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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 28.09.19

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 O Corpo Dela e Outras Partes, de Carmen Maria Machado

Tradução de Tânia Ganho

Romance

(edição Alfaguara, 2018)

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DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 28.09.19

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Adolfo Mesquita Nunes: «O PSD sofre neste momento as vicissitudes de ser, enquanto social-democrata, um partido a mais no sistema partidário. Esta originalidade portuguesa, de ter dois partidos sociais democratas a ocupar 70% do eleitorado, não poderia, nem poderá, durar muito tempo.»

 

André Couto: «Jerónimo de Sousa foi o grande derrotado da noiteO histórico partido que durante décadas deteve o monopólio da oposição e da luta à esquerda do PS viu-se ultrapassado por um pujante Bloco que promete com os anos reduzir o PCP a cinzas. Desta feita até para o desapoiado PCTP/MRPP de Garcia Pereira o PCP perdeu votos, temendo certamente o que este fará com os €173.000 que receberá de subvenção.»

 

João Carvalho: «Saiba o PS reaprender a prática democrática, para responder à oportunidade que lhe foi oferecida por quem exige que se corrija. Se o fizer, talvez o que agora parece possível venha a ser desejável.»

 

Jorge Assunção: «Sócrates perdeu a maioria e deverá necessitar do apoio do PSD ou do CDS/PP para governar. O BE deverá ter muito menos influência na decisão das questões fundamentais para o país do que aquela que Luís Fazenda assumiu quando fez a primeira declaração da noite.»

 

José Gomes André: «O reconhecimento desta vitória não deve fazer esquecer o óbvio: o PS foi penalizado pelos eleitores, perdeu 500 mil votos (o meu foi um deles), disse adeus à maioria absoluta e teve o seu pior resultado em legislativas desde 1991.»

 

Paulo Gorjão: «Não creio que Manuela Ferreira Leite tenha condições para continuar à frente do PSD por muito mais tempo. Estou seguro que a líder do PSD o sabe melhor do que ninguém. Resta-lhe fechar o ciclo eleitoral. Felizmente não faltam soluções ao PSD, oriundas dos mais diversos quadrantes. Altura, portanto, para começar a preparar um futuro que se espera melhor.»

 

Teresa Ribeiro: «Posso ser old fashioned, mas fez-me alguma confusão perceber, através de uma reportagem da TV, que na festa do PS, no Largo do Rato, se tocava Coldplay.»

 

Eu: «A arrogância no Governo custou meio milhão de votos - e o adeus à mais sólida maioria do PS de todos os tempos. A incompetência na oposição custou mais uma derrota eleitoral ao PSD - a quarta das últimas cinco eleições legislativas.»

Canções do século XXI (908)

por Pedro Correia, em 28.09.19

Coimbra é uma lição

por Pedro Correia, em 27.09.19

«Esta é uma luta de todos - inclusive dos animais. Como podem ver, há ali um cão que também tem algo a dizer.»

Em declarações à SIC, uma participante na "greve mundial pelo clima" que hoje reuniu cerca de cem pessoas (e um cão) junto ao Jardim Botânico, em Coimbra

Plausible deniability

por João Sousa, em 27.09.19

António Costa, jura-o, não sabia de nada.

Uma quantidade não negligenciável de material bélico foi roubada de Tancos; foi montada uma encenação para justificar a sua devolução (e com juros, uma espécie de campanha "roube 4 e devolva 5"); o ministro da Defesa, que antes, durante e depois multiplicou-se em declarações atabalhoadas sobre o assunto, sabia da encenação e nem teve, pelos vistos, pejo em confirmá-lo por SMS a um badameco deputado do PS; mas o mesmo ministro não achou por bem informar o seu chefe de governo dos progressos em assunto tão melindroso.

António Costa diz que não sabia de nada, não viu nada, não ouviu nada e ninguém lhe disse nada. E o aparelho de propaganda do PS, que não brinca em serviço, já fez chegar às redes sociais esta pequena gravação de um Conselho de Ministros da época na qual vemos Costa a dizer, explicitamente, isso mesmo - que não sabia de nada do que iria acontecer:

Pergunta ao deputado André Silva

por Pedro Correia, em 27.09.19

 

Qual é a posição do PAN perante a vespa asiática?

 

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 27.09.19

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Laços, de Domenico Starnone

Tradução de Vasco Gato

Novela

(edição Alfaguara, 2018)

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Belles toujours

por Pedro Correia, em 27.09.19

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Inma Cuesta

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DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 27.09.19

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Ana Vidal: «Na secção de voto onde exerci hoje o meu dever/direito, reparei numa cena inédita e curiosa: várias pessoas usavam as suas próprias canetas e evitavam tocar no balcão de voto, outras tiravam de carteiras e bolsos umas "toalhitas" húmidas (presumo que desinfectantes) e limpavam freneticamente as mãos, saindo com ar desconfiado e incómodo daquele antro de contaminação, sabe-se lá de quê. Chamem-me inconsciente, mas eu usei a caneta atada ao cordel e dei beijos e apertos de mão a alguns conhecidos que por lá encontrei. Até ver, estou viva e de boa saúde. Mas sei que ainda está para chegar a noite, com notícias eventualmente mais letais do que uma mísera gripe. Comparado com os políticos que temos, o vírus A é um menino de coro.»

 

João Carvalho: «Televisões e políticos através das televisões vão repetindo à exaustão que "o acto eleitoral tem estado a decorrer com toda a normalidade" e que "não se tem registado qualquer anomalia". Ora, se nós temos resistido estoicamente e legislatura após legislatura ao pior que a política tem para nos oferecer, agora esperavam o quê? Que fôssemos para as mesas de voto aos tiros? Não há pachorra para tanto disparate dito e redito.»

 

Eu: «A CDU venceu. Na Alemanha

Canções do século XXI (907)

por Pedro Correia, em 27.09.19

Senhor, falta cumprir-se Portugal

por Paulo Sousa, em 26.09.19

Nestes dias o principal assunto nos Emirados Árabes Unidos é a chegada de Hazza Al Mansouri, o primeiro astronauta emiradense (ou emirático) à Estação Espacial Internacional.

Chegou hoje pela manhã e de acordo com a Wikipédia é o seu 228º visitante, representando a 19ª nacionalidade a fazer-se presente neste veículo que se pode definir sem metáforas como sendo uma das fronteiras do conhecimento.

Além das bandeiras mais habituais nestas paranças, já por lá andaram um belga, um sueco, um dinamarquês, um cazaque, um sul-africano, um malaio e um espanhol.

Não consigo ficar indiferente quando olho isto e de seguida para aquilo que fomos e somos.

A importância que o nosso país, uma nação antiga, no contributo da descoberta das costas do mundo inteiro e na recolha de informação para que se pudessem desenhar os mapas e assim conhecer o globo onde vivemos esgotou-se há muito.

O tempo passou e no sec XXI a nossa mais recente conquista foi conseguir trocar défice financeiro por défice nos serviços públicos.

Tentamos esquecer que o quadro de pessoal do império português, na sua versão mais extensa do Brasil ao Japão, não ultrapassava 6000 pessoas, clérigos incluídos. Hoje temos mais de meio milhão de servidores públicos mas, ao contrário do que aconteceu no passado, vivemos obcecados com o próprio umbigo.

Nos tempos em que desbravamos o desconhecimento e vivemos na fronteira de ciência aportamos em muitas latitudes e também no desértico e desinteressante território onde Hazza Al Mansouri nasceu. Hoje o país dele ambiciona em sentar-se a bordo da ISS enquanto que no país dos outrora descobridores se discute quem é que sabia o quê e quem que é que anda a mentir.

Neste tempo sobressaltado de eleições gostava que pelo menos um dos candidatos se propusesse a nos levar pela mão e nos transmitisse a ambição de regressarmos às franjas do conhecimento, onde já fomos felizes para que então, como nos disse Pessoa, se cumprisse Portugal.

Frases de 2019 (26)

por Pedro Correia, em 26.09.19

«Havia 22% de trabalho precário em 2015, há 22% de trabalho precário em 2019»

Catarina Martins, ontem, em campanha eleitoral em Faro

Em Setembro ou Outubro de 1127, D. Afonso VII entrou com um exército no norte do condado Portucalense. D. Afonso VII, ou Afonso Raimundes, o primo de D. Afonso Henriques, era rei de Leão, Castela e Galiza havia cerca de ano e meio. Depois da morte de sua mãe, D. Urraca, em Março de 1126, os reinos hispânicos entraram em convulsão e o jovem rei viu-se obrigado a impor a sua autoridade, a fim de suceder a seu avô como imperador. Organizou campanhas contra Aragão e, tendo subjugado o rei aragonês, entrou pelo Minho à frente de um exército.

O condado estava já muito dividido, porquanto o Norte, mais poderoso, apoiava Afonso Henriques. Por isso, ele se aquartelou em Guimarães, enquanto D. Teresa e Fernando Peres de Trava se quedavam por Coimbra ou Viseu. Afonso VII soube aproveitar este conflito. Foi na sequência desta sua invasão que se deu o cerco a Guimarães, originando uma das lendas mais conhecidas da nossa História: a lenda de Egas Moniz de Ribadouro, que terá ido, com a família, de corda à garganta, pedir perdão ao rei leonês, ao ver-se impossibilitado de manter a sua palavra, em como Afonso Henriques prestaria vassalagem ao primo.

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Egas Moniz em Leão (Roque Gameiro, Quadros da História de Portugal, 1917

 

Na verdade, e segundo José Mattoso (2007), esta lenda terá sido obra de um trovador da corte de D. Afonso III, pai de D. Dinis, chamado João Soares Coelho. Na segunda metade do século XIII, a família de Ribadouro estava extinta, mas João Soares Coelho era seu descendente por linha bastarda. A fim de honrar o seu antepassado, criou um cantar épico, a Gesta de Egas Moniz, onde se contava o episódio. Este entranhou-se no imaginário colectivo e foi incluído nas crónicas medievais, como se de um facto se tratasse.

Como todas as lendas, é baseada em acontecimentos verídicos (invasão de Afonso VII e o cerco a Guimarães), mas fica por dizer que, nessa altura, era D. Teresa quem regia sobre o Condado Portucalense, pois ainda não se tinha dado a batalha de São Mamede. Além disso, Afonso Henriques, com cerca de dezoito anos, era um jovem infante (por sua mãe se intitular rainha), que tinha sido investido cavaleiro há apenas um ou dois anos (conforme as versões) e que não tinha ainda travado nenhuma batalha, nem feito uma conquista que fosse.

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Castelo de Guimarães, Foto © Horst Neumann 2009

Nota: Só na segunda metade do século XIII, com as reformas góticas, o castelo de Guimarães adquiriu as características que se lhe conhecem, hoje em dia, incluindo os oito torreões de planta quadrangular, os merlões pontiagudos e a torre de menagem de planta quadrada.

 

Ao saberem Guimarães em perigo, alguns barões do Norte foram acudir ao infante, entre eles, Soeiro Mendes o Grosso, tenente da terra de Sousa. Parece ter sido ele quem coordenou a defesa da vila e do castelo. As fontes não permitem perceber com rigor a cronologia, a duração, ou mesmo a forma como decorreu o cerco, mas o seu desfecho parece ter sido favorável ao rei de Leão. A vila de Guimarães, nesse tempo, e ao contrário do castelo, não tinha ainda defesas eficazes, não estando sequer amuralhada em todo o seu perímetro. Por isso, e contrariando a lenda, Afonso Henriques acabou por se render e por aceitar as exigências do primo, prometendo-lhe vassalagem, mas… em nome da mãe, D. Teresa!

Neste caso, o filho rebelde, pelos vistos, não teve problemas em reconhecer sua mãe como soberana do condado. E conseguiu, assim, uma situação dúbia, pois prometeu vassalagem sem a prestar, uma situação que, como sabemos, virá a explorar ao sabor dos seus interesses, no futuro. A prova da rendição de Afonso Henriques está no facto de ter confirmado, com a sua assinatura, três importantes diplomas de D. Afonso VII, lavrados a 13 de Novembro de 1127 (pouco depois do cerco), em Santiago de Compostela. Ou seja, depois de se render e prometer vassalagem em nome de sua mãe, Afonso Henriques acompanhou o primo à capital da Galiza.

 

Fontes:

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1147 A Conquista de Lisboa.jpg

 

Fora da caixa (16)

por Pedro Correia, em 26.09.19

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«É fundamental aumentar as infraestruturas de transportes colectivos, nomeadamente ferrovia da área metropolitana... metropolitana... da área... da área metropolitana de Lisboa, estender a rede... a rede de metro para várias... para várias zonas... assim como... assim como na... também... aaa... no Porto...»

André Silva, na RTP (23 de Setembro) 

 

Tenho acompanhado com a atenção possível as intervenções do solitário deputado do PAN nesta campanha eleitoral. Dele direi que é um dos candidatos mais previsíveis: quando abre a boca é seguramente para advogar novas interdições ou um acréscimo da carga fiscal. E é também um dos que preenchem mais tempo de antena, recorrendo a um velho truque popularizado por certos treinadores de futebol: repete as palavras que vai dizendo, em jeito de falso gago. (Se fosse gago a valer não seria candidato do PAN, mas do Livre.)

Assim foi, uma vez mais, no debate que segunda-feira reuniu na RTP os seis líderes dos partidos com representação parlamentar. André Silva não defraudou as expectativas: mal a moderadora, Maria Flor Pedroso, lhe pediu que especificasse «medidas concretas» sobre o combate às alterações climáticas, o porta-voz do PAN anunciou sem rodeios, naquele seu estilo muito peculiar, que quer extorquir dinheiro dos portugueses. Para o remeter a outros continentes.

 

Segui com tanto interesse a oratória do deputado que acabei por transcrever na íntegra o que ele disse:

«Eu gostava de… dizer… algo sobre aquilo que Portugal pode fazer… aquilo que Portugal pode fazer… aaa… relativamente a todo o impacto mundial. Está estabelecido que devemos criar um fundo mundial de combate às alterações climáticas para ajudar os países menos ricos, chamados menos desenvolvidos, para fazer esse combate, essa adaptação, às alterações climáticas. Ainda só conseguimos cerca de 25%. Portugal… aaa… deverá… contribuir com… aaa… cerca de dois milhões e meio de euros e nós entendemos que Portugal pode reforçar… os portugueses podem, em vez de darem cada um 25 cêntimos, cada um dos portugueses pode dar um euro, uma contribuição de um euro, e aumentar em dez milhões de euros a contribuição que Portugal pode dar ao resto do mundo para este efeito. E é justo. É justo porque Portugal, enquanto país rico que é, sempre utilizou os recursos e sempre emitiu gases com efeito de estufa ao longo destas décadas muito mais que os outros países. E é justo que nós tenhamos essa… essa capacidade financeira e que somos um país rico, do norte geográfico, possamos fazer essa… possamos fazer essa… essa… essa contribuição… esse esforço que é possível para… do nosso ponto de vista… para os portugueses.»

 

Desembarcado de Marte, André Silva imagina Portugal como «país rico», apto a financiar outras nações para expiar supostos pecados ambientais.

Eis outro aspecto em que o porta-voz do PAN é muito previsível: na importação para o discurso político da retórica dos tele-evangelistas, sempre prontos a lançar anátemas sobre os hereges, sempre dispostos a anunciar a redenção aos devotos que comungam das tábuas da lei.

Só não o sabia também já disponível a sacar o dízimo tão à descarada, ainda antes de acolitar o PS na próxima solução governativa. Nisto, pelo menos, inovou. Hossana, aleluia: o paraíso há-de chegar.

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 26.09.19

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Um Bailarino na Batalha, de Hélia Correia

Novela

(edição Relógio d' Água, 2018)

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DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 26.09.19

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J. M. Coutinho Ribeiro: «Amanhã, vou votar no PSD. Não me perguntem porquê. Pode ser assim? Obrigado.»

 

João Carvalho: «Ouço na SIC-Notícias: morreu uma pessoa esta tarde, infectada com a gripe A e internada num hospital. O pivot acrescenta: «Vamos continuar a acompanhar este caso.» Será vício ou tique? Vão continuar a acompanhar o quê? É insuportável ouvir estas coisas.»

 

Eu: «Hoje somos poupados aos politólogos e à sua enxurrada de lugares-comuns. Todos os anos devia haver pelo menos um dia assim.»

Canções do século XXI (906)

por Pedro Correia, em 26.09.19

Inquietações

por Diogo Noivo, em 25.09.19

No Jornal da Noite de ontem, a SIC apresentou a cabeça de lista do Livre em Lisboa como “mulher, afrodescendente e gaga”. São três características inócuas, absolutamente irrelevantes para aferir a experiência e a competência da pessoa para o exercício de funções públicas. Mas este é o novo normal. A política nacional – e não só – parece içar os seus candidatos com base em atributos e especificidades de uma irrelevância olímpica.

Ao reduzirem os candidatos a caricaturas, partidos e comunicação social contribuem para os males da democracia. E, claro, depois andam às aranhas para perscrutar as causas da abstenção e do crescimento eleitoral de retóricas simplistas.

Perguntas que gostava de fazer (3)

por Paulo Sousa, em 25.09.19

Eng. André Silva,

Dado que a ADSE é a versão premium do SNS, não acha que devia ter sido mais ambicioso sugerindo uma ADSE para os animais de companhia?

Anda tudo doido (2)

por Pedro Correia, em 25.09.19

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«Alguém devia ter caluniado Josef K. porque uma manhã foi detido sem ter feito mal algum.»

Kafka, O Processo

 

Bernardo Silva e Benjamin Mendy são dois grandes jogadores - o primeiro é médio-ala, o segundo é lateral esquerdo. Têm ambos 25 anos. Actuam juntos num dos principais clubes europeus, o Manchester City. Antes haviam sido colegas de equipa no Mónaco.

São não apenas colegas, mas grandes amigos. Como é público e notório.

Acontece que Bernardo, magnífico internacional português de futebol, tem "pele branca" - como se convencionou chamar nestas circunstâncias, com manifesta falta de exactidão - e o francês Mendy tem um tom de pele mais escuro (espero que, escrevendo desta forma, não me caia em cima a fúria justiceira das patrulhas politicamente correctas).

Como é natural entre dois amigos, jovens e bem-humorados, trocam volta e meia umas graçolas nas redes ditas sociais. Acontece que o Bernardo, no Twitter, se lembrou de associar o colega à Conguitos, uma marca de chocolates. O outro respondeu-lhe com aqueles bonequinhos que substituem palavras: três a sorrir, outro a bater palmas - e ainda esta frase, na mesma onda bem-disposta: «1-0 para ti, mas espera.»

 

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Só isto. Mas foi quanto bastou para o jogador português começar a ser inundado de duríssimas críticas nos comentários digitais pelo suposto carácter racista do que havia publicado. Ao ponto de ver-se forçado a apagar tudo. Mas, mesmo assim, sujeita-se a uma investigação do caso pela federação inglesa de futebol, já desencadeada sob pressão de uma organização denominada Kick It Out, que exige a adopção imediata de medidas punitivas. «Os estereótipos racistas nunca são aceitáveis como brincadeira», proclamam estes furibundos diáconos Remédios, assumindo a participação contra o «comportamento ofensivo» de Bernardo Silva junto dos órgãos federativos ingleses.

Passo a passo, dia após dia, vemos cada vez mais condicionada a liberdade de expressão. Com a nova Polícia do Pensamento, acometida de ira castradora, a vigiar as comunicações digitais entre dois companheiros e amigos. De guilhotina já montada e sentença condenatória pronta a exibir, invertendo a presunção da inocência e negando o direito ao contraditório. A presunção é sempre de culpa - sobretudo se o prevaricador for homem, ocidental e de pele "branca". E a gama de temas interditos vai-se ampliando, num afã de guardiães da fé, até aos confins do impensável. Como em tempos ancestrais, a desobediência ao dogma é hoje pior que um crime: é um pecado.

Apetece escrever, parafraseando Álvaro de Campos: come chocolates, Bernardo, come chocolates. Mas nada de Conguitos: só chocolatinho branco. Enquanto a brigada dos bons costumes permitir.



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