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Blogue da semana

por Pedro Correia, em 30.04.18

 

Desta vez escolho o blogue da Raquel Varela. Talvez por este texto. Ou por este.

Ou por ela continuar a escrever sem mutilar consoantes.

Ou porque sim.

É o dela, o nosso blogue da semana.

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O problema é que...

por Luís Naves, em 30.04.18

Entre nós, muitos autores continuam a olhar para Trump como uma perturbação ridícula, para Merkel como a líder do mundo livre, para o Brexit como uma calamidade, para os movimentos populistas como um fenómeno passageiro, para a Europa como um colosso. Julgo que se enganam e que, pelo contrário, vemos sinais de mudanças que ainda não entendemos em toda a sua complexidade, provavelmente em consequência de movimentos sísmicos mais profundos. No caso europeu, as razões da angústia eleitoral começam a ser mais claras: sociedades envelhecidas, com economias pouco dinâmicas ou estagnadas, enfrentam vagas migratórias em larga escala, perante a indiferença das suas próprias elites. Essas sociedades com demografia desfavorável têm de se adaptar depressa a rupturas tecnológicas que tornam a vida futura ainda mais imprevisível. Numa revista alemã, dizia-se quase em nota de rodapé, mas citando números oficiais, que em 2016 uma em cada quatro crianças nascidas na Alemanha tinha mãe estrangeira. Em 2022, a mesma revista estará a escrever que uma em cada quatro crianças na primária tem mãe estrangeira. Em 2034, será um em cada quatro recrutas nas forças armadas (admitindo na imaginação que regressa um improvável serviço militar obrigatório).

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James Evans, pai de Alfie, recebido pelo Papa Francisco no Vaticano/Foto:Alfies Army/Facebook

 

Alfie Evans não chegou a completar dois anos de vida. Morreu no Sábado de manhã no Hospital pediátrico de Alder Hey, em Liverpool, não conseguindo resistir mais a uma doença degenerativa rara no cérebro, que o tinha condenado a um estado semi-vegetativo. Alfie esteve cerca de um ano nesta condição, ligado a uma máquina de suporte vital, sem qualquer sinal de recuperação. Pelo contrário, os vários exames mostraram que quase todo o cérebro do bebé estava destruído. Para os médicos, nenhum tratamento existente poderia reverter o estado de Alfie e assegurar-lhe uma vida minimamente digna. Por isso, tomaram a difícil decisão de desligar a máquina de suporte vital. Mas o amor imenso dos pais pelo filho sobrepôs-se a qualquer evidência científica, com a esperança a imperar sobre a racionalidade. Dificilmente para um pai ou para uma mãe, poderia ser de outra maneira. E embora a lei inglesa dê aos pais o direito de procurarem o melhor tratamento para os seus filhos, não se trata de um princípio absoluto, visto que se uma entidade pública considerar que essa decisão possa implicar riscos significativos para a criança, então esse mesmo direito parental pode ser contestado.

 

E foi isso que aconteceu a 20 de Fevereiro quando o “High Court” deu razão ao hospital e reconheceu as provas médicas que foram apresentadas, ou seja, de que o pequeno Alfie não tinha salvação e que a ligação à máquina representava um prolongamento artificial da vida, com dor e sofrimento. Os pais do bebé acabaram por recorrer aos tribunais, incluindo o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, e é partir deste momento que a tragédia do pequeno Alfie começa a assumir contornos fracturantes no seio da sociedade inglesa.

 

No passado dia 23, depois de os pais terem perdido todos os recursos que interpuseram, os médicos desligaram a máquina de suporte vital. Desde então, o debate intensificou-se, com o Papa Francisco e o Estado italiano a prontificarem-se para receber a criança, defendendo que os pais estavam no direito de procurar novos tratamentos para o Alfie. As autoridades inglesas recusaram a possibilidade do bebé viajar para fora do país, apesar das insistentes diligências feitas pelo chefe do Vaticano.

 

Naturalmente, o lado humanista de Francisco impeliu-o a tomar uma posição sobre este assunto, a envolver-se, a sensibilizar-se, mas enquanto chefe da Igreja Católica teve que, obrigatoriamente, assumir este “combate”, perante o primado da ciência e da lei sobre aquilo que, para um crente, pode ser considerado um acto de fé, o de depositar o destino da vida de uma pessoa nas mãos de Deus. Aliás, Francisco, em jeito de aviso, enunciou um princípio conservador e imutável desde a fundação da Igreja: só Deus pode criar e tirar vida. E nas alas mais conservadoras, do outro lado do Atlântico, Newt Gingrich, num artigo na Fox News (onde podia ser mais?) não perdeu tempo ao afirmar que o pequeno Alfie foi “condenado à morte” pelo “assustador Estado britânico secular”. Neste texto particularmente agressivo, Gingrich, uma voz sempre activa em matérias fracturantes nos EUA, volta a lembrar que por causa das correntes progressistas que instituíram governos seculares de esquerda, os “our God-given rights” estão a dar lugar a “direitos” contratualmente estabelecidos com governos tiranos. Embora seja radical no tom, a verdade é que a posição de Gingrich não é (nem podia ser) muito diferente daquela que Francisco e a Igreja adoptaram no âmbito da problemática em torno do drama de Alfie Evans.

 

As questões fracturantes, por norma, tendem a polarizar-se em campos extremos, sendo que é possível encontrar argumentos válidos (ou pelo menos compreensíveis) em ambos os lados do debate. É assim há séculos: progressistas vs conservadores, ciência vs religião, lei vs fé, paixão vs razão… Seja como for, a convivência em sociedade vai-se fazendo através de cedências e negociações, mas não nas questões fracturantes. Para quem as vive e as sente, não há meios-termos, não há compromissos possíveis. Consoante o lado em que se está, há o certo ou o errado, há o moral ou o imoral, há o aceitável ou o inaceitável, há o preto ou o branco… Estes temas assumem contornos dramáticos e emocionais, onde há um vencedor e um perdedor, porque, de certa maneira, reflectem formas de estar em sociedade, das quais as pessoas não podem nem querem abdicar. E quando se trata de legislar sobre as mesmas, muitas das vezes é dada liberdade de voto aos legisladores, sob o argumento de se tratarem matérias de “consciência” individual. 

 

Se partirmos de um modelo de análise em que admitimos que, para as correntes mais conservadoras, a política faz-se sob o primado dos valores, da ética e da moral, e para as áreas mais progressistas, o fenómeno é visto sob a perspectiva positivista e científica – aceitando-se o primado da técnica e da razão –, então é possível enquadrar e antecipar determinados debates. Problemáticas, essas, que na Europa nem sempre são tão inflamadas como nos EUA, mas mesmo assim são fracturantes e criam rupturas. Veja-se, por exemplo, em Portugal, onde nos últimos tempos, temas como a eutanásia ou as “barrigas de aluguer” vieram para o topo da agenda política e mediática. Aliás, se considerarmos o pressuposto acima enunciado, é possível prever, com algum grau de certeza, a tendência de voto de alguns dos legisladores quando o assunto da eutanásia descer ao Parlamento. É também muito provável que, à medida que o dia da votação se aproxime, as diferentes correntes na sociedade façam ouvir a sua voz e se manifestem de forma emocional em diferentes campos.

 

O drama do pequeno Alfie Evans, e todo o debate intenso que suscitou, demonstra que as chamadas questões fracturantes continuam a despertar as convicções mais primárias que existem em cada um de nós, enquanto seres sociais, e que, apesar de uma certa uniformização comportamental nas sociedades ocidentais, há matérias que, pela sua natureza específica, enfatizam apaixonadamente as diferenças dos vários modelos de pensamento.

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Quase a bater no fundo

por Pedro Correia, em 30.04.18

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Ao saber-se - ou presumir-se, com base em forte indícios, aliás alimentados com o chocante silêncio do visado - que o antigo Dono Disto Tudo indicou, como figurante no Conselho de Ministros, alguém do seu redil que foi alimentando com choruda prebenda mensal, estamos a um passo de ver a III República bater no fundo. Não é preciso muito mais para fazer cair um regime, já desacreditado por ver um antigo primeiro-ministro, vários gestores de topo e o banqueiro mais influente da nação conduzidos em fila indiana ao banco dos réus.

Felizmente a justiça funciona em Portugal: ela é, neste momento, o principal dique contra o aparecimento de movimentos extremistas e populistas semelhantes aos que proliferam por essa Europa fora e acabarão por desembocar neste cantinho ocidental do continente.

Mais um motivo para que o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa reconduza Joana Marques Vidal como Procuradora-Geral da República. Seria arrepiante imaginá-la neste momento a dar lugar a alguém com um perfil idêntico ao de quem a antecedeu neste cargo, que só é prestigiante para quem realmente o sabe prestigiar.

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O nosso livro (3)

por Pedro Correia, em 30.04.18

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«Com algumas excepções, verifico que o "Delito" é escrito por gente de uma geração bem diferente da minha, creio que, na maioria, já oriundos de experiências anteriores na blogosfera. Para quem, como eu, tinha voltado a viver fora de Portugal, neste caso há mais de uma década, o "Delito", até pelo seu saudável hábito de citar e fazer links para outros blogues, sempre funcionou como uma janela sobre um país digital que me era alheio.»

 

Do prefácio de F. Seixas da Costa, intitulado "Palavras Liminares"

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Canções do século XXI (395)

por Pedro Correia, em 30.04.18

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Fotografias tiradas por aí (406)

por José António Abreu, em 29.04.18

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Perto de Oliveira do Hospital, 2018. 

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 29.04.18

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«Em Portugal o problema põe-se com a Autoridade Tributária (AT). Muitas vezes é preferível pagar multa por delito inexistente.
Para mim o problema da justiça é a lentidão. Conheço uma senhora que esteve nove anos em processo de partilhas com o ex-marido. Mas ela casou em regime de separação de bens, e os bens que tinha antes do matrimónio foram devidamente inventariados notarialmente, para realizar o acordo antenupcial. Devia ser um processo rápido. Não foi. E durante os nove anos ela ficou impedida de dar o uso que entendesse àquilo que era comprovadamente seu. Não pôde trocar de carro, de casa, vender ou doar património, e mesmo as contas bancárias tiveram limitações. Como tinha meios de arcar com as despesas não cedeu, e ganhou o processo - e colocou o Estado em tribunal, porque pode. Já lá vão uns anos que o processo se arrasta nas instituições europeias.


Alguém com menos meios termina num acordo extrajudicial porque não pode ter a vida “congelada” tanto tempo. A lentidão da justiça beneficia o infractor, e castiga quem não tem meios. Que o diga quem já intentou processos contra o Estado ou grandes corporações.
Quanto a confessar, é apenas parte do processo. A confissão só é aceite como prova se o autor da mesma revelar detalhes que só podiam ser do conhecimento do criminoso. Não é o mesmo que admitir culpa na sequência da investigação.


Em teoria temos um bom sistema judicial. A AT é que mete medo. Se esses, por engano, ou por outra razão, me acusarem de lhes dever 5 milhões, para eu contestar tenho de colocar 5 milhões à ordem da AT. Não tendo eu nem 1 milhão, como contesto?

Na prática só me resta ficar sem nada e ir preso.

Fui intimado pela AT porque comprei uma casa e nesse ano fiscal não tive rendimentos que me permitissem comprar uma casa. É surreal. Por um acaso de sorte cósmica, os Inspectores ouviram-me - eu tinha vendido uma casa no ano anterior e comprei outra mais pequena e com menos despesas. Nem foi o caso de ganhar 1000€ mensais e comprar um apartamento de 4 milhões. Se fosse, teria que justificar cada cêntimo, e era escusado alegar que um amigo me emprestou o dinheiro.»

 

Do nosso leitor António. A propósito deste meu texto.

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O nosso livro (2)

por Pedro Correia, em 29.04.18

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«Gosto de lugares de encontro onde se cruzam maduros que, sobre o processo de secessão da Catalunha, têm a opinião correcta, por acaso a minha, com outros de opinião oposta (como é possível?!). Gosto de um tuga que andou por Moçambique a indignar-se com o esquecimento a que foi votado o angolano Ruy Duarte de Carvalho, por acaso nascido português. E gosto de uma mulher que, tendo lá em casa uma dor, não fez dela uma dor, nem um troféu, fez uma filha com réplicas marotas.»

 

Do prefácio de Ferreira Fernandes, intitulado "Uma Forma de Ser Agradecido"

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Pensamento da semana

por jpt, em 29.04.18

Face a esta recidiva da notabilite do que o PSD precisa é de um Bruno de Carvalho.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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Canções do século XXI (394)

por Pedro Correia, em 29.04.18

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a liberdade não se faz com ordenados de 600 euros

por Patrícia Reis, em 28.04.18

Ontem celebrámos a liberdade, mas a que liberdade podem aspirar aqueles que hoje não têm nem memória do 25 de Abril, nem condição económica para ter direito ao sonho?

Há uns dias, a celebrar a liberdade, com o sol a dizer-nos que há esperança, repletos de sonhos por cumprir e sem se atreverem a tanto, dois jovens almoçavam num pequeno café de bairro. O almoço era composto pelo menu da casa, no valor  de seis euros: pataniscas de bacalhau com arroz de legumes, garrafas de água. Um dos homens não deveria ter mais de 23 ou 24 anos, percebi que tinha uma licenciatura e mestrado e que fazia um estágio numa empresa ligada à engenharia civil. Dizia: “Pois, acho que vou ficar a fazer estágios até aos 30 anos”. E o outro, de idade similar, acrescentava com desgosto: “Não vamos sair de casa dos nossos pais. Nunca conseguiremos”.

Sim, a ganhar 600 euros nunca conseguirão, pensei eu enquanto fazia contas rápidas. Mesmo que optem por ir viver para os arredores da grande cidade – não lhes resta mesmo qualquer outra hipótese –, a verdade é que não têm como assegurar renda, transportes, comida para o frigorífico. O rendimento não chega.

A educação que nos distinguia, pelo menos na minha geração, não faz qualquer diferença nos dias que correm. Três anos de licenciatura, dois anos de mestrado, fluentes em inglês e com vontade de liberdade, de autonomia, os jovens ficam em casa dos pais num esforço inglório de conseguir “fazer-se à vida”. Um destes jovens explicava que a namorada estava nas mesmas circunstâncias e que o rendimento conjunto não ia dar para nada. “E agora pensa: queres ter filhos? Deve ser idiotamente caro!”. Sim, ter filhos não é barato. Nada o é, nos dias que correm (nunca foi, na realidade).

Na televisão do dito café mostravam-se sucessivas imagens da Revolução de 1974, as comemorações, as cerimónias solenes. Os jovens não espreitaram nenhuma das reportagens, estavam alheados do mundo, um pouco deprimidos, diria, disponíveis apenas para não comemorar a pouca liberdade de um ordenado que não cumpre com as expectativas criadas. E, um deles, rejeitando a oferta de café do empregado, adianta em tom sarcástico. “Nem sei por que carga de água fui tirar a carta de condução. Foi dinheiro atirado à rua”. Depreendi que não tem carro, nem possibilidades de o ter. Pagaram a conta, cada um o respectivo menu, e foram pela rua, lambidos pelo sol, a ver se conseguiam ir mais longe.

Ontem celebrámos a liberdade, mas há quem seja demasiado novo para ter memória do que foi viver a ditadura e esteja apenas focado nos dias que correm, na forma como a vida se desenha agora.

Há 44 anos, no dia extraordinário “inicial inteiro e limpo” sobre o qual escreveu Sophia de Mello Breyner Andresen, tínhamos em nós todos os sonhos do mundo. Hoje, quem tem vinte e poucos anos, dificilmente consegue alimentar os seus desejos, porque a vida é madrasta e as condições de empregabilidade são o que está à vista de todos. Só não vê quem não quer.

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vasco graça moura

por Patrícia Reis, em 28.04.18

no que escrevi me traduzi
e traduzi outros também
e traduzindo me escrevi
e a escrever-me fui eu quem
das várias coisas que senti
fez sofrimento de ninguém.
depois risquei, depois reli
e publiquei: assim porém
havia sempre mais alguém
para o chamar então a si,
também vivendo o que menti
mas como seu, mas como sem
ter sido meu o que escrevi
fosse por mal, fosse por bem.
é sua a vez. e que mal tem?
no que escrevi sobrevivi.

(Moura, Vasco Graça, Testamento, Lisboa: ASA, 2001)

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O nosso livro (1)

por Pedro Correia, em 28.04.18

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Ei-lo, enfim. Começou ontem a ser distribuído por todos os leitores que o reservaram e pagaram com antecedência. Tem 244 páginas, traz a chancela editorial da BookBuilders e resulta de um mecanismo de financiamento colectivo que contou com o apoio entusiástico de quem nos acompanha há vários anos - alguns mesmo do início, há quase dez anos.

 

É a nossa selecção de textos publicados no DELITO DE OPINIÃO desde a fundação, em 5 de Janeiro de 2009. Textos de todos os autores que entenderam participar nesta iniciativa - e passo a citá-los por ordem alfabética: Adolfo Mesquita Nunes, Ana Cláudia Vicente, Ana Vidal, Diogo Noivo, Francisca Prieto, Joana Nave, José Bandeira, José Gomes André, José Navarro de Andrade, Leonor Barros, Luís Naves, Patrícia Reis, Rui Rocha, Sérgio de Almeida Correia e Teresa Ribeiro. Além do João Carvalho, que infelizmente já não se encontra entre nós mas que entendemos homenagear por esta via, e de mim próprio.

 

Dezassete "delituosos" reunidos neste volume que - estou certo - agradará a quem já o adquiriu e por estes dias o receberá. E também a todos quantos poderão adquiri-lo, a partir de agora, em livrarias.

Uma edição enriquecida com prefácios de Ferreira Fernandes ("Uma forma de ser agradecido") e Francisco Seixas da Costa ("Palavras liminares"), e um posfácio de João Taborda da Gama ("A malta dos blogues").

 

Chegou. É nosso. E vosso.

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Totós

por Francisca Prieto, em 28.04.18

Começas a sentir os primeiros sinais de que te dás com um grupo de totós dos livros quando, num jantar, referes que tens um exemplar da Servidão Humana autografado pelo próprio Somerset Maugham e se sucedem suspiros de admiração. Mais tarde, escutas um sussurro de alerta quando confessas que compraste no ebay um jogo da Penguin, que é um cruzamento de Trivial Pursuit com Jogo da Glória, onde em vez de queijinhos se podem ganhar livrinhos e que, caso se calhe na casa errada, se pode ter de devolver livros já ganhos à biblioteca ou ir parar à torre do Conde Drácula. Gera-se um bulício, todos querem marcar uma data para uma jogatana e fazem-te prometer com código de honra que não avanças para uma partida sem ser com eles. Como se tivesses outros amigos em pulgas para ganharem livrinhos e avançarem quatro casas para o farol da Virginia Woolf.

Mas é na ocasião em que se discute o Grande Romance Americano que as sirenes da totozice livreira começam a tocar com toda a pujança. Alguém que está a ler o Moby Dick aparece a vibrar com ilustrações de baleias retiradas da internet e mencionadas pelo próprio Melville na obra. Enquanto alguns convivas confessam o tédio excruciante que sentiram ao virar dezenas de páginas com descrições pormenorizadas sobre a anatomia deste mamífero, outros entusiasmam-se e declaram querer atirar-se de imediato ao romance. Percebes finalmente que está tudo louco quando alguém, no auge do entusiasmo, se lembra que podíamos organizar um evento idêntico ao que se desenrola uma vez por ano em New Bedford: 25 horas consecutivas a ler em voz alta a obra de Melville. O pior é que estavam a falar a sério.

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Canções do século XXI (393)

por Pedro Correia, em 28.04.18

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Reencontro com amigos no Chiado

por Pedro Correia, em 27.04.18

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Confesso: ontem foi um dia para mim muito preenchido, com uma entrevista na Renascença a meio da tarde, em agradável diálogo com a Ana Galvão, uma das estrelas do nosso firmamento radiofónico. Depois com o lançamento do meu livro, na histórica Livraria Bertrand do Chiado, apresentado pelo Francisco José Viegas e pela Helena Matos (a quem agradeço as generosas palavras que me dedicaram). Finalmente, à noite, com a exibição no canal Q de uma entrevista no programa É a Vida, Alvim, à conversa com o Fernando Alvim, outro grande nome da nossa comunicação radiofónica - e televisiva.

O melhor foi mesmo o convívio ao vivo com bons amigos de várias etapas da minha vida pessoal e profissional que se deram ao incómodo de acorrer à Bertrand na sessão de apresentação de 2017 - As Frases do Ano, obra em que revivo todo o ano passado em mais de mil frases. Um ano que devemos rememorar por excelentes e péssimos motivos, como fiz questão de sublinhar na minha breve intervenção de ontem.

A quantos compareceram, e também aos muitos que me enviaram mensagens, aqui deixo um forte abraço de reconhecimento. Esperando que aqueles que já compraram o livro tenham dado por bem empregue tanto o tempo como o dinheiro. Pelo menos de frases - creio eu - ficaram bem servidos.

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Dia histórico

por Luís Naves, em 27.04.18

Ainda bem que fiquei acordado de madrugada, a ver pela televisão o início de um dia histórico. Os dois presidentes coreanos encontraram-se logo pela manhã (hora coreana) na zona desmilitarizada e, pelos gestos, pela simplicidade da cerimónia, via-se que algo de importante estava prestes a acontecer. Desliguei o televisor quando os dois entraram numa sala, em grande clima de amizade. Durante as conversações que se seguiram, Kim Jong-un e Moon Jae-in decidiram pôr termo à Guerra da Coreia, conflito tecnicamente ainda em vigor, pois só existe armistício entre as partes (pelos vistos, em breve haverá tratado de paz). Em Panmunjon, os dois líderes decidiram também concretizar a desnuclearização da península (exigência americana) e provavelmente esta possibilidade terá um complemento de segurança económica para a Coreia do Norte, factura que Seul não terá problemas em suportar. Estes desenvolvimentos confirmam o acerto da abordagem duríssima dos Estados Unidos em relação aos ensaios nucleares norte-coreanos, que incluiu a presença de porta-aviões na região. Então, houve comentadores a dizer que Donald Trump era louco e que ia provocar a Terceira Guerra Mundial, mas estes peritos terão dificuldade em manter as críticas, apesar de se esboçar uma nova linha dos ataques: Kim Jong-un é um ditador e parece lamentável que se façam acordos de paz com tiranos. A confirmar-se a desnuclearização, este dia sem precedentes (conseguir a paz na Coreia) representa o primeiro sinal concreto da mudança em curso na ordem mundial. Trump pode ser isolacionista, mas está a romper com a tradição que se mantém desde os anos 60 na diplomacia americana. No último meio século, foi dada importância aos valores democráticos dos aliados ou dos países com quem os americanos negociavam; Trump quer regressar aos anos 50 e à fórmula bem resumida pelo presidente Eisenhower, que falava de um ditador pró-americano: «Sim, ele pode ser um filho da puta, mas é o nosso filho da puta». Ignorar as questões de direitos humanos permite fazer acordos com Kim ou com a China, facilita soluções pragmáticas e evita trazer para as negociações assuntos que os tiranos consideram existenciais, pois são susceptíveis de mudar os seus regimes políticos. Por tradição, os EUA concedem a outras potências democráticas um pedaço do poder mundial, mas essa compensação deixou de ser automática, como aliás a Europa e o Japão começam a sentir na pele. A China assume-se como o grande rival da América, mas pode ter vantagens que antes estavam reservadas apenas a parceiros com democracias. A ordem mundial baseia-se agora no equilíbrio de poder, que é uma questão crua e sem sentimentalismo. Obviamente, sem a pressão da China, o entendimento coreano não existiria e nos próximos tempos veremos o que é que Washington deu em troca a Pequim. Uma coisa é certa: os direitos humanos não entraram na equação, ou nada disto teria sido possível.

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Frases de 2018 (21)

por Pedro Correia, em 27.04.18

«Não acho reprovável uma pessoa viver com dinheiro emprestado.»

Arons de Carvalho, mandatário nacional da candidatura de António Costa ao terceiro mandato de secretário-geral do PS, em entrevista à edição de hoje do jornal i

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Mais um dia em silêncio

por Pedro Correia, em 27.04.18

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«Agora quero é passar umas belíssimas férias. Creio que mereço.»

Manuel Pinho à SIC, 2 de Julho de 2009

 

Passou mais um dia e o ex-ministro Manuel Pinho continua sem proferir uma só palavra relativamente às gravíssimas acusações de que é alvo e que - a comprovarem-se - transformam a proclamada "ética republicana" num verbo de encher, bom para iludir totós e embalar meninos.

Recordo que, entre outras imputações, o antigo responsável pela pasta da Economia no executivo capitaneado por José Sócrates é suspeito de ter adquirido um apartamento em Manhattan em nome de uma sociedade convenientemente registada num paraíso fiscal e de ter recebido 15 mil euros mensais do defunto Grupo Espírito Santo enquanto mantinha assento no Conselho de Ministros.

Um silêncio ensurdecedor.

Que não fala: grita.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 27.04.18

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Diários, de Virginia Woolf

Selecção, tradução, prefácio e notas de Jorge Vaz de Carvalho

(edição Relógio d'Água, 2018)

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Belles toujours

por Pedro Correia, em 27.04.18

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Emanuela Postacchini

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Ligação directa

por Pedro Correia, em 27.04.18

 

A Insustentável Leveza de Liedson.

 

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Canções do século XXI (392)

por Pedro Correia, em 27.04.18

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Leitura recomendada

por Pedro Correia, em 26.04.18

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Isto não é não jornalismo. Do Ricardo Costa, na SIC:

 

«Perante a divulgação da acusação mais grave da nossa democracia, que cruza a maior falência bancária do pós-25 de Abril e o colapso da jóia da coroa da bolsa portuguesa, o que devem os jornalistas fazer?

(...)

Os jornalistas não são juízes nem políticos. Não se devem confundir com eles. Mas não podem usar as limitações ou as hesitações daqueles como argumentos para a sua confortável inacção, que, no limite, redunda numa profunda incompetência ou inutilidade.

Mas não fazer nada de jeito, nada de relevante, nada de fundo sobre a Operação Marquês é mesmo uma opção jornalística? Deve mesmo tratar-se este caso como todos os outros ou como as questões do momento que vão e voltam? Ou, neste caso, é uma profunda e determinada opção de não jornalismo?

É mesmo uma opção editorial dedicar mais recursos e tempo a falar dos dramas do consumo do abacate ou do futuro da mobilidade urbana do que da Operação Marquês?

(...)

Não dar aos leitores, espectadores ou ouvintes trabalhos de fundo sobre a Operação Marquês é anular o papel dos jornalistas numa democracia. É decretar um intervalo de uma década até que o caso transite em julgado. Nessa altura levantam o cordão sanitário e fazem um ar de espanto com o que esteve sempre à frente dos seus olhos.

(...)

A mim, a Operação Marquês fez-me corar quando li, quando ouvi e quando vi. Corei de vergonha da nossa democracia, da política que finge que não se passa nada e do jornalismo ao retardador ou que não faz o seu trabalho para não atrapalhar a justiça.»

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Já li o livro e vi o filme (231)

por Pedro Correia, em 26.04.18

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      CHACAL (1971)

Autor: Frederick Forsyth

Realizador: Michael Caton-Jones (1997)

Um dos melhores thrillers políticos das últimas décadas, centrado num atentado real ao Presidente francês Charles de Gaulle em Agosto de 1963, serviu de base ao fraco "filme de acção" protagonizado por Bruce Willis e Richard Gere. Com a França transposta para os EUA. O livro é incomparavelmente superior.

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Com franqueza, já cheira mal

por Pedro Correia, em 26.04.18

Algumas almas andam por aí aos gritinhos, clamando contra putativas violações do "segredo de justiça" - matéria que só lhes interessa, por coincidência, quando a beautiful people, habituada a beber do fino nos cenáculos da capital, senta o traseiro no banco dos réus.

Entre o direito à informação e o "segredo de justiça", nem pestanejam: elegem o segredo. Curiosamente, esta tribo dos gritinhos inclui várias pessoas alegadamente portadoras de carteira profissional de jornalista, que disparam impropérios contra quem relata e noticia, enquanto entoam hossanas a quem omite e silencia. Estranha forma de exercer o jornalismo, entre a venda e a mordaça.

Sendo o segredo de justiça um instrumento processual, de modo algum pode ser colocado no mesmo patamar da liberdade de imprensa ou da liberdade de expressão, queiram ou não queiram os defensores das novas formas de censura. Se alguém tem consciência disto é a actual segunda figura do Estado português, cuja frase mais célebre contribuiu para clarificar a questão: "Estou-me cagando para o segredo de justiça!"

Com franqueza, tanta polémica a propósito disto já cheira mal.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 26.04.18

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Hotel Memória, de João Tordo

Romance

(reedição Companhia das Letras, 2018)

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Canções do século XXI (391)

por Pedro Correia, em 26.04.18

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44

por João André, em 25.04.18

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Frases de 2018 (20)

por Pedro Correia, em 25.04.18

«Qualquer deputado vende-se por 750 euros a mais no vencimento. É uma vergonha, pá.»

Otelo Saraiva de Carvalho, comandante operacional do 25 de Abril de 1974, hoje, em declarações públicas

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25 de Abril, a reflexão

por Alexandre Guerra, em 25.04.18

Desde que me lembro das comemorações do 25 de Abril, pouco mais tenho retido na memória do que discursos e proclamações na Assembleia da República e a tradicional descida na Avenida da Liberdade liderada pelo PCP. E há ainda o cravo, esse símbolo luminoso... Seja como for, não vejo em nada disto qualquer problema, nem um suposto "esquecimento" da História, porque as efemérides servem para isso mesmo, para momentos solenes, muitos dos quais perante a indiferença quase total do Povo, sobretudo à medida que o tempo vai passando sobre o acontecimento.

 

Caberá, pois, a cada um de nós celebrar esta data à sua maneira, reinterpretando aquilo ficou conhecido como os "ideais de Abril". Nesse exercício introspectivo, devemos relembrar aqueles que, num dado momento da nossa História, se sacrificaram e arriscaram em prol de um ideal maior. Com humildade e espírito combativo, desafiaram um regime instalado e corporativo. Cada um deles lá tinha as suas convicções, porque, nestas coisas das revoluções, nunca há gente desprovida de interesses ideológicos. Mas, focados num bem maior, esses soldados levaram a sua revolução por diante.


Hoje, quarenta e quatro anos volvidos, arriscar-me-ia a dizer que se cada português reflectir sobre aqueles que deviam ser os guardiões do regime, facilmente chegará à conclusão de que a Política deixou de ter actores dignos, a senhora Justiça prostituiu-se a quem lhe dá mais e o Jornalismo definha para o pântano. 
São três pilares fundamentais para qualquer democracia saudável e que neste momento estão frágeis, em grande parte por culpa própria dos seus actores, nos quais não se vislumbra nem humildade, nem espírito combativo, apenas interesses egoístas.

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Leituras para o 25 de Abril

por Pedro Correia, em 25.04.18

 

Adiós a los Castro. De Yoanis Sánchez, no El País.

Vésperas de Abril. De Francisco Seixas da Costa, no Duas ou Três Coisas.

 

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 25.04.18

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   Portugal - A Revolução Impossível?, de Phil Mailer

Tradução de Luís Leitão

História

(reedição Antígona, 2018)

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Canções do século XXI (390)

por Pedro Correia, em 25.04.18

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Flagrante Delito com estreantes à mistura

por João Pedro Pimenta, em 24.04.18

Aos dezanove dias do corrente do ano da Graça de 2018, os membros do Delito reuniram-se em ambiente de obscura conspiração, em forma de um jantar no clássico e luminoso Café Império, sempre resistente aos chamamentos da vizinha igreja que se assenhoreou do ex-cinema o mesmo nome. O pretexto era a possibilidade de alguns membros da confraria se puderem estrear nestas conspirações imperiais, pelo que parte dos membros não pôde vir. Ainda assim, e com a anunciada vinda do João André dos Países Baixos, do José Pimentel Teixeira desembarcado há já uns tempos de Moçambique e dos escritor destas linhas quase directamente vindo do Porto, a coisa realizou-se.

 

Devo dizer que fui dos últimos a chegar e o primeiro a ir embora, por inadiável compromisso. Mas aquele convívio permitiu que em poucas horas se estabelecesse uma data de conversas, de uma incrível diversidade, que se cruzavam entre elas tornando difícil seguir uma e outra. Os escritos dos membros do Delito não são prosa para impressionar o leitor com o seu incrível conhecimento geral dos factos, mas produtos de reflexão, conversa e troca de impressões várias, como se podia comprovar ao vivo. 

 

Assim, e entre a chegada dos bifes da vazia (com maioria qualificada) e das cervejas que constantemente arribavam à mesa, falou-se na experiência na blogosfera e nos nossos fieis comentadores, aos quais qualquer dia teremos de endereçar convites para um convívio, caso queiram (pôs-se a possibilidade de alguns serem criações do Pedro Correia para estender e melhorar o nível de conflituosidade nos comentários); de como nos mantemos resilientes apesar do domínio das redes sociais; do início dos blogues e de como em determinadas situações foram trampolins para um maior mediatismo; de casos de perseguição obsessiva (stalking, não é?), incluindo o conhecimento do nosso paradeiro; mencionaram-se antigos jovens assistentes universitários e as suas actuais ambições políticas; falou-se de bola, com maioria leonina, e apostou-se em Jesus para substituto de Wenger no Arsenal.

 

Do lado onde me encontrava ouvi sobretudo as recentes impressões de Roma (algo desiludidas) do José Bandeira, ao qual asseguraram que Nápoles estava muito melhor que a capital, e dos mais harmoniosos percursos pela Toscana; as recordações de buscas arqueológicas da Ana Cláudia, com a velha discussão dos mármores do Pártenon levados por Lord Elgin e da defesa da civilização ocidental logo assumida pelo José Teixeira. Ressoaram também as opiniões jurídica abalizadas do Luís Menezes Leitão e as suas memórias de viagem ao gelo da Rússia, o percurso de vida do João André, que pelo meio o levou ao Delito, e de novo a defesa da civilização agora pelo José Navarro de Andrade. A distância  e os obstáculos sonoros ainda me impediram de ouvir melhor o Luís Naves e a Teresa Ribeiro. O Pedro coordenava o jantar e distribuía assuntos de conversa. Eu tentava ouvir um pouco de tudo e limitava-me a lançar algumas opiniões, na esperança de que tivessem algum impacto.

 

Ainda houve tempo para admirarmos, em primeira mão, e nas nossas mãos, o novo opus do Pedro - 2017 - As Frases do Ano - antes do lançamento oficial e que é um apanhado exaustivo e divertido de tudo quanto se disse no ano passado, arrumado de forma cronológica. Para a coisa ser melhor, faltou apenas o livro do próprio do Delito, que deve estar por dias.

 

Como disse atrás, tive de sair mais cedo do que seria desejável, ao mesmo tempo que o Luís. Não posso descrever o fim da conspiração, sendo certo que teria certamente valido a pena continuar caso pudesse. A desforra ficará para próxima reunião, previsivelmente à hora de jantar.

 

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PS: a fotografia já tinha sido revelada antes, bem sei, mas além de não ter outra, acho que vale a pena ser exibida novamente. Os membros do Delito merecem-no.

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[pub.] Tomem nota: quinta, 18.30

por Pedro Correia, em 24.04.18

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Convidado: RUI MONTEIRO

por Pedro Correia, em 24.04.18

 

Litoral é Lisboa e o resto é paisagem

 

Portugal é um país com fortes assimetrias territoriais de desenvolvimento económico e social, ponto final parágrafo. É assim que o tema da coesão nacional é apresentado: uma afirmação sem explicação. Há sempre um subtexto, o “vocês sabem do que estou falar”. O subtexto, o que todos damos como adquirido, é que o litoral se opõe ao interior, o urbano ao rural, as áreas metropolitanas às cidades médias, dando origem a diferentes jogos de soma nula. A dicotomia entre Lisboa e o resto do país também faz parte do subtexto, mas as razões são mais ideológicas do que de facto, resulta do centralismo para uns e da inveja dos caciques da província para outros, não existindo unanimidade ou a unanimidade é que tudo se resume a um Porto-Benfica.

Como os antecessores, este Governo também decretou que a dicotomia justa era entre o litoral e o interior e criou uma Unidade de Missão para o Interior para a dirimir.

 

Procura-se analisar essa dicotomia através do Produto Interno Bruto (PIB) por habitante. Parafraseando Winston Churchill, é o pior indicador de análise da convergência real, com excepção de todos os outros. Por razões compreensíveis, retiram-se os Açores e a Madeira desta análise. Por simplificação e dada a ausência de informação com outro recorte espacial, admite-se que o litoral é constituído por todas as regiões NUTS III que fazem fronteira com o Oceano Atlântico, por mais pequena que seja, e o interior pelas restantes. O litoral apresenta um PIB por habitante superior em 8 pontos percentuais (p.p.) à média do Continente, enquanto essa diferença relativamente ao interior ascende a -22 p.p.. Analisadas assim as assimetrias, este diferencial de 30 p.p. permite afirmar que o litoral e o interior apresentam níveis de desenvolvimento diferentes.

Se se retirar a região NUTS III da Área Metropolitana de Lisboa do litoral, as comparações permitem conclusões diferentes. O litoral e o interior apresentam um PIB por habitante inferior à média do Continente de, respectivamente -7 p.p. e -22 p.p., enquanto essa relação da Área Metropolitana de Lisboa é precisamente inversa de +31 p.p.. A diferença entre o interior e a Área Metropolitana de Lisboa (53 p.p.) é cerca de três vezes e meia superior à diferença entre o interior e o litoral (15 p.p.). Não parece que a dicotomia entre o interior e o litoral explique as assimetrias de desenvolvimento ou, se explica, como muitos afirmam, incluindo o Governo, então é porque só a Área Metropolitana de Lisboa faz fronteira com o Oceano Atlântico.

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Esta é uma análise positiva, do que é, não permitindo um juízo normativo, do que deve ser.

Depois da correcção dos principais desequilíbrios macroeconómicos decorrentes da negociação entre o Estado português, por um lado, o FMI, a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu, por outro, do Programa de Assistência Económica e Financeira, a principal preocupação da política económica continua a ser a do endividamento externo globalmente e de cada um dos sectores institucionais (Estado, famílias e empresas). Qualquer juízo normativo deve ser efectuado tendo em consideração esta preocupação, procurando tirar lições de experiência para o futuro, dado que ninguém pretende regressar ao passado recente.  

A balança de mercadorias (exportações-importações) das diferentes regiões NUTS II do Continente expressa em percentagem do PIB é a seguinte: no Norte é de +11%, no Centro de +9%, no Alentejo de +6%, no Algarve de -1% e na Área Metropolitana de Lisboa de – 26%.

Um dos factos estilizados da economia portuguesa é o seu persistente défice da balança comercial. Embora não se disponha de informação regionalizada relativamente à balança de serviços e ao comércio inter-regional, pode-se afirmar, mesmo assim, que em termos absolutos e relativos a Área Metropolitana de Lisboa é o principal território responsável por esse défice persistente da economia portuguesa. Sendo a região mais rica do país, também se admite que apresente um défice da balança de rendimentos e transferências. Os dois défices só podem ser compensados por uma posição superavitária nas balanças de capitais e financeira. Estas posições têm o seu simétrico nas outras regiões do país e, em particular, nas suas regiões mais pobres (Norte e Centro).

Não se trata de qualquer juízo moral, de que os lisboetas vivem acima das suas possibilidades, mas tão-só de constatar que as necessidades de investimento da Área Metropolitana de Lisboa não são financiadas pelas poupanças dos seus residentes, sendo oriundas não só do exterior do país como das regiões mais pobres, minando o seu potencial de crescimento futuro e tornando a execução dos fundos europeus pouco eficaz na correção de assimetrias de desenvolvimento e na convergência real.

Esta é uma situação comum em países pouco desenvolvidos ou de desenvolvimento intermédio, mas não em países mais desenvolvidos com os quais nos queremos comparar no contexto da União Europeia.

 

O facto estilizado que marcou a economia portuguesa durante o processo de convergência nominal que antecedeu a criação do Euro e após a instituição da moeda única foi o excesso de investimento em sectores produtores de bens e serviços não transacionáveis, muito dele assente no simples rentismo (“rent-seeking”) e em rentistas (“rent-seekers”), aos quais não é indiferente a concentração em Lisboa e na sua área metropolitana do poder político. Este investimento inflacionou os respectivos preços dos bens e serviços, alterando a sua relação com os preços dos bens e serviços transacionáveis, apreciando a taxa de câmbio real, reduzindo a competitividade externa e aumentando o endividamento, público e privado.

Procurou-se explicar que as assimetrias de desenvolvimento estão associadas ao endividamento externo e vice-versa, num processo que se autoalimenta e se amplifica, gerando um círculo vicioso. A identificação e a caracterização de um problema não transportam em si mesmas a solução. Não há, nunca há uma só solução. Nos países mais desenvolvidos da OCDE uma parte da solução tem passado pela distribuição territorial do poder político de acordo com o princípio da subsidiariedade, sujeitando-o a maior escrutínio público e democrático, para se evitarem problemas do rentismo. A esta solução chama-se descentralização. É condição necessária mas não suficiente.

 

É necessário canalizar também o investimento para sectores produtores de bens e serviços transacionáveis, que, por estarem expostos à concorrência internacional, apresentam maior potencial de aumento da produtividade e de transformação estrutural da economia portuguesa. Esta aposta não é neutra em termos territoriais e depende da orientação a dar aos fundos europeus no atual e no próximo período de programação. Não se alteram os perfis produtivos dos territórios do dia para a noite. Uma aposta desta natureza não pode dispensar as regiões com maior orientação exportadora e conhecimento dos mercados internacionais e que, simultaneamente, apresentam PIB por habitante mais reduzido (Norte e Centro).

Se foi em nome desta solução que recentemente o Partido Socialista (PS) e o Partido Social Democrata (PSD) fizeram dois acordos, então estaremos em presença de um pacto de regime, porque o regime nunca mais será o mesmo.

 

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“Portugal é Lisboa e o resto é paisagem”, todos o dizemos e, aparentemente, teria sido o Eça de Queiroz a dizê-lo primeiro. Ao reler o capítulo VI de Os Maias não encontrei referência à paisagem que constitui o entorno de Lisboa e o resto do país, mas deliciei-me com o retrato irónico e cruel de uma elite decadente que sempre se considerou superior ao povo a que pertence. Esta frase permanece no nosso imaginário colectivo e dos principais decisores. A ideia que lhe subjaz é poderosa: o que é bom para Lisboa é bom para Portugal, dado que as duas realidades se confundem, um pouco à imagem da relação entre a General Motors e os Estados Unidos. É poderosa mas não é verdadeira. A correcção das desigualdades, isto é, o crescimento económico mais robusto das regiões mais pobres, permitirá um crescimento económico mais sustentável de Lisboa e de Portugal, um crescimento menos exposto a problemas de endividamento externo.

É necessário concentrar a atenção nas assimetrias que importam e não noutras que pouco ou nada importam nos termos em que são apresentadas, como se, num país com pouco mais de 200 km de largura e nas actuais condições de mobilidade de pessoas, de capitais, de bens, de conhecimento e de tecnologia, o desenvolvimento dependesse predominantemente do meridiano que ajuda a referenciar cada lugar.

 

 

Rui Monteiro

(blogue A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DE LIEDSON)

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 24.04.18

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Cadáveres às Costas, de Miguel Real

Romance

(edição Dom Quixote, 2018)

"Este livro segue a grafia anterior ao Novo Acordo Ortográfico de 1990"

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Canções do século XXI (389)

por Pedro Correia, em 24.04.18

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Sexo, mentiras e vídeo

por Rui Rocha, em 23.04.18

Em artigo publicado no DN, Fernanda Câncio debruça-se sobre o registo de imagem e som em diligências no âmbito do processo penal. Como o faz a partir da sua experiência pessoal, acaba por incorrer numa série de equívocos. Importa recordar que o Processo Penal é regido por alguns princípios e que a decisão judicial resulta sempre não de um processo matemático e infalível mas da convicção do julgador formada a partir dos factos que constam do processo. Concretizando, o Processo Penal rege-se, entre outros, pelos princípios da oralidade e da publicidade. A gravação de som e imagem aproveita a ambos. O princípio da oralidade diz que o meio privilegiado de transmissão de informação por arguidos e testemunhas deve ser a palavra falada. É um princípio ligado à eficiência e celeridade processual. Se tudo tivesse de ser reduzido a escrito, os processos seriam ainda mais longos. Mas o princípio da oralidade tem um problema: a palavra falada perde-se. Por isso, tornava-se necessário um compromisso entre a celeridade e a certeza e muitas diligências acabavam por ter de passar-se a escrito de forma mais ou menos resumida. A gravação de som e imagem resolve este problema. Os depoimentos e testemunhos podem ser consultados as vezes que for necessário sem necessidade de assegurar processos longos de transcrição. Já o princípio da publicidade tem um objectivo fundamental: assegurar a imparcialidade do processo e do julgador. Estando os acto disponíveis para consulta, é mais fácil sindicar a conduta dos órgãos judiciais. A gravação do som e imagem reforça essa garantia de imparcialidade. O contacto com a informação não é feito de forma mediata, através de transcrição ou resumo, mais susceptível de enviesamento e distorção, voluntários ou não. Agora pode ver-se e ouvir-se exactamente o que foi dito. Mas também do ponto de vista da formação da convicção o som e a imagem, ao contrário do que Câncio parece entender, são úteis. A linguagem não verbal, a consistência, a atitude durante a prestação de declarações são importantes para avaliar a sua credibilidade. Um depoimento transcrito não permite avaliar estas dimensões, reforçando a subjectividade da decisão. Em geral, a gravação de som e imagem não diminuem as garantias dos intervenientes, pelo contrário, reforçam-nas e asseguram um processo mais justo. A questão, que Câncio aparentemente confunde, é então entre a publicidade do processo, essencial à garantia da imparcialidade, que a gravação da imagem e do som reforçam, e a publicação abusiva fora das situações previstas na lei. Mas impedir esta não implica prescindir daquela. Seria o mesmo que paralisar toda e qualquer investigação porque há situações recorrentes de violação do segredo de justiça. Mas Câncio vai mais longe e coloca a questão ao nível do direito à informação e do direito à imagem: quando presto depoimento gravado devo ser informado do facto e, no limite, posso recusar porque o direito constitucional à imagem mo permite. Quanto ao direito à imagem, parece difícil que este, por si só, justifique uma recusa. O próprio direito à liberdade não impede, inclusivamente, as autoridades judiciais de decretar a prisão preventiva em casos justificados. A questão não é portanto de direito de imagem mas de direito ao silêncio que está consagrado. Portanto, pode ou não falar-se e isso é um direito. Mas quando alguém fala, deve existir gravação de som e imagem do depoimento. Já no que diz respeito à informação, percebe-se o ponto, mas a verdade é que a gravação de som e imagem está prevista na lei. E está prevista na lei quer para o interrogatório de arguidos, quer para o depoimento de testemunhas. Mais, atendendo à garantia adicional de imparcialidade que traz ao processo, deve ser esse o modo normal de registo. Quem participa no processo, mesmo que não tenha ido ao cabeleireiro, deve ficar agradado por existir um registo fidedigno do que disse e fez. As diligências judiciais não são eventos sociais em que se pretende que as câmaras apanhem o nosso melhor lado. A ideia de consentimento para um registo que reforça as garantias do processo e do próprio interveniente parecem excessivas quando tal está previsto na lei. No fundo, teremos aqui provavelmente uma questão geracional. Para quem nasceu e vive na idade do vídeo, tudo isto é normal. Arcaico seria que tudo fosse dito e tivesse que ser passado a escrito. Perecebe-se, todavia, que a pessoas mais idosas como Fernanda Câncio a situação possa causar algum desconforto.

 

* não há aqui sexo, mas se eu não tivesse dado este título vocês não liam, pois não? 

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Cicuta

por Pedro Correia, em 23.04.18

 

A cicuta deste Sócrates chama-se dinheiro.

 

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 23.04.18

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A Cidade dos Aflitos, de Luís Pedro Cabral

Romance

(edição Guerra & Paz, 2018)

"A presente edição não segue a grafia do novo acordo ortográfico"

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Os comentários da semana (adenda)

por Pedro Correia, em 23.04.18

«Antes do facebook houve o MySpace, e antes disso o Friendster. Antes do Google houve o Gofer e o AskJeeves. Edison tentou e falhou cerca de 5000 projectos de lâmpadas até acertar. O primeiro iPhone foi a 7ª versão.
Talvez explicar aos miúdos que os post-it resultaram dum erro na cola? Que o iogurte nasceu dum acidente? Que com os erros se aprende? Que ninguém nasce ensinado?
Os meus filhos tentam sempre baldar-se, “não sabem mudar uma lâmpada”. A minha resposta é “eu antes de saber também não sabia”. Eu sei que sabem, mas é mais fácil se for eu. Há meses um leitor de Blu-Ray pifou com um filme lá dentro e eu abri-o. “Pai, sabes arranjar isso?”. Não, mas sei tirar o filme, e quanto ao resto logo se vê - pode ser uma avaria simples, e se não conseguir, pois de estragado não passa.
São ideias, lições não tenho.»

 

Do nosso leitor António. A propósito deste texto da Ana Cláudia Vicente.

 

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«Traduzir não é um trabalho fácil, ao contrário do que muita gente parece pensar (e desvalorizar). Não temos varinhas de condão, nem é tão simples como estalar os dedos. É necessário ter bons conhecimentos das línguas em que estamos a trabalhar, pesquisar muito (por vezes perde-se imenso tempo para traduzir uma simples palavra ou expressão), saber escrever bem, gostar de escrever bem. E para escrever bem é preciso ler muito, e prestar muita atenção ao que se lê, para saber separar o trigo do joio. Tudo isto é incompatível com o "encher chouriços" em que a actividade de tradução parece ter sido transformada hoje em dia. A juntar ao facto de se achar que qualquer pessoa cujos conhecimentos de uma língua estrangeira são ligeiramente acima do nível básico (mesmo tendo uma licenciatura) pode ser tradutor, e à ideia completamente errada de que o Tradutor do Google é tecnologia de ponta no que se refere a traduzir... Receio que a tendência seja para termos traduções cada vez piores.
A solução? Como em quase toda a nossa formação universitária, privilegiar a prática em detrimento da teoria; incentivar a qualidade pagando bem o trabalho que é bem feito; apostar numa formação contínua; valorizar a profissão. Entre outras coisas, claro.
Mas não me parece que isso aconteça em breve, portanto vamos ter de continuar a aturar traduções "manhosas" todos os dias.»

 

Da nossa leitora Ana CB. A propósito deste meu texto.

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Canções do século XXI (388)

por Pedro Correia, em 23.04.18

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Que restará de tudo isto?

por Luís Naves, em 22.04.18

Que restará de 2018 daqui a mil anos? Admitindo que a civilização ocidental resolve os seus maiores problemas, trinta gerações somam uma eternidade e, nessa altura, seremos provavelmente incompreensíveis, como os bizantinos são para nós. Partindo do princípio de que a nossa civilização encontrará formas de progredir sem passar por colapsos traumáticos, talvez se consiga resolver a limitação das viagens espaciais, prolongar a vida humana e desenvolver máquinas inteligentes, talvez se encontrem soluções para os problemas da energia, ambiente, água e alimentação da humanidade, que será mais numerosa e transformada. Em 3018, haverá cem mil milhões de seres humanos dispersos por trinta planetas habitáveis em 80 sistemas solares explorados, cujas ligações levarão trinta a cinquenta anos a concluir entre si. Sendo necessário para cada viagem um décimo da longevidade média dos astronautas geneticamente modificados, haverá aventureiros famosos a concluir a sua sétima ou oitava viagem (os passageiros estarão em hibernação, para consumirem o mínimo de recursos, e a maioria dos sistemas terão inteligência artificial a controlar as naves). Cada pequeno núcleo de viajantes levará consigo embriões humanos. Com núcleos populacionais tão distantes entre si, a linguagem estará a fragmentar-se a partir de uma língua franca baseada em inglês, castelhano e mandarim, cujas formas arcaicas, tal como eram faladas no início do século XXI, serão compreensíveis só para peritos, como o latim pertence hoje a uma elite de sábios. Para historiadores especializados em assuntos arcanos, o ano de 2018 terá uma sensaboria interna que os obrigará a vasculhar velhos arquivos nas camadas mais profundas do conhecimento, consultando informação que ninguém terá procurado desde o centenário anterior. Entre o que não se perdeu entretanto, por causa das tecnologias obsoletas dos arquivos, será possível recuperar imagens e factos, com dúvidas sobre o respectivo grau de relevância: por exemplo, qual o motivo de determinado conflito num país obscuro que se chamava Síria ou o que pretendiam as potências da época, Estados Unidos, China, aliança europeia (seria este o nome?), os impérios russo ou japonês, núcleos políticos que se desintegraram ou reconfiguraram ao longo dos dois séculos seguintes, para não falar daquelas pequenas nações extintas com nomes poéticos, como Portugal, cujos problemas não passarão de enigmas quase insolúveis, a exigir especulação histórica. Das artes, pouco restará. O pós-modernismo foi uma transição em que se privilegiou a moda e o fogo de artifício, que por definição não resistem à tradução e à poeira do tempo. Mesmo para eruditos, será difícil distinguir entre 2018 e os anos à volta (o que terá sido aquela crise de 2008?); e alguém, mesmo culto, terá dificuldade em perceber se 2018 foi antes ou depois da Guerra Fria, precisando de fazer contas de cabeça para compreender que já tinham passado gerações após os grandes tiranos do século XX, cuja fama misteriosa será o que para nós é a celebridade de Átila, o Huno. O cidadão comum terá dificuldade em lembrar-se que 2018 ocorreu depois da primeira viagem à Lua, que por sua vez os estudantes mais cábulas tentarão colocar no século XXI, levando os tutores robóticos à impaciência. Talvez os historiadores ortodoxos concordem em chamar ao nosso tempo o breve período do liberalismo complacente ou terceira fase capitalista arcaica, ainda antes da pré-robotização e da ascensão das máquinas, certamente um momento pouco fértil do lento progresso rumo ao início do século XXII, o da segunda renascença, aí sim, com aceleração da História e coisas interessantes para estudar.

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Vamos lá ver. O que está em investigação no Processo Marquês é uma situação gravíssima de corrupção e tráfico de influências. A Fernanda Câncio pode afirmar que não sabia de nada, que não participou em nada. Sim ou não, já veremos ou eventualmente nunca saberemos. Sobre tudo isso, podemos formar um juízo mais ou menos informado, mais ou menos parcial. Agora, há uma coisa sobre a qual não podem existir dúvidas. Num caso destes, a responsabilidade de um cidadão é colaborar com a Justiça. Dizer o que se sabe, responder com seriedade. O papel a que Fernanda Câncio se prestou nos interrogatórios, sonsa sempre, tonta quando lhe conveio, rufia quando lhe faltou melhor, é impróprio de alguém que faz da vida um sermão permanente sobre a sua superioridade moral. Se a toda a hora Fernanda Câncio se proclama séria, nos interrogatórios perdeu uma boa oportunidade de parecê-lo.

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 22.04.18

«O que Rio percebeu é que se pode aumentar a receita fiscal aumentando a despesa pública, via impostos indirectos. E assim o pessoal ilude-se que pelos aumentos de salários e pensões a austeridade finalmente ficou para trás independentemente do mês, cada ano, acabar mais cedo.
Truque de Ilusionista....
Por muitas cativações e calibrações, enquanto a dívida não chegar aos 60% basta um espirro lá fora para irmos de cama.»

 

Do nosso leitor Vlad. A propósito deste texto do Luís Naves.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 22.04.18

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     Historias Secretas de Reis Portugueses, de Alexandre Borges

(reedição Casa das Letras, 5." ed, 2017)

"O autor escreve segundo a antiga ortografia"

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O blogue da semana

por João Villalobos, em 22.04.18

Iniciei-me na 'blogocoisa' creio que em 2005. Raros eram os blogues nessa altura que aliavam a qualidade do conteúdo à da forma. Esses poucos - muito poucos - capazes de encontrar uma coerência estética através de uma subtileza intrínseca no exibido e no transparecido.

Foi essa coerência - na escolha das imagens e dos textos . aquilo que sempre me fascinou desde a minha primeira visita a este blogue, um resultado de cuidadosas escolhas, por vezes mais esporádicas, outras menos espaçadas no tempo. A sua autora é poeta e editora e cada um dos poemas ou fragmentos, fotografias ou imagens, são cuidadosamente selecionadas por critérios que apenas pressentimos.

E há também espelhos, evidentemente. Muitos espelhos, no presente e no passado deste blogue. Que nos permitem vislumbrar esse 'outro lado' para onde atravessou Alice, nele se reencontrando. Parafraseando Charles Lutwidge Dodgson, mais conhecido como Lewis Carroll: "What is the use of a blog, without pictures and conversations?". 

Por estas e outras razões, agradeço a oportunidade de escolher o THERE'S ONLY 1 ALICE como blogue da semana. 

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