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Canções do século XXI (389)

por Pedro Correia, em 24.04.18

Sexo, mentiras e vídeo

por Rui Rocha, em 23.04.18

Em artigo publicado no DN, Fernanda Câncio debruça-se sobre o registo de imagem e som em diligências no âmbito do processo penal. Como o faz a partir da sua experiência pessoal, acaba por incorrer numa série de equívocos. Importa recordar que o Processo Penal é regido por alguns princípios e que a decisão judicial resulta sempre não de um processo matemático e infalível mas da convicção do julgador formada a partir dos factos que constam do processo. Concretizando, o Processo Penal rege-se, entre outros, pelos princípios da oralidade e da publicidade. A gravação de som e imagem aproveita a ambos. O princípio da oralidade diz que o meio privilegiado de transmissão de informação por arguidos e testemunhas deve ser a palavra falada. É um princípio ligado à eficiência e celeridade processual. Se tudo tivesse de ser reduzido a escrito, os processos seriam ainda mais longos. Mas o princípio da oralidade tem um problema: a palavra falada perde-se. Por isso, tornava-se necessário um compromisso entre a celeridade e a certeza e muitas diligências acabavam por ter de passar-se a escrito de forma mais ou menos resumida. A gravação de som e imagem resolve este problema. Os depoimentos e testemunhos podem ser consultados as vezes que for necessário sem necessidade de assegurar processos longos de transcrição. Já o princípio da publicidade tem um objectivo fundamental: assegurar a imparcialidade do processo e do julgador. Estando os acto disponíveis para consulta, é mais fácil sindicar a conduta dos órgãos judiciais. A gravação do som e imagem reforça essa garantia de imparcialidade. O contacto com a informação não é feito de forma mediata, através de transcrição ou resumo, mais susceptível de enviesamento e distorção, voluntários ou não. Agora pode ver-se e ouvir-se exactamente o que foi dito. Mas também do ponto de vista da formação da convicção o som e a imagem, ao contrário do que Câncio parece entender, são úteis. A linguagem não verbal, a consistência, a atitude durante a prestação de declarações são importantes para avaliar a sua credibilidade. Um depoimento transcrito não permite avaliar estas dimensões, reforçando a subjectividade da decisão. Em geral, a gravação de som e imagem não diminuem as garantias dos intervenientes, pelo contrário, reforçam-nas e asseguram um processo mais justo. A questão, que Câncio aparentemente confunde, é então entre a publicidade do processo, essencial à garantia da imparcialidade, que a gravação da imagem e do som reforçam, e a publicação abusiva fora das situações previstas na lei. Mas impedir esta não implica prescindir daquela. Seria o mesmo que paralisar toda e qualquer investigação porque há situações recorrentes de violação do segredo de justiça. Mas Câncio vai mais longe e coloca a questão ao nível do direito à informação e do direito à imagem: quando presto depoimento gravado devo ser informado do facto e, no limite, posso recusar porque o direito constitucional à imagem mo permite. Quanto ao direito à imagem, parece difícil que este, por si só, justifique uma recusa. O próprio direito à liberdade não impede, inclusivamente, as autoridades judiciais de decretar a prisão preventiva em casos justificados. A questão não é portanto de direito de imagem mas de direito ao silêncio que está consagrado. Portanto, pode ou não falar-se e isso é um direito. Mas quando alguém fala, deve existir gravação de som e imagem do depoimento. Já no que diz respeito à informação, percebe-se o ponto, mas a verdade é que a gravação de som e imagem está prevista na lei. E está prevista na lei quer para o interrogatório de arguidos, quer para o depoimento de testemunhas. Mais, atendendo à garantia adicional de imparcialidade que traz ao processo, deve ser esse o modo normal de registo. Quem participa no processo, mesmo que não tenha ido ao cabeleireiro, deve ficar agradado por existir um registo fidedigno do que disse e fez. As diligências judiciais não são eventos sociais em que se pretende que as câmaras apanhem o nosso melhor lado. A ideia de consentimento para um registo que reforça as garantias do processo e do próprio interveniente parecem excessivas quando tal está previsto na lei. No fundo, teremos aqui provavelmente uma questão geracional. Para quem nasceu e vive na idade do vídeo, tudo isto é normal. Arcaico seria que tudo fosse dito e tivesse que ser passado a escrito. Perecebe-se, todavia, que a pessoas mais idosas como Fernanda Câncio a situação possa causar algum desconforto.

 

* não há aqui sexo, mas se eu não tivesse dado este título vocês não liam, pois não? 

Cicuta

por Pedro Correia, em 23.04.18

 

A cicuta deste Sócrates chama-se dinheiro.

 

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 23.04.18

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A Cidade dos Aflitos, de Luís Pedro Cabral

Romance

(edição Guerra & Paz, 2018)

"A presente edição não segue a grafia do novo acordo ortográfico"

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Os comentários da semana (adenda)

por Pedro Correia, em 23.04.18

«Antes do facebook houve o MySpace, e antes disso o Friendster. Antes do Google houve o Gofer e o AskJeeves. Edison tentou e falhou cerca de 5000 projectos de lâmpadas até acertar. O primeiro iPhone foi a 7ª versão.
Talvez explicar aos miúdos que os post-it resultaram dum erro na cola? Que o iogurte nasceu dum acidente? Que com os erros se aprende? Que ninguém nasce ensinado?
Os meus filhos tentam sempre baldar-se, “não sabem mudar uma lâmpada”. A minha resposta é “eu antes de saber também não sabia”. Eu sei que sabem, mas é mais fácil se for eu. Há meses um leitor de Blu-Ray pifou com um filme lá dentro e eu abri-o. “Pai, sabes arranjar isso?”. Não, mas sei tirar o filme, e quanto ao resto logo se vê - pode ser uma avaria simples, e se não conseguir, pois de estragado não passa.
São ideias, lições não tenho.»

 

Do nosso leitor António. A propósito deste texto da Ana Cláudia Vicente.

 

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«Traduzir não é um trabalho fácil, ao contrário do que muita gente parece pensar (e desvalorizar). Não temos varinhas de condão, nem é tão simples como estalar os dedos. É necessário ter bons conhecimentos das línguas em que estamos a trabalhar, pesquisar muito (por vezes perde-se imenso tempo para traduzir uma simples palavra ou expressão), saber escrever bem, gostar de escrever bem. E para escrever bem é preciso ler muito, e prestar muita atenção ao que se lê, para saber separar o trigo do joio. Tudo isto é incompatível com o "encher chouriços" em que a actividade de tradução parece ter sido transformada hoje em dia. A juntar ao facto de se achar que qualquer pessoa cujos conhecimentos de uma língua estrangeira são ligeiramente acima do nível básico (mesmo tendo uma licenciatura) pode ser tradutor, e à ideia completamente errada de que o Tradutor do Google é tecnologia de ponta no que se refere a traduzir... Receio que a tendência seja para termos traduções cada vez piores.
A solução? Como em quase toda a nossa formação universitária, privilegiar a prática em detrimento da teoria; incentivar a qualidade pagando bem o trabalho que é bem feito; apostar numa formação contínua; valorizar a profissão. Entre outras coisas, claro.
Mas não me parece que isso aconteça em breve, portanto vamos ter de continuar a aturar traduções "manhosas" todos os dias.»

 

Da nossa leitora Ana CB. A propósito deste meu texto.

Canções do século XXI (388)

por Pedro Correia, em 23.04.18

Que restará de tudo isto?

por Luís Naves, em 22.04.18

Que restará de 2018 daqui a mil anos? Admitindo que a civilização ocidental resolve os seus maiores problemas, trinta gerações somam uma eternidade e, nessa altura, seremos provavelmente incompreensíveis, como os bizantinos são para nós. Partindo do princípio de que a nossa civilização encontrará formas de progredir sem passar por colapsos traumáticos, talvez se consiga resolver a limitação das viagens espaciais, prolongar a vida humana e desenvolver máquinas inteligentes, talvez se encontrem soluções para os problemas da energia, ambiente, água e alimentação da humanidade, que será mais numerosa e transformada. Em 3018, haverá cem mil milhões de seres humanos dispersos por trinta planetas habitáveis em 80 sistemas solares explorados, cujas ligações levarão trinta a cinquenta anos a concluir entre si. Sendo necessário para cada viagem um décimo da longevidade média dos astronautas geneticamente modificados, haverá aventureiros famosos a concluir a sua sétima ou oitava viagem (os passageiros estarão em hibernação, para consumirem o mínimo de recursos, e a maioria dos sistemas terão inteligência artificial a controlar as naves). Cada pequeno núcleo de viajantes levará consigo embriões humanos. Com núcleos populacionais tão distantes entre si, a linguagem estará a fragmentar-se a partir de uma língua franca baseada em inglês, castelhano e mandarim, cujas formas arcaicas, tal como eram faladas no início do século XXI, serão compreensíveis só para peritos, como o latim pertence hoje a uma elite de sábios. Para historiadores especializados em assuntos arcanos, o ano de 2018 terá uma sensaboria interna que os obrigará a vasculhar velhos arquivos nas camadas mais profundas do conhecimento, consultando informação que ninguém terá procurado desde o centenário anterior. Entre o que não se perdeu entretanto, por causa das tecnologias obsoletas dos arquivos, será possível recuperar imagens e factos, com dúvidas sobre o respectivo grau de relevância: por exemplo, qual o motivo de determinado conflito num país obscuro que se chamava Síria ou o que pretendiam as potências da época, Estados Unidos, China, aliança europeia (seria este o nome?), os impérios russo ou japonês, núcleos políticos que se desintegraram ou reconfiguraram ao longo dos dois séculos seguintes, para não falar daquelas pequenas nações extintas com nomes poéticos, como Portugal, cujos problemas não passarão de enigmas quase insolúveis, a exigir especulação histórica. Das artes, pouco restará. O pós-modernismo foi uma transição em que se privilegiou a moda e o fogo de artifício, que por definição não resistem à tradução e à poeira do tempo. Mesmo para eruditos, será difícil distinguir entre 2018 e os anos à volta (o que terá sido aquela crise de 2008?); e alguém, mesmo culto, terá dificuldade em perceber se 2018 foi antes ou depois da Guerra Fria, precisando de fazer contas de cabeça para compreender que já tinham passado gerações após os grandes tiranos do século XX, cuja fama misteriosa será o que para nós é a celebridade de Átila, o Huno. O cidadão comum terá dificuldade em lembrar-se que 2018 ocorreu depois da primeira viagem à Lua, que por sua vez os estudantes mais cábulas tentarão colocar no século XXI, levando os tutores robóticos à impaciência. Talvez os historiadores ortodoxos concordem em chamar ao nosso tempo o breve período do liberalismo complacente ou terceira fase capitalista arcaica, ainda antes da pré-robotização e da ascensão das máquinas, certamente um momento pouco fértil do lento progresso rumo ao início do século XXII, o da segunda renascença, aí sim, com aceleração da História e coisas interessantes para estudar.

Vamos lá ver. O que está em investigação no Processo Marquês é uma situação gravíssima de corrupção e tráfico de influências. A Fernanda Câncio pode afirmar que não sabia de nada, que não participou em nada. Sim ou não, já veremos ou eventualmente nunca saberemos. Sobre tudo isso, podemos formar um juízo mais ou menos informado, mais ou menos parcial. Agora, há uma coisa sobre a qual não podem existir dúvidas. Num caso destes, a responsabilidade de um cidadão é colaborar com a Justiça. Dizer o que se sabe, responder com seriedade. O papel a que Fernanda Câncio se prestou nos interrogatórios, sonsa sempre, tonta quando lhe conveio, rufia quando lhe faltou melhor, é impróprio de alguém que faz da vida um sermão permanente sobre a sua superioridade moral. Se a toda a hora Fernanda Câncio se proclama séria, nos interrogatórios perdeu uma boa oportunidade de parecê-lo.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 22.04.18

«O que Rio percebeu é que se pode aumentar a receita fiscal aumentando a despesa pública, via impostos indirectos. E assim o pessoal ilude-se que pelos aumentos de salários e pensões a austeridade finalmente ficou para trás independentemente do mês, cada ano, acabar mais cedo.
Truque de Ilusionista....
Por muitas cativações e calibrações, enquanto a dívida não chegar aos 60% basta um espirro lá fora para irmos de cama.»

 

Do nosso leitor Vlad. A propósito deste texto do Luís Naves.

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 22.04.18

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     Historias Secretas de Reis Portugueses, de Alexandre Borges

(reedição Casa das Letras, 5." ed, 2017)

"O autor escreve segundo a antiga ortografia"

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O blogue da semana

por João Villalobos, em 22.04.18

Iniciei-me na 'blogocoisa' creio que em 2005. Raros eram os blogues nessa altura que aliavam a qualidade do conteúdo à da forma. Esses poucos - muito poucos - capazes de encontrar uma coerência estética através de uma subtileza intrínseca no exibido e no transparecido.

Foi essa coerência - na escolha das imagens e dos textos . aquilo que sempre me fascinou desde a minha primeira visita a este blogue, um resultado de cuidadosas escolhas, por vezes mais esporádicas, outras menos espaçadas no tempo. A sua autora é poeta e editora e cada um dos poemas ou fragmentos, fotografias ou imagens, são cuidadosamente selecionadas por critérios que apenas pressentimos.

E há também espelhos, evidentemente. Muitos espelhos, no presente e no passado deste blogue. Que nos permitem vislumbrar esse 'outro lado' para onde atravessou Alice, nele se reencontrando. Parafraseando Charles Lutwidge Dodgson, mais conhecido como Lewis Carroll: "What is the use of a blog, without pictures and conversations?". 

Por estas e outras razões, agradeço a oportunidade de escolher o THERE'S ONLY 1 ALICE como blogue da semana. 

Pensamento da semana

por Ana Cláudia Vicente, em 22.04.18

Para pensamento da semana, deixo-vos uma percepção e várias perguntas de quem trabalha no ensino há alguns anos.

Parece-me que estamos a assistir a uma mudança significativa em boa parte de quem nos chega para aprender. Não presumo saber se esta alteração é mais ou menos duradoura. Qual? A que se traduz no avolumar das reacções de espanto e de frustração ante o processo de tentativa/erro, de rascunho, de repetição. Para os mais pequenos que nos chegam, o lado mais oficinal do aprender, o fazer muitas vezes até sair melhor, até acertar, gera agora perplexidade e embaraço, acompanhados muitas vezes da recusa em recomeçar, por vergonha de falhar outra vez. Não me refiro a casos pontuais, antes à generalização de um modo de estar. 

O que é que está a acontecer na forma como lidamos com os mais novos para que, quando chegam à escola, lidem tão mal com o erro e a falha, tão inevitáveis quanto indispensáveis para se ganhar qualquer conhecimento e habilidade? O que é que andamos colectivamente a fazer para que uma criança (ou jovem) julgue ser possível dominar instantaneamente uma técnica, um conteúdo, uma ciência?

Aceito lições.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

Canções do século XXI (387)

por Pedro Correia, em 22.04.18

A golpada

por Pedro Correia, em 21.04.18

«As luvas alegadamente pagas a José Sócrates, Bava, Granadeiro, Bataglia e mesmo Ricardo Salgado foram financiadas por veículos financeiros que usaram dinheiro dos clientes que compraram papel comercial do BES ou do Banque Privée em esquemas semelhantes aos que destruíram as poupanças de tantos.»

 

Da série de grandes reportagens da SIC que nos tem conduzido aos meandros do maior escândalo político e financeiro da democracia portuguesa.

Leituras

por Pedro Correia, em 21.04.18

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«A principal necessidade dos que odeiam é acreditar que são igualmente odiados por aqueles que odeiam: com idêntica intensidade e obsessão, com idêntica destilação de espuma.»

Javier Marías, Selvagens e Sentimentais (2000), p. 27.

Ed. Dom Quixote, 2002. Tradução de Salvato Telles de Menezes. Colecção Ficção Universal, n.º 291

À conversa com o Fernando Alves

por Pedro Correia, em 21.04.18

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O meu livro 2017 - As Frases do Ano foi pretexto para 10 minutos de diálogo na TSF

 

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 21.04.18

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     Arder a Palavra e Outros Incêndios, de Ana Luísa Amaral 

Ensaios literários

(edição Relógio d' Água, 2017)

 

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Fomos dez - e três em estreia

por Pedro Correia, em 21.04.18

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Juntámo-nos esta noite em mais um jantar de blogue. Como sempre temos feito no DELITO, desde há quase dez anos. O cenário escolhido voltou a ser o Café Império, em Lisboa. E o repasto contou desta vez com três estreantes: o João André (vindo da Holanda), o João Pedro Pimenta (que veio do Porto) e o José Teixeira (residente muito mais próximo, no bairro dos Olivais).

O relato há-de ser esmiuçado por um destes caloiros, embora já veteranos na escrita delituosa. Por agora fica só a notícia sintética, acompanhada pelo retrato de grupo com duas senhoras - nossas colegas muito estimadas.

A minuta segue dentro de momentos. Ou de dias, logo se vê.

Canções do século XXI (386)

por Pedro Correia, em 21.04.18

O inimigo da literatura

por Alexandre Guerra, em 20.04.18

Mario Vargas Llosa escreveu há umas semanas, na coluna que assina regularmente no El País, um texto que, sem ser um rasgo de brilhantismo literário, é um statement arrojado e corajoso nos dias que correm, desafiando os cânones de um certo fanatismo moral e ético instalado no pensamento mainstream destas novas sociedades. Sociedade, essas, que parecem ser cada vez mais assépticas nos seus comportamentos sociais e, consequentemente, mais limitadas nas liberdades da criação intelectual e artística. É quase como se estivéssemos perante as tais “nuevas inquisiciones” de que Vargas Llosa fala. As novas “fogueiras”, metamorfoseadas em headlines e redes sociais, para “queimar” aqueles que, na sua arte e intelecto, desafiam o status quo ou o pensamento predominante que é passiva e acriticamente aceite pela maioria (o muitas vezes chamado "politicamente correcto"). Llosa foca-se naquilo que vê como uma autêntica castração da liberdade literária, na qual esta é descontaminada das imoralidades, dos vícios, dos machismos, das perversidades, no fundo, desprovida daquilo que torna os homens pequenos, mesquinhos, vis, é certo, mas igualmente humanos e não meros seres utópicos.

 

Para Vargas Llosa, o “feminismo”, enquanto movimento radical (não todas as “feministas”, como ele próprio refere), é uma fonte destruidora da literatura. Percebe-se a sua ideia, porque a literatura, aquela que vale a pena ler e conforta a alma, tem que ser vista como um refúgio para, através da pena do criador, serem descritas, sem constrangimentos e amarras, todas as aventuras e ideais protagonizados por todos os homens, sejam os bons ou os maus, os virtuosos ou os iníquos, os valentes ou os cobardes, os inteligentes ou os ignorantes, os santos ou os pecadores, os justos ou os injustos... os feministas ou os machistas. A literatura, como qualquer forma de arte, deve ter espaço para contemplar o belo e o horrível, o perfeito e o imperfeito, o harmonioso e o chocante, o aceitável e o inaceitável, o moral e o imoral...

 

O princípio sustentado por Vargas Llosa, de que uma literatura, uma cultura, realmente creativas, "de alto nivel, tiene que tolerar en el campo de las ideas y las formas, disidencias, disonancias y excesos de toda índole”, é um bastião que deve ser preservado com todas as nossas convicções e forças. Não apenas por ser uma condição natural para a criação artística e intelectual, mas, sobretudo, por ser um direito humano inalienável, o da diferença de opinião, o de podermos expressar numa folha, numa tela ou numa pauta o que nos vai na alma, por mais chocante que seja para o próximo. Os tempos estão perigosos no campo das ideias verdadeiramente livres, porque há quem, muitas vezes subtilmente, as queira asfixiar ou condicionar, os mesmos que fazem novos Índex, os mesmos que tendem para o revisionismo com a sua “verdade” e “moral” absolutas. Os mesmos que não hesitarão em “queimar” os livros que repudiam, em vez de aprenderem com eles.  



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