Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




X

por jpt, em 30.11.17

ze pedro.jpg

Não há mais a dizer para além deste nosso, sempre erguido, X

  

 

e mais XX

  

Autoria e outros dados (tags, etc)

O insuperável sectarismo do PCP

por Pedro Correia, em 30.11.17

Nunca cessarei de me espantar com o sectarismo do PCP, incapaz de reconhecer mérito aos empresários, que considera seus "inimigos de classe", em obediência cega e rígida aos sacrossantos mandamentos leninistas. Mesmo a um empresário como Belmiro de Azevedo, que nunca integrou as famílias do dinheiro antigo nem o capitalismo especulativo e parasitário.

Self made man, oriundo de uma região pobre, Belmiro foi o mais representativo empreendedor privado português em democracia. Desenvolveu um grupo económico que se tornou no maior empregador nacional, apenas superado neste aspecto pelo próprio Estado, garantindo mais de cem mil postos de trabalho num país onde o desemprego é ainda o drama social mais premente. Criou riqueza, exerceu o mecenato (na Casa da Música, por exemplo) e fomentou a cidadania ao fundar em 1989 um jornal de inegável prestígio, o Público, de onde nunca colheu um cêntimo de lucro.

Concordássemos ou não com as ideias do líder histórico da Sonae, agora falecido, a sua memória merece respeito, como ficou assinalado num voto de pesar aprovado pela larga maioria dos deputados na Assembleia da República. Um voto que apenas contou com a oposição declarada dos comunistas: na sua fanática intolerância, o PCP ainda imagina que Portugal ficará melhor sem homens como Belmiro de Azevedo - emblema da iniciativa privada numa sociedade tão carente de investimento produtivo.

Estes serôdios discípulos de Lenine estão redondamente enganados. E cada vez mais acantonados numa ideologia sem sentido. Um mundo sem empresários é fatalmente um mundo sem horizontes. Mais estreito, mais pobre e menos livre.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 30.11.17

250x[1].jpg

 

Os Diários de Adão e Eva, de Mark Twain

Tradução de Maria do Carmo Figueira

Ilustrações de Pedro Lourenço

Humor

(reedição Cavalo de Ferro, 3.ª ed, 2017)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Belmiro de Azevedo (1938-2017)

por Luís Menezes Leitão, em 30.11.17

Gostava especialmente de Belmiro de Azevedo. Era um grande empresário, que transformou uma empresa familiar num grande grupo económico, que aguentou contra ventos e marés, fazendo da vida empresarial praticamente um duelo. Curiosamente perdeu as duas maiores batalhas em que se envolveu: a oposição à OPA do BCP sobre o BPA, que perdeu, e a OPA da Sonaecom sobre a PT, que também perdeu. Mas, mesmo quando perdia, estava sempre pronto para a batalha seguinte, já que, como ele dizia, não há derrotas eternas, nem vitórias definitivas.

 

Mas o que gostava mais em Belmiro era o seu estilo truculento e a capacidade de impor os seus pontos de vista. Num país onde se considera que o respeitinho é muito bonito e em que a maior parte das pessoas só diz meias palavras, com receio das consequências, Belmiro dizia e fazia o que pensava, sem constrangimentos de qualquer ordem, sendo absolutamente demolidor quando era necessário. Recordo-me uma vez que o Parlamento o queria ouvir num inquérito, e ele disse que só estaria disponível às oito da manhã, pois tinha que apanhar o avião para o Porto. Pois não é que os deputados, que habitualmente só chegavam às 9h30m, foram abrir propositadamente o Parlamento às oito da manhã, com receio de serem chamados de preguiçosos por aquele homem que fazia do trabalho a sua divisa.

 

Ficou na história o conflito de Belmiro com Marcelo Rebelo de Sousa, quando ele era presidente do PSD, e criticou o facto de a Sonae estar a fazer investimentos no Brasil com apoio do Estado. Belmiro respondeu-lhe à letra, exigindo que tirassem Marcelo da presidência do PSD, e que ele fosse erradicado da sociedade portuguesa. Lembro-me de que o artigo que escreveu na altura terminava assim: "Aqui tem, professor Marcelo Rebelo de Sousa. Por mim, escusamos de ficar por aqui: não me calo nem que Cristo desça à terra. E desengane-se: dito por mim, isto quer dizer realmente isso mesmo". Cristo desceu efectivamente à terra e nem assim Belmiro se calou, só o tendo feito em definitivo ontem. E os poderes do Estado mostraram mais uma vez a sua verdadeira natureza. O Presidente fez uma declaração formal de condolências e, no Parlamento, que em tempos tinha aberto de propósito para o ouvir, houve deputados a abster-se ou mesmo a votar contra um simples voto de pesar. Só que Belmiro de Azevedo era muito superior a esse tipo de posições oficiais e só podemos imaginar o que diria sobre as mesmas. Ontem partiu um grande homem.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O pesar

por jpt, em 30.11.17

belmiro.jpg

Um voto de pesar na Assembleia da República pelo falecimento de alguém não é a expressão de condolências pessoais, é um acto político. Como tal é perfeitamente legítimo, ainda que possa (erradamente) parecer antipático, votar contra a expressão política desse pesar. Belmiro de Azevedo foi um grande empresário português, um grande capitalista como antes se dizia, e também foi simbólico desta nossa via económico-social. Assim sendo é perfeitamente normal que o PCP, como adverso a esta via, vote contra a expressão política de um pesar pelo seu desaparecimento. É isto a política e a sua componente ideológica.

 

Agora o que não tem qualquer tipo de pertinência, o que é mesmo incompreensível porque inexplicável, é uma abstenção. Por outras palavras, ou sim ou sopas. E assim sendo este pequeno caso político, a posição da assembleia face à morte do empresário, mostra bem a vacuidade medíocre dos ... abstencionistas.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Canções do século XXI (244)

por Pedro Correia, em 30.11.17

Autoria e outros dados (tags, etc)

Anunciacoes.jpg

 

Atribuir a Maria Teresa Horta, em 2017, o quarto lugar ex-aequo do Prémio Oceanos, que é o mais importante prémio literário para literatura de língua portuguesa ( à excepção do Prémio Camões, claro - mas esse é um prémio de consagração pela totalidade da obra, e aliás é também escandaloso que Maria Teresa Horta ainda não o tenha recebido) representa uma forma de assédio moral, uma humilhação que a obra da autora de Minha Senhora de Mim e As Luzes de Leonor de forma alguma merece, e a que as regras mínimas da mais elementar educação deviam tê-la poupado. Não achavam Anunciações - a obra em causa neste prémio - digna do Prémio? Não a premiassem, e assumissem essa decisão. Dar-lhe um rebuçadinho para dividir com outro menino é que não é coisa que se faça a uma autora que, desde 1960, quando publicou a colectânea de poemas Espelho Inicial, até hoje, construiu uma obra ímpar, com mais de 40 livros publicados. 

Maria Teresa Horta é uma voz absolutamente singular, original e renovadora na poesia contemporânea de língua portuguesa; isso mesmo tem sido realçado por alguns dos mais notáveis poetas e críticos - como Ana Luísa Amaral, que se estreou na poesia em 1990 com Minha Senhora de Quê, glosando e dialogando com Minha Senhora de Mim (1967).  Escreve sobre o desejo das mulheres pelo corpo dos homens com um desassombro, uma exactidão e uma liberdade que abala todos os preconceitos e incomoda visivelmente muitas e mui solenes eminências pardas. Tem talento e tem leitores, dois pecados que só se admitem a um escritor do sexo feminino se aparecerem separados, com fumos de humildade e contrição, para exorcizar o poder que unidos representam. 

Os prémios podem ajudar a divulgação e a tradução dos livros, é certo, mas, em última análise, são fenómenos temporais e temporários; nenhum conjunto de jurados tem o poder de fazer entrar na posteridade, ou excluir dela, nenhum autor. Tolstoi perdeu o primeiro Prémio Nobel da Literatura, em 1901, para o escritor francês Sully Prudhomme, que ninguém hoje lê nem se sente tentado a publicar. Virginia Woolf, Marguerite Yourcenar, Marguerite Duras e Clarice Lispector nunca o receberam, e continuam a deslumbrar gerações sucessivas de leitores. Para quem se sente permanente e infinitamente grato à obra de Maria Teresa Horta, como é o meu caso, é indiferente que os seus livros cintilantes como relâmpagos sejam ou não reconhecidos por este ou por aquele grupo de inteligências críticas suas contemporâneas; mas que, ao cabo de 57 anos de um trajecto literário de raro pioneirismo e inovação se lhe ofereça um prémio de consolação e a meias com outro escritor, é simplesmente ofensivo.       

Dir-me-ão que o Prémio Oceanos contempla livros e não carreiras. Fraca e frequente desculpa, nesta nossa época de imorais relativismos, em que a literatura se tornou uma passarela de moda onde só brilha - e brevemente - a carne fresca. Mas mesmo assim, pergunto: leram Anunciações? A sério? 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Já li o livro e vi o filme (209)

por Pedro Correia, em 29.11.17

1321634975-f[1].jpg

baladadapraiadoscaes_01[1].jpg

 

  BALADA DA PRAIA DOS CÃES (1982)

Autor: José Cardoso Pires

Realizador: José Fonseca e Costa (1987)

Não é o melhor livro de Cardoso Pires, mas talvez seja a melhor longa-metragem de Fonseca e Costa: um denso policial, baseado em caso verídico, com inesquecível desempenho de Raul Solnado no papel do chefe de brigada Elias Santana, da Judiciária. Se tivesse de optar entre um e outro, elegia o filme.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Convidado: JOÃO BRANCO

por Pedro Correia, em 29.11.17

 

Análise patológica à falta de cultura desportiva

que grassa pelo nosso país

  

I

Um espectáculo profundamente abjecto, asqueroso e degradante que ultrapassou todos os limites da decência e do bom senso e trespassou a própria lei, tornando-a, como se diz na gíria, um mero verbo de encher. Não posso de modo algum qualificar de outra maneira, com recurso a uma adjectivação mais suave, a luta fratricida a que temos assistido, no campo das palavras, nos últimos anos no futebol português. Se o fizesse, creio que estaria a passar um verdadeiro paninho quente pela irracionalidade instalada no pensamento dos dirigentes, dos jornalistas (?) e dos adeptos (adeptos? consumidores, vá) do futebol do país que é actualmente o detentor do título europeu.

O mais grave disto tudo é precisamente isso: o mau exemplo, a má imagem, o horrível cartão de visita do nosso futebol que temos vindo a oferecer a toda a Europa. Enquanto campeões europeus em título deveríamos estar a viver actualmente a fase de maior apogeu do nosso futebol. Deveríamos ter aproveitado o momento histórico (e a responsabilidade associada que veio certamente pendurada na Taça; se a quiseres manter na vitrine do teu museu daqui a 4 anos, aproveita esta ocasião para proceder à realização de um conjunto de acções, medidas ou programas que possam melhorar o grau de conhecimento sobre o jogo existente no teu país, a formação de treinadores, aumento de qualidade que certamente se irá reflectir na formação de melhores atletas e de mais completos seres humanos; dota os teus clubes de mais condições infraestruturais e superestruturais; usa toda a experiência e conhecimento acumulado para formar melhores dirigentes; porque só assim poderás manter o nível de qualidade e potencial atingido) vivido pela nossa selecção na Gália para realizar uma inversão total ao estado de sítio instalado, estado de sítio que é tão e somente o produto do estado de falência generalizada (financeira, moral, cultural) dos nossos clubes, dos nossos dirigentes, dos nossos consumidores-cidadãos, dos grupos editoriais e até dos próprios jornalistas.

Estou convicto que todos têm a sua quota-parte de culpa neste degenerativo processo em curso que ameaça, a curto prazo, recolocar o nosso futebol no mesmo patamar em que se encontrava há 30 anos se o paradigma vigente não for alterado rapidamente para outro que atribua mais importância ao conhecimento sobre o jogo.

 

II

A direcção pensa e acorda a estratégia no briefing diário. O presidente vira-se para o seu ventríloco de estimação, para um Saraiva qualquer, que pode chamar-se Marques ou Luís Bernardo (se bem que o Luís Bernardo não risca nem escreve absolutamente nada nos discursos de Luís Filipe Vieira; tal serviço é encomendado a uma espécie de ghost-writer chamado António Galamba; ó Luís, este é o meu melhor ângulo?) e diz: "olha, ó Saraiva, mandas-me este texto para o Fernando Mendes?" - o Saraiva manda para o Mendes. O Mendes, que bem pode chamar-se Calado ou Freitas, não se importa de ejacular (todas as noites) a informação em directo porque, estando necessitado do verdinho que recebe do clube e do canal de televisão para realizar uma acção de cobertura aos fiados que deixou um pouco por toda a parte, dispõe-se a tudo. Até a mentir.

Ameaçado de despedimento caso não escreva sobre o assunto, o jornalista de turno abre o laptop para contornos ficcionais à coisa. "Se não escreveres, o povo não deixa cá o clique. Se o povo não vier cá deixar o seu clique, ninguém patrocina isto. Se ninguém financiar isto, vamos todos para o olho da rua. Portanto escreve bem. Escreve tudo o que sentes até que te doam as mãos, menino."

 

O cidadão comum, advogado de profissão, lê no dia seguinte, antes de entrar na sessão no tribunal, sessão onde o cosmos lhe cai graciosamente sobre o ombro e sobretudo, sobre a língua:

Advogado A: "Meretíssimo, em primeiro lugar saúdo a sua pessoa, desejando-lhe toda a  sapiência (e todos os mais humildes, sinceros, estimados e atenciosos votos de confiança, saúde para o Sr. Meretíssimo e para a sua santa família) na aplicação da Justiça neste processo que nesta gloriosa manhã de Inverno nos traz até aqui à humilde casa basilar do Estado de Direito Democrático, campo de batalha de muitas querelas cavalheirescas entre causídicos, nas quais respeitamos honrosamente como sempre, como não poderia deixar de ser e como é nosso apanágio, a lei e os bons costumes de actuação desta corte. Queira-me também o meretíssimo Juiz dar-me apenas um segundinho muito importante para saudar os Srs. Procuradores com a mais calorosa e cordial das saudações, declarando-me incondicionalmente rendido ao trabalho lavrado neste despacho de acusação, despacho que aproveito para considerar como fidedigno em relação aos actos. A Sr. Procuradora, garbosa como sempre, com o seu cabelo aprumadinho que certamente muito trabalho deverá ter dado à sua ditosa mas não menos genial cabelereira..."

(entretanto o Juiz adormece porque o homem desdobra-se ordinariamente em mesuras, tratando até a empregada de limpeza de ocasião que está a passar pelo corredor por "Minha querida senhora, tieta do agreste que agora me deste uma visão do demónio que não posso, ai se não fosse casado, o que faria consigo sua pérola de diamantes, mais linda que qualquer uma ali posicionada estrategicamente no peitinho, ai no peitinho, ai o meu peitinho que não cabe em mim de tanta paixão que sinto, não tanto descaída para o seio direito mas mais para o esquerdo da Grace Kelly)"

Advogado B repete de seguida a mesma ordem de cumprimentos e saudações, bajulando tudo e todos a eito, qual metrónomo da arte do piropo hipócrita. Eis a arte de dizer muito pouco em muitas palavras, uma especialidade clássica do ser lusitano.

 

A audiência é dada por encerrada. Os dois advogados chegam ao café:

A: "O gajo nem lhe tocou, pá. Foi um mergulho para a piscina. Como é que és tão cego, meu?"

B: "Não toca? Vives em que mundo, caralho?"

A: "Olha, no do teu clube, que só sai à rua de 8 em 8 anos, certamente que não vivo, ó dragarto. Todos os anos vou ao Marquês com a família lá pelos idos de Maio enquanto tu ficas em casa a tocar corneta."

B: "Não admira. Com as instituições todas dominadas e com os árbitros todos comprados. É só colinho, tu..."

A: "Colinho? Mas tu és do único clube que até ao dia de hoje viu um dirigente condenado por corrupção!"

 

Por aqui me fico. Eis o verdadeiro elogio à irracionalidade. Este é o discurso irracional de gente que se considera a última coca-cola do deserto da racionalidade, os Descartes dos tempos modernos. Posto isto nem queiram imaginar o teor linguístico do discurso que à mesma hora é mantido por dois bêbedos no tasco. Várias foram as vezes em que já os vi, aqui pela rua do Arco, em Viseu, à paulada.

O produto do pensamento de um bando de manipuladores torna-se o prato do dia. A bola, o leitmotiv disto tudo, é pontapeada para fora do estádio sem piedade. Discute-se tudo até ao osso: movimentações de bastidores, problemas internos, problemas de balneário, situações financeiras dos clubes, zangas entre jogadores e namoradas, posts enigmáticos no twitter... A falha de marcação do central é sempre justificável e justificada com um erro do árbitro no minuto seguinte. Passámos da era da crítica aberta ao árbitro à éra da crítica aberta ao videoárbitro. Levam os dois na tarraqueta.

Parafraseando o saudoso Salgueiro Maia: "eis ao estado a que chegámos!"

Urge acabar com isto. 

 

football[1].jpg

 

III

Um país sem respeito pela diferença e incapaz de promover a igualdade de oportunidades é um país falido moralmente. Falido moralmente e sem futuro. Que é um país sem futuro já eu sei há muitos anos. Contudo, como sou um romântico da coisa, teimo em continuar por aqui a arrumar caixotes à espera que a minha oportunidade chegue. 

"Eles vão acreditar nas tuas capacidades, meu querido."

Vão, o tanas! Neste país só se salva quem tem cunhas ou quem exerce eficazmente a sua influência junto de terceiros.

Voltando ao assunto.

Sabiam que o Comité Olímpico Português paga mensalmente:

  • 1375 euros a atletas olímpicos de Nível I do Ciclo de Preparação para os Jogos, pagando apenas 518 a atletas paraolímpicos do mesmo nível?
  • 1100 euros a atletas olímpicos de Nível II e somente 386 euros (um valor abaixo do salário mínimo nacional) a atletas paraolímpicos?
  • 900 euros a atletas olímpicos de Nível III e somente 226 euros (abaixo de qualquer pensão rural paga a quem nunca colocou um cêntimo a render na Segurança Social durante toda a sua vida) a atletas paraolímpicos do mesmo nível?

 

Sim, é verdade. Não quero contestar os valores que são pagos aos atletas olímpicos apesar de crer que estes valores não satisfazem nem de perto nem de longe as suas necessidades, visto que são atletas que, além dos gastos estruturais decorrentes das suas vidas, têm que gastar centenas de euros em materiais de treino, suplementos alimentares, viagens, alojamento, refeições em dias de competição, consultas médicas, de enfermagem, consultas de fisioterapia, gastos com staff técnico, etc... Estas bolsas são uma perfeita esmola. Quero, sim, contestar apenas a desigualdade da coisa. O que diferencia mesmo o suor de um atleta olímpico de um atleta paraolímpico? 

E as próteses, pagam-se como? E as cadeiras adaptadas para momentos de competição, pagam-se como? E os óculos, pagam-se como? E as despesas estruturais, de deslocação, alojamento e material dos atletas-guia que acompanham alguns dos atletas? E as despesas das pessoas que têm de acompanhar os atletas que não são autónomos? Será que uma mísera esmola de 226 euros no caso dos atletas de Nível III paga tudo isto?

Já agora: porque é que se atribuem 1375 euros mensais a um atleta como o Nelson Oliveira (pago principescamente na Movistar) e só se atribui uma bolsa de 1100 euros ao Rui Bragança (Taekwondo) que coitado, para competir internacionalmente, tinha que ir saquear a arca das pandinhas de 1 euro aos pais?

 

IV

Por último.

Quando vou por aí ao domingo de manhã ao Fontelo ver jogos de formação, assusto-me com as atitudes que são praticadas pelos pais. Não obstante a pedagógica informação que circula a rodos pelos campos, que é distribuída no início da época pelos clubes aos pais, pelas associações regionais e pelas federações aos clubes, sobre o papel dos pais na vida desportiva dos seus filhos, vejo cenas que não lembram nem ao Mitroglou:

"Rodrigo, tu não vais dar mais golos ao Francisco. Os olheiros do Dragon Force vieram-te ver. Quantos mais golos deres ao Francisco, mais estás a contribuir para que ele vá para o Porto e para que tu fiques aqui a jogar pelos distritais. É isso que queres?"

"Tá bem, pai."

Sim, leram bem. Esta foi a apreciação, num tom despregado, em que um pai se dirigiu ao filho à saída do balneário, bem à minha frente. Sim, o clima de competição inter-trabalhadores promovido pelo sistema capitalista já chegou ao único sítio onde é actualmente permitida à criança brincar. 

 

O futebol representa para alguns pais a sua válvula de escape das frustrações do dia-a-dia. Tenho visto comportamentos que não lembram nem ao diabo, como pais a agredir-se, árbitros a ser apedrejados, pais a ameaçar árbitros à entrada dos balneários, pais descontrolados a ameaçar treinadores (porque o seu filho só jogou 3 minutos!!), pais a retirar crianças do campo quando a prestação dos filhos não lhes está a correr de feição, pais a criticar a alto e bom som o rendimento de colegas dos seus filhos à frente dos seus pais. Para outros, a participação desportiva do seu pequeno rebento é encarada como a única oportunidade para escalar o monte do Evereste que é a sociedade portuguesa.

Os olheiros andam aí. Há que gabar a cesta para que ela finalmente se venda. Com os olhos postos no Prémio se um dia o rapazote vier a vingar neste mundo cão (facto que acontece na razão de 1 em 100000000000) para certos pais, a actividade desportiva do seu filho é um vale tudo. Leram bem: um vale tudo. Vários são os que diariamente me pedem um olheiro à medida das simpatias clubistas. Eu bem tento retorquir, com alguma ironia (que nem todos entendem), que para se chegar ao Benfica ou a um Sporting não basta partir a jarra lá de casa com um pontapé de bicicleta.

É preciso muito mais que isso, mas eles não querer crer! 

 

Uma generosa fatia dos comportamentos que vou vendo por esses campos vem de pais que não fazem a mínima ideia do sofrimento, do constrangimento e até dos traumas (que se irão reflectir na personalidade do futuro indivíduo, provocando aquilo a que chamamos profundas falhas de carácter) que provocam nos miúdos com as suas atitudes. Há pais que não compreendem que uma atitude motivada pela performance do filho, que a desvalorização do desporto enquanto uma ferramenta de mero divertimento, que a valorização do desporto como uma forma de ascensão social, e que a incorrecta pressão que incutem sobre o rendimento desportivo dos seus filhos ou sobre a gestão que é feita por treinadores e dirigentes são atitudes que passam naturalmente para os comportamentos destes.

 

 

João Branco

(blogue O MEU CADERNO DESPORTIVO)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 29.11.17

deuses-de-barro[1].jpg

 

Deuses de Barro, de Agustina Bessa-Luís

Prefácio de Mónica Baldaque

Novela

(edição Relógio d' Água, 2017)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

De Portugal inteiro (102)

por Pedro Correia, em 29.11.17

 

O melhor Alentejo do Mundo (de Alcáçovas, Viana do Alentejo).

Autoria e outros dados (tags, etc)

Canções do século XXI (243)

por Pedro Correia, em 29.11.17

Autoria e outros dados (tags, etc)

Posso votar em mais do que um?

por Pedro Correia, em 28.11.17

Vi agora que o DELITO foi mencionado para "melhor blogue de opinião do ano" por ilustres blogonautas a quem aproveito para saudar, embora ciente de que não chegaremos à votação final nesta dinâmica galáxia Sapo.

Vim tarde, portanto já não posso encaminhar o voto nas direcções que mais gostaria. Na Cristina Nobre Soares, na Vânia Custódio, na Catarina Duarte, na Alice Alfazema ou na Lina Santos, por exemplo.

Felizmente posso votar em finalistas entretanto seleccionados por votação digital. Na Ana, na Psicogata, no Robinson Kanes ou no João Freitas Farinha, só para mencionar quatro.

Contem comigo, confrades da blogosfera. Só uma dúvida me assalta: posso votar em mais do que um?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Lá no bairro

por Rui Rocha, em 28.11.17

Isto é uma merda. A Mariana Mortágua esfrega o chão, faz o comer, trata dos filhos, passa a roupa do Costa a ferro, dobra-lhe as camisolas interiores, arruma-lhe os peúgos brancos na gaveta de baixo da mesa de cabeceira. E depois, o gajo anda na rambóia com a EDP. A Mortágua esbraceja, grita, ameaça, diz que faz e acontece. Mas no dia seguinte lá está outra vez com a esfregona na mão ou a coser-lhe as trusses enquanto o fulano vai ter com a outra. Na rua, a Mortágua anda com a cabeça muito direita, caminha muito digna. Mas todo o bairro vê o que se passa. O bardina sabe que é bonito e aproveita-se da fraqueza dela.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Música recente (150)

por José António Abreu, em 28.11.17

The Cornshed Sisters, álbum Honey & Tar.

Quatro vozes que combinam perfeitamente, numa mistura de folk com indie pop.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Dez meses é muito tempo

por Pedro Correia, em 28.11.17

3Ii0Cu0[1].png

 

«O PS nunca mais vai precisar da direita para governar.»

Pedro Nuno Santos, secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, em entrevista ao Jornal Económico

20 de Janeiro

 

«Em matérias estruturantes vamos procurar o PSD e o CDS.»

Pedro Nuno Santos, secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, em entrevista ao Público

26 de Novembro

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 28.11.17

capa_lc3a1pides-partidas[1].jpg

 

Lápides Partidas, de Aquilino Ribeiro

Prefácio de António Ventura

Narrativa ficcionada

(reedição Bertrand, 2017)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Ligação directa

por Pedro Correia, em 28.11.17

 

Ao Olho de Gato.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Canções do século XXI (242)

por Pedro Correia, em 28.11.17

Autoria e outros dados (tags, etc)

- Não há dinheiro para tudo; 

- Não há problema em deslocalizar trabalhadores mais de 350km;
- Devemos ficar felizes pelo "Portugal cumpridor" das obrigações assumidas junto das Instiuições europeias; 
- As pessoas estão primeiro mas apenas se continuarem a pagar IMI por casas que arderam na tragédia dos incêndios;
- O trabalho ao Domingo pode ser pago em vales de desconto do Pingo Doce.

 

Mais duas semanas assim e temos de pedir a intervenção da troika para nos salvar destes austeritários cegos e fundamentalistas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Palavras para recordar (30)

por Pedro Correia, em 27.11.17

2905266392_596d7380bd[1].jpg

 

PEDRO LIMA

Correio da Manhã, 30 de Novembro de 2012

«O reconhecimento não é um factor que procure. Dou o melhor de  mim em cada trabalho sem esperar nada em troca. Costumo dizer que o reconhecimento é como uma droga dura porque nunca é suficiente.»

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pergunto

por Rui Rocha, em 27.11.17

Constato que os caríssimos andam por aí a gozar com o Morais Sarmento por este apoiar o Gui Guio. Consideram, portanto, que a coisa funcionaria melhor se apoiasse o Pedgo?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 27.11.17

500x[1].jpg

 

Escravatura - Perguntas e Respostas, de João Pedro Marques

História

(edição Guerra & Paz, 2017)

"A presente edição não segue a grafia do novo acordo ortográfico"

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Duas perguntas em Aveiro.

por Luís Menezes Leitão, em 27.11.17

Querido Líder e Primeiro-Ministro:
 
Quero em primeiro lugar agradecer a oportunidade que V. Exª deu a humildes cidadãos como eu, de virem aqui a Aveiro confrontar V. Exª com uma simples pergunta, que seguramente o seu superior génio não terá qualquer problema em responder. A minha pergunta é apenas como é possível que, perante o extraordinário sucesso do seu governo, continue a haver portugueses que não vêem a luz? Afinal de contas os fogos já estão todos apagados, as armas de Tancos já foram restituídas e, se o Porto não ganhou a EMA, pelo menos vai receber o Infarmed. Tudo graças a V. Exª e ao seu magnífico governo, que vai de vento em popa no seu segundo aniversário, apesar do que alguns maldizentes andam por aí a dizer.
 
Penso que já fiz aquilo para que fui contratado. Agora permita-me ainda uma segunda pergunta. Já posso ir buscar o vale e ir-me embora?

Autoria e outros dados (tags, etc)

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 27.11.17

limoeiro.jpg

 

«Olha, desde miúdo que convivo intimamente com elas. Na infância e puberdade com as lá de Tomar, que os meus avós tinham nas pequenas propriedades, figueiras, oliveiras, macieiras, pereiras, nogueiras, amendoeiras, nespereiras, cerejeiras, ameixeiras, laranjeiras, pessegueiros e mais algumas de fruto de que agora me não lembro e mais os pinheiros bravos e mansos (estes cujo fruto também se come e é delicioso) e os choupos e os freixos e os vimeiros e os chorões à beira do pequeno ribeiro que atravessava a horta. A determinada altura, já na juventude, deu-se a invasão do eucalipto, que foi roubando espaço ao pinhal (eu não sou contra, desde que com conta, peso e medida).
Havia também uma acácia enorme, linda, em frente à casa. Na cidade havia (e há) uma panóplia enorme na Mata Nacional dos Sete Montes (a Cerca - do Convento de Cristo) e pela própria cidade, predominando o choupo nas ruas e avenidas, havendo alguns jacarandás e plátanos.


Cá em casa, contadas assim de repente, há cinco variedades de ameixeiras, algumas no mesmo pé, que é de amendoeira, que tem uma vida mais longa, duas de cereja, na mesma árvore ("dão" pouco, faz pouco frio em Caneças), duas variedades de nêsperas, cinco de pessegueiro, três de figueira no mesmo pé, seis de pereira também num só pé, um abacateiro, uma anoneira que produz que se farta (ainda hoje colhi uma com 800 gramas e mais meia dúzia com mais de 1/2 kg), três variedades de romã, também na mesma árvore, uma laranjeira e uma clementina e um marmeleiro e uma bananeira e mais uns pés de videira que parecem árvores, que me dão uma trabalheira desgraçada, mas que me dão um enorme prazer. As glicínias, que também estavam enormes, foram cortadas p'lo pé, que já me estavam a dar cabo das árvores vizinhas e exigem uma manutenção "sempre em cima", desisti.

Este ano as folhas não caíram ainda na maior parte delas, as que já as deviam ter perdido, mas a pré-poda já teve que ser feita e elas já estão a "rebentar". Se o meu avô fosse vivo, diria "isto é dos astros, Mundinho", mas eu sei que não é nada dos astros.


Para terminar, por dever de ofício, durante muitos anos andei na rua e fui assistindo à plantação de muitas árvores sem qualquer critério e completamente desadequadas para o meio urbano, como as pimenteiras, para dar um exemplo flagrante, ou o próprio local onde as plantam, ou as podas radicais que se fazem só porque "é hábito" nos plátanos, matando-os aos poucos.

São bonitas, as árvores na cidade, mas seria bonito que os paisagistas e os urbanizadores se preocupassem em adequar as espécies aos locais, para depois os moradores não levarem com os ramos das árvores nas janelas e elas não se tornem um convite à ladroagem. Os próprios choupos, que como dizes resistem muito bem a ambientes poluídos, são hoje inimigos de um nosso bom amigo, o ar condicionado. Portanto, em resumo, as árvores sempre primeiro, mas se não for dar muito trabalho, que sejam adequadas aos locais onde são plantadas.»

 

Do nosso leitor Edmundo Gonçalves. A propósito deste meu texto.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Canções do século XXI (241)

por Pedro Correia, em 27.11.17

Autoria e outros dados (tags, etc)

Notas sobre o Focus Group e assim

por Rui Rocha, em 26.11.17

1 - É óbvio que o governo utilizou o estudo do focus group e o evento de hoje em Aveiro como instrumento de propaganda política. É, pois, uma imoralidade utilizar dinheiros públicos para financiar uma acção promocional descarada de Costa y sus muchachos.

2 - A validade da metodologia e a probidade de quem agora ou antes (Carlos Jalali ou Marina Costa Lobo) conduziu o estudo não estão em causa. Mas o que é claro é que os académicos não perceberam (ou não quiseram perceber) que uma coisa é a validade científica e outra, bem diferente, é a instrumentalização do seu trabalho para uma manobra de lavagem e promoção de imagem à custa do dinheiro do contribuinte. A intervenção de hoje de Jalali, focada na metodologia e na sua credibilidade, é bem o exemplo disso. Não é obviamente esse o ponto fundamental da discussão. É penoso ver alguém com créditos académicos prestar-se ao papel de idiota útil ao serviço dos propósitos do governo.

3 - O evento está, em todo o caso, morto e enterrado. Aquilo não funciona. Não há entusiasmo. Não há sequer aparência de contraditório que crie uma percepção de credibilidade. Nada daquilo é verosímil. Se o que Costa pretendia era projectar uma imagem de proximidade e transparência, tudo o que conseguiu provocar foi um enorme fastio. Não fosse a polémica prévia e ninguém teria suportado aquilo mais de 10 minutos. Assim, os mais resistentes terão chegado aos 15. Este modelo de comunicação não conseguiria entuasiasmar um exército de formigas ainda que lhes acenasse com um pacote de açúcar.

4 - O governo deu este fim de semana dois sinais claros de que se encontra numa situação fragilizada e que sente que perdeu o contacto emocional com os eleitores. Ontem, pôs todos os ministros na estrada, nas mais diversas iniciativas um pouco por todo o lado. Eduardo Cabrita esteve na inauguração do Centro Regional do Sistema de Alerta de Tsunamis, no Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). Centeno visitou a Alfândega do Aeroporto de Lisboa. Manuel Heitor, da Ciência e do Ensino Superior, foi a Matosinhos e a Braga para lançar uma nova iniciativa – «Manhãs Com Tecnologia». Hoje, foi o que se viu. Uma tentativa falhada de falar com o país em ambiente controlado, fazendo lembrar, nos propósitos e no contexto, as Conversas em Família de Marcello Caetano. Seguramente, não será pondo os membros do governo a esvoaçar como libelinhas tontas ou com iniciativas de comunicação postiças que Costa recuperará da imagem que, por sua inépcia, viu degradar-se nas últimas semanas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Blogue da semana

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.11.17

Fotografias, música e poesia. Imagens, sons e palavras que normalmente anunciam o dia e nos fazem começá-lo de um modo saudável, ao mesmo tempo calmo e reflexivo. É com esses três ingredientes que se faz um blogue que se deixa levar pelo vento, o que também funciona como motivo inspirador e convite à introspecção. Muito em razão desta última é ditada a minha escolha, porque é ela que também nos ajuda a caminhar. Por tudo isso, a minha escolha desta semana é "E o vento levar-nos-á", o blogue do Fernando Moura Santos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

'Casablanca': amor e liberdade

por Pedro Correia, em 26.11.17

casablanca-94[1].jpg

 

A retórica antinazi datou irremediavelmente muitos dos filmes americanos produzidos no tempo da guerra (1939-45). Até Chaplin, o mestre do mudo, caiu nesta armadilha na célebre cena final do seu O Grande Ditador (1940) – e foi quanto bastou para se perder uma obra-prima. Inversamente, o que faz a força perene de Casablanca (Michael Curtiz, 1942) é o facto de jamais ser um filme de propaganda óbvia ao esforço aliado no combate sem tréguas contra o III Reich. E no entanto não conheço outra película tão eficaz no apelo subliminar ao envolvimento de Washington no conflito.
Numa cena poucas vezes mencionada, Richard Blaine (Humphrey Bogart) pergunta ao pianista Sam (Dooley Wilson) que horas seriam em Nova Iorque. Pergunta aparentemente sem nexo, mas logo justificada pelo comentário adicional de Blaine: “Está toda a gente a dormir na América.”
 

casablanca[1].jpg

É uma frase emblemática. Corria o mês de Dezembro de 1941, eram as vésperas de Pearl Harbor, os americanos viviam ainda embalados pelo sonho da neutralidade que Philip Roth tão bem retrata no seu romance Conspiração Contra a América. Mas Blaine, o cínico Rick, dono do bar do mesmo nome em Casablanca, já se havia antecipado ao curso da História. Em 1935 fizera chegar armas aos abissínios que lutavam contra Mussolini, no ano seguinte ingressara nas Brigadas Internacionais em defesa da República espanhola. Ao contrário do que aparentava, era um homem de causas e capaz de se envolver até ao limite por elas. Esta dimensão política de Casablanca, que se me tem revelado em sucessivas revisões do filme, ultrapassa claramente as malhas do melodrama a que muitos gostariam de vê-lo confinado. E se algo sobrevive ao malogrado romance entre Rick e Ilsa Lund (deslumbrante Ingrid Bergman) é precisamente a batalha decisiva em que ambos apostam, também em nome do amor – neste caso, do amor à liberdade.

hitler_poster[1].jpg

 

“Agora só luto por mim. Sou a única causa que me interessa”, diz Bogart a Victor Laszlo (Paul Henreid), tentando aparentar cinismo por uma última vez. Nesta fase já ninguém acredita em tal fachada: há uma dimensão moral em Rick que de todo não existe no dúplice capitão Louis Renault (Claude Rains), sempre virado – nas suas próprias palavras – para “o lado de que sopra o vento”.
O “vento” daqueles tempos era o do cobarde colaboracionismo de Pétain – o velho marechal que se rendeu a Hitler e que surge em cartaz, no início do filme, contra o qual é assassinado um suposto membro da resistência francesa.
Bogart, o aventureiro de passado sombrio, e Bergman, a mulher dividida entre dois homens, não são figuras sem mácula, ao jeito dos “heróis exemplares” que o realismo socialista fornecia às massas. São gente de carne e osso, com os mesmos defeitos de qualquer de nós – e daí o facto de, tantos anos volvidos, continuarmos a identificar-nos com o destino deles. Rick, que jurava “não arriscar o pescoço por ninguém”, proclama afinal que o futuro do planeta importa bem mais do que “três pessoas insignificantes”. Ilsa, incapaz de voltar duas vezes costas à mesma paixão, segreda-lhe: “Terás de ser tu a pensar por nós.”
 
Rick assim faz. Entre o amor sem sombra de liberdade e a liberdade sem garantia de amor, optou por esta. Como se conhecesse os belíssimos versos de Sophia: “Terror de te amar num sítio tão frágil como o Mundo. / Mal de te amar neste lugar de imperfeição / Onde tudo nos quebra e emudece / Onde tudo nos mente e separa.”
Esta é talvez a maior lição que aprendemos em Casablanca: o verdadeiro amor é sinónimo absoluto de verdadeira liberdade.
 
 
Texto reeditado para assinalar o 75.º aniversário da estreia do filme, que hoje se assinala

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 26.11.17

440x[1].jpg

 

Os Cem Melhores Poemas Portugueses dos Últimos Cem Anos

Organização de José Mário Silva

Antologia

(edição Companhia das Letras, 2017)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Canções do século XXI (240)

por Pedro Correia, em 26.11.17

Autoria e outros dados (tags, etc)

Leituras

por Pedro Correia, em 25.11.17

imagem[1].jpg

 

«Não existem demónios, menos ainda criaturas sobrenaturais, como as imagina a superstição popular. Os únicos diabos que receio são os diabos humanos. Conheço muitos que são bastante reais. Mas trazem fatos de lã. São uns sujeitos dignos, respeitadores da lei.»

Liam O' FlahertyO Denunciante (1925), p. 199

Ed. Publicações Europa-América, 1973. Tradução de José Saramago. Colecção Livros de Bolso Europa-América, n.º 72

Autoria e outros dados (tags, etc)

frames da vida

por Patrícia Reis, em 25.11.17

O Pedro a cortar um texto na Grafinova, em pé, com o x-acto na mão, concentrado. Foi a primeira vez que o vi, fazia ele parte daquele grupo especial do Caderno 3 de O Independente.

Não nos tornámos amigos com rapidez, eu era apenas a estagiária. Foi o tempo. Pedimos desculpa um ao outro num certo almoço de bacalhau num restaurante de que o Pedro gostava em especial.

Rimos os dois às gargalhadas com recordações da vida amorosa de cada um de nós.

Mostrámos o orgulho devido com as conquistas dos nossos filhos, filhos com Maria no nome.

E depois pequenos frames da vida.

O Pedro a discutir músicas com o João Gobern.

O Pedro abraçado à Cila. À Ana Teresa. À Margarida.

O Pedro sério. Na televisão, na rádio, por escrito.

O Pedro com a Helena a rirem os dois, a grupeta reunida, num jantar ali ao lado, num restaurante, e eu a invejar tanta partilha e alegria.

Bolas, Pedro, podias ter avisado que isto ia ser tão curto. Podíamos ter feito aquela coisa estranha para a Egoísta, ou aquela proposta igualmente estranha a uma fundação.

Podíamos ter feito tanto, e agora não há tempo. Tu fizeste muito e quem te conheceu só pode mesmo chorar-te. Desculpa se não te respondi com mais pressa, desculpa se a vida nos atrapalhou em algum momento.

Agora resta-me dizer, até já. Ficamos mais pobres sem ti.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Contornar a censura

por Pedro Correia, em 25.11.17

Pedro Alvim (1935-1997), também poeta, foi um dos mais brilhantes jornalistas portugueses. Na última década do salazarismo, distinguiu-se entre os profissionais da escrita que souberam contornar com talento e profundo conhecimento da língua portuguesa as severas malhas da censura.

Um dos melhores textos deste autor, hoje infelizmente tão esquecido, foi publicado há meio século, a 26 de Novembro de 1967, no Diário de Lisboa. A propósito das trágicas inundações ocorridas nas horas anteriores em Lisboa, Loures, Odivelas, Alenquer, Arruda dos Vinhos e Vila Franca de Xira que provocaram largas centenas de mortos e um número incalculável de desalojados, sobretudo nos amontoados de barracas que então circundavam a capital. Uma tragédia que nem o regime ditatorial conseguiu esconder, embora os censores de turno tenham tentado tudo para limar arestas, proibindo a difusão das imagens mais chocantes e feito várias emendas a prosas e títulos.

Alvim deu a volta ao texto com inegável mestria, fintando a censura da forma que passou a reproduzir numa das mais belas e pungentes crónicas desde sempre publicadas na imprensa portuguesa. Com a devida vénia à sua memória. E o meu agradecimento à Alice Vieira, também grande escritora e jornalista, que o recordou aqui.

 

jornal-0-735x1024[1].jpg

 

Os mortos e os fósforos

 

Era ao cair da tarde – e havia mortos.

Todos muito juntos, enlameados, compridos.

Alinhados, distanciados para sempre, ali aguardando o arrumo definitivo. Ali, ali no cimento frio de um quartel de bombeiros, no fim de um domingo de Inverno.

Eu estava ao telefone, um telefone de moedas de cinco tostões, a dar para o jornal o número de mortos, os seus nomes, as suas idades.

Ia escurecendo, escurecendo, e eu já não via os nomes escritos à pressa, abreviados, secos.

Um bombeiro, uma pilha nas mãos, tentava auxiliar a minha leitura, uma leitura triste, sincopada, hesitante de quando em quando. Eu sabia que tinha os mortos todos atrás de mim, indiferentes, quietos, não se importando absolutamente nada que lhes trocasse os nomes. Mas eu não queria cometer o mínimo erro, o mais pequeno deslize.

“Se tu és João” – dizia para mim – “és João. E se o teu nome é Mário, o teu nome será Mário. E caso te chames Rosa, não te chamarei Lucília.”

E teimava, teimava em ser exacto, pedia, pedia ao bombeiro que mantivesse o foco da pilha sobre o papel em que tinha escrito os nomes dos mortos. E carregava nas moedas de cinco tostões, mantinha a ligação telefónica, identificava-os um a um.

O tempo passava, o tempo passava sem luz eléctrica, e eu estava sempre ali ao telefone, e os familiares dos mortos iam entrando, (que longa bicha!), identificavam os mortos, os nomes dos mortos eram-me dados, e eu dava os nomes dos mortos ao jornal.

Ouvia o choro dos vivos, ouvia o silêncio dos cadáveres, ouvia a noite lá fora – Depressa! Depressa! – diziam-me do jornal – Depressa que é para a terceira edição!

Iam-me faltando as moedas de cinco tostões, sentia-me aflito, pedia que me trocassem moedas de cinco, dez escudos.

E os nomes dos mortos continuavam na minha boca, lidos um a um, o mais exactamente possível.

Como um preito de homenagem.

Como um choro.

Chegavam aos meus ouvidos pormenores da tragédia, da chuva, da lama.

Eu carregava nas moedas de cinco tostões, afligia-me com o seu desaparecimento contínuo e, automatizado já, ia lendo os nomes dos mortos à luz da pilha.

Escuridão total.

– Acabou-se a carga! – disse o bombeiro.

O suor tomou-me o corpo todo – e os meus dedos amarfanhavam o papel com os nomes dos mortos ainda não transmitidos.

E agora? E agora? Agora que a pilha tinha dado de si – que fazer, que fazer?

– Acendam fósforos! – gritei – Estes fósforos!

E assim foi: à chama tremida do enxofre, dos fósforos, acesos um a um, fui lendo o nome dos mortos que restavam, que estavam ainda no papel, sem o mais pequeno deslize.

“Se tu és João” – dizia para mim – “és João. E se o teu nome é Mário, o teu nome será Mário. E caso te chames Rosa, não te chamarei Lucília“.

Quando, finalmente, abandonei o telefone, ganhei a rua, respirei a noite, apeteceu-me loucamente um cigarro, um cigarro que me turvasse, um cigarro para esquecer aquilo tudo.

Meti, os pulmões ansiosos, um cigarro na boca – mas não pude, não pude fumar, não pude acender o cigarro: os mortos tinham queimado todos os meus fósforos.

 

Pedro Alvim

Autoria e outros dados (tags, etc)

Muita força

por Rui Rocha, em 25.11.17

"Venha cá, querida. Venha cá ao Costa. Tem de ter muita força, coração. Muita força, hã!!! E em Novembro não se esqueça de pagar a prestaçãozinha do IMI da casa que ardeu, meu anjo."

ENCOSTA.jpg 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 25.11.17

Screenshot-2017-11-1 (1) Facebook[1].png

 

Cartas 1925-1975, de Hannah Arendt e Martin Heidegger

Tradução de Marco Casanova

(edição Guerra & Paz, 2017)

"A presente edição não segue a grafia do novo acordo ortográfico"

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Pensamento da semana

por Sérgio de Almeida Correia, em 25.11.17

A dificuldade nem sempre está no problema.

Tirando os que não têm remédio, como a morte, que sabemos que há-de chegar embora não se saiba exactamente quando, nem como, o que de certa forma a retira do rol dos problemas que carecem de resolução, mesmo quando se é apanhado desprevenido, o ângulo de abordagem, o modo como o problema é analisado e as hipóteses de solução que se encaram são pontos de partida para a sua ultrapassagem. E mudam tudo.

A procura da solução pode ser desconfortável, sem com isso deixar de ser sempre bem mais estimulante do que o simples abandono. A solução de um problema é uma outra forma de concretizar um sonho. Não há sonhos cómodos (a não ser nos sonhos).

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

Autoria e outros dados (tags, etc)

Canções do século (239)

por Pedro Correia, em 25.11.17

Autoria e outros dados (tags, etc)

A morte

por Helena Sacadura Cabral, em 24.11.17
 

Morreu hoje o Pedro Rolo Duarte. Era uma morte anunciada para quem, como eu, viveu há cinco anos, exactamente a sua história. 
Talvez por isso, o meu primeiro pensamento vá para a sua mãe, a quem a vida acaba de roubar o bem mais precioso e, só depois, para o filho. Para este, haverá sempre uma lógica temporal, que não existe no caso da sua avó. Nenhuma mãe deveria, alguma vez, passar por isto.
Finalmente, o meu pensamento vai para os amigos que sempre lhe serviram de esteio e jamais o abandonaram. E eram muitos. Muitos, mesmo!
Conheci o PRD há muitos anos quando, com o Miguel Esteves Cardoso, o meu saudoso MEC, faziam aquela inesquecível revista chamada KAPA. E era eu quem lhes tinha sempre de cortar os orçamentos. Não foi, assim, um primeiro encontro fácil dado que era olhada como aquela que lhes cerceava os sonhos. Havíamos de, aos poucos, ir resolvendo esses problemas já que, com o lançamento da minha FORTUNA, passei a ter mais projectos para gerir. Mas ele e eu  havíamos de nos cruzar noutros aventuras.
Depois, amigos comuns juntaram-nos na GRUPA, esse conjunto de gente de quem eu podia quase ser a "avozinha", mas que me tem dado muito bons momentos. Aí conheci um outro Pedro, que o tempo havia transformado e enriquecido. 
Era um homem livre, que dizia o que pensava, uma cabeça que não parava, um comunicador excelente, uma verdadeira força da natureza. Não conseguiu vencer essa besta que é o cancro. Mas julgo poder dizer que na batalha da vida, ela a dominou e terá sido um homem com muitos momentos felizes!

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tão perto e já tão longe

por Pedro Correia, em 24.11.17

3597748_A101-3702368-741x486[1].jpg

 Pedro Rolo Duarte (Foto: Leonardo Negrão)

 

Há notícias que nos atingem como murros no estômago. Nunca estaremos preparados para elas.

Acaba de acontecer-me ao saber que o Pedro Rolo Duarte partiu de vez, sem avisar quase ninguém, aos 53 anos. Sabia-o doente, alguém me avisara há uns meses, como sempre sucede nesta cidade-aldeia, mas nunca imaginei que a doença fosse tão grave e tivesse tanta pressa em roubá-lo ao nosso convívio.

Conhecíamo-nos há 20 anos exactos. Estava eu na secção política do Diário de Notícias, como repórter parlamentar, e ele editava aquele que foi o mais inclassificável e fascinante suplemento da imprensa portuguesa, o DNa de boa memória – que viria a ter fim prematuro, às mãos de uma direcção do jornal incapaz de perceber que tinha ali uma pepita de ouro que nunca devia ter sido extinta. Vê-lo desaparecer doeu-me, como já tinha doído o desaparecimento do DN Jovem, espaço do jornal cultivado e editado pelo Manuel Dias em que se revelaram, ainda na adolescência, tantos actuais talentos da literatura portuguesa.

Prefigurava-se já ali, nessas mudanças abruptas, a presente agonia da nossa imprensa – consequência de demasiadas opções erradas de excessivos decisores medíocres.

 

O DNa – de que guardo com devoção quase religiosa os primeiros cem exemplares, novos como se tivessem saído agora da gráfica – foi um tesouro da imprensa portuguesa e talvez o mais precioso fruto do talento do Pedro Rolo Duarte na sua carreira jornalística impressionantemente longa e afinal dolorosamente fugaz. Ele teve o condão de conceber um conceito jornalístico difícil de etiquetar, mesclando o melhor da tradição com o melhor da inovação, dinamizando uma restrita mas brilhante equipa de infatigáveis colaboradores. Por lá passaram – em diferentes fases dessa década – o Francisco José Viegas, o Luís Osório, a Anabela Mota Ribeiro, a Sónia Morais Santos, o João Gobern, o Carlos Oliveira Santos, o Pedro Mexia, o José Mário Silva, o Carlos Vaz Marques, a irmã dele, Fátima Rolo Duarte, entre outros. Poucos mas bons.

 

18312741_2PmQt[1].jpg

 

Na redacção, o Pedro era de poucas falas. Alguns, por lá, confundiam essa timidez natural com arrogância, nada dispostos a quebrar o gelo. Nunca senti essa dificuldade – e foi precisamente lá que ficámos amigos. Colaborei com gosto no DNa, à margem das minhas tarefas na absorvente agenda diária do jornal, e lembro-me de duas capas que assinei no suplemento – elegendo-as ainda hoje entre as peças que mais gostei de produzir em trinta anos de jornalismo: entrevistas com Mário Castrim, o decano dos críticos de televisão portugueses, e João Amaral, deputado do PCP e um dos mais brilhantes parlamentares que passaram pela sala das sessões da Assembleia da República.

 

Já acompanhava desde o início da década de 80, como leitor, o percurso do muito jovem Pedro Rolo Duarte - primeiro no semanário Se7e, depois no irrepetível Independente de Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas, e pela igualmente inclassificável revista K. Legou-nos largos milhares de textos, de todo o género e sobre todos os temas, espalhados pelas mais diversas publicações – herança que recebeu nos genes: os pais, António Rolo Duarte e Maria João Duarte, também jornalistas de profissão, inculcaram-lhe este saudável vício do qual nunca se libertou.

Chegou a integrar uma direcção do DN – de duração efémera, como aconteceu com quase todas desde a partida do nosso comum amigo Mário Bettencourt Resendes, também demasiado cedo desaparecido, deixando um lugar que nunca foi devidamente preenchido no nosso jornalismo. Depois fez-se à estrada, pedalando em pista própria, como sempre. Colaborou na televisão, publicou livros (guardo um aqui à mão, Noites em Branco, recolha de textos avulsos, com a escrita elegante, a suave mordacidade e a discreta ironia que nos habituou), abriu um blogue em nome próprio e regressou à rádio, paixão antiga e sempre renovada.

 

Encontrávamo-nos por vezes, no nosso bairro de Alvalade, em regra no Mercantina – um dos quatro ou cinco restaurantes que frequento em Lisboa – ou na Livraria Barata. Quando lancei o primeiro livro, em 2013, ele teve a amabilidade de me convidar para uma inesquecível entrevista a três vozes (ele, eu e o João Gobern) no seu programa Hotel Babilónia, da Antena 1: foi de longe a mais estimulante conversa jornalística que tive desde sempre, não como entrevistador mas enquanto entrevistado.

Ao contrário do que é mau costume entre nós, nunca lhe faltou capacidade de admiração. Lançou e promoveu vários jornalistas, com uma generosidade rara, e não se deixava contaminar pelo vírus da inveja: nisto, e se calhar só mesmo nisto, parecia pouco português.

 

Trocávamos uma correspondência esporádica e mantínhamos alguma cumplicidade blogosférica. Publiquei aqui no DELITO dois textos dele: o primeiro em Novembro de 2010, fez ontem sete anos; o segundo, no mês passado. Tão longe de imaginar que seria o último.

Ignorava a que ponto estava já debilitado quando dele recebi, a 27 de Setembro, uma calorosa mensagem em que dizia ter superado um sério problema de saúde que não especificou (nem eu o questionei sobre isso, nesta nossa contenção tão masculina que nos leva a contornar detalhes do reduto íntimo de cada qual) e aceitando o meu convite para escrever um texto neste blogue, aqui publicado a 5 de Outubro.

 

Tão perto - e já tão longe. Nunca estamos preparados para dizer adeus a quem parte demasiado cedo. Deixando tantos livros por ler, tantas viagens por fazer, tantos petiscos por partilhar com gente amiga de todas as idades e todos os quadrantes.

É assim, com um nó no estômago e a voz emudecida, que me despeço dele deixando um beijo terno a sua Mãe, um abraço fraterno à Fátima e uma palavra de alento ao filho, baptizado com o nome do avô. Tu, António, tens todos os motivos para sentires orgulho do teu pai.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Entrevista literária.

por Luís Menezes Leitão, em 24.11.17

Pode ver-se aqui uma entrevista sobre os livros de um autor consagrado e que tem tido um enorme sucesso de vendas em Portugal. A não perder.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 24.11.17

KOTeuRostoAmanha-3ss[2].jpg

 

O Teu Rosto Amanhã (3) - Veneno e Sombra e Adeus, de Javier Marías

Tradução de J. Teixeira de Aguilar

Romance

(edição Alfaguara, 2017)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Faz-me espécie

por Sérgio de Almeida Correia, em 24.11.17

Infarmed-1060x594.jpg

Desligado como vou estando dos fait-divers da pátria, estranho cada vez mais algumas notícias que me vão chegando e que vou lendo aqui e ali. Não se tratam sequer de comentários de terceiros, mas de puros factos sobre os quais fico depois a matutar.

Mal refeito, se é que se refez, da desastrosa gestão política da desgraça dos incêndios, do caso do armamento de Tancos e da atribulada candidatura do Porto a sede da Agência Europeia do Medicamento, eis que o Governo tem agora entre mãos a trapalhada do Infarmed

O primeiro-ministro diz que a comunicação "não foi a melhor". Está no seu direito de ser caridoso. O presidente da Câmara Municipal do Porto, ao que parece também sem pensar muito, ficou todo contentinho com o anúncio da mudança, o que numa situação destas – refiro-me ao atabalhoamento que se manifesta na forma como tudo foi preparado e anunciado, bem como pelas reacções de descontentamento dos trabalhadores (outra coisa não seria de esperar) –, revela em todo o seu esplendor um provincianismo atávico, muito pouco condizente com a postura moderna, inovadora, refrescante que tem assumido e que eu julgava ser a dele. Uma vez mais estava enganado. Basta ver a linguagem utilizada por ele para se referir aos que criticam a decisão.

Como alguém diria, é lá com eles. A mim é-me neste momento indiferente que transfiram o Infarmed para o Porto, para o Faial ou para as Selvagens, desde que não me chateiem nem me venham cravar. Mas que tudo isto me faz cada vez mais espécie, muita, é inegável. E não me sentisse eu (ainda) tão português (que raio de condição esta que à distância me faz sofrer tanto só de ouvir pronunciá-lo e de saber que o sou) mandava-os a todos para as urtigas.  

Pior do que esta cegada do Infarmed só me lembro mesmo daquela das secretarias de Estado do Dr. Santana Lopes. Pensadas com os pés, espalhadas pelo país e com os motoristas a fazerem aos 500km quase todos os dias para irem a Lisboa buscar e levar chefes de gabinete, adjuntos e assessores foram rapidamente abandonadas sem que alguém tivesse feito as contas aos verdadeiros custos e aos benefícios.

Se há tempo para mudar o Infarmed, como foi dito, qual é que foi então a pressa em anunciar as coisas, ainda com tudo por pensar e resolver? Estavam com saudades do Garcia Pereira? Somos um caso perdido. E caro.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Belles toujours

por Pedro Correia, em 24.11.17

AkikoSuwanai795px[1].jpg

 

Akiko Suwanai

Autoria e outros dados (tags, etc)

Canções do século XXI (238)

por Pedro Correia, em 24.11.17

Autoria e outros dados (tags, etc)

Enfim, uma boa notícia

por Pedro Correia, em 23.11.17

 

Chove.

 

("A partir de amanhã a situação vai melhorar", diz com alívio o jornalista da SIC, que parece preferir a seca extrema e prolongada)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Acabaram as manhãs da comercial?!!!

 

Entro no carro e oiço o Pedro Ribeiro a dizer esta enormidade: “as manhãs da comercial acabam” e o meu telemóvel toca, a rádio desliga-se, é o sistema de alta voz a funcionar, e fico ali aflita, sem saber o que fazer. Atendo a chamada, passam-se 47 segundos a falar com uma senhora que me quer vender um pacote Nos que, em teoria, é do caraças e lá consigo voltar à rádio, mas só tenho os Gift a cantar que já não sabem se sabem sentir amor e coisas assim.

Vou no trânsito a pensar: não pode ser, se ficar sem as manhãs da comercial, fico sem o Nuno Markl que não come carne, a Vera Fernandes que desafina no New York, New York, o Vasco Palmeirim que já não sei se gosta ou não de pickles e sem o César Mourão que fez a árvore perto da máquina de lavar. Não irei sobreviver. E não conheço nenhum deles, não somos amigos, mas talvez sejamos, afinal, esta cena sentimental é... complicada.

A música acaba e o meu telemóvel toca outra vez, parece de propósito, é mesmo uma chatice quando nos ligam às nove e pouco da manhã, é pouco civilizado, caramba, deixem-me lá perceber o que aconteceu na comercial. E quando volto à rádio já está tudo na galhofa com alcunhas estranhas, Naftalina e Saliva e Proteínas, é o dia das alcunhas, percebo e, até entrar na garagem para onde tenho mesmo de entrar, piso menos três, logo sem rede, vou ainda em pulgas e ninguém me diz nada. Malta! Não pode ser.

Subo até ao nono andar e abro o Facebook da Comercial. Ó alívio profundo!, afinal ofereceram cinco milhões de euros ao Pedro, uma tal Rose cujo português é altamente duvidoso, mas é uma vendida, mandou o mesmo email, com oferta semelhante, para metade do país. Ah, ok, ok, às sete eles lá estarão, certo?

O meu alívio é significativo.

Não posso dizer - até hoje não podia dizer - que sou uma groupie, mas afinal sou. Eu quero encher o bandulho, quero rir com o homem que mordeu o cão (invejar a memória do Markl, por ser absolutamente invejável), perceber o trabalho insano que esta malta tem para ser líder nas manhãs, e sempre com um sorriso, mais brincadeira, menos brincadeira, cortando as regras (adoro quando o Pedro Ribeiro diz que, ups, lá vem o director comercial dizer que não podemos falar na marca A ou B). Há ali muito, muito trabalho, porque ser divertido e diferente todos os dias é dose e não é para todos.

Eu, fã assumida de rádio, ouvindo o dia inteiro várias estações, tenho esta perdição pelas manhãs e agradeço às Rose do mundo, com cinco ou mais milhões, que se abstenham de assediar a equipas das manhãs.

A bem da saúde mental de um país. Agradecida.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Música recente (149)

por José António Abreu, em 23.11.17

Brand New, álbum Science Fiction.

Science Fiction teria constituído um excelente remate para a carreira - com fim já anunciado - dos Brand New. Infelizmente, a dissolução da banda poderá ficar marcada por outro acontecimento: na senda do que tem acontecido em Hollywood, o vocalista Jesse Lacey viu-se acusado por uma mulher de comportamento inadequado e tanto as bandas de apoio à digressão em curso como os próprios colegas começam a afastar-se dele. Um dos grandes álbuns de 2017 choca de frente com um dos grandes temas de 2017.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A pergunta que se impõe

por Diogo Noivo, em 23.11.17

 

"Em finais de 2015 havia alternativa, íamos virar a página da austeridade, era todo um mundo novo que se prometia, feito de mais dinheiro no bolso de todos, porque o anterior Governo era um malvado que, vá-se lá saber porquê, queria tirar-nos o dinheiro todo e estava sempre a falar no défice das contas pública e na dívida. Havia dinheiro a rodos e ai de quem se atrevesse a alertar que não era possível. Seria devidamente insultado e perseguido pela turba anónima das redes sociais, classificado de “pafiano” ou educadamente insultado como “liberal”.

Em finais de 2017 estamos a ser acusados de viver na ilusão de que é possível dar tudo a todos, porque afinal não é. E não é por maldade, é porque afinal, pasme-se, não há dinheiro e não é possível apagar o passado, eliminar a crise e a troika. Mas isso não era exactamente o problema de 2015?"

 

Helena Garrido, "(Des)ilusões de ricos pobres", Observador (23.11.2017)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Darkness at noon

por Pedro Correia, em 23.11.17

s320x240[2].jpg

 

«O Zimbábue é meu!»

Robert Mugabe, Dezembro de 2008

 

No dia 21 de Fevereiro de 2009, quando celebrou 85 anos, Robert Mugabe mandou organizar um faustoso repasto que incluiu tudo do bom e do melhor. Indiferente à chocante miséria que grassava no seu país, o Zimbábue, outrora conhecido por celeiro de África.

O festim incluiu nada menos de duas mil garrafas de champanhe (Möet & Chandon e Bollinger de 1961 no topo das preferências), oito mil lagostas, cem quilos de camarão, quatro mil doses de caviar, 16 mil ovos, 500 quilos de queijo e oito mil caixas de bombons Ferrero Rocher, entre outros acepipes.

Fora das paredes palacianas, milhares de zimbabuanos viam-se forçados a arrancar ervas daninhas do mato para matar a fome. A ex-Rodésia do Sul, como era conhecida durante o domínio colonial britânico, batera no fundo: 94% de desempregados, sete milhões de habitantes dependentes da caridade internacional, mais de 70 mil casos de cólera confirmados pela Organização Mundial de Saúde devido à falta de elementares condições de higiene, a maior inflação do planeta, o colapso generalizado da sociedade civil.

 

Aquela celebração digna da corte absolutista de Versalhes foi um dos inumeráveis actos obscenos praticados pelo poder político num país varrido por todo o género de indignidades. Perante o silêncio conivente de muitos, em África e na Europa, que ao longo destes anos foram aludindo a Mugabe como um "combatente da liberdade" sem corarem de vergonha por abastardarem uma das mais nobres palavras associadas à espécie humana.

Em Dezembro de 2007, Lisboa recebeu Mugabe com todas as honras, na inútil cimeira entre a União Europeia e África. Dar-lhe face nessa altura equivaleria a fazer correr sangue no Zimbábue, dissemos então vários de nós na blogosfera. Infelizmente, foi isso que sucedeu. Para vergonha nossa e dos nossos civilizadíssimos parceiros comunitários.

 

s320x240[1].gif

 

Quem analisar com atenção o percurso político de Mugabe – um homem de formação católica que se tornou marxista quando estudava Direito numa universidade sul-africana – verifica que os primeiros sinais do déspota em que se tornou eram já detectáveis no início da década de 80, quando ainda merecia os mais rasgados elogios da imprensa internacional, pela forma brutal como esmagou aquele que era então o seu principal adversário político: Joshua Nkomo, líder da União Popular Africana do Zimbábue (Zapu).

Nkomo foi, a par de Mugabe, um dos principais opositores a Ian Smith, que durante década e meia tentara impor ali um regime dominado pela minoria branca, nunca reconhecido pela comunidade internacional. Após a independência, em 1980, integrou o Governo de unidade nacional como ministro do Interior. Menos de dois anos depois, Mugabe acusou-o de conspiração contra o Estado. Nkomo foi preso e pelo menos 20 mil dos seus apoiantes no Leste do país acabaram assassinados. A Zapu foi dissolvida e a União Nacional Africana do Zimbábue (Zanu), de Mugabe, tornou-se o partido único.

 

No ano 2000, a máscara caiu de vez. Mugabe lançou uma “reforma agrária – a ocupação pura e simples das propriedades agrícolas dos brancos. Suprimiu toda a oposição. Aboliu o poder judicial independente. Meteu na cadeia opositores, sindicalistas, estudantes e activistas de direitos humanos. Amordaçou a imprensa. E fez mergulhar o país no caos económico: em Outubro de 2008, segundo o Banco Central do Zimbábue, a inflação atingiu 231.000.000%. Cerca de um terço da população zimbabuana exilou-se em Moçambique ou na África do Sul para fugir à fome.

«Neste momento, as pessoas morrem de fome neste país que dava de comer a toda a região, onde havia cultivo de todo o género», alertava em 2007 uma ilustre ex-residente no Zimbábue: a escritora Doris Lessing, nesse ano galardoada com o Nobel da Literatura. Segundo a Unicef, um quarto das crianças do Zimbábue são órfãs: a esperança de vida é a menor à escala mundial - 37 anos para os homens, 34 anos para as mulheres.

 

O antigo estadista modelar, invocado outrora como exemplo no continente, tornou-se apenas mais um nome a juntar à longa lista de tiranos que vêm destruindo o sonho de uma África próspera, justa e livre. Nada diferente do que fizeram um Bokassa, um Mobutu ou um Idi Amin numa parcela do globo onde a esperança de progresso parece uma miragem cada vez mais longínqua.

Apesar da cruel evidência dos factos, o agora deposto Robert Mugabe ainda era visto em largos sectores como um “herói da libertação”. Este paternalismo benévolo de certas elites ocidentais, cheias de complexos de culpa pelo “colonialismo”, contribui para oprimir África, o único continente onde é generalizada a condescendência perante as violações mais generalizadas e grosseiras dos direitos humanos.

Se hoje assistimos com júbilo à queda do tirano que chegou a proclamar "o Zimbábue é meu", não podemos baixar a guarda perante quem lhe sucede. As últimas seis décadas de história ensinam-nos que um déspota africano, em regra, é substituído por outro déspota. Já sabemos o suficiente para deixarmos de confundir democratas com ditadores.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pág. 1/5



O nosso livro





Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2017
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2016
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2015
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2014
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2013
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2012
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2011
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2010
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2009
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D