos, por parte daqueles que era suposto estarem informados e acostumados a ter uma visão mais ampla dos acontecimentos.»

 

Jorge Assunção: «A quem aproveitou o caso Marcelo Rebelo de Sousa? Ao PS, ao PCP e ao BE. A avaliar por alguns comentários que vou lendo, devo depreender que o caso Marcelo Rebelo de Sousa foi obra da esquerda nacional.»

 

Eu: «O jogo das expectativas também conta para a avaliação das prestações dos políticos nos debates. Manuela Ferreira Leite beneficiou de algum modo desse factor no frente-a-frente que hoje a opôs a Francisco Louçã na TVI. As expectativas gerais, para o desempenho desta estreante em debates, eram mais baixas. Daí talvez a sensação de que a líder do PSD não tenha estado tão mal como alguns previam.»

Canções do século XXI (886)

por Pedro Correia, em 06.09.19

A traição institucional

por João Pedro Pimenta, em 05.09.19

Há quem ache muito bem que os 21 deputados tories que se opuseram a Boris Johnson (que ganhou a fama em boa parte pela sua rebeldia) sejam expulsos, porque "traíram" o governo e a vontade democrática exposta no referendo de há 3 anos. Convém lembrar que foram eleitos em eleições gerais DEPOIS do referendo, e por isso a decisão é absolutamente democrática, e que a base da soberania do Reino Unido reside na democracia indirecta representada pelo Parlamento (e noutra dimensão pela Coroa) e não na democracia directa. Além disso, os deputados não reverteram a decisão do referendo, limitaram-se a prolongar o tempo do "divórcio" para permitir nova solução que impeça o caos  - ou no mínimo a indefinição - de uma saída sem acordo. Ou seja, respeitaram a vontade dos 51% que votaram na saída, sem fazer tábua rasa dos outros 48%, impedindo males maiores para o país. No cumprimento da vontade popular e da instituição parlamentar. É a isto que chamam traição? Todas as traições fossem essas...

Hoje vou falar-vos de oliveiras. As galinhas podem esperar.

As oliveiras aqui do sopé da Serra dos Candeeiros são maioritariamente da variedade galega. Tradicionalmente estas árvores eram de grande porte, com cinco ou seis metros de altura e oito ou dez de diâmetro. Noutros tempos, em que a mão de obra era jovem e abundante, subir a essas alturas não era um problema, mas com o passar dos anos, e com a mudança etária que o mundo rural sofreu, os acidentes na apanha da azeitona começaram a ser um tema incontornável. Todos os anos pelo menos uma pessoa conhecida sofria um acidente grave ao cair de uma oliveira e, pouco a pouco, as árvores foram sendo 'derrotadas' com podas mais curtas tornando-se mais baixas e, por vezes, até desproporcionalmente largas.

Além da questão da segurança, a oliveira tem de ser podada para não ficar com o seu interior muito cerrado. A planta esforça-se muito mais para manter toda aquela vegetação e isso reduz a sua produção. Além disso, uma oliveira muito fechada complica muito a apanha da azeitona. O ano que se segue a uma destas podas é sempre menos produtivo, mas a prazo é uma boa opção.

As ovelhas entregam-se com afinco às sobras destas podas e rapidamente fazem desaparecer todas as folhas. É um ciclo perfeito. O excesso aparentemente inútil das oliveiras transforma-se em alimento. Sobram ainda os ramos que, agora despidos de folhas, servem para atear o forno, e até que esse dia chegue são um poiso muito apreciado pelas galinhas para pernoita.

A apanha da azeitona é naturalmente um momento especial para os olivicultores. É o inicio da última fase de vários meses de trabalho, e que só termina quando se vai buscar o azeite ao lagar.

O minifúndio, que aqui é maioritário, permite que em poucos dias se resolva o assunto e, mesmo para os menos idosos que ainda trabalham, é vulgar guardarem-se uns dias de férias para esta altura do ano.

Não conheço por aqui quem subsista exclusivamente da produção de azeite. Esporadicamente poderá ser um complemento de rendimento, mas na maioria das vezes é apenas uma forma de ter azeite caseiro suficiente para gastar todo o ano e para dar à família e amigos. É também uma forma de pagamento a quem, que não sendo da família, tenha ajudado na apanha.

Normalmente a colheita é também o motivo, não menos importante, para reunir a família. Existe uma forte vertente pessoal e familiar em tudo isto. A relação com o olival é alimentada por uma mistura de posse do território com homenagem a quem o planeou e concretizou. Manter um olival é manter um espaço, as suas plantas e o propósito que foi concretizado há muitas décadas atrás pelos pais ou avós.

Mesmo que não conscientemente, quando se planta um olival, se cuida dele com a ajuda dos filhos, irmãos e outros familiares está-se também a passar uma mensagem e a consubstanciar uma intenção.

O azeite produzido desta forma tradicional e tão pessoal fica muito mais dispendioso do que o que se consegue com métodos intensivos e muito mais profissionais. Tem havido diversas mudanças no enquadramento legal de toda esta actividade e no geral todas têm reforçado as vantagens do efeito de escala conseguido pelas explorações intensivas.

Em abstracto os subsídios agrícolas irritam-me, mas o maior subsídio que se poderia dar a este tipo de agricultura era não lhe complicar mais a vida. Um olival tradicional pode durar muitos mais anos que a idade do actual regime político somada à do anterior. Mas mesmo assim há sempre mais uma norma emanada pelo ministro de turno, porque agora é que se vão resolver os problemas e enriquecer os agricultores. Nisto sinto-me especialmente liberal. Não mudem mais regras porque isso é, demasiadas vezes, o melhor que um governo pode dar ao seu país.

Apesar de tudo isto ainda vai havendo quem insista em manter esta tradição, e este ano adivinha-se mais produção que no ano passado.

Fora da caixa (1)

por Pedro Correia, em 05.09.19

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«Há uma enorme confusão na definição ideológica dos outros partidos.»

André Silva

 

Espreitei parte da entrevista que o porta-voz do partido animalista deu ontem à noite à TVI. André Silva rejeita a dicotomia esquerda/direita e prefere «outras bússolas», segundo confessou, etiquetando de «progressista» o seu partido, assumidamente «pós-ideológico».

Convocado a descer da nuvem retórica, logo se apressou a desdizer o que dissera: «O PAN é um partido que se posiciona, acima de tudo, pela preservação dos ecossistemas.»

Tudo e o seu contrário, portanto. «Preservar os ecossistemas» é a definição perfeita de um partido conservador. O deputado único do PAN, que nesta entrevista se atreveu a acusar as restantes forças partidárias de fuga às respectivas matrizes ideológicas, devia olhar-se um pouco mais ao espelho. Não para acertar o nó da gravata, adereço que recusa usar talvez por lhe lembrar uma coleira, mas para ver a cara com que fica ao receber o ricochete dos tiros que dispara.

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 05.09.19
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A Canção do Croupier do Mississípi e Outros Poemas, de Leopoldo María Panero

Tradução de Jorge Melícias

(edição Antígona, 2019)

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DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 05.09.19

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João Carvalho: «Mais um debate. Jerónimo de Sousa sempre com aquele rosto triste e grave de quem vive o drama dos mais fracos. José Sócrates, que tem andado com nítida dificuldade para optar por uma das máscaras recentes que tem procurado ensaiar, caiu num erro básico: deixou-se ir pela réplica e tentou manter um ar igualmente triste e preocupado. Em vão, porque aquilo não lhe assenta. Ficou apenas com cara de enterro. Veremos se seria premonição.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Convém não confundir a divulgação de factos pertinentes, a notícia daquilo que é do interesse público, essencial em democracia para formação da opinião, com um certo tipo de pseudojornalismo feito de sensacionalismo, da gestão criteriosa dos factos e do momento da sua  divulgação como arma de arremesso político e garante de audiências e de receitas publicitárias em horários nobres.»

 

Eu: «Sócrates fala de um país que só existe na propaganda governamental. Melhoria de condições laborais, diálogo social, oportunidades de emprego, eficácia da escola pública: quatro anos e meio depois, apenas os socialistas mais irredutíveis têm fé nisto.»

Canções do século XXI (885)

por Pedro Correia, em 05.09.19

Em louvor às ditaduras

por Pedro Correia, em 04.09.19

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Na baixa de Coimbra encontrei este pendão que grita pela solidariedade com a Venezuela.

Não com o povo venezuelano, mas com o Governo que oprime esse povo, condenando-o à ruína e à miséria.

 

Desde 2014, o produto interno bruto venezuelano caiu 50% e a inflação este ano já disparou acima dos 1.500%, colocando este país - que dispõe das maiores reservas petrolíferas do planeta - num triste máximo mundial. O salário mínimo mensal caiu para o equivalente a dois dólares, pouco mais de dois euros: não chega sequer para comprar um quilo de carne ou uma dúzia de ovos. A moeda oficial do país, o bolívar, praticamente desapareceu de circulação: as escassas trocas comerciais entre venezuelanos são feitas na divisa norte-americana tão diabolizada na retórica do regime.

Devido às migrações em massa, que já levaram à fuga de mais de quatro milhões de pessoas para os países vizinhos para fugirem à fome, a Venezuela perdeu pela primeira vez população desde 1950. Quase dois terços dos que restam perderam em média 11 quilos no ano passado devido ao acesso muito insuficiente a bens alimentares essenciais.

«A melhor demonstração de que os povos também podem retroceder da civilização à barbárie é o que ocorre precisamente na Venezuela», escreveu há dias Mario Vargas Llosa.

 

Em Coimbra grita-se «Não à agressão contra a Venezuela». Mas iludindo a verdadeira agressão: a do Governo criptocomunista de Nicolás Maduro contra os venezuelanos. O pendão que fotografei foi colocado pelo fantasmático "Conselho Português para a Paz e a Cooperação", organização-satélite do Partido Comunista, como o partido PEV e uma tal "Intervenção Democrática" que tem há anos uma "página em construção" na Internet.

Daqui a 48 horas vai ser inaugurada mais uma Festa do Avante! onde estará em destaque um pavilhão destinado a glorificar as magníficas "conquistas" do déspota de Caracas. Não faltará certamente outro pavilhão em louvor e glória da tirania comunista vigente na China desde 1949. Nem as habituais jaculatórias a Cuba (oprimida desde 1959 pelo partido único, comunista) e à Coreia do Norte (asfixiada desde 1948 pelo partido único, comunista), congregadas por laços de fraterna camaradagem aos congéneres portugueses.

Como diz António Costa, não existe partido tão previsível como o PCP. Capaz de se insurgir contra todas as ditaduras - excepto as ditaduras dos comunistas e seus parentes próximos que vão celebrando de festa em festa.

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 04.09.19

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O Povo do Abismo, de Jack London

Tradução de Ana Barradas

Romance

(reedição Antígona, 3.ª ed, 2019)

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DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 04.09.19

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Ana Margarida Craveiro: «Alvaro Uribe, presidente da Colômbia, falhou o teste decisivo da democracia. Apesar das suas altíssimas taxas de aprovação, estava limitado a dois mandatos seguidos. Depois, poderia prosseguir a sua carreira política, mas de outra maneira. Não resistiu à tentação do poder.»

 

Ana Vidal: «O que será que vai na cabeça de Leonor Coutinho? Como será que ela nos quer pôr a amar melhor do que até aqui? E porque achará a senhora que em Cascais se ama pouco, ou mal? Tenho pena de já não votar em Cascais. Juro que lhe daria o meu voto, só para ver este enigma resolvido.»

 

João Carvalho: «Não lhe fixei o nome até chegar aqui (e não tenciono voltar atrás), mas a memória do computador deixou-me fixar que o texto é este. Do autor só presumo que é o humorista de serviço do Simplex. Confirma-se aquilo que quase toda a gente sabe: fazer humor não é para qualquer um. Mais triste ainda é quando o próprio não o sabe.»

 

Jorge Assunção: «Dois dos arguidos do processo Freeport revelaram à TVI que há um outro primo de José Sócrates envolvido no negócio. O primeiro-ministro é, obviamente, um tipo com muito azar na família que lhe calhou na rifa. Entretanto, a pergunta que se coloca é: dia 11, 18 e 25 de Setembro, a TVI vai continuar a dar seguimento à investigação sobre o Freeport ou o caso voltará a desaparecer da agenda mediática?»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Se Cavaco Silva tivesse imaginado no que a TVI ia dar estou certo de que nunca teria atribuído o canal à Igreja nas condições em que o fez, prejudicando por mero complexo, atavismo e preconceito o grupo representado por Daniel Proença de Carvalho. A TVI continua a pagar pela forma como o seu parto teve lugar. O que nasce torto, tarde ou nunca se endireita. O povo lá sabe porquê.»

 

Eu: «Acabo de ouvir João de Deus Pinheiro, cabeça de lista do PSD por Braga e personalidade da máxima confiança de Manuela Ferreira Leite, reiterar a defesa de um governo de bloco central - a que chama governo de "emergência nacional" - num debate que decorre na RTP N. Cada vez me convenço mais que no próximo dia 27 o PSD se arrisca a ter uma assombrosa vitória de Pirro nas urnas. Sem ideias, sem projecto, sem fôlego nem convicção para levar uma legislatura até ao fim, piscando o olho ao PS para um equívoco casamento de conveniência. O pântano ameaça regressar em todo o seu esplendor.»

De profundis

por José Meireles Graça, em 04.09.19

Sócrates publicou há dias um artigo no Expresso (a que tive acesso por o ver transcrito em vários lugares; não contribuo voluntariamente para o sustento de um órgão oficioso do Poder, independente apenas na exacta medida necessária para gente inocente acreditar que o seja) em que casca vigorosamente no seu antigo número dois. O ex-PM pode dizer o que quiser, e tem aliás todo o tempo do mundo para o fazer: já se percebeu que será julgado pelos seus crimes sim – mais década menos década; e que não é impossível que os seus advogados venham, com razão, invocar a prescrição num tempo em que a opinião pública já mal se lembrará do que é que ao certo ele estava acusado.

Sucede que Sócrates, desta vez, está coberto de razão: lista os triunfos (falaciosos uns e imaginários outros, mas não é esse aqui o ponto) dos seus governos e queixa-se de a direção do PS “se manter apostada em desmerecê-la [a maioria absoluta do PS], juntando-se, assim, ao discurso de todos os outros partidos que têm óbvio interesse político em fazê-lo”.

É realmente o que Costa faz: para dizer que “os portugueses têm má memória das maiorias absolutas, quer as do PSD quer a do PS” seria preciso que em algum momento, durante a carreira ascensional de Sócrates, e mesmo depois de passar para a câmara de Lisboa (onde foi uma nódoa igual à dos antecessores, e do sucessor) e para a Quadratura do  Círculo, tivesse manifestado em algum momento a mais remota dúvida sobre os méritos dos governos PS, as excelsas qualidades do líder do seu partido e as fundas culpas no desastre a que o país foi conduzido em 2011.

Isto é tanto assim que se um canal de televisão se desse ao trabalho de pesquisar encontraria sem dificuldade, sempre que Costa ou o seu alter-ego para assuntos de aldrabices financeiras atroassem os ares com os méritos do equilíbrio orçamental, ou as cativações, ou o respeito pelos credores, declarações em que o próprio defendia precisamente o oposto. E, para isso, nem seria preciso remexer em mais do que a extinta Quadratura: Costa a pôr Sócrates, que Pacheco crucificava (quase sempre por más razões, que Nosso Senhor a Pacheco deu o gosto pela leitura e boa memória, mas discernimento nem por isso) nos cornos da lua, e a gabar até à vigésima quinta hora o descalabro perante as cordatas objurgatórias de Lobo Xavier, os dois persignados de grande respeito pelo “António”, como ainda hoje.

Seria essa obra, a de confrontar Costa hoje com o que consistentemente e anos a fio andou a fazer e defender, um serviço à democracia. Porque, a ser verdade o que dizem as sondagens, o eleitorado homologou uma maioria contranatura que não tinha sido aventada na campanha eleitoral; engoliu a patranha da reversão do brutal aumento de impostos, ao mesmo tempo que a receita fiscal cresceu mais do que o produto; e atribuiu ao governo o aumento das exportações, a diminuição do desemprego e um clima geral de alívio (ilusório decerto, o eleitorado suspeita, mas enquanto o pau vai e vem folgam as costas) como se o turismo tivesse explosivamente crescido por alguma política que o tivesse induzido, como se alguma empresa exportadora pequena ou média tivesse visto o seu quadro fiscal, declarativo e regulamentar, melhorado, e como se a mudança da ortodoxia do BCE (exigente e até insolente nos tempos da troica) para uma orgia de facilitação tivesse tido alguma coisa a ver com a gordurosa e parlapatona bonomia de Costa.

O homem tem sorte, mas a sorte dele é o nosso azar. Porque, à cautela, já vai admitindo que não é impossível uma crise internacional, o tal diabo cuja chegada Passos Coelho previu. E, ao contrário do que diz, não estamos “melhor preparados” nem “temos mais instrumentos para resistir”: em 2015 a dívida pública bruta por cabeça, que era de 22.300 Euros, passa agora alegremente os 23.800. E como o sector privado está exausto, investimento que se veja não há, e se houver será sobretudo público (o que quer dizer elefantes brancos), a banca está ligada à máquina do BCE, o turismo não pode crescer muito mais porque não há muito mais para descobrir ou inventar, e o número de funcionários públicos cresceu em todos os anos do governo PS e são já 700.000, os tais instrumentos consistem na prática na boa-vontade dos nossos “parceiros” europeus.

Não é nada mal vista, a chantagem: convém que nos sustentem porque a União é um sucesso. E vejam lá se mantêm indefinidamente aquela coisa dos juros negativos: se trocar dívida velha por nova dá lucro a máquina do movimento perpétuo, afinal, existe.

Canções do século XXI (884)

por Pedro Correia, em 04.09.19

«Nem sei bem»

por Pedro Correia, em 03.09.19

«O PSD neste momento tem mais dois ou três deputados... acho que são três, nem sei bem... do que o Partido Socialista.»

Rui Rio, o homem das "contas certas", esta noite, em entrevista à TVI

Resistência activa ao aborto ortográfico (136)

por Pedro Correia, em 03.09.19

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Lisboa, na parede exterior do Palácio de Belém



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