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DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 16.06.19

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Jorge Assunção: «Na comparação com igual período do ano passado, o número de dormidas aumentou, mas os proveitos diminuíram. Para Junho a situação não deverá ser diferente. Afinal de contas, as pessoas talvez adoptem comportamentos típicos para um país em crise.»

 

José Gomes André: «Agora que o Bloco de Esquerda se vê a si mesmo como um partido sério, valeria a pena conhecer verdadeiramente o seu programa político. Estou a falar de posições concretas, e não das vacuidades que habitam o seu site e o habitual lema "partido contra-poder".»

 

Paulo Gorjão: «Uma vez mais, a sintonia entre Aníbal Cavaco Silva e Manuela Ferreira Leite é indisfarçável.»

 

Eu: «Expressões que detesto (13): "Família afectiva".»

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (11)

por Maria Dulce Fernandes, em 16.06.19

Ser belo

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A beleza não é essencial à vista, diz o escritor, mas também é certo que o povo é sábio quando afirma que os olhos também comem... aliás as primeiras impressões, nem sempre são as mais correctas , mas são as que se encontram em primeiro lugar no pódium das considerações que tecemos durante a fugaz lonjura dos dias da nossas vidas.
 
Os teóricos do caos falam do efeito borboleta como o princípio de um encandear de situações que poderá levar à aniquilação total e de como a  fragilidade de uma simples variável adaptada a sistemas dinâmicos e complexos pode influenciar as não-linearidades do conhecimento.
 
Falo do efeito borboleta como um instável mas constante procurar pela exaltação do sublime, numa transformação do grotesco no belo, na apoteose da leve magnificência de um ser efémero que só deixa a suave marca da sua infinita beleza,  num mimetismo polifórmico num mar flutuante de cor.
 
Qualquer um é a lagarta que tece o casulo e se resguarda , que espera pacientemente na crisálida que da pupa  aconteça o imago, que aguarda resignadamente a lenta metamorfose, para num apoteótico clímax de fascínio, mostrar ao mundo o  encanto e a majestade em todo o seu esplendor.
 
É com borboletas no estômago e alegria na alma que nos deslumbramos com a grandiosidade do frágil encanto. Prende-se-nos o olhar e a respiração, sentimo-nos sufocar e deixamo-nos ir,  desvanecendo com os sentidos, enquanto uma voz do fundo dos tempos nos ecoa e aturde, como um alfinete embebido em éter " Quid pro quo, Clarice, quid pro quo".
 
 ( Foto da internet)

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Pensamento da semana

por Teresa Ribeiro, em 16.06.19

A causa animal alimenta-se, em boa parte, do desapontamento face à raça humana.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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Canções do século XXI (804)

por Pedro Correia, em 16.06.19

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Leituras

por Pedro Correia, em 15.06.19

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«Substituímos a crença por aquilo que consideramos conhecimento e descobrimos que ainda não sabemos o suficiente para que a substituição dê resultado.»

Richard Martin Stern, A Torre do Infernop. 288

Ed. Círculo de Leitores, 1976. Tradução de Daniel Augusto Gonçalves

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A morte do jornalismo desportivo

por jpt, em 15.06.19

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Escolho o "Record" porque é o jornal desportivo que mais frequento. Pois este jornal não monopoliza a deriva - ainda que seja o que mais nela se embrenha, comparativamente ao "O Jogo" ou mesmo ao "A Bola". 

Escrevo às 17.34 (daqui) de hoje. O sítio do "Record" apresenta-se neste estado (tudo notícias com fotos chamativas): 2ª notícia: as vestes do casamento do capitão do Real Madrid, Sérgio Ramos; 4ª notícia: declarações do pai da mulher que acusou Neymar de violação; 5ª notícia: férias do jogador do Benfica Ruben Dias, foto da namorada anunciando que ela "mostra tudo" (um tópico nos títulos do jornal); 6ª notícia: o estado de espírito de uma adepta fervorosa (e com generoso colo, como antes se dizia, bem iconografado) dos Golden State Warriors, clube de basquetebol americano; 7ª notícia: um jogador da Juventus mostrou uma mulher na sua cama; 8ª notícia: as regras para o vestuário e comportamento no casamento do capitão do Real Madrid; 10ª notícia: sobre a divulgação de imagens da mulher que acusa Neymar de violação; 11ª notícia: a reacção da namorada de Ruben Dias a uma partida que ele lhe fez; 16ª notícia: as imagens do casamento de Sérgio Oliveira, jogador do F.C. Porto; 19ª notícia: desenvolvimentos sobre a acusação a Cristiano Ronaldo de ter violado uma prostituta americana; 20ª notícia: a lista de convidados do casamento do capitão do Real Madrid; 21ª notícia: o advogado da mulher que acusa Neymar de a ter violado; 22ª notícia: uma rapariga muito magra mas com par de mamas bem constituído, dita Júlia Palha, num barco de recreio em bikini; 23ª notícia: fotogaleria dos convidados ao casamento do capitão do Real Madrid; 24ª notícia: uma rapariga voluptuosa em lingerie provocatória sob o título "Bastou alguém chamar-lhe Barbie e o nome pegou"; 25ª notícia: bis, fotogaleria em que a namorada do benfiquista Ruben Dias "mostra tudo"; 27ª notícia: namorada do futebolista Cédric, voluptuosa na piscina, mostra como foi a sua despedida de solteiro; 28ª notícia: as imagens do casamento de Simeone, treinador do Atlético de Madrid; 29ª notícia: fotos das férias dos craques, anunciada com um tipo debruçado sobre uma tipa, em trajes menores; ...

Valerá a pena a continuar? É necessário armar um texto com laivos de semiólogo? Ou basta este rol para provar que aquilo morreu? E fede? (Ainda que as garotas que costumam aparecer tenham, sempre, fartas mamas - lembro que não é ordinarice, é assim que se diz correctamente - e curvas apreciáveis).

 

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Postais da Feira (3)

por Pedro Correia, em 15.06.19

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A Feira do Livro encerra amanhã em Lisboa. Este ano fui lá quatro vezes, cumprindo um ritual antigo que renovo sempre com gosto. Pela atmosfera aprazível, pelo convívio, pelo passeio ao ar livre, pelas pechinchas (Evelyn Waugh e Martin Amis a dois euros o exemplar, caramba), pelas boas surpresas (Jorge Silva Melo a recitar Sophia, Jeffrey Archer a conceder-me um jovial autógrafo, o Joel Neto a lembrar-se de que ainda me deve um texto para o DELITO), pela sensação cíclica de regresso à adolescência, com quase tudo muito diferente mas algumas coisas espantosamente iguais (o pavilhão da Minerva, por exemplo).

Venho também pelo panorama. Soberbo, magnífico, incomparável. Uma das paisagens da minha vida. Nunca me canso de observar esta vista de Lisboa, com o Tejo azul lá ao fundo e a Outra Banda em vigília perpétua ao rio que nunca deixou de fascinar poetas, pintores e músicos. 

Houve uma época em que quiseram tirar daqui a Feira. Porque há dias com chuva, porque o vento às vezes é incómodo, porque há quem se canse de subir a ladeira, porque «não dá jeito» ir ao Parque. Pretendiam instalá-la num recinto qualquer, à porta fechada, sem ar livre nem luz solar. Ainda bem que o dislate não foi avante. Ainda bem que a cada mês de Junho regressamos ao local que no tempo de Eça de Queiroz se chamava Vale de Pereiro e era composto de terras de semeadura, quintas e olivais. 

«Aqui e além um arbusto encolhia na aragem a sua folhagem pálida e rara. E ao fundo a colina verde, salpicada de árvores, os terrenos de Vale de Pereiro, punham um brusco remate campestre àquele curto rompante de luxo barato – que partira para transformar a velha cidade, e estacara logo com o fôlego curto, entre montes de cascalho», anota o grande escritor na sua obra-prima, Os Maias.

Se ainda por cá andasse, nestes incomparáveis dias da festa do livro, aposto que ele gostaria tanto de percorrer as alamedas do Parque como qualquer de nós.

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O medo

por Maria Dulce Fernandes, em 15.06.19

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Não é fácil amares o medo.
O medo é devastador, esconde-se no toque húmido de uma carícia, numa lágrima que rola, num beijo molhado, na troca de prazeres selvagens e desprotegidos, numa folha de papel afiada que faz verter uma gota carmesim.
O medo destrói. Mergulha nos teus fluidos ondulantes, insidioso e vil, acoita-se e desenvolve, cresce imundo e letal no teu seio. Aniquila de dentro para fora, mudo e traiçoeiro, até ser tarde demais.
Então ficas só. Isolada do mundo no mundo do medo.
Tens medo, aquele medo que não tem panaceia nem cura. Queres fugir, mas o medo não te permite sair do casulo de clausura a que foste votada, aquela cela estéril onde vives só, só tu e o teu medo. A humanidade, lá fora, ficou dentro de uma bolha hermética cujo toque não te toca, por não lhe poderes tocar.
O desespero enovela-se-te nas cordas de onde a voz não desata nem sai. 
No fogo da tua memória, sessões contínuas do filme da tua vida fogem da palavra fim.
O medo levou-te a força, mas a vontade resiste. Até quando, não sabes. Sentes a dissolução da carnadura, mas o espírito, esse lutará sempre aferrado com unhas e dentes ao medo que o quer destruir, porque aprender o medo é poder amá-lo e sobreviver.
 
Para o J. Saraiva, que perdeu a guerra contra o Medo há precisamente 25 anos.
 
(Foto da Internet)

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50 anos de Woodstock (em Agosto)

por Marta Spínola, em 15.06.19
Eu não contei, mas conto agora, que um dia destes vi o documentário de Michael Wadleigh (cuja edição tem também mão de Martin Scorsese) sobre Woodstock, que teve três nomeações e ganhou o Oscar para melhor documentário em 1970. Não tinha expectativas altas nem baixas, como muita gente, sabia vagamente quem passou pelo palco, e que tinha havido lama, droga e banhos de rio. Felizmente fui surpreendida. 

Senti-me transportada até ao recinto, numa quinta em Bethel, a norte de Nova Iorque. Uma ideia de dois miúdos que podia ter corrido tão mal, onde eram esperadas 50 mil pessoas e apareceram 400 mil (um milhão contando com os arredores), mas com apelos de peace and love constantes, lá se foi dando. Bravo, gerações de 50 e 60. 

Uma chuvada e tanta gente ensopada, a lama do dia seguinte, é claro que tinha de haver banhos de rio a seguir (e antes e durante). 

E o público. Miúdos, graúdos, bebés. A população local, ao contrário de nos filmes, compreensiva com os miúdos, conformada com a invasão e a escassez pontual de alimentos. Pais com um filho no festival outro no Vietname, serenos com toda aquela gente em redor. 

Ver Santana quase menino, rever os gestos de Joe Cocker - só o conheci bem mais tarde, mas os movimentos eram os mesmos -, Roger Daltrey (sempre com Pete Townshend numa perfeita liderança a dois), o único homem do Rock que deu dignidade a caracóis. Ainda Janis Joplin, Jimi Hendrix, Joan Baez, Jefferson Airplane, Richie Havens, Ravi Shankar, Arlo Guthrie, Cannes Heat, Ten Years After, Crosby Stills Nash & Young são nomes a ver e ouvir no documentário. 

Admito que, nascida quase dez anos depois de acontecer, a minha ideia de Woodstock reflectia algum first world drama, mas acreditem quando vos digo que um dos pontos altos é a eficácia na limpeza das casas de banho portáteis em 1969. Nem sei se nos dias de hoje é assim por cá, mas há 50 anos não era certamente, estávamos bem longe destas andanças, com outros dias, outros tempos em mãos. Outro exemplo é a resolução imediata e local de problemas como alimentar toda a gente. É possível que se tenha passado fome, mas houve passos dados para pelo menos remediar isso, sem dúvida. Ninguém estava só por si ali. 

O melhor de tudo: ver na assistência do CCB (minha mãe incluída), maioritariamente acima dos 60 anos, cabeças a abanar acompanhando o rock que cá chegava e viviam tão intensamente noutro tempo. Adorei. Acho que amo Woodstock afinal. Peace!

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 15.06.19

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O Adversário, de Emmanuel Carrère

Tradução de Ana Cardoso Pires

"Romance de não-ficção"

(reedição Tinta da China, 2019)

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DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 15.06.19

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João Carvalho: «Tem-se acentuado de há uns anos para cá: à medida que o linguajar empobrece, as pessoas tendem a dizer todas as mesmas coisas com as mesmas palavras. Já não é um mero problema de "moda", mas sim de escandalosa falta de vocabulário. Fruto, necessariamente, de estarmos a criar gerações com mais habilitações e menos conhecimentos.»

 

José Gomes André: «Não sou de fazer grandes previsões, mas suspeito que se os socialistas continuarem a tomar os eleitores por parvos, terão mais uma desilusão eleitoral muito em breve.»

 

Leonor Barros: «Deixei Eulálio ontem à noite mas continua comigo, o velho Eulálio d’ Assumpção, Lalinho, Lálá, Lilico, a prova evidente de que Leite Derramado vale a pena.»

 

Paulo Gorjão: «Há algumas personagens que insistem em não perceber que o problema está na substância, ou na sua ausência e não propriamente no papel de embrulho. Continuam entretidos com o acessório, ignorando o essencial. Depois a culpa é do burro do eleitorado que não os percebe.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «A unidade e a unanimidade acrítica em torno de um líder que conseguiu tornar-se fraco – não convém ter ilusões – e que se deu (e cedeu) ao flanco, não o torna forte. Os membros da direcção política nacional do PS tinham obrigação de ser os primeiros a perceberem isso e a transmiti-lo a José Sócrates.»

 

Teresa Ribeiro: «A diferença entre o espectáculo das eleições "democráticas" do Irão e isto é que ao primeiro falta a eficiência e o requinte que sobra ao que emana - de acordo com os fanáticos que o governam - da vontade de Deus.»

 

Eu: «Pacheco Pereira investe contra os habituais ódios de estimação, nomeadamente aquilo a que chama "jornalismo de rebanho". Mas investe sobretudo contra os ex-adversários internos de Manuela Ferreira Leite, escamoteando um relevante pormenor: a escassíssima margem de progressão do PSD nestas europeias exige um partido unido, sem fracturas, nos dois próximos actos eleitorais. Exige um partido com o discurso oposto ao de Pacheco.»

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Canções do século XXI (803)

por Pedro Correia, em 15.06.19

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Postais da Feira (2)

por Pedro Correia, em 14.06.19

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O livro do DELITO DE OPINIÃO em destaque no pavilhão da E-primatur - uma das chancelas editoriais com melhores capas no mercado livreiro português.

Estamos muito bem acompanhados, tendo por perto o icónico Portugal Contemporâneo, de Oliveira Martins.

 

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Política de A a Z, livro de que sou co-autor, à disposição do público no vasto quadrilátero do grupo Porto Editora. Tendo como vizinho, no andar de cima, um dos volumes de Álvaro Cunhal biografado por José Pacheco Pereira.

Hoje o tempo está enevoado, mas o sol brilhará para todos nós.

 

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Ainda no espaço da Porto Editora, o meu livro 2017 - As Frases do Ano, com chancela da Contraponto.

Deixo a fotografia só como forma de publicidade gratuita ao imprescindível Amar Depois de Amar-te, da Fátima Lopes, que está por cima, e ao imperdível Também Há Finais Felizes, da Fernanda Serrano, que está por baixo.

Salvo seja.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 14.06.19

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A Canção do Croupier do Mississípi e Outros Poemas, de Leopoldo María Panero

Tradução de Jorge Melícias

Antologia poética (1979-1994)

(edição bilingue Antígona, 2019)

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Belles toujours

por Pedro Correia, em 14.06.19

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Susanna Griso

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DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 14.06.19

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João Carvalho: «Portas abertas, o líder do CDS-PP deu uma entrevista intimista ao Expresso e disse que se sentiria muito feliz por ser pai. Parece não haver problema: o PSD começou logo a piscar-lhe o olho. Falta perceber o rebento que poderá sair do possível casório. À força e em segundas núpcias.»

 

José Gomes André: «Ficamos a saber que a Secretaria de Estado do Desporto atribuiu a Tiago Monteiro um milhão de euros para promover uma tal "Marca Portugal", numa competição onde o referido piloto nem chegou a participar. Um verdadeiro regabofe...»

 

Teresa Ribeiro: «Quando um partido de contrapoder atinge uma expressão eleitoral que lhe permite chegar ao poder, o que faz? Atrofia, ou começa subtilmente a adaptar o discurso à sua nova realidade?»

 

Eu: «Não acreditem nos relativistas morais. Ao contrário do que eles dizem, as fronteiras entre o bem e o mal não foram abolidas. Estão aí, à vista de todos. Só não vê quem não quer.»

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Canções do século XXI (802)

por Pedro Correia, em 14.06.19

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A cultura entre dois homens de espectro oposto

por João Pedro Pimenta, em 13.06.19

 

Ruben de Carvalho, que morreu há dois dias, era das personalidades mais interessantes cá da terra. Um comunista convicto e fiel ao partido (que exerceu funções de vereador em Setúbal e Lisboa, a cuja câmara concorreu, e de deputado), que esteve preso no tempo do Estado Novo, e um divulgador cultural muito influenciado pela cultura americana, em especial o jazz (tinha uma colecção gigantesca de discos), mas também pelo fado e pela música popular, e que há muitos anos era o responsável cultural da festa do Avante. A ele se deve, soube-o agora, a primeira actuação de Chico Buarque em Portugal. Tinha semanalmente um programa de debate na Antena 1, o Radicais Livres, com Jaime Nogueira Pinto - politicamente nos antípodas - que de vez em quando ouvia e que me divertia com as exclamações e dissertações daqueles dois homens que discorriam sobre tudo.

Curiosamente, no dia da sua morte, a RTP-2 exibiu um documentário sobre um dos políticos mais independentes e importantes dos últimos quarenta anos: Francisco Lucas Pires. Do nacionalismo revolucionário da Cidadela, ainda em Coimbra, ao europeísmo liberal, foi o primeiro a tentar trazer ideias liberais em voga nos anos oitenta a um país ainda fresco da revolução e do PREC, por via da liderança do CDS (que depois trocaria pelo PSD) e pelo seu grupo de Ofir. No governo da AD teve também a pasta da cultura, da qual, ao contrário de muitos que se proclamam "liberais", nunca desdenhou. É graças a ele que Serralves passou para as mãos do estado antes de se tornar na instituição que hoje é (embora Santana Lopes a tenha querido vender a Valentim Loureiro, coisa que felizmente não levou a cabo).


Ou seja, no mesmo dia exaltaram-se as virtudes de dois homens, um de esquerda comunista, outro de direita liberal, mas que muito fizeram pela cultura e que mereceram o respeito da comunidade. Um podia ter ficado mais uns anos, e o outro decididamente deixou-nos muito cedo.

Deixo à laia de homenagem dois vídeos em baixo: um é do tal documentário completo sobre Lucas Pires. Noutro apenas toca a Carvalhesa, aquela música originária dos planaltos transmontanos de Tuizelo, em Vinhais, recolhida por Giacometti, que Ruben de Carvalho adaptaria a banda sonora da festa do Avante e que se tornaria até hoje numa das mais felizes (e alegres) músicas políticas portuguesas, e cuja melodia saltitante deambula por aí em tempos de campanha eleitoral dos "camaradas" de Ruben.

 

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Ser turcófilo passou de moda

por Pedro Correia, em 13.06.19

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1

Ao contrário do que por vezes se imagina, a passagem do tempo costuma ser clemente para os políticos. Se assim não fosse, estaríamos em 2019 a escrutinar todos aqueles que durante anos andaram por cá a defender com fervor a integração da Turquia na União Europeia. 

Não precisamos de recuar muito. Na campanha para as eleições europeias de 2009, este tema esteve em debate. Com os cabeças de lista do PS e do PSD, Vital Moreira e Paulo Rangel, convergindo no apoio à adesão turca.

«A União Europeia só teria a ganhar com a integração de um país muçulmano e laico», declarou Vital Moreira durante essa campanha. Enquanto Paulo Rangel deixou claro: «Devemos apoiar os esforços de negociação entre a Turquia e a UE.»

 

2

Ainda mais longe neste entusiasmo andou o ex-Presidente da República Cavaco Silva. Que aproveitou precisamente uma visita de Estado realizada há dez anos à Turquia para garantir o «apoio integral de Portugal» no processo de adesão, possibilitando que a maior potência da Ásia Menor se tornasse «membro pleno» da UE.

Indiferente ao facto de se tratar de um país com mais de 70 milhões de habitantes, aliás na esmagadora maioria residentes fora do continente europeu (em termos geográficos, o centro-sul/sudeste da Trácia é a única parcela de território turco que faz parte da Europa).

Indiferente também à inevitável pressão demográfica desta adesão, que conduziria à quebra de salários e rendimentos dos trabalhadores assalariados no espaço comunitário.

 

3

Havia já suficientes sinais de alerta para que tais entusiasmos fossem travados. Desde logo, a ocupação ilegal de parte da ilha de Chipre por forças turcas, à revelia do direito internacional. Depois, o contínuo desrespeito da minoria curda residente em solo turco. Sem esquecer a preocupante aproximação do partido do primeiro-ministro (agora Presidente da República) Recep Erdogan ao integrismo islâmico.

Sabemos o que aconteceu desde então: a Turquia tornou-se um Estado autoritário, onde se multiplicam as violações dos direitos fundamentais dos seus cidadãos - incluindo severas restrições às liberdades de expressão, de reunião, de manifestação e de imprensa, acentuadas desde a alegada tentativa de golpe ocorrida em 2016, que serviu de pretexto a Erdogan para uma gigantesca purga no aparelho de Estado, além do silenciamento de incontáveis vozes incómodas no jornalismo turco. Enquanto se vai diluindo o regime laico implantado em 1923 por Ataturk. 

 

4

Tudo isto já é suficientemente grave com a Turquia fora da UE. Agora imaginemos se as teses turcófilas dos generosos políticos portugueses tivessem prevalecido dez anos atrás, escancarando as portas a Ancara: haveria hoje uma séria deriva ditatorial no segundo país mais populoso do espaço comunitário (logo após a Alemanha).

Felizmente os desígnios de Erdogan foram travados pela sábia Angela Merkel e pelo arguto Nicolas Sarkozy, que vetaram a adesão. Felizmente também para alguns políticos cá do burgo, a nossa memória colectiva é muito curta: cada vez somos menos com memória suficiente para pedir-lhes contas do que disseram e fizeram.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 13.06.19

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O Espião e o Traidor, de Ben MacIntyre

Tradução de Isabel Veríssimo

História real de espionagem

(edição D. Quixote, 2019)

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    142. N
    143. D