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No comboiozinho do Peixoto

por Pedro Correia, em 28.02.19

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Pedro "Abrantes" Marques, cabeça-de-lista do PS às europeias, fez parte do blogue socrático Câmara Corporativa.

 

Estátuas dos nossos reis (186)

por Pedro Correia, em 28.02.19

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D. Pedro IV (1826)

 

Autores: Joaquim da Costa Lima e Célestin Anatole Calmels

Ano da inauguração: 1866

Localização: Porto, na Praça da Liberdade

De novo o verde, o azul e o laranja (3)

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.02.19

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A parte de Bornéu que corresponde ao estado de Sabah tem a norte a vila de Kudat, a oeste Kota Kinabalu (KK) e as ilhas ocidentais. A sul fica a fronteira com Sarawak e o Bornéu indonésio, e a leste situam-se as cidades de Sandakan, Lahad Datu, Semporna e Tawau. Semporna é a porta de entrada no paraíso de Sipadan. O miolo da ilha é ocupado por florestas, montanhas, vales e constitui habitat de alguns dos mais extraordinários primatas.

O orangotango, o tal cujo ADN é em 97% igual a nós e capaz de fazer uso de ferramentas, continua a viver em liberdade, até ver, nas florestas de Bornéu. A sua população caiu drasticamente no século XX devido à caça ilegal. A situação é actualmente um pouco melhor devido à atenção dada pelos Governos locais e à presença de organizações internacionais viradas para a sua protecção e de outras espécies ameaçadas. Basicamente há três tipos de orangotangos nesta parte da ilha: o de nordeste, o de noroeste e o meridional. Só por si valem uma viagem. Na parte indonésia, em Kalimantan, e em Sarawak ainda é possível ver alguns exemplares, e nos últimos anos indivíduos criados em cativeiro têm sido restituídos ao seu habitat natural.

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Outra espécie endémica é a do macaco-narigudo ou Proboscis. Muitos vivem em zonas ribeirinhas, ao longo dos rios que marcam a geografia da ilha, repartindo as árvores com uma imensidão de pássaros, alguns da família, digo eu pelo seu aspecto, das araras, catatuas e papagaios, com cores vivas, mas cujos nomes não registei.

A oferta hoteleira, como em quase toda a Malásia, país desde há muitos anos virado para o “turismo de qualidade”, é em geral boa a nível de infra-estruturas e instalações. As grandes cadeias internacionais estão lá, embora haja também grupos locais, com instalações de muito boa qualidade e um serviço que normalmente é bom.

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O povo de Sabah é extremamente prestável, educado e simpático, recebendo os portugueses com muito apreço. Para além de Ronaldo, Figo, Bernardo Silva (os jogos do City e do Man. United são seguidos em esplanadas apinhadas) e mais alguns compatriotas, como o vice-campeão do mundo de Moto2, o nosso Miguel Oliveira, que rodava por esses dias em Sepang, registei o dia em que apanhei um Grab, a versão local da Uber, cujo motorista, muçulmano, ao saber que os passageiros eram de Portugal, disparou um sonoro “1511, Afonso de Albuquerque, have you ever been in Malaca?”.

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Seja por influência de Albuquerque ou não — consta que os holandeses deixaram muito pior memória —, certo é que se nota uma influência profunda do catolicismo. Ao longo das estradas sucedem-se nas vilas e aldeolas as tabuletas com a indicação de pequenas igrejas, não falo de uma ou duas, mas de largas dezenas, todas com nomes de santos que nunca se repetem, e placas alusivas, por vezes ao lado umas das outras, apontando em diferentes direcções, havendo uma devoção grande a Maria. Confesso que não me apercebi anteriormente de nada disto, o que não deixa de ser curioso sendo a Malásia uma federação de estados islâmicos. Bem sei que estou numa zona mais remota, de acesso mais difícil, longe da península, mas também vi vacas nalguns locais passeando-se calmamente, como se estivessem na Índia ou no Nepal, inclusivamente à beira das praias.

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Tirando as ilhas mais distantes e sem condições, por tradição come-se bem por estas bandas. Porco é que não. Nem vê-lo. E mesmo num hotel como o Le Méridien havia um aviso bem explícito dizendo que não serviam porco nem seus derivados. Ao pequeno-almoço havia um sucedâneo do tradicional "bacon", creio que feito de aves; as salsichas e carnes frias também eram do mesmo clube. Uma tragédia rapidamente ignorada e ultrapassada.

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Em KK há restaurantes para todas as bolsas. O vinho é carote, normalmente do Chile,  Argentina, Austrália, EUA ou Itália. Português nem vê-lo. A oferta existente é muito razoável, e se voltar a KK, para além dos restaurantes de alguns hotéis, são de reter o esplêndido Il Gusto, de um siciliano criado em Milão e que há trinta anos vai abrindo e fechando restaurantes pelo sudeste asiático, cujo carpaccio de atum é divinal, o Landróluxe, este no Api-Api Centre, senhor de um magnífico “lobster bisque” e de uns raviolis de caranguejo e camarão que provei e ficaram nas papilas da minha parceira, e o indiano Mother India, no novíssimo Oceanus, junto ao passeio marítimo. Há também um mexicano, o El Centro, a atirar para a tasca, com bons tacos, óptimos brownies com gelado e cerveja gelada, muito frequentado por expatriados. Quanto aos comes fica ainda uma palavra para o Restoran Sri Melaka, onde é possível saborear, para além do tradicional “rendang beef” (uma espécie de carne de cozer de vaca estufada com especiarias), um prato típico conhecido como “assam pelas”, que pode ser de camarão ou de peixe (há quem também o faça de carne). Trata-se de uma espécie de caril dos ditos com vegetais, acompanhado com arroz branco.

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Quanto ao mais, a cidade de KK tem alguns parques, muitos mercados e feiras, pequenas galerias de arte, uma esplêndida marginal com uma zona pedonal frequentada por novos, velhos e amantes da corrida, de manhã à noite. Nas imediações fica uma das duas grandes mesquitas, havendo ainda dois museus, etnográfico e marinho, além de um edifício pioneiro que é venerado por muitos arquitectos, com a estrutura assente numa única coluna, todo em aço e vidro, e que alberga a biblioteca do Centro de Estudos do Bornéu. Há ainda um comboio muito interessante, que só funciona às quartas e sábados, e que faz uma viagem ao passado colonial, quando havia plantações de borracha e de café no interior, as quais só eram acessíveis recorrendo ao North Borneo Railway. As termas sulfurosas a 40 km de KK, recomendadas para diversas maleitas, são normalmente inundadas por locais e turistas chineses, e o Sabah Tea Garden, um tesouro que produz um dos poucos chás orgânicos do mundo (dizem os prospectos), onde se podem fazer pequenos trekkings e ver miríades de insectos num passeio nocturno são outros atractivos.

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A última nota que vos deixo é uma recomendação: se fizerem tenção de se aventurarem para estas terras não venham sem pulseiras anti-mosquito, repelentes para pulverizar extensivamente pés, pernas e braços, loções do tipo “Caladryl”, com que a minha Mãe me massajava na infância, ou anti-histamínicos tópicos. As picadas por vezes são muito incomodativas e em especial ao pôr-do-sol, nalguns locais mais próximos da água, logo à porta dos hotéis, e nalgumas praias (Pantai Dalit, por exemplo, onde fica o Shangri-La Rasa Ria Resort é lindíssima, mas quando saí de lá parecia que tinha uma porção de Emmental aquecido colada à testa, tal foi o banquete durante a curtíssima sesta) somos atacados por verdadeiros esquadrões de combate. Não vale a pena arriscar.

E boas viagens. Porque como alguém dizia quando eu era pequeno, espartana e filosoficamente, "lembra-te que no dia em que partires só há três coisas que não te tiram: o que leste, o que comeste e o que viajaste." Podia acrescentar mais duas ou três, mas para o que interessa estas são quanto basta.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 28.02.19

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Os Cinco Pilares da PIDE, de Irene Flunser Pimentel

Investigação histórica

(edição A Esfera dos Livros, 2018)

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Canções do século XXI (696)

por Pedro Correia, em 28.02.19

Frases de 2019 (6)

por Pedro Correia, em 27.02.19

 

«O candidato do CDS [às europeias, Nuno Melo] é exactamente o estilo do pior de um certo tipo de política em Portugal. (...) É uma espécie de senhorito. (...) [Maria Manuel Leitão Marques, candidata do PS] é uma excelente escolha.»

José Pacheco Pereira, militante do PSD e comentador político, no programa Circulatura (sic!) do Quadrado, da TVI 24 (21 de Fevereiro)

Estátuas dos nossos reis (185)

por Pedro Correia, em 27.02.19

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D. Pedro IV (1826)

 

Autor: Louis Rochet

Ano da inauguração: 1862

Localização: Rio de Janeiro, na Praça Tiradentes

De novo o verde, o azul e o laranja (2)

por Sérgio de Almeida Correia, em 27.02.19

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Um dos aspectos que mais negativamente me impressionou nos percursos de barco, durante as imersões, em praias de ilhas praticamente desertas e nos percursos que fiz pelo interior dessas ilhas foi a quantidade de lixo, em especial plásticos, caixas de esferovite e latas, espalhado por esses locais. Em geral, tratam-se de materiais de fácil recolha, muitos arrastados pelas marés e vindo de outras paragens. No leito do mar e próximo de bancos de coral também vi aparelhos de pesca e redes semi-desfeitas.

Creio que foi em Mamutik que demos de caras com um esgoto rudimentar a céu aberto, construído a partir de duas latrinas, com chuveiros anexos de apoio aos mergulhadores e banhistas, esgoto esse que dava directamente para uma praia. Os líquidos e sólidos saiam da tubagem de plástico e seguiam areal fora, por aquela cama lisa, macia e tão branca que de tão fina parecia farinha de trigo. Sem obstáculos e em via aberta para o mar. A este propósito foi tirada uma fotografia e apresentada uma reclamação junto do departamento oficial competente. A responsável que a recebeu ficou bastante incomodada, mas os guardas da ilha estavam perfeitamente ao corrente da situação. Estou curioso em saber qual o andamento que foi dado ao assunto e cuja resposta ainda aguardo. 

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Jacques Cousteau, o oceanógrafo que passou muitos meses com o Calypso por estes mares e desvendou Sipadan ao mundo, não teria certamente gostado de ver o que encontrei: muito coral destruído e menos espécies do que aquelas que esperava. A inclemência dos temporais que ciclicamente assolam estas paragens responderá por uma parte, mas o grosso da destruição deve-se a nós, humanos, às dezenas de barcos que circulam a alta velocidade, apinhados de turistas, sem qualquer cuidado em zonas baixas, fazendo tangentes aos corais, assustando a fauna toda. 

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Naturalmente que não é possível estabelecer comparações com o que se alcança nos mares europeus, com excepção de alguns locais mais remotos dos Açores, mas estabelecendo um paralelo com outros locais de mergulho, mesmo na Malásia, nas Filipinas, na Indonésia, em Palau ou na Polinésia francesa, era de esperar muito mais. Desconheço como estará a situação em Tiga, Layang-Layang, Lankayan ou Kapalai, do outro lado da ilha, perto de Semporna, mas tenho esperança de que esteja melhor. Pode ser que em breve regresse para confirmá-lo. O Tunku Abdul Rahman Park está demasiado perto da costa de Bornéu e isso também torna fácil o acesso de excursionistas mais preocupados em se exibirem e tirarem fotos aos seus óculos e chapéus do que à natureza.

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O mar será sempre o mar e a sua resistência aos nossos desmandos é grande. A natureza também em regra é generosa. Todavia, há limites. Neste caso penso que já os ultrapassámos todos. O Governo de Sabah tem procurado fazer a sua parte na manutenção da fauna, da flora e de um ambiente ecologicamente saudável, mas exige-se uma outra cultura e uma outra relação dos humanos com a natureza.

Penso que quem vai até paragens como estas tem o dever de alertar as autoridades locais para a necessidade de preservação dos ambientes marinhos. O turismo de massas tem aberto muitos horizontes, só que, concomitantemente,  tem contribuído para a destruição de muitos locais, outrora verdadeiros santuários. E para mal dos meus pecados tenho sido uma das testemunhas do descalabro.

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No interior da ilha de Bornéu a situação pareceu-me bem melhor. À medida que nos afastamos de KK vêem-se menos excursões. Longe do centro não há lojas, as estradas estarão ao nível das nossas regionais e florestais, longe das vias principais, e isso acaba por demover muitos de aí se deslocarem. Há quem aproveite os muitos passeios organizados por operadores de eco-turismo, normalmente empresários jovens com formação superior. É possível ir em jeeps 4x4, descer alguns rios (Kiulu, Kadamaian e Padas) fazendo rafting, escalada ou percorrendo os trilhos ao longo dos dias até se chegar ao topo da montanha. Em Bornéu é fácil e acessível o aluguer de um carro ou de uma mota, mas o ideal é mesmo ter um natural da terra, conhecedor dos sítios, da sua história e geografia para nos acompanhar pelos acessos. Esta foi também a escolha que fizemos para nos aventurarmos pelo interior.

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A fauna e a flora são riquíssimas valendo a pena visitar os parques nacionais. O Kinabalu Park é um deles. Cobrindo uma área de 750 km quadrados, foi fundado em 1964 e constitui património mundial classificado.

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Nele estão catalogadas mais de 800 espécies de orquídeas, das mais variadas cores, tamanhos e feitios, das mais minúsculas e nascendo nos lugares mais estranhos, às maiores. Há fetos lindíssimos de um verde penetrante e dimensões descomunais, várias espécies de plantas carnívoras, borboletas incríveis (nas proximidades há várias quintas e jardins com imensas espécies), mas o mais impressionante é de facto a floresta e as suas árvores frondosas, com seus caules descomunais, muitos atingindo diâmetros de mais de 4 ou 5 metros e alturas da ordem dos 80 e 90 metros.

Saber que aquela floresta existe há milhões de anos, que aquelas cores e sons estiveram ali desde sempre e continua a alojar tantas e tão variadas espécies não deixa de ser  esamgador.

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Há alguns militares em pontos estratégicos, cordiais e prestáveis, não sendo permitido colher "recordações".  O que lá está é para continuar. Ali só se deixam pegadas, apenas é permitido levar fotografias. Não pode ser de outra maneira.

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No percurso de ida fizemos um pequeno desvio para ver uma da espécies que recolhe mais atenção e protecção. Trata-se da raflésia.

A raflésia é uma espécie de planta parasita, da qual estão identificados dezassete tipos, que só existe no Sudeste Asiático. Até hoje foi encontrada na península malaia, em Sumatra, nas Filipinas e em Bornéu. Há quem diga que também em zonas remotas da Tailândia. Oito daquelas espécies são apenas daqui, de Sabah, sendo que três delas só é possível ver em altitudes entre os 200 e os 1200 metros.

A espécie foi primeiramente descoberta em Java, por volta de 1794, por Louis Deschamps. Todavia, em Bornéu só a vislumbraram em 1818. Foi um guia do Dr. Joseph Arnold quem teve esse encontro com a flor da raflésia, cujo nome foi atribuído em homenagem a Sir Thomas Stanford Rapples, o líder da expedição.    

A planta não tem caules, folhas ou raízes verdadeiras. É um endoparasita que introduz o seu órgão absortivo, o haustório, na planta hospedeira onde se aloja e a partir da qual  recolhe os nutrientes de que necessita.

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A flor da raflésia pode ter cinco ou mais pétalas e atingir diâmetros de mais de um metro e um peso até 10 quilos. O seu aroma atrai muito insectos que transportam o pólen das flores macho para as flores fêmea. Na maior parte das espécies as flores macho e as flores fêmea crescem separadamente, havendo algumas que são bissexuais. Sabe-se pouco sobre a dispersão da sementes, que aparentemente serão dispersadas pelos esquilos e outras espécies que comem os frutos. Para ver as raflésias e fotografá-las é necessário pagar-se, estando as plantas em locais protegidos. As comunidades indígenas usam-nas em tratamentos e na Tailândia, pelo que me disseram mas não pude confirmar, também como especialidade gastronómica. Esperemos que a sua voracidade não acabe com as que restam.

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Há imensos insectos, borboletas que mais parecem pequenas andorinhas, tal a sua envergadura, de cores espantosas, muitos esquilos, milhares de pássaros emitindo toda a variedade de sons, cascatas pequenas e grandes, riachos correndo apressados pelo meio do verde, passadeiras de madeira e corda atravessando pequenos vales, sempre com vistas espantosas nas zonas mais altas e abertas da floresta.  

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As fotografias, os pequenos vídeos e os apontamentos que se vai tirando ajudar-nos-ão um dia a recordar os detalhes daquilo que observámos. A nossa memória encarregar-se-á de nos transportar até ao que não pode ficar registado. Aos cheiros, ao perfume do verde e da madeira, à delicadeza e graciosidade de alguns voos que nos furam o olhar e penetram até à entranhas, enquanto vemos as cores irreais da plumagem, as combinações que a natureza fez, sentindo toda aquela humidade, que se nos cola à pele, escorrer vertiginosa pelas folhas e riachos, conduzindo-nos trilho após trilho, sem hiatos, como se fora uma inesgotável fonte de prazer e de vida sempre pronta a regenerar-se e a recomeçar todas as manhãs, entre duas chuvadas e o raio de sol que por momentos atravessa a copa das árvores acendendo um poderoso foco à nossa frente. Como que alumiando-nos o caminho que pisamos, para vermos melhor os seus habitantes, formigas enormes e apressadas, guiando-nos por aquela imensidão e de onde não queremos sair quando a noite se aproxima e os sons da manhã vão sendo substituídos por outros mais estridentes que se agitam nas copas mais altas, indiferentes à nossa presença. Como há milhões de anos. Como se não existíssemos e nunca ali tivéssemos estado.

«Tu tens tudo e estás a pedir?»

por Pedro Correia, em 27.02.19

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Um jovem - provavelmente estrangeiro, talvez estudante - toca clarinete. Na Rua 5 de Outubro, que sobe da Praça do Giraldo para a Sé. Já cheia de turistas, que demandam Évora em cada vez maior número. Estamos ainda no Inverno, mas só para efeitos de calendário: com 23 graus, inundada de sol, a capital do Alentejo respira uma Primavera antecipada. O vendedor ambulante de castanhas coexiste sem surpresa com o precoce comércio de gelados.

O jovem, aparentemente indiferente a quem passa, toca Eu Sei Que Vou Te Amar. Um vagabundo eborense, bem conhecido na cidade, passa por ele, mira com aparente desdém as quatro moedas depositadas num boné posto no chão em frente do imberbe instrumentista, e lança-lhe a pergunta retórica: «Tu tens tudo e estás a pedir?»

Dito isto, à laia de bofetada verbal, afasta-se em passo lento e de queixo levantado. Não obtém resposta. Do clarinete soam agora os acordes do majestoso final do Lago dos Cisnes, como num apelo aos transeuntes distraídos. No boné permanecem só quatro moedas, embora haja espaço para muitas mais.

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 27.02.19

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O Café de Lenine, de Nuno Júdice

Novela

(edição Dom Quixote, 2019)

"Este livro segue a ortografia anterior ao Novo Acordo"

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Canções do século XXI (695)

por Pedro Correia, em 27.02.19

Estátuas dos nossos reis (184)

por Pedro Correia, em 26.02.19

imagesP13HPBIO.jpgMuseu_Nacional_Soares_dos_Reis,_Porto_(5760126130)

 

D. Pedro IV (1826)

 

Autor: Manuel da Fonseca Pinto

Ano da inauguração: 1834

Localização: Porto, Museu Nacional Soares dos Reis

De novo o verde, o azul e o laranja (1)

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.02.19

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Foi com esperança de que a época seca chegasse um pouco mais cedo, de maneira a coincidir com o tempo que tinha disponível, que parti pela terceira vez para Bornéu, mais concretamente para Sabah, que com Sarawak, outro dos  estados da federação malaia, ocupa cerca de 26% da área da terceira maior ilha do mundo (a seguir à Gronelândia e à Nova Guiné). O restante território faz parte da Indonésia e do pequeno estado do Sultanato do Brunei.

Logo à aproximação ao aeroporto de Kota Kinabalu pude vislumbrar os mais de 4000 metros do Monte Kinabalu, que rasgando os fundos oceânicos se ergueu ali entre aquela ponta do mar do Sul da China, o mar de Sulu e o mar de Célebes, para alguns chamado de Sulawesi.

Desta vez ia com propósitos específicos e que em momentos anteriores não pude concretizar, a saber: visitar a região do Monte Kinabalu, percorrer as ilhas das proximidades e mergulhar no Tunku Abdul Rahman Park, do qual há anos ouvira falar quando estivera em Sipadan e que, embora sabendo que não iria encontrar grandes pelágicos – ver tubarões-baleia seria uma hipótese remota –, me atiçaram a curiosidade sobre as variedades de coral e das centenas de pequenas espécies que por ali deambulam. 

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Por aquelas paragens, normalmente muito transparente e com visibilidades acima dos trinta metros, o mar assume diversas tonalidades que vão do azul profundo ao convidativo turquesa, sempre com temperaturas mais perto dos 30 do que dos 20.º Celsius.

Cheguei ao início da tarde, um pouco cansado, pelo que aproveitei o que restava do dia para retemperar forças, dar uma pequena volta pelas proximidades do hotel, apercebendo-me das mudanças operadas nos últimos anos, visitando um pequeno mercado nocturno e tratando de programar as jornadas que se seguiriam.

No dia seguinte, a alvorada foi cedo e aproveitámos para um primeiro contacto com as ilhas do Parque Nacional, cujo nome se deve a um antigo primeiro-ministro malaio.

Ocupando uma área de aproximadamente 5000 hectares, na sua maior parte coberto por água, o Tunku Abdul Rahman Park situa-se no chamado "triângulo de coral", que inclui as águas da Indonésia, Filipinas, Papua Nova-Guiné, Ilhas Salomão e Timor. A sua biovidersidade é considerada a mais rica do mundo, havendo cerca de mais de quatro dezenas de mamíferos que só existem ali. Da sua floresta tropical se diz ter sido formada há mais de 130 milhões de anos, ou seja, num período ainda anterior ao da formação daquela que ocupa a bacia do Amazonas.

Nos últimos quarenta anos, a ilha perdeu cerca de 25% da sua floresta, o que a tornou em mais um centro de atenção da tragédia que a todos nos afecta e cujas alterações mais sensíveis são diariamente sentidas na irregularidade dos ciclos climáticos e em muitas das tragédias que nos diversos pontos do mundo vão assolando a humanidade. E essa foi mais das razões que me levou este mês até lá. Antes que fosse tarde.

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Uma rápida viagem de pouco mais de vinte minutos a partir de Jesselton Point, de onde saem diariamente muitas centenas de barcos, ora com mergulhadores, ora com viajantes, turistas, excursionistas ou simples curiosos das mais diversas nacionalidades e credos, levou-nos até Pulau Manukan e, depois, à ilha vizinha de Mamutik. Para primeiras impressões não foi mau. Tanto numa como na outra ilha existem alojamentos para os viajantes poderem pernoitar ou passar alguns dias, mas o ideal, para quem quer dormir, é chegar com reservas feitas e transfer garantido.

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As condições dos alojamentos locais pareceram-me razoáveis, com uma paisagem magnífica, mas não serão as melhores para quem prefere passar a noite a dormir num bom hotel, sem bicharada por perto, jantar num restaurante confortável e está predisposto a todas as manhãs apanhar um barco para demandar as águas do parque. 

A alimentação nas ilhas é má, pelo menos para os meus padrões, com cozinha predominantemente asiática e os típicos hambúrgueres para turistas, em geral mal confeccionados, com uma qualidade péssima e higiene discutível. Daí que haja quem, como eu, prefira garantir todas as manhãs um bom pequeno-almoço, levando fruta e umas buchas, que permitam aguentar o dia até ao regresso sem sobressaltos de maior. 

Convém ter cuidado com as diversas espécies de jelly-fish, algumas quase invisíveis dada a sua pequenez e transparência, alforrecas e espécies afins. Passam despercebidos e, em regra, só depois do contacto ou da picada, quando sai da água, é que o banhista se apercebe das marcas no corpo e começa a comichão.

Convém não esquecer que também estamos em mares onde as temíveis caravelas portuguesas (Portuguese Man O’ War, Physalia physalis) costumam fazer aparições, pelo que todo o cuidado e atenção são poucos.

Em todo o caso, não se faça disso um drama, sob pena de não se tirar qualquer partido da viagem. Para as situações de emergência, nas praias, os nadadores-salvadores de serviço costumam ter uns pensos de vinagre para aplicação imediata, assim aliviando o desconforto. Daí que, também por causa do sol intenso destas paragens, haja quem só tome banho com t-shirts e fatos de licra, o que não é, nunca foi, o meu caso. Apesar de tudo.

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As ilhas do Parque são muito pequenas — as outras são Gaya, a maior, Sapi e Sulug —, com lagartos e macacos curiosos, e com os quais convém ter atenção, pois há relatos de quem tenha ficado sem as mochilas, os óculos ou a comida entre dois mergulhos. Os lagartos, de dimensões respeitáveis, passeiam-se tranquilamente. A macacada vai-se ouvindo e vendo. A Sapi não fui depois de me dizerem que era a ilha com mais macacos naquela zona. Também não mergulhei num ilhéu famoso pelas suas cobras do mar. Não me apetecia ser importunado e de macacos e cobras já tenho a minha conta.

Em Pulau Gaya podem-se passar longas horas a ler e passear, observando os pássaros, e mergulhando com os Borneo Divers, com os quais aliás já havia mergulhado noutras ocasiões em Mabul e Sipadan, e a equipa do Down Below - Marine and Wildlife Adventures, os únicos que têm a operação centrada em Gaya. Os primeiros têm um centro magnífico nas imediações do Shangri-La, com óptimo equipamento, boas embarcações e pessoal profissional, e uma base de apoio em Mamutik, onde normalmente fazem os intervalos entre mergulhos. Convém ter em atenção que hoje em dia há dezenas de operadores de mergulho embora nem todos sejam recomendáveis.

Para além daqueles com quem mergulhei naquela zona, há muitos mais com lojas na cidade, pelo que é fundamental obter referências antecipadamente para se saber com quem se vai para um outro mundo com a confiança de se saber que não se vai para o outro mundo. Pode parecer paradoxal mas em matéria de segurança debaixo de água o meu lema é nada de aventuras. E felizmente não me tenho dado mal nos últimos trinta anos.

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A partir do mar têm-se óptimas vistas para terra. Em especial para quem vá às ilhas Mantanani, a vista do Monte Kinabalu e o silêncio são sublimes. Para se ir a estas ilhas é melhor fazer primeiro os cerca de 80km por estrada, a partir de KK até Kota Belud, para depois se apanhar uma das potentes lanchas, em regra com motores de 750 ou 500 cavalos, que fazem a ligação em cerca de 35 a 40 minutos, sabendo de antemão que estar preparado para levar alguma bordoada durante o trajecto de ligação é normal. Na Mantanani Besar há cerca de duas dezenas de locais de mergulho, sendo possível ver três navios japoneses da II Guerra em Usukan Bay.

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No regresso, ao final da tarde, há quem aproveite para visitar algumas espécies locais de símios e gozar um fantástico pôr-do-sol no Kokol Haven Resort, onde não cheguei a ver o pôr-do-sol devido à hora tardia em que nos pusemos a caminho. O local fica a cerca de meia-hora de KK e é recomendado por muitos residentes. Não vem nos guias. Quem quiser lá ir deverá sair cedo, se se deslocar a partir de KK, aí por volta das 16:15, por causa dos engarrafamentos citadinos e de maneira a chegar a horas de poder desfrutar a vista. De táxi, uma viagem de ida  poderá custar cerca de 40 RM (talvez aí uns 8 euros).

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Há imensos sítios para se apreciar o espectáculo do final do dia, mesmo na cidade ou em praias próximas, como na Tanjung Aru, só que também não há mais nada para além de muita gente, pelo que é preferível fazer uns quilómetros e fugir da "turistada" endinheirada, que vinda do Império do Meio arrasta os chinelos de "smartphone" em riste, fazendo poses, exibindo camisas com desenhos Versace e Valentino, aos berros e aos encontrões...

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A maldição endogâmica

por Diogo Noivo, em 26.02.19

Há muitos anos, quando estudava os sistemas políticos dos países lusófonos, o docente da cadeira enquadrava os males de São Tomé e Príncipe numa moldura demográfica. Com cerca de 120 mil habitantes, dizia, a endogamia era inescapável. O problema reflectia-se na vida política, mas não só. Num tribunal, a elevada probabilidade de juiz e réu se conhecerem tanto podia jogar a favor como contra o acusado, mas nunca jogava em benefício da Justiça. A reduzida dimensão populacional era, portanto, uma maldição.

Mais tarde conheci um pequeno país, também insular, chamado Islândia. Não chega aos 350 mil habitantes. Por razões geográficas e climatéricas, o país é feito de concentrações demográficas, o que, em teoria, deveria acentuar a predisposição para os males que advêm da endogamia. Contudo, e independentemente das razões que o justificam, a realidade é outra: há lisura na condução da vida pública e cuidado com os potenciais conflitos de interesses. Quando uma linha vermelha é cruzada, os mecanismos legais e a vontade popular repõem a normalidade democrática.

O que separa estes dois Estados é a cultura política e a noção de cidadania plena. Qualquer outro argumento não passa de uma desculpa.

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 26.02.19

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Os Inconsolados, de Kazuo Ishiguro

Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues

Romance

(reedição Gradiva, 2.ª ed, 2017)

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As pessoas podem simpatizar ou não com Rui Tavares e/ou com o seu agrupamento político. Independentemente disso - eu, por modesto exemplo, fico sempre com "pele de galinha" diante desse MES new age -, vale ler este seu artigo sobre o can-can de Paulo Rangel,  candidato nº 1 do PSD nas listas para o Parlamento Europeu, como já o fora nas últimas eleições. 

Se houvesse algum tino no prezado eleitorado (uma utopia, a gente sabe), um artigo destes, letal, faria mossa nas aspirações rangelianas e dos da sua igualha, hipócritas que vão. Entenda-se, um pontapé nas eleições. Mas como não há, esse tal utópico tino, lá será ele - e mais alguns da sua inestimável (sim, "inestimável") estirpe - eleitos para o vai-vem Estrasburgo- Bruxelas.

A mim não fará grande mossa: aqui só vejo "casacos azuis" - o inconfundível uniforme dos tugas doutores - no vizinho "Tiago's". E aproveito a desculpa da imperial ali custar o dobro do que custa no meu "Ponto de Encontro" - sítio aprazível que me faz sentir como se em ... Maputo ou nos Olivais - e nunca lá vou. Entenda-se, evito aquilo mesmo por causa dos "casacos azuis", raios partam os Rangéis e companhias ilimitadas.

Canções do século XXI (694)

por Pedro Correia, em 26.02.19

Estátuas dos nossos reis (183)

por Pedro Correia, em 25.02.19

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D. João VI (1816-1826)

 

Autor: ainda por identificar

Ano da inauguração: 2008

Localização: Salvador, Bahia (Brasil), no Largo da Aclamação

Filosofia da história

por jpt, em 25.02.19

Antes houve uma geração que quis escangalhar o Estado, depois viemos nós, bebemos e fumámos o que encontrámos e se mais houvera, e houve, e agora chegaram estes, que querem ... escangalhar o telemóvel. A ver quem virá a seguir, mas não me cheira que venha a ser grande coisa.

Lavourada da semana

por Pedro Correia, em 25.02.19

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«É inata a atracção das mulheres pelos cavalos.»

Pág. 1/9



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