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Delito de Opinião

Crianças

Alexandre Guerra, 28.09.17

Tudo tem a sua escala. Quando uma mãe, um pai, está no parque infantil com o seu filho ou filhos, normalmente, deixa-os à vontade, naquele espaço controlado, onde os seus ocupantes têm o mesmo código de “conduta” e lógica de discurso (na verdade, ausência dela) e são livres de fazer as diabruras que lhes são permitidas pela tenríssima idade. Os adultos, de longe, vão “deitando o olho” para assegurar que os disparates não ultrapassam os limites aceitáveis e desculpáveis para aquelas pequeninas amostras de gente. Caso o façam, não tendo bem a noção das consequências, de imediato os pais intercedem e males maiores são evitados. No final, todos vão para casa contentes sem danos a reportar. Com alguma sorte, é precisamente isso que se passa entre Donald Trump e Kim Jong-un, ou seja, duas crianças a disparatar no “recreio”, enquanto os “adultos” (espera-se) vão controlando os comportamentos para que nenhum deles cometa a infantilidade de carregar no “botão”. E quem são esses adultos? O aparelho em Washington, as estruturas e sub-estruturas das instituições americanas e também a gente responsável e com senso que está nas chancelarias de Pequim e Moscovo. E, sabe-se lá, se no meio do esquizofrénico regime de Pyongyang não haja alguém na cúpula do poder dotado de uma clarividência já (pelo menos) na idade juvenil.

Recordando um texto antigo.

Luís Menezes Leitão, 28.09.17

Face aos acontecimentos dos últimos tempos, veio-me à memória um texto antigo: "Quando, no curso dos acontecimentos humanos, se torna necessário a um povo dissolver os laços políticos que o ligavam a outro, e assumir, entre os poderes da Terra, posição igual e separada, a que lhe dão direito as leis da natureza e as do Deus da natureza, o respeito digno para com as opiniões dos homens exige que se declarem as causas que os levam a essa separação. Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais, dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a procura da felicidade. Que a fim de assegurar esses direitos, governos são instituídos entre os homens, derivando seus justos poderes do consentimento dos governados; que, sempre que qualquer forma de governo se torne destrutiva de tais fins, cabe ao povo o direito de alterá-la ou aboli-la e instituir novo governo, baseando-o em tais princípios e organizando-lhe os poderes pela forma que lhe pareça mais conveniente para realizar-lhe a segurança e a felicidade".

É desta forma que se inicia a célebre Declaração de Independência dos Estados Unidos. Acima está traduzido em português, mas também se encontram facilmente versões em catalão ou castelhano.

Fórum Fantástico 2017

João Campos, 28.09.17

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A Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro (Telheiras) vai receber nos próximos três dias a décima edição do Fórum Fantástico, com conferências, apresentações e workshops sobre ficção científica, fantasia e horror em todas as suas formas e sub-géneros. Haverá exposições, espaços e actividades para miúdos (e graúdos), uma feira do livro, e até uma sessão ao vivo de um programa de televisão extinto. O programa completo do Fórum pode ser consultado aqui, a entrada é livre, e toda a gente é bem-vinda.  

 

(E sim, apesar de a campanha autárquica ser um autêntico filme de horror, de o "dia de reflexão" ser um conceito algo distópico, e de haver candidatos com propostas tão lunáticas que nem na ficção científica de série B teriam lugar, ainda ninguém se lembrou de sugerir a proibição de convenções deste tipo em época de eleições. É aproveitar, pois convenhamos: os nossos políticos já tiveram ideias mais rebuscadas)

Catalunha: matéria de facto

Pedro Correia, 28.09.17

 

«La convocatoria del referéndum en Catalunya no es transparente porque está creada con una ley elaborada por el Parlament pero a espaldas de los demás miembros del Parlament.»

Joan Manuel Serrat 

 

 

1. O anunciado plebiscito sobre a soberania na Catalunha é ilegal. Porque os órgãos políticos catalães não têm legitimidade para convocá-lo. E porque, segundo o ordenamento jurídico espanhol, as questões de soberania não estão sujeitas a escrutínio referendário.

2.. Em democracia, num Estado de Direito, as leis devem ser cumpridas - não violadas. Por maioria de razão quando se trata da Constituição, a lei das leis. Não custa, portanto, acompanhar o catalão Josep Borrell, ex-presidente do Parlamento Europeu, quando assegura que a convocatória do pseudo-referendo na Catalunha pode ser equiparada a um "golpe de Estado".


3. A decisão de ilegalizar o "referendo" na Catalunha é do poder judicial, não do poder político. O Governo espanhol, como lhe competia, limitou-se a levar o assunto ao Tribunal Constitucional e a dar execução à decisão que dele emanou, ordenando a imediata suspensão cautelar da iniciativa ilegal dos órgãos políticos catalães. A aplicação prática destas medidas está sob jurisdição de um juiz de instrução de Barcelona.


4. Na óptica do TC, a suspensão cautelar justifica-se porque a iniciativa referendária viola a Constituição espanhola e o próprio Estatuto da Catalunha. Ilegalidade máxima, portanto. Nada que nos deva surpreender: nenhuma Constituição de um país europeu prevê a alienação de parcelas do respectivo território. Foi aliás esse o fundamento que levou há nove meses o Tribunal Constitucional da Alemanha a chumbar uma iniciativa referendária com vista à independência da Baviera.

5. A Constituição espanhola alude ao carácter "indivisível" do território espanhol e concede a soberania ao povo. Tal como a portuguesa, aliás. Por isso um suposto referendo para a declaração de independência da Madeira ou dos Açores, invocado por um hipotético movimento separatista regional, seria igualmente ilegal em Portugal.

6. O Governo autonómico de Barcelona pôs as instituições catalãs fora do Estado de Direito. De nada lhe serviu: não obteve qualquer apoio da comunidade internacional, a começar pela vizinha França. É ponto assente: só haverá referendo separatista na Catalunha com alteração prévia da Constituição. Para isso, os independentistas terão de dialogar com as instituições políticas em Madrid, não declarar-lhes guerra.


7. Tudo pode ser sujeito a debate, mas há matérias inegociáveis. Em questões de soberania, nunca o direito de voto será negado ao conjunto dos espanhóis, circunscrevendo-o aos residentes na Catalunha. O povo espanhol - que aprovou a Constituição por referendo, a 6 de Dezembro de 1978 - será sempre chamado a pronunciar-se nas urnas em matéria de soberania, através dos mecanismos da democracia representativa ou do voto referendário. Porque só ele é o soberano, como estipula o artigo 1.º, n.º 2, da Constituição.

 

8. Convém recordar que a Catalunha foi precisamente a região de Espanha que aprovou por mais elevada percentagem o texto constitucional no referendo de 1978: houve 90,46% de votos favoráveis e apenas 4,26% de votos negativos. Com uma participação de 67,91% dos eleitores inscritos nesses cadernos eleitorais.

 

9. Aqueles que hoje exigem a "consulta" independentista aos catalães que vivem na Catalunha são os mesmos que negam essa mesma consulta aos catalães que vivem em Castela, na Galiza, nas Astúrias, na Andaluzia, em Aragão, em Navarra, na Extremadura, em Leão, nas Canárias, na Comunidade Valenciana, nas Baleares e no País Basco. Absurdo supremo: um marroquino, um português ou um castelhano que morem em Barcelona poderiam "decidir" sobre o destino da Catalunha, mas um catalão residente em Madrid, Valência ou Sevilha seria excluído desta decisão.

Convidado: JOÃO AFONSO MACHADO

Pedro Correia, 28.09.17

 

António Costa - o governo que merecemos

 

Aquelas duas entrevistas a Ferro Rodrigues em que, pressurosamente, ele alertava para o calendário pós-eleitoral e lembrava «primeiro se escolheria o presidente da AR», já diziam tudo. Costa, depois da sua tribunícia punhalada em Seguro, ou subia ao Poder ou, em definitivo, morria para a política.

Depois foi a pobreza dos debates, semanas a fio, confundindo a legitimidade política com a legitimidade jurídica (como antes a revolucionária ccom a democrática), e Costa a negociar os seus acordos à esquerda, enquanto ordenava às suas milícias pelejassem e calassem os argumentos contestatários da Direita.

E a Direita, incapaz de se reconhecer na Oposição, lamurienta, premonitória – qual Velho do Restelo – invocando até a vinda próxima do Diabo, tornava-se alvo fácil da chacota da Esquerda e do eleitorado em geral.

Tudo porque António Costa é o maior político português. No mais biltre sentido que ao termo se possa atribuir, claro. Não lhe foi dificil, portanto, congeminar o esquema pelo qual se colocou à cabeceira do Conselho de Ministros.

Costa sabe que a Esquerda leninista-trotskista não transige na sua missão dialéctica de votar o oposto da Direita. Por muito pouco, assim, consegue um qualquer desaguisado parlamentar para, em permanência, ter contra si o PSD/CDS e, a favor, a CDU/BE. Palhaçadas e encenações à parte – incondicionalmente.

Sabe também que somos um País virado para o futebol (e, entretanto, até para o Eurofestival), muito mais do que para a política. Ama-se Pinto da Costa, Bruno Carvalho, Luis Filipe Vieira, como se acredita piamente na inocência de Sócrates. É tudo uma questão clubística... Algo muito importante do ponto de vista eleitoral, tão importante que Costa não teme a desconfiança de quem vota, eventuais comparações com o seu antecessor, de quem, aliás, foi ministro.

Não há de que nos queixarmos, pois.

 

A política portuguesa já se fez de meritocratas, geralmente recrutados no sector privado, que partiam para a governação no mais puro espírito de missão. Agora ela é monopólio dos funcionários dos partidos, desses que faltavam às aulas para dactilografar comunicados lá na sede, a rapaziada das comissões e dos relatórios e do “aparelho”. Uns incontornáveis desempregados se afastados da burocracia e das tricas intestinas.

Costa nasceu assim. Alguém o imaginará a advogar, por exemplo?

É tal a sua percepção e o seu à-vontade neste estranho mundo português que Costa jamais perde o sorriso, por muito comprometedora que seja a situação. Nem uma faúlha o tocou na mortandade e no braseiro florestal deste Verão.

Não há, realmente, de que nos queixarmos.

 

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Até porque – e Costa está atento a isso – metade dos eleitores sequer vota. E se passar a votar fá-lo-á em Costa e na Esquerda Unida, nas poucas patacas que supostamente auferem a mais, por troca com uma subida da tributação indirecta – que não sabem, nem pretendem saber, o que é.

O mesmo se diga do agravamento da dívida pública (que foi uma das principais armas de arremesso de Costa conra a PaF nas pretéritas eleições) e das famigeradas “cativações”. A Saúde e o Ensino em Portugal deterioraram-se por completo. Mas quantos perceberão porquê? Não fora a insegurança que corre os tradicionais paraísos de lazer, não fora o ocasional boom turístico com que a sorte nos contemplou, por que baixos andariam as optimistas contas públicas do Governo?

Mas tudo são conexões que a maioria dos portugueses não alcança. Por isso Costa permanece, e permanecerá, no seu estado de graça. O tempo cavalga, as próximas eleições já não tardam, e ele é o provável vencedor.

 

Merecêmo-lo.

Merecêmo-lo ainda porque a Direita não sabe fazer oposição. Ocorrem-me Eça e Ramalho e o seu contributo para a desmistificação do caduco Rotativismo. E, no passado recente e no presente, Medina Carreira, Pulido Valente, Caiado Guerreiro, António Barreto... Portugal necessita urgentemente de uma IV República (a antecâmara da Monarquia, mas isso é uma história a guardar para outro dia) e ela só é possível mediante a análise crítica destes e doutros e de uma seta – a ironia - apontada ao calcanhar do Aquiles Costa – o próprio Costa, ele e a sua atrapalhação quando é enfrentado a sério. Tudo a deixar bem exposto o ridículo em que vivemos sob o comando dos partidocratas e o paternal encorajamento da Europa rica.

 

 

João Afonso Machado

(blogue CORTA-FITAS)

Nada de novo debaixo do Sol

Rui Rocha, 27.09.17

Honestamente, não percebo o espanto com a possível vitória de Isaltino em Oeiras. Este não é o país em que Sócrates, depois de levar o país à bancarrota, teve mais de 90% dos votos numa eleição para secretário-geral do PS? Não é João Galamba o actual porta-voz do PS depois de ter defendido até ao extremo do rídiculo as políticas que levaram à intervenção da troika? Não é também aqui em Portugal que muitos dos actuais governantes, impávidos e a começar pelo primeiro-ministro, são os mesmos que fizeram parte de governos do bardina? Então, qual é a surpresa?

O historiador e o pára-quedista

Pedro Correia, 27.09.17

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Estranhei um artigo de Rui Ramos, ontem publicado no Observador, que é um autêntico panegírico a André Ventura. Estranhei porque considero haver um fosso intelectual entre o historiador e o pára-quedista do PSD em Loures, que ali faz uma espécie de tirocínio para outros voos.

O problema de Ventura, ao contrário do que é referido nesse artigo, está muito longe de se circunscrever à questão dos  ciganos - o que já bastaria para o desqualificar como candidato autárquico de um partido que não pertence às franjas do sistema democrático.

Ventura é também um assumido defensor da  prisão perpétua, do  trabalho compulsivo de presos e da castração química de certos delinquentes, além de não lhe repugnar a pena de morte. Está portanto em oposição aberta não à gestão comunista em Loures - que aliás contou com a colaboração activa do PSD nestes quatro anos - mas ao Código Penal.

Algo insólito, num jurista.

Mais um motivo para este artigo de Rui Ramos me causar estranheza. O autor chega ao ponto de reduzir, sem ironia, as 308 eleições autárquicas de domingo a um "referendo sobre André Ventura em Loures": julgo que nem o próprio bafejado por estas palavras iria tão longe acerca de si próprio.

São palavras pelo menos tão deslocadas da realidade como a suposta "inteligência e sofisticação" do candidato assim descrito pelo historiador, que o eleva à condição de "herói de cidadãos fartos do concurso de misses do politicamente correcto”.

 

Reflecti nestas palavras. E acabei por concluir que esta peça no Observador, mais do que enaltecer Ventura, visa quem ousou criticá-lo  internamente.  Com destaque para Assunção Cristas e Teresa Leal Coelho, que na sequência imediata das afirmações iniciais de Ventura se demarcaram o mais possível dele. Ao ponto de a líder do CDS ter declarado fim unilateral à coligação pré-eleitoral com o PSD em Loures.
Aparentemente, Rui Ramos inclui a presidente do CDS e a vice-presidente do PSD entre os membros da "oligarquia política" que, à direita, "embora não tendo aderido ainda ao PS, já são inofensivos". Este raciocínio terá muito menos a ver, portanto, com o putativo "plebiscito" de Loures do que com os  ajustes de contas e a recomposição de forças à direita do PS que se prenuncia após a soma dos 308 escrutínios de domingo.

Acontece que para esse filme o contributo de Ventura será residual ou mesmo nulo. O que o ex-director de campanha de Luís Filipe Vieira ambiciona é a presidência do Benfica. Loures, onde caiu de pára-quedas, serviu apenas de isco para o "herói" de Rui Ramos ganhar um palco mediático extra-futebol. Como podia ter sido Sintra, "única terra que verdadeiramente [o] apaixona", como chegou a confessar numa entrevista.

Ou Cascalheira de Cima ou Alguidares de Baixo. Para o caso tanto faz.

A epifania

João Campos, 27.09.17

No Público, a propósito da muito oportuna reedição de The Dispossessed de Ursula K. Le Guin pela Saída de Emergência (com o título Os Despojados), escreve o crítico Luís Miguel Queirós:

Ao contrário da ficção policial, onde para cada Raymond Chandler se arranjam com facilidade três ou quatro Agatha Christie, Margaret Millar ou Patricia Highsmith, a ficção científica é ainda hoje, em boa medida, um mundo de homens. No alto firmamento dos Ray Bradbury, Stanislaw Lem ou Philip K. Dick, uma só autora brilha praticamente isolada: Ursula K. le Guin. E tal como os melhores do género, talvez de qualquer género, os seus livros não são verdadeiramente catalogáveis e podem ser apreciados por leitores sem nenhuma predilecção particular pela ficção científica. O que vale também para a sua incursão na chamada ficção fantástica, a pentalogia de Terramar, que se recomenda sem reservas a leitores que já não conseguem suportar nenhum dos incontáveis descendentes de J. R. R. Tolkien, George R. R. Martin (bastante) incluído. 

 

Só neste primeiro parágrafo teríamos pano para muitas mangas. Poderíamos, se quiséssemos, falar do desconhecimento que o crítico demonstra quando à ficção científica contemporânea (os três autores citados já morreram, e, polémicas à parte, uma leitura na diagonal dos títulos nomeados aos prémios Hugo e Nébula dos últimos seis ou sete anos seria talvez esclarecedora quanto a questões sobre o género de quem escreve o género). Ou mesmo da sua ignorância quanto à ficção científica dita "clássica" - Le Guin será um dos maiores vultos do género, sem dúvida, mas nunca terá ouvido falar de Alice Sheldon (mais conhecida por James Tiptree Jr.), de C.J. Cherryh, ou de Octavia Butler? Ou até, caso nos quiséssemos aventurar noutros territórios, demonstrar como a "chamada ficção fantástica" [sic] não se resume a Tolkien e aos seus discípulos, e de caminho recomendar, sei lá, Neil Gaiman ou Terry Pratchett. Enfim, o tempo é escasso, pelo que me vou ficar pela frase que destaquei a negrito.

 

Imagino que quando o crítico literário médio se vê obrigado a ler um bom livro de ficção científica, seja um texto contemporâneo ou a reedição de um clássico, a epifania seja inevitável: afinal, isto não tem nada que ver com Star Wars ou Star Trek ou aquelas merdas comerciais e vagamente infantis de que os nerds parecem gostar! Afinal há aqui um questionar da natureza da realidade, uma exploração das questões de género, um olhar crítico ao sistema capitalista / comunista / anarquista! E, logo de seguida, chega o orgasmo, o clímax do pretensiosismo: afinal, aquele outro livro desta senhora até vem n' O Cânone Ocidental do Harold Bloom! Como é evidente, ao crítico literário médio nunca irá ocorrer que talvez as suas premissas estivessem erradas, e que talvez a ficção científica enquanto género literário não se resuma apenas às talking squids in outer space com que Margaret Atwood enfureceu meio mundo há trinta anos, Ursula K. Le Guin incluída, a propósito de The Handmaid's Tale (excelente, já agora) ter ganho o prémio Arthur C. Clarke. Nada disso. Se a realidade não se ajusta aos preconceitos, é mais fácil negar a realidade e manter os preconceitos (uma atitude muito em voga, admita-se). Dito de outra forma: se aqueles livros são bons, então não podem ser ficção científica - serão "fábulas", talvez, porventura "parábolas", quiçá "metáforas" (as definições não são muito criativas). Ou então até são ficção científica, sim, mas são tão bons que "transcendem o género". Ou, como diz o crítico, "não são catalogáveis", podendo até - pasme-se! - "ser apreciados por leitores sem nenhuma predilecção particular pela ficção científica". É de ir às lágrimas ou ao vómito, conforme a disposição.

 

A crítica acaba por ser positiva - spoiler alert, o livro levou "quatro estrelas" -, mas em 2017 já não há paciência para o snobismo literário para com a ficção dita "de género" (já escrevi longamente sobre o tema aqui). No cinema, pelo menos, alguns críticos já perceberam (não todos, mas o caminho faz-se caminhando) e são capazes de apreciar um filme de ficção científica sem vergonha e sem necessidade de recorrer à referência highbrow, aos clichés corriqueiros e às desculpas esfarrapadas. Mas na crítica literária publicada pelos vistos ainda há um longo caminho a percorrer. O que não surpreenderá quando reparamos que esses críticos parecem ter parado no tempo em 1994. Ou, se as referências que Luís Miguel Queirós tem da ficção científica literária servem de exemplo, algures entre as décadas de 50 e 60. Alguém se compadeça e lhes envie um DeLorean. 

 

(Aos leitores, recomendo  pouco a crítica e muito The Dispossessed. É um livro notável.)

Convidada: ALEXANDRA G.

Pedro Correia, 26.09.17

 

A pauta, as pautas

 

As ligações de sangue, outrora, como agora, constituem ainda a maior, não necessariamente a melhor, de todas as pautas, que é de relações humanas que aqui se trata. Crescemos com bases de referência, algumas das quais perdurarão para sempre, mesmo que manchadas por episódios de falta de diálogo, de tolerância, de excesso de exigência. Existe a solidez, a liquidez e a parte gasosa, aquela que cedo aprendemos a remeter ao limbo por, definitivamente, se ter cedo revelado o zero absoluto (uma pedra sem a forma de coração baleia ou nuvem ou aquela prima, enfim, diferença alguma).

Depois, crescemos, etc., vocês sabem, o mundo todo começa a envolver-nos, mas desse mundo não estão excluídas as relações de sangue, não todas. Tem início o prazer de reconhecermos com clareza que existe a empatia, as afinidades, mais ou menos cultivadas, regadas ou não, diariamente, mas que persistem, as irritações, nem sempre capazmente explicadas (era o que faltava, ter que explicar tudo!), a indiferença, a percepção das traições, mas quase sempre optamos pelo afastamento, a excessiva generosidade de alguém que, afinal, quer retirar-te tudo para que, esvaziado, olhes naquela direcção, onde tudo se assemelha à traição, ao roubo perpetrado com falta de requinte.

Um dia, tens então/também aquele tio crente, um tio referência durante toda a tua infância, o tio dos chocolates suíços, que gasta € 3,000.00 numa campa de granito, onde a infância das flores é colocada todas as semanas, colorida, sobre as raízes de osso da tia, sabendo tu que se enamorou por um anjo loiro com menos três décadas que ele, que se torna naquilo que sempre foi, o gabarolas de serviço, agora com vestígios alarmantes de Parkinson, mas ainda capaz de movimentar, pelo menos, a conta milionária, dando abrigo ao anjo loiro e tornando-a sua herdeira universal, coberta d’oiros, um guarda-roupa exuberante, uma altivez camuflada de amabilidade em figura de garrafas de vinho do Porto e um meio bolo caseiro, comprando-te a atenção, cativando-te como se foras o ramo de flores sobre a campa da tia Flor de Ossos.

A(s) pauta(s) que rege(m) as relações humanas evolui para auto, autos, coisa séria, dos mais diversos, quando sentes que uma pessoa, aos 85 anos, mesmo considerado todo o dever de respeito que lhe deves, e à sua liberdade, que a tem, se tornou no cachorrinho de abanar a tola colocado sobre o tampo do porta-bagagens do Ford Cortina da tua infância, lembras-te, aquelas idas à praia, os passeios à terra das tias velhas?, e sentes, não pena, mas desprezo, pelo ridículo inconsequente, o interior do porta-bagagens perdendo nas curvas o conteúdo, a música da tua infância transformada na queda rolante das memórias que nunca pensaste poder perder.

E começas a apreciar o silêncio.

 

 

Alexandra G.

(blogue IMPRECISÕES)

A jogada de Azeredo Lopes

João Pedro Pimenta, 26.09.17

Apertado entre o caso de Tancos e o ricochete que as suas desastradas declarações provocaram, fragilizando ainda mais a sua situação, José Alberto Azeredo Lopes teve agora uma intervenção discreta mas surpreendente. Depois de ter sido o porta-voz da candidatura de Rui Moreira em 2013 e seu chefe de gabinete até ir para o Governo, o Ministro da Defesa vem agora apoiar Manuel Pizarro, recandidato do PS à câmara do Porto, com a desculpa apressada de que "algo mudou". Azeredo Lopes, nitidamente pouco à vontade, ainda esteve numa acção de campanha de Pizarro, tentando passar despercebido e sem dar mais explicações.

 

Pode parecer estranho que um Ministro sem filiação partidária, que fazia parte do núcleo duro de Moreira, que era um dos rostos da sua campanha, e que aparentemente saiu sem zangas, venha de repente, e de forma inesperada, apoiar o candidato do PS contra o actual inquilino dos Aliados, tendo ainda por cima de ouvir o adjectivo "cata-vento" atirado por forças políticas como PSD ou Bloco. Mas há uma explicação plausível: Azeredo Lopes vê a sua posição de tal forma fragilizada que se agarra agora a uma candidatura do PS para ganhar as boas graças do partido do governo e assim conquistar algum apoio. Apoiando Pizarro, pode ser que o aparelho socialista o tente segurar por mais uns tempos. Mas é uma jogada de eficácia duvidosa, e só demonstra o quanto a sua situação é delicada. Se Azeredo não resistir no cargo a seguir às autárquicas, não voltará certamente a conquistar a confiança de Moreira, e tão cedo também não será chamado pelo PS, pelo que ficará com a sua carreira política e institucional seriamente comprometida. O mais provável é ter de regressar a reger a cadeira de Direito Internacional Público e que tão cedo não saia de lá.