Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 02.07.19

250x.jpg

 

O Triângulo Mágico, de António Cândido Franco

Biografia de Mário Cesariny

(edição Quetzal, 2019)

Tags:

Sinal fechado

por João André, em 02.07.19

Hoje estava a ouvir música e passou a minha versão preferida de Sinal Fechado de Chico Buarque, gravada num concerto ao vivo com Maria Bethânia (todo o álbum é fantástico). Mais que no original, esta versão, encurtada, dá a noção clara da urgência da letra e da forma como tratamos certas relações. Na era de Facebook, e-mail, skype e tantos outras redes sociais, a música continua a ressoar com intensidade. Algumas das pessoas com quem mais me relaciono no Facebook não serão aquelas que mais pensaria em visitar quando vou a Portugal, mesmo que tenha saudades delas. São pessoas que me alegraria ver, encontrar para beber um café e saber alguma coisa mais deles. Se "pegar(am) o lugar no futuro", como vai o "sono tranquilo", mesmo que por apenas alguns minutos.

Sei no entanto que, mesmo que não seja vão, que possa reencontrar essas pessoas, será num quase equivalente de num sinal fechado, com a pressa, "alma dos nossos negócios", num momento em se "anda a cem" (mil?). A maior probabilidade, no entanto, é que se os voltar a ver, eles acabem por se "sumi(r) na poeira das ruas" (ou dos electrões). A realidade é que, de todas as pessoas que terei conhecido ao longo da minha vida, mesmo daquelas com quem terei partilhado pedaços mais pessoais, mais ou menos íntimos, com quem terei partilhado experiências, vivências ou lições, das pessoas que ficaram com algo de mim, por ínfimo que terá sido, a realidade mesmo é que provavelmente não as voltarei a ver.

São pessoas que levam uma parte de mim com elas para o resto das suas vidas, talvez a partilhem com outros, completamente inconscientes disso, seja essa parte boa ou má. E eu farei o mesmo. Sem as ver. E fico feliz que assim seja, porque por muito que não as volte a ver, fizeram parte da minha vida, fizeram parte de momentos bons ou maus, ou bons e maus. E eu delas.

E, quem sabe, pode ser que um sinal fechado, ou o seu equivalente, as traga até mim, ou a mim a elas. Antes de eu "beber alguma coisa rapidamente" terei a possibilidade de lhes dizer:

"- Eu prometo, não esqueço, não esqueço...
- Por favor, não esqueça, não esqueça...
- Adeus!
- Adeus!
- Adeus!"

Tags:

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 02.07.19

39b608e95118d5d9c8efc36c2a387b46--hourglass-top.jp

 

Ana Margarida Craveiro: «Parece que o ministro toureiro já foi demitido. Já vai tarde, tanto pela incompetência política no cargo como pela manifesta incompetência pessoal para o cargo.»

 

André Couto: «António Costa promove amanhã, a partir das 18 horas, no Arquivo dos Paços do Concelho, um encontro com as pessoas que participam nas redes sociais para apresentar o balanço do mandato autárquico. É o reconhecimento do crescente papel destes meios e da sua importância na dinâmica que quer imprimir em Lisboa.»

 

Cristina Ferreira de Almeida: «Claro que, à hora a que saio de casa, já as meninas dos clubes dormem a sono solto e o meu Z3 amarelo fará uma triste figura abandonado no meio da avenida, mas sempre tiro a limpo a que horas é que a lei muda em Portugal.»

 

José Gomes André: «Quando se pensa que os debates no Parlamento já não podem descer mais, Manuel Pinho presenteia-nos com um gesto inenarrável, grotesco, fazendo uns "corninhos" com os dedos, na direcção de um deputado.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Será que Macário Correia se revê nos métodos desconcertantes de Alberto João Jardim, nas adjudicações às empresas dos companheiros do partido, no discurso boçal, nos ataques delirantes ao poder central, no insulto gratuito às instituições da República?»

 

Eu: «Vejo alguns minutos do debate do Estado da Nação. É quanto basta. José Sócrates, em vez de argumentos políticos, recorre ao insulto, como habitualmente, vergastando Paulo Portas e Francisco Louçã com as frases mais rasteiras: "aldrabice", "desonestidade", "mentira". Não há marketing que resista. Este homem não muda mesmo.»

Canções do século XXI (820)

por Pedro Correia, em 02.07.19

Chip Chip

por Maria Dulce Fernandes, em 01.07.19

 

Chipar ou não, eis a questão

 

21497174_DylTj.jpeg

 

Este ano, vou de férias levando pela primeira vez a minha neta comigo.

Dizer que vou com o credo na boca e já estou a sofrer por antecipação é pouco.

O meu marido, com todo o pragmatismo que sempre lhe assistiu, retorquiu meio ironicamente que poderia chipar a criança, à semelhança do que brevemente terei que fazer aos gatos, que sempre estiveram em casa e que servirá para rigorosamente nada, mas que parece que vai ser legislado em conformidade.

Esta situação traz-me à ideia uma outra, há muito, bem, há algum tempo atrás, tanto quanto cerca de 33 anos, não numa galáxia muito distante, mas já ali ao lado na Rua Duarte Pacheco Pereira, quando me escondi  por detrás de umas árvores a aguardar a partida da carrinha com destino à praia de Sto. Amaro de Oeiras no âmbito da acção escolar Praia e Campo, partindo seguidamente numa corrida desenfreada para a estação da CP de Algés, onde apanhei o comboio para a mesma localidade, apenas com o intuito de espiar.

Espiar, por Deus! Eu a espiar se a minha filha estava bem! Perguntam-me, e bem, se eu não tinha confiança nas educadoras, porque é que a deixei ir?

Porque iam todos. A garota ficaria destroçada se lhe negasse a Praia e Campo! E claro que tinha plena confiança nas educadoras, mas eram apenas três e uma auxiliar para 27 crianças!

Será isto o chamado instinto de maternidade levado ao exagero, ou apenas práticas controladoras de uma mente doentia?

É claro que a auxiliar deu comigo por detrás da banca que vendia panamás e fiquei de cara no chão. Tenho a vaga ideia de me ter furtado em ir ao colégio até ao fim das actividades lúdicas ou seja, até ao final do ano lectivo, não que isso esponjasse o sentimento de vergonha que me assolou.

Não tendo a minha neta idade para telemóveis e não é animalzinho de companhia para o dito chip, tem seguramente idade para uma pulseira GPS infantil.

Por outro lado, mesmo sendo o livre arbítrio coisa que não a assiste com esta idade, mesmo sendo muito opinativa e mais teimosa do que eu, não deixo de pensar que lhe estou a aplicar uma medida de coacção apenas porque quero estar mais sossegada e poder ter tempo de férias para mim também.

Hong Kong, China.

por Luís Menezes Leitão, em 01.07.19

mw-860.jpg

Lembro-me de ter visto uma anterior versão deste filme há precisamente trinta anos. E também me lembro de como é que terminou.

 

Xenofobia, misoginia, animalismo

por Pedro Correia, em 01.07.19

nietzsche_framed1.jpg

Nietzsche e o Cavalo, quadro de Eric Drass

 

Em 1889, Nietzsche vivia na praça Carlos Alberto, na cidade italiana de Turim. Nesse ano, viu ali um cocheiro a chicotear sem piedade um cavalo. Saiu em defesa do animal, abraçando-se a ele e beijando-o com fervor. O episódio, segundo rezam as crónicas, terá servido para atestar a propalada loucura do filósofo, pondo fim ao seu percurso público: a partir daí, e até à morte, ficou confinado aos muros de uma clínica para tratamento psiquiátrico, em Basileia.

Os tempos são outros: hoje ninguém considera louco quem possa beijar um bicho, até na boca, com as prováveis excepções de tarântulas ou jibóias. Mas sair em defesa de um animal maltratado pode custar uma carreira política, ainda que incipiente. Que o diga uma deputada municipal do PAN na Moita, forçada a resignar por ter feito esta observação no exercício das suas funções autárquicas: «Verifica-se que existe uma etnia que se multiplicou e que todos os dias se passeia pela Moita e arredores, [com os elementos] empilhados em cima de carroças puxadas por um único cavalo subnutrido, espancado, a desfazer-se em diarreias por não ser abeberado e alimentado sequer e que, por vezes, [cai] na via pública, não suportando mais.» Isto numa moção em que recomendava a identificação dos «detentores dos cavalos que se encontram abandonados, amarrados e sem alimento, no sentido de sensibilizar os mesmos para estes actos cruéis que levam os animais a situações de doença, exaustão e morte».

De nada lhe valeu o amor ao bicho vergastado, comprovando o seu zelo militante. Nem ter omitido o vocábulo "cigano". Aquelas palavras bastaram para configurar delito de opinião: foi acusada de xenofobia e viu o PAN retirar-lhe a confiança política num comunicado da Comissão Política Permanente que lamenta «profundamente a situação» e pede desculpa a todos os que se possam ter sentido «discriminados ou desidentificados com esta referência imprópria». Noutro contexto, talvez não faltassem acusações de sexismo e misogonia ao afastamento da senhora, que vê abortada a sua fugaz carreira política. Felizmente sem necessidade de internamento psiquiátrico.

Do animal escravizado e flagelado nunca mais ninguém falou - ao contrário do cavalo de Nietzsche, ainda lembrado 130 anos depois. «Até para se ser animal é preciso ter sorte», como dizia a minha avó. Jamais imaginando que haveria de existir um partido animalista em Portugal.

Afonso VI, pai de D. Teresa e avô de D. Afonso Henriques, morreu a 1 de Julho de 1109. Sabemos que se intitulava “imperador” por reger sobre três reinos, apesar de ter utilizado meios mais do que duvidosos para se apoderar das heranças dos irmãos. À morte do pai, D. Afonso VI teve apenas direito ao reino de Leão, pois D. Fernando I o Magno dividiu as suas posses pelos três filhos. Enquanto a rainha-mãe foi viva, os irmãos mantiveram-se sossegados. Mal ela fechou os olhos, porém, entraram em conflito. Sancho, o mais velho, seria assassinado, pensa-se que a mando do irmão Afonso, que assim se apoderou do reino de Castela. E acabaria por encarcerar o mais novo, Garcia, rei da Galiza, na fortaleza de Luna, situada numa região inóspita de fronteira com as Astúrias. Garcia viria a falecer depois de quase vinte anos de cárcere.

Afonso VI de Galiza, Leão e Castela.jpg

Afonso VI de Leão, Castela e Galiza. Imagem daqui, sem indicação de data e autor.

À altura da sua morte, Afonso VI tinha cerca de 62 anos e, apesar de ter sido um homem poderoso e temido, morreu amargurado, sobretudo, por não deixar herdeiro varão. Como referido num post anterior, o infante Sancho, filho da sua barregã moura e por ele legitimado, pereceu com apenas quinze anos na Batalha de Uclés, um ano antes do pai. O imperador reuniu então cortes em Toledo e declarou a filha Urraca sua herdeira universal, decisão que não pareceu agradar ao genro D. Henrique, pois é na sequência desta reunião que Afonso VI o expulsa da corte, considerando-o traidor. Tudo leva a crer que D. Henrique teria pretensões à coroa do sogro, ou pelo menos, à divisão da herança. Segundo José Mattoso, na sua biografia de Afonso Henriques (2007), o conde portucalense teria, então, encetado uma viagem à sua Borgonha natal, regressando cerca de um ano mais tarde, no Verão de 1109. É curioso notar que esta versão põe em causa a hipótese de o seu filho ter nascido em Viseu, a 9 de Agosto de 1109, pois, à altura em que teria de ser gerado (Novembro ou Dezembro de 1108) o pai, pelos vistos, não se encontrava por terras hispânicas.

Urraca I de Leão e Castela.jpg

Urraca I de Leão e Castela - Pintura de 1892/94 por José María Rodríguez de Losada

Estamos a falar de uma época em que mulheres não eram bem vistas à frente de um território e, sendo D. Urraca viúva, os nobres castelhanos exigiram, nas cortes de Toledo, que ela casasse. D. Afonso VI deu-lhes razão e logo os mesmos nobres se apressaram a fazer-lhe a corte. Não é difícil imaginar a grande agitação que se teria gerado à volta da herdeira mais cobiçada da Hispânia. Porém, só cerca de um ano mais tarde, no leito de morte, D. Afonso VI estipulou que sua filha desposasse o rei D. Afonso I de Aragão e Pamplona.

Urraca cumpriu a vontade de seu pai, mas, na verdade, o casamento foi um erro, um verdadeiro desastre, e acabou por ser anulado pela Igreja. Pensa-se inclusive que nunca teria sido consumado, o que leva a especulações sobre as preferências sexuais do rei aragonês, que era aliás um bravo guerreiro e ficou na História com o cognome de Batalhador. Contudo, apesar de ter tido vida longa e um reino para legar, só esteve casado meia dúzia de anos e não se lhe conhecem filhos ilegítimos, como era habitual entre os monarcas medievais.

Afonso I de Aragão, por Manuel Aguirre y Monsalbe

Afonso I de Aragão, por Manuel Aguirre y Monsalbe (1822–1856)

Enquanto foi casado com Urraca, Afonso de Aragão chegou a intitular-se “imperador”, à semelhança do sogro, mas a oposição de vários nobres castelhanos mergulhou o coração da Península Ibérica em combates sangrentos. D. Urraca tanto se posicionava do lado do marido, como apoiava os nobres castelhanos. Atitude semelhante tiveram, aliás, D. Henrique e D. Teresa, que oscilavam no seu apoio entre D. Urraca e o monarca aragonês. Trata-se de uma época confusa, sendo, hoje em dia, difícil de explicar o que levava os três a tanta indefinição, num conflito que haveria de provocar a morte de D. Henrique, em Abril de 1112.

Afonso VI morreu em Toledo, mas foi sepultado no mosteiro de Beneditinas de Sahagún, conforme seu desejo. Sendo as duas cidades separadas por cerca de 400 km, podemos imaginar quão penoso terá sido este cortejo fúnebre, naquele tempo, em pleno Verão. O funeral, em Sahagún, só se realizou a 21 de Julho.

O PAN que o Diabo amassou

por Rui Rocha, em 01.07.19

Era uma vez uma menina que vivia numa casinha em Pandora, a capital do país. Dois anos antes, em 2034, o governo de coligação entre o PAN, de André Silva, e o PS, de Paula César, tinha requisitado as mulheres com idade entre 30 e 35 anos para participarem na Grande Panificação, uma campanha destinada a erradicar a utilização de linguagem anti-animal por crianças e jovens. Expressões como “fazer figura de urso” tinham sido proibidas já em 2024, ainda durante o 2.º mandato do governo de Costa, o Magnífico, mas o partido Agro-Beto (antigo CDS) na clandestinidade tinha apelado à desobediência e, em zonas remotas do país, a sua utilização continuava. Agora, com a Grande Panificação, esperava-se resolver o problema de vez. A mãe da menina, chamada a participar nessa grandiosa tarefa, só ia a casa ao fim-de semana. Durante um tempo, o avô panterno da menina tinha vivido com eles, mas um vizinho com quem tinha criado certa animosidade acabara por denunciá-lo por blasfémia contra o Panteísmo, a religião oficial da República Pantuguesa. Julgado em processo sumário pelo Supremo Sacerdote Ivo Rosa, e apesar de negar ter proferido quaisquer ofensas contra o Deus Pug, o avô não tinha conseguido eliminar a presunção de culpabilidade e fora declarado Panasco (literalmente, aquele que mete asco ao PAN). Condenado, encontrava-se a cumprir pena de 3 anos no Panóptico, um estabelecimento de alta segurança situado em Panços de Ferreira. A condenação tinha sido publicada no Panfleto, o jornal digital oficial da República, e o respectivo texto afixado na porta da casa da menina, para vexame dos que ali moravam e de cada um que ali passasse, incluído o vizinho denunciante que, em todo o caso, acabara por ingressar também ele no Panóptico, na sequência de uma denúncia de um colega de trabalho. O pai da menina, por seu lado, saía de madrugada e nunca chegava antes das 10 da noite. Trabalhava no turno da manhã na apanha manual da azeitona (a colheita mecânica fora proibida em 2022) e, no turno da tarde, no Pombal Contraceptivo da Câmara Municipal de Pandora (antiga Lisboa). O dia da menina começava sempre cedo. Logo pelas sete soavam as sirenes que marcavam o início da jornada. Como todas as crianças, durante meia-hora, em jejum, entoava o Panegírico, uma ode à liderança de André Silva e às façanhas dos Deuses Pug, Pinscher e Poodle e um esconjuro contra as tentações do Pandemónio. Depois, era a hora de tomar a Panaceia (o comprimido homeopático para prevenir calos, joanetes, afrontamentos e bicos de papagaio) e a bebida de beterraba, hortelã e sementes de linhaça. Às 8 ligava a televisão para assistir na Pantalha (o canal único de televisão) às sessões formativas que tinham substituído a frequência da escola. A aquisição de conhecimentos era avaliada pelos Espantalhos, os funcionários que tinham sucedido aos professores, através de uma prova online com periodicidade mensal. Apesar de não se dar mal na disciplina de Biodança, a menina tinha apetência especial para a matéria de Tosas e Tosquias. Normalmente, concluídos os estudos, e depois de almoçar o prato diário de tofu, a menina teria passado a tarde a assistir à Pantomina, o programa de entretenimento conduzido pelas Irmãs Mortágua e Rita Ferro Rodrigues. Mas a avó materna da menina estava doente e era preciso levar-lhe o almoço. A menina, a quem chamavam Capuchinho Vermelho, pegou na sua capinha e chamou a cadela Beagle para a acompanhar uma vez que os humanos estavam proibidos de sair de casa sem a companhia de um animal não humano senciente. Desceram a rua, passaram pelo Panteão, última morada de heróis como Camilo Mortágua e Boaventura Sousa Santos, e dirigiram-se à floresta. No caminho, encontraram um lobo que perguntou onde iam. A menina explicou-lhe e o lobo correu para a casa da avó, chegou primeiro, comeu a avó, pôs a touquinha e enfiou-se na cama. Quando a menina chegou, apercebeu-se que a avó tinha umas mãos, uns olhos e uma boca muito grandes. Fez-lhe aquelas perguntas todas e, quando chegou à da boca, o lobo respondeu “é para te comer”, saltou da cama, comeu a menina e adormeceu. Um soldado da GNR que passava por ali, entrou, viu o lobo a dormir e lembrou-se que este podia ter comido a avó. Preparava-se para cortar a barriga do lobo quando apareceram 3 utilizadores do Facebook que o impediram: que não, que era preciso perceber se o lobo não teria justificação para proceder daquela maneira. Exigiram a elaboração de um relatório de integração social, um levantamento de condições económicas e oportunidades de vida, uma análise exaustiva da infância do lobo e diversas outras perícias. Fizeram uma petição que exigia a punição do soldado da GNR pelo crime de maus tratos na forma tentada. Graças à intervenção dos três utilizadores do Facebook, o lobo passou a viver na casa da avozinha, tendo direito a quatro refeições quentes diárias, visita semanal do veterinário e corte periódico de unhas. O soldado da GNR foi julgado e, com a excelente defesa de um advogado que uns anos antes ficara célebre durante a audição para lamentar de Joe Berado, foi condenado apenas a 20 anos de exílio numa reserva de ursos do Quebeque. A cadela Beagle, essa viveu feliz para sempre.

 

* publicado na edição de Junho do jornal Dia 15.

Lavouradas da semana

por Pedro Correia, em 01.07.19

21377337_nD3fU.jpeg

 

«Há gente a mais nos países subdesenvolvidos. Muito especialmente, há crianças a mais. Quando a vida humana existe em excesso, tal como qualquer produto que existe em excesso, perde valor.»

 

«Nesse tempo (1960) havia uma perce[p]ção bem diferente do valor da vida humana daquela que há hoje. A natalidade e a mortalidade eram muito maiores e, por isso, a vida humana tinha muito menos valor, na perce[p]ção das pessoas, do que tem hoje.»

 

«Claro que a prostituição é trabalho. É a prestação de um serviço em troca de dinheiro. É um trabalho como qualquer outro.»

(E/I)Migrantes

por jpt, em 01.07.19

Há alguns anos Pedro Abrunhosa apresentou esta canção, dedicada aos portugueses que emigravam. Serviu, e também através do próprio compositor, para criticar o governo de então, e em particular o PM Passos Coelho. Governando sob o espartilho dos compromissos internacionais foi-lhes, a governo e seu primeiro-ministro, apontada a responsabilidade directa pela emigração. Correndo, de forma constante, o dito que Passos Coelho  mesmo a ela apelava. Sublinho: foi afirmada, constantemente, a responsabilidade directa e primordial do governo português no processo de emigração dos nossos compatriotas.

O que não espantará quem tenha algum interesse sobre a história portuguesa recente: os fluxos migratórios dos décadas de 1950 e 1960, para a Europa e África, e também para a América do Norte, são imputados às responsabilidades do Estado Novo, e ao seu grande vulto, Salazar. Tanto pela sua política de povoamento colonial como pelo estado subdesenvolvido da socioeconomia nacional.

Olho para a fotografia que corre mundo, o pai salvadorenho afogado com a sua filha de dois anos no Rio Grande, durante a tentativa de entrar nos EUA. Comovo-me (como não?), e de forma redobrada, pois também pai de uma filha. Que pesadelo, a sublinhar o pesar com as questões sociológicas que um drama destes denota.

Mas, e mais uma vez, noto algo paradoxal: os mesmos que promoveram e seguiram a concepção abrunhosista da história portuguesa, que invectivaram Passos Coelho, são aqueles que esquecem por completo a origem dos desgraçados afogados. Como se estes oriundos de uma selva primeva, anómica, alheia à ordem cultural e à Política. E, em assim sendo, como se as responsabilidades políticas sobre isto residam, exclusivamente, no destino procurado e não na origem dos migrantes.

Exactamente ao contrário do que pensa(ra)m e agita(ra)m sobre Portugal. É uma interpretação dos factos que denota uma mundividência. Racista, incompetente. E aldrabona. E, acima de tudo, tão medíocre como o raio da cançoneta demagógica.

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 01.07.19

250x (5).jpg

 

Se Esta Rua Falasse, de James Baldwin

Tradução de José Mário Silva

Romance

(edição Alfaguara, 2018)

Tags:

Blogue da semana

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.07.19

Não me recordo se já alguma vez mereceu aqui destaque. É há muito tempo um dos meus preferidos, até porque considero que o cartoon é uma arte maior do nosso tempo. Das mais difíceis a mais subtil. O retrato do quotidiano em traços largos e mordazes, o pormenor que muitas vezes passa despercebido, o sentido crítico, a irreverência, o humor, a inteligência descomprometida, o exercício da cidadania sob um prisma diferente. Da política ao desporto, nele tudo tem lugar. O HenriCartoon é a minha escolha desta semana.

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 01.07.19

39b608e95118d5d9c8efc36c2a387b46--hourglass-top.jp

 

Jorge Assunção: «O reavivar das receitas extraordinárias de Ferreira Leite é benéfico porque, a bem da verdade, julgo que fará por recordar o que esteve na origem das mesmas: um pequeno problema de défice excessivo que o governo socialista de António Guterres, onde Sócrates era figura de cartaz, nos deixou. Problema menor que em nove anos, seis dos quais com os socialistas no poder, ainda está por resolver.»

 

José Gomes André: «Por estes dias tenho lido Dietrich Schwanitz e o seu aclamado Cultura. É um livro curioso, uma espécie de mini-enciclopédia, onde o autor resume os grandes acontecimentos históricos, os grandes livros, as grandes obras de arte, enfim, os principais elementos da nossa herança cultural.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Não sei se há favores legítimos quando estamos a falar de política e da coisa pública, mas é evidente que o ambiente democrático tem sido conspurcado de forma absolutamente inaudita.»

 

Eu«Alguns, por cá, continuam a defender e justificar a corrupção política vigente na chamada "República Islâmica" do Irão, que perverte em simultâneo os ideais islâmicos e o próprio conceito de república. Com a mesma lógica que usaram para aplaudir cegamente as ditaduras comunistas da Europa de Leste no tempo da Guerra Fria: tudo quanto merecia reprovação dos Estados Unidos justificava o aplauso pró-soviético.»

Canções do século XXI (819)

por Pedro Correia, em 01.07.19

Pág. 11/11



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D