Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Canções do século XXI (151)

por Pedro Correia, em 29.08.17

Antigamente havia vários nomes para isto

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.08.17

"Inicialmente, a viagem estava marcada para os dias 2 a 7 de Junho. Contudo, os convidados pediram para prolongar este período e acabaram por ficar até dia 15"

Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 28.08.17

«Uma coisa é promover a igualdade e a liberdade total quanto aos gostos, escolhas e percursos de meninos e meninas. Outra, bastante diferente, é considerar que esse caminho implica abolir diferenças (incluindo de gosto) e roubar o rosa às meninas. O objectivo da luta pela igualdade é adicionar oportunidades a ambos os sexos, não limitá-las ou subtraí-las.»

Inês Cardoso, no Jornal de Notícias

Ponham-se a pau, Eça e Camões

por Pedro Correia, em 28.08.17

image[1].jpg

 

Era o que faltava à Porto Editora para se actualizar: após mais de sete décadas ao serviço da excelência do serviço público, passou a receber lições de pedagogia do poder político.

Pedagogia censória, passe o oxímoro, em nome de valores respeitáveis, como a igualdade e a liberdade. E com solene chancela oficial, que manda - utilizando o eufemismo "recomenda" - retirar duas publicações dos postos de venda. O fantasma do doutor Salazar deve emitir uns sopros irónicos lá entre os vetustos reposteiros de São Bento.

Com a diligente brigada dos bons costumes apostada em pôr multidões ordeiras e ululantes a entoar a novilíngua deste admirável mundo novo, condenando sem cuidar sequer do rigor dos factos, o vocabulário comum em democracia torna-se policiado como se vivêssemos em ditadura. E não tenhamos ilusões: esses patrulheiros não tardarão a exercer censura com carácter retrospectivo, pois só quem controla o passado é capaz de controlar o futuro. Atenção, misógino Pessoa. Toma cuidado, falocrático Eça - reles perpetuador de "estereótipos de género". Põe-te a pau, racista e islamófobo Camões.

Haja cuidadinho com as cores também. Os daltónicos, coitados, é que se tramam.

Convidado: ROBINSON KANES

por Pedro Correia, em 28.08.17

 

Comuniquem menos mas falem, dialoguem e façam mais

  

Nos últimos tempos temos assistido ao discurso do "comunique mais, fale menos". Aliás, os auto-intitulados grandes comunicadores e muitos seguidores desta tendência apregoam a mesma aos sete ventos como a pedra-de-toque para resolver todos os problemas. A comunicação não vive por si só: funciona como mensageira e tem um objectivo concreto que implica a existência de uma base e de um trabalho de rectaguarda. Não se comunica primeiro e se faz depois, ou simplesmente não se faz. Não estou também a fazer um ataque à comunicação, bem pelo contrário, ou não fosse um acérrimo defensor de uma boa comunicação, seja em que contexto for. Aqui, debater-me-ei em questões práticas do nosso quotidiano, das organizações, e não na óptica publicitária.

Comunicar passou a ser a palavra de ordem, ao invés do falar e, consequentemente, um retrocesso de mentalidades camuflado com um discurso de contemporaneidade. Reparem como chamamos comunicação a muita propaganda. Propaganda traz-nos más memórias, mas basta alterar o conceito e...

Vende-se também a ideia de que todos podemos ser bons comunicadores e que basta dominar as "10 coisas que as pessoas altamente bem sucedidas fazem para comunicar" ou os "10 segredos de Saturno para agradar aos seus anéis" para o sucesso ser garantido. A comunicação é fundamental mas, por si só, não cria nada, todavia, tem um poder infinito para o bem e para o mal.

 

Também podemos sempre adoptar a postura oriental do "Comunicachim Tai Chuan" ou a dos "Monges Palradeiros de Sarnath" e comportarmo-nos como autênticos robôs, desprovidos da nossa personalidade e do nosso eu. Quem é que nunca assistiu a uma palestra ou àqueles seminários onde o conteúdo é carregado de lugares-comuns ou simplesmente não existe, mas os braços do orador, o olhar e a voz parecem uma sessão de break-dance?

Em tempos, assisti a uma conversa em que os aduladores de uma personagem discutiam o movimento da árvore e os ramos bem como a inspiração na natureza com que o alvo da sua adulação assumia o discurso e consequentemente exaltava o seu eu. Discutia-se e acarinhava-se a postura do "grande líder", já o que o mesmo dizia não era importante.

Comunicamos também por SMS, email, ou numa só direcção (por norma, a nossa) mas na realidade quão eficiente será essa comunicação? Será que estamos mesmo a acrescentar valor ou a mudar alguma coisa? Como é que com tantos profissionais da "arte de comunicar" ainda não conseguimos evoluir praticamente nada e no seio das organizações a comunicação continua a ser o maior dilema? Porque se gastam milhões em programas de formação em comunicação e os erros continuam?

De facto, também sugiro que se comecem a escolher os fornecedores destes serviços pelos resultados e não pela comunicação que muitos fazem...

Penso que a questão está mesmo aí: comunicamos demais, preocupamo-nos muito com a embalagem da mensagem, mas esquecemos o fundamental, que é o seu conteúdo e o que leva à mesma.

 

N00529_10[1].jpg

  William Turner - War. The Exile and the Rock Limpet (Tate Britain)

Fonte da imagem: própria

 

De que me vale ter um discurso altamente trabalhado, mexer os braços como um polvo, atirar ideias para o ar se depois não existe um seguimento nem interacção entre pares?

De que me vale comunicar se o foco está em mim e não nos outros?

Comunicar não é fazer discursos, não são textos altamente burilados ou ocos, não é ser robótico na abordagem, não é achar que o comunicador sou eu, até porque a comunicação tem mais que um sentido. Entendo que a abordagem é utilizar o falar como contraponto ao comunicar e assim criar um novo conceito, mas não estará a comunicação a matar o falar e consequentemente a matar-se a si própria? Nomeadamente a sua essência?

É que tudo isto resulta bem quando estamos a falar numa direcção com um headset colocado na cabeça para uma multidão. Mas no dia-a-dia?

 

De que me vale ter uma brilhante comunicação interna na minha organização, por exemplo, se depois as minhas chefias intermédias não falam com as pessoas?

De que me vale ter standards de apresentações, emails e tudo o mais e os problemas não se resolvem porque ninguém fala?

De que me vale comunicar by the book e com isso nem me dar conta que estou a criar uma ditadura do politicamente correcto esquecendo que os disruptivos podem ser a chave para a inovação ou a solução de muitos problemas?

De que me vale comunicar se nem domino, e muito menos promovo, capacidades como a disciplina, a criatividade, o respeito, a capacidade de síntese (sob o ponto de vista de Howard Gardner, como uma capacidade integradora de várias áreas e disciplinas), a ética, a cooperação, o espírito critico e o pensamento estratégico - acrescentei estes três últimos pontos aos cinco defendidos por Gardner e que citei acima.

 

Nunca se comunicou tanto e já diz o povo que "é a falar que a gente se entende". É nestas coisas que o povo é sábio, porque todos os dias testa na prática a teoria que outros nunca ousaram tirar dos livros, dos discursos atraentes.

Lembro-me de um professor que, perante a pouca vontade dos alunos em fazer um exame, optando por substituir o mesmo por um trabalho de grupo/apresentação, respondeu: "e quando a bomba vos cair nas mãos e tiverem de resolver os problemas, vão dizer esperem aí que vamos fazer um trabalho de grupo?". Não é raro ver indivíduos da “velha-guarda” a falarem e a resolverem um problema no imediato enquanto outros preferem comunicar e levam dias a resolver um problema. Quem me conhece sabe que sou das pessoas que mais se empenham em processos de mudança, mas também tenho de reconhecer que varrer tudo o que está para trás nem sempre é a melhor estratégia.

 

Deixaria a sugestão: façamos mais, falemos e dialoguemos uns com os outros e comuniquemos menos.

Comuniquemos aquilo que fazemos ou queremos sem cair no ridículo, pois não são raras as vezes em que a comunicação se encontra desfasada da realidade e em nada alinhada com o nosso comportamento...

Foquemo-nos no nosso cérebro social (hipótese cientifica que defende que os seres humanos têm um cérebro maior, comparado com outros vertebrados, maioritariamente devido à nossa necessidade de manter um registo e aplicação da nossa interacção social) para desenvolver a nossa comunicação e consequentemente beneficiarmos mais quem nos ouve e menos a nossa pessoa, ou, numa lógica mais solidária, beneficiarmos ambos da mesma forma e com claras implicações com o bem-estar que por cá tende a ser confundido erradamente com wellness.

 

Uma outra nota: deixemos as teorias e o discurso da comunicação ir além daqueles que já estão em posições de chefia ou são patrocinados pelos media. Pode ser que assim possamos adequar esse discurso àqueles que ainda são afastados deste processo. Não podemos defender a nossa teoria se estamos a excluir aqueles que mais podem beneficiar dela... Pode trazer-nos menos retorno nas contas ao final do mês, mas no longo prazo pode ser um activo de valor incalculável.

Deste modo, o segredo do sucesso não está na comunicação, pelo menos para quem não quiser ser oco e comportar-se como uma carapaça de tartaruga sem conteúdo ou como um perfil de LinkedIn vistoso que esconde uma pessoa sem miolo. De facto, a comunicação ajuda, mas se o foco incidir somente sobre esta, corremos o risco de navegar no vazio, aumentar a entropia nos processos, criar um mundo paralelo e no médio prazo perder a confiança daqueles a quem pretendemos fazer chegar a nossa mensagem, ou não fossem célebres as palavras de Lincoln: "É possível enganar toda a gente durante algum tempo, aliás é até possível enganar sempre algumas pessoas, mas não nos será possível enganar sempre toda a gente."

  

 

Robinson Kanes

(blogue NÃO É QUE NÃO HOUVESSE...)

Sugestões: um livro por dia

por Pedro Correia, em 28.08.17

500x[1].jpg

  

 Ninguém Sabe Onde Está, de Luís Maio

Crónicas de viagens

(edição Abysmo, 2017)

Tags:

Canções do século XXI (150)

por Pedro Correia, em 28.08.17

Fotografias tiradas por aí (372)

por José António Abreu, em 27.08.17

Blogue_grafismo19_Dresden2012.jpg

Dresden, 2012.

Os radicais

por Luís Naves, em 27.08.17

Muito do que lemos na Imprensa reflecte o crescente conflito em torno da criação de uma nova identidade nacional desenraizada, repleta de culpa do homem branco, de leituras alternativas da História e de simplificações ideológicas alheias à vivência normal das pessoas comuns. Após a queda do Muro de Berlim, a esquerda entrou em crise, fragmentou-se, e a sua franja mais radical começou a negar a própria herança. Após lutar durante décadas contra as discriminações a grupos maioritários, como trabalhadores ou mulheres, a esquerda abandonou o passado e adoptou novas lutas ligadas a questões de minorias. Os movimentos que saíram desta fragmentação começaram a olhar para a sociedade como uma manta de retalhos de pequenos grupos, tentando federar o maior número possível numa agenda política que procura acomodar os problemas de cada um e de todos ao mesmo tempo. Esta abordagem precisa por outro lado de combater e até de negar tudo aquilo que possa parecer maioritário: contesta-se a religião da maioria, os grandes partidos e empresas, a língua (onde houver mais que uma), todos os costumes enraizados, incluindo o casamento tradicional, a ideia da nação e os respectivos símbolos. Terá isto futuro? É possível, mas para já está a criar forte reacção dos conservadores radicais, que começam a defender cada pedaço de território ameaçado como se fosse o último. Uns querem substituir tudo e criar o homem novo, os outros não admitem mexer uma vírgula, como se a identidade fosse algo imutável. E, no meio disto tudo, está um público perplexo, por vezes divertido, a assistir a gritarias ridículas sobre assuntos que, do seu ponto de vista, são de lana-caprina.

Leituras

por Pedro Correia, em 27.08.17

250x[1].jpg

 

«A humanidade o que pretende é encurralar tudo quanto é belo e vir depois, aos milhares, assistir à sua morte lenta.»

David GarnettUm Homem no Jardim Zoológico (1924), p. 10

Ed. Livros do Brasil, Lisboa, s/d. Tradução de Cabral do Nascimento. Colecção Miniatura, n.º 91

Blogue da Semana

por Diogo Noivo, em 27.08.17

Comecei a acompanhá-lo uns anos antes da eclosão das chamadas Primaveras Árabes. Durante os processos de transformação política no Norte de África, este blogue foi uma fonte de informação fidedigna e serena, mas, sobretudo, foi um espaço de análise com qualidade e interesse invulgares. O seu autor, Issandr el Amrani, é um dos mais conceituados analistas de política árabe e é actualmente o director do International Crisis Group no Norte de África. São razões de sobra para visitar o The Arabist.

Hato final

por Sérgio de Almeida Correia, em 27.08.17

20170825_100633.jpg

O pior passou.

Durante dois dias, largas centenas, talvez mesmo mais de um milhar de pessoas, lutaram contra o tempo para recolher a maior quantidade possível de lixo, de restos de árvores e de arbustos, de objectos danificados que obstruíam ruas e passeios. Os bombeiros trataram de proceder à drenagem das águas que transformaram silos subterrâneos para estacionamento de veículos em tanques onde jaziam automóveis, motociclos e alguns desgraçados que ali foram apanhados ou para lá arrastados pela chuva, o vento e a furiosa corrente da água que galgou as margens, transbordou e invadiu as zonas baixas. A aproximação de um segundo tufão no espaço de pouco mais de três dias sobre a calamidade que se abateu sobre Macau em 23 de Agosto não dava tempo para tréguas.

Um dos problemas relatado pelos voluntários foi a falta de camiões em número suficiente para se retirar o lixo dos pontos onde fora concentrado, assim se atrasando essa importante tarefa. A Rádio Macau, à semelhança da televisão e dos jornais, enviou os seus repórteres para as ruas, todos eles prestando um serviço de informação que desde a primeira hora também cabia às autoridades públicas. O facto de uma antena na Colina da Guia ter ficado destruída impediu a recepção da emissão de rádio em Coloane e na Taipa em condições de audibilidade, situação que persiste. Em todo o caso, o restabelecimento do fornecimento de electricidade e do serviço de Internet, onde a TDM-TV passou também a colocar os seus serviços informativos em diversas línguas, colmataram na medida do possível as falhas radiofónicas.

20170826_083504.jpg

(Typhoon Committee Secretariat, Coloane) 

A ajuda prestada pelos diversos grupos de voluntários nas primeiras horas do processo de recuperação foi decisiva para o bom trabalho que se fez. Fiquei particularmente sensibilizado, entre outros, pela iniciativa, mobilização e participação de uma associação de trabalhadores não-residentes de origem nepalesa. Os nepaleses, como outros nacionais, pertencem a um dos grupos mais desprezados pelas autoridades locais em matéria de direitos sociais. Na sua maioria são trabalhadores do sector hoteleiro, de empresas de limpeza e de segurança, com más condições de remuneração e de vida, muitos deles trabalhando regularmente doze e mais horas por dia, sem qualquer folga ou descanso semanal, sem direito à greve e vivendo em condições muito difíceis. No entanto, essa gente humilde e trabalhadora que na sua própria terra ainda não há muito suportou uma tragédia natural de grandes dimensões, e contra quem alguns pretensos nacionalistas e defensores dos residentes se voltam sempre que há problemas de emprego ou se discutem direitos básicos, inclusivamente na própria Assembleia Legislativa, deu um exemplo cívico notável. Foram nisso seguidos por outras associações e, entretanto, também por alguns deputados, ao que sei também por um membro do Executivo, que participaram na operações de limpeza, embora nalguns casos, devido ao facto da eleição dos deputados a serem escolhidos pelos sufrágio directo e indirecto estarem agendadas para 17 de Setembro, seja difícil distinguir aquilo que é genuína vontade de participar de uma acção de campanha dissimulada. Estando em causa o sentido de entreajuda, a Comissão dos Assuntos Eleitorais da Assembleia Legislativa, verdadeiro big brother do processo eleitoral e dos bons costumes dos candidatos e das listas, teve desta vez o bom senso de nada dizer.

20170826_083430.jpg

(Largo de Coloane)

O mesmo não se poderá afirmar de quem quis tirar dividendos políticos da tragédia para lançar rumores, atacar o Governo português e o trabalho do Cônsul-Geral numa inédita e doentia manifestação de umbiguismo perante a calamidade, à qual não deixou de associar os deputados do seu partido, porventura à revelia destes, chegando a comparar o que aconteceu na tragédia de Pedrógão com a situação derivada do tufão e insinuando a existência de um eventual conluio das entidades oficiais para ocultação de vítimas de nacionalidade portuguesa. Inacreditável. Como se numa situação de catástrofe fosse mais importante a nacionalidade ou a etnia das vítimas do que as próprias vítimas e não fossem todos seres humanos e filhos do mesmo Deus.

Creio que essa terá sido também uma das razões para o Consulado-Geral ter ontem divulgado um comunicado onde se reafirmou, na sequência da reunião havida entre o Cônsul-Geral e o Secretário da Segurança da RAEM, que “até à data, não existem cidadãos nacionais portugueses entre as vítimas mortais e entre os feridos, na sua maioria ligeiros, já contabilizados, e assistidos nos hospitais públicos”, acrescentando-se que o Secretário para a Segurança “expressou o seu veemente repúdio a quem, através das redes sociais, ou por qualquer outro meio, propaga informações falsas, causando alarme social, sobre a existência de vítimas de nacionalidade portuguesa ou outra, para além das que são fornecidas oficialmente”.

É verdade que houve muitos portugueses afectados pela catástrofe, uns mais do que outros, vários empresários com negócio começado há pouco tempo, mas daí a apontar-se ao Governo e ao representante oficial de Portugal em Macau e Hong Kong um comportamento que o tornaria indigno do lugar que tem ocupado de forma extremamente empenhada e competente, com reconhecido agrado da comunidade, por razões políticas e de eventual inimizade pessoal, não deixa de nos levar a questionar sobre o portuguesismo de alguns e, em especial, dos valores que os guiam em horas tão difíceis para todos.  

Ainda no final de dia 23, o que se confirmou ontem, se ficou a saber que os magnatas dos casinos irão participar na reconstrução. Os primeiros trinta milhões de patacas vieram da MGM e de Pansy Ho, esperando-se que outros se sigam.

20170826_100448.jpg

Há situações que estão a demorar mais tempo a solucionar do que seria expectável numa cidade que se quer moderna, cosmopolita e virada para o turismo. Onde moro a água demorou mais de 76 horas a ser restabelecida. Veio com intermitências. Pelo meio houve um inacreditável comunicado referindo-se que a dificuldade na regularização do fornecimento se devia à procura, consumo e armazenamento excessivo, isto numa situação em que não saía uma gota de água das torneiras de milhares de habitações. Tenho conhecimento de que houve um centro de saúde onde aquela faltou e se recebeu depois água transportada de um outro. No Edifício “Riviera”*, ouviu-o ao final da tarde de ontem na TDM-Rádio, os moradores continuavam sem electricidade, sem água e sem gás. Alguns túneis e vias de circulação ainda apresentavam problemas. Nas fachadas dos prédios o vidro foi substituído por painéis de madeira e plásticos de protecção. O tufão Pakhar vinha aí e não se podia deixar tudo no limbo.

Quanto a este cavalheiro, Pakhar, apesar de na noite passada ter sido içado o sinal 8, o qual deu lugar ao sinal 3 ao início desta tarde, continuando içado à hora que escrevo, as consequências foram de muito menor monta, apesar das águas voltarem a fazer das suas. O vento, porém, teve rajadas da ordem dos 70/100 km/hora, ou seja, metade dos valores máximos registados com o Hato. Talvez com excepção de Hong Kong, onde há notícia de uma vítima mortal, a chuva e o vento não foram tão intensos. E com informação atempada e as pessoas preparadas para a chegada do Pakhar isso fez toda a diferença.

Onde se verificaram danos de monta foi na Escola Portuguesa, que ainda recentemente sofrera obras de manutenção tendo em vista o começo do próximo ano lectivo. Ali o dinheiro é sempre pouco, mas espera-se que não faltem ajudas e que quem tiver de executar a reconstrução não se aproveite da situação para inflacionar os preços, fazendo o serviço com a indispensável qualidade.

A intervenção do Exército Popular de Libertação, aplaudida pela maioria da população, começou, entretanto, a ser questionada por alguns sectores. Primeiro em Hong Kong, equacionando-se se em idêntica situação, com o actual clima de confrontação política e ideológica, com activistas pró-democracia e independentistas presos, seria pedida a sua ajuda. A cultura cívica de Hong Kong sempre foi muito diferente da de Macau, não obstante também ali se fazer sentir a forte influência dos poderes informais e dos lobbies locais, e da mão de Beijing se fazer ouvir com cada vez mais estridência apoiada no poder judicial. Não é de admirar que nesse contexto a questão da autonomia e o seu forte sentimento identitário venham logo à superfície.

De lamentar foi o impedimento da entrada em Macau de quatro jornalistas de Hong Kong que vinham em serviço para reportarem o impacto do Hato. A razão — potencial ameaça à segurança interna da RAEM — é hilariante. Todavia, constitui igual razão à invocada anteriormente para barrar a entrada a outros residentes da ex-colónia britânica, incluindo a um(a) deputado(a) que queria vir passar um fim-de-semana num hotel para celebrar o seu aniversário de casamento e até a uma criança de colo, por confusão do nome desta com a de um activista político homónimo, para grande espanto dos seus pais. O ridículo tem limites. A falta de senso também devia ter, mas há quem não o perceba e admita passar pela vergonha de assim se expor e colocar internacionalmente em causa o bom nome da China e da RAEM, tornando-a num tertium genus entre o primeiro sistema de Beijing e o segundo sistema consagrado na Lei Básica.

20170825_092445.jpg

Nesta tragédia, em que à dezena de vidas perdidas e aos cerca de 200 feridos há a somar os mais de mil milhões de patacas (números avançados ontem por alto) para recuperar o que se perdeu, se há uma lição a retirar é a de que a prevenção do infortúnio e a sua regeneração não pode fazer-se erigindo-se como critérios de decisão considerações de oportunidade política ou o cumprimento de metas económicas, sob pena de agravamento da calamidade, o que é válido tanto para o público como para o privado. E a qualidade e preparação de quem pensa, coordena e decide o que tem de ser feito é fundamental para se evitar o agravamento do risco e das consequências do desastre. Em nenhuma sociedade se pode viver decentemente com elites medíocres, presunçosas e preguiçosas.

Daí que seja tão importante a competência de quem governa, de quem serve, de quem decide. E o espírito com que o faz. Isto é válido tanto em Macau, como em Hong Kong, em Portugal ou noutro lado qualquer onde haja vidas. Trezentas mil patacas (cerca de 30 mil euros) não pagam a perda de uma vida humana. Já bastam as que não se podem evitar.

20170825_122143.jpg

* (editado para correcção do nome do edifício)

Tags:

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 27.08.17

Liv82970001_f[1].jpg

 

 Acorda o Teu Poder Interior, de Vera Luz

Auto-ajuda

(edição Manuscrito, 2015)

"A autora escreve de acordo com a antiga ortografia"

Tags:

Canções do século XXI (149)

por Pedro Correia, em 27.08.17

A União Europeia não se leva a sério

por Luís Naves, em 26.08.17

A União Europeia não consegue ser levada demasiado a sério pela razão simples de produzir uma anedota como esta, que pretende ser um ranking das cidades europeias no domínio da cultura e da criatividade. Lisboa dá um baile a Hamburgo, que tem uma nova casa de ópera, mas também damos banho a Barcelona e (pasme-se) a Viena e até a Roma. Claro que estas coisas são depois utilizadas pelos nossos alucinados e panglossianos como prova de que tudo corre maravilhosamente. Abrimos as notícias locais e Portugal é uma festa e somos uns pândegos; os nossos intelectuais, com ajuda preciosa dos peritos europeus, garantem que bastava elevar a autoestima dos portugueses até à região orbital do delírio e daí resultava o milagre da multiplicação dos pães. Estive três semanas sem internet, reduzido a uma rádio governamental de um país protofascista e só ouvi duas notícias sobre Portugal: uma de fogos calamitosos e outra sobre a queda de uma árvore em cima de uma multidão, acidente que se deu apesar de múltiplos avisos. De facto, não nos falta criatividade para o desastre e, em termos de cultura, parecemos consistentes, trata-se de insistir no mesmo erro de bater com a cabeça na parede até à insensibilidade; quando se bate muito, muito, muito, acaba por não doer. E, no intervalo, os óculos cor-de-rosa que nos oferece a Comissão ajudam a aliviar os sintomas.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 26.08.17

As%20Alterações%20Climáticas%20e%20os%20Fogos%2

 

«1. É evidente que se um fogo florestal estivesse a passar da área de um concelho para outro, a "operação", como eles dizem, teria que ser coordenada a um nível superior; e quem diz entre concelhos, diz entre freguesias;


2. É certo que muitas freguesias e muitos concelhos do interior têm perdido população, mas também é verdade que são os autarcas, porque ali residentes, quem melhor conhece os terrenos, os caminhos, etc.;


3. As autarquias locais não têm os meios financeiros necessários para combater incêndios, mas deviam ter, digo eu. A propósito, a melhor maneira de "combater" os incêndios florestais é fazendo prevenção, e esse encargo estava e está em grande medida entregue às Câmaras Municipais (CM); o que me parece é que as CM pouco se têm preocupado com essa questão – os bons exemplos são meras excepções; e também me parece que as Juntas de Freguesia poderiam desempenhar, neste particular, um papel importantíssimo, sobretudo na limpeza de caminhos e aceiros;


4. Todavia, raras são as Câmaras que possuem corpos de sapadores florestais e muitas desviam os subsídios que recebem para esse efeito para gastos de outra natureza, muitas vezes supérfluos;


5. Sem desprimor para os bombeiros na generalidade, quase acho criminoso envolver bombeiros citadinos no combate aos fogos florestais, não raras vezes transformando-os em vítimas inocentes, perdendo alguns a própria vida;


6. E saiba que considero uma tontice querer apagar fogos florestais que atingem uma grande dimensão. Esses fogos apenas podem ser controlados, normalmente com recurso a equipamento pesado, e coordenados por quem sabe do ofício e não por agentes bem-avontadados, alguns meros curiosos. Neste capítulo, Portugal está a desperdiçar energias em demasia, que seriam muito melhor aplicadas na prevenção.»

 

Do nosso leitor Tiro ao Alvo. A propósito deste meu texto.

Pensamento da semana

por Helena Sacadura Cabral, em 26.08.17

"A vida de uma pessoa não é o que lhe acontece, mas aquilo que recorda e a maneira como o recorda.”

Esta é a frase de Gabriel García Márquez que escolhi para acompanhar o pensamento do Delito durante esta semana.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

Leituras

por Pedro Correia, em 26.08.17

coracao-de-cao_capa_NET_b71bd63c-9f0b-4af7-b2c4-5d

 

«Para que é necessário fabricar artificialmente Espinosas quando qualquer mulher do povo o pode dar à luz a qualquer momento?»

Mikhail BulgakovCoração de Cão (1987), p. 142

Ed. Alethêia, Lisboa, 2014. Tradução de Sílvia Valentina

Julho de 2017: os meus votos

por Pedro Correia, em 26.08.17

mw-320[1].jpg

 

Figura nacional do mês

Obscuro comentador futebolístico num canal de televisão, o candidato do PSD à Câmara de Loures transformou-se em figura nacional com a ajuda do Bloco de Esquerda. «Não compreendo que haja pessoas à espera de reabilitação nas suas habitações quando algumas famílias, por serem de etnia cigana, têm sempre a casa arranjada», declarou a 12 de Julho André Ventura ao jornal digital Notícias ao Minuto. O Bloco apressou-se a apresentar  queixa-crime por difamação e discriminação. O CDS, que apoiava o candidato, retirou-lhe apoio. O benfiquista Ventura conseguiu o que queria: hoje todos falam dele.

 

 

luisa-ortega-diaz.jpg.size.custom.crop.1086x722[1]

 

Figura internacional do mês

Luisa Ortega, procuradora-geral da Venezuela e hoje a principal adversária do ditador Nicolás Maduro. Oriunda das fileiras do regime socialista instaurado pelo falecido Hugo Chávez, foi-se distanciando de Maduro, opondo-se em Abril à tentativa de dissolução da Assembleia Nacional, única estrutura de poder que o Presidente não controla, denunciando a "ruptura da ordem constitucional" posta em marcha no país. Mandou investigar casos de corrupção protagonizados pelas mais altas figuras do regime e a brutal repressão que causou mais de 120 mortos em três meses. Autêntica mulher-coragem: ainda ouviremos falar muito dela.

 

 

13806312_770x433_acf_cropped[1].jpg

 

Facto nacional do mês

Depois da tragédia de Pedrógão Grande, que comoveu o País e impressionou o mundo, Portugal continuou em chamas. No final do mês de Julho já tinham ardido 118 mil hectares de área florestal e agrícola. Em zonas tão diferentes como  Alijó e MaçãoMértola e AbrantesCoimbra e Sertã. Uma situação de calamidade nacional, entre críticas generalizadas de falhas das comunicações e da protecção civil.

 

 

Casa-Blanca[1].jpg

 

Facto internacional do mês

A Casa Branca, com Donald Trump, continua a assemelhar-se a uma porta giratória, surgindo aos olhos do mundo como um foco permanente de instabilidade. Na própria equipa presidencial vão-se sucedendo as demissões. Em menos de duas semanas, Trump perdeu dois colaboradores muito próximos: a 21 de Julho demitiu-se o porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer; dez dias depois, saía o recém-entrado director de comunicação, Anthony Scaramucci. O anterior, Mike Dubke, abandonara funções em Maio. Também em Julho, o Presidente perdeu o seu chefe de gabinete, Reince Priebus, e viu partir o director do gabinete de ética, Walter Shaub. Em Fevereiro, exonerara o conselheiro de segurança, Michael Flynn, que só esteve um mês em funções.

 

 

26039[1].jpg

 

Frase nacional do mês 

«Depois de termos levado um soco no estômago, os chefes militares levantaram logo a cabeça.» A insólita declaração foi proferida a 11 de Julho no Palácio de São Bento, após uma reunião entre o primeiro-ministro e comandos militares, pelo chefe máximo das Forças Armadas, general Artur Pina Monteiro. A propósito do assalto aos paióis de Tancos, ainda por esclarecer. O caso não tardou a entrar no anedotário nacional. «Conheço galinheiros mais bem guardados do que o paiol de Tancos», ironizou Miguel Sousa Tavares.

  

 

lula-da-silva_650x400_81437093123[1].jpg

 

Frase internacional do mês 

«Pode saber que eu 'tou no jogo».» Foi assim, ensaiando uma fuga para a frente, que o ex-presidente brasileiro Lula da Silva reagiu em 13 de Julho à notícia de que fora condenado a 9 anos e seis meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, no âmbito do processo "Lava Jato". Lula, que ocupou o Palácio da Alvorada entre 2003 e 2011, anunciou recurso desta sentença condenatória e, em simultâneo, revelou que será candidato à eleição presidencial de 2018.

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 26.08.17

9789898833211[1].jpg

 

 O Rato da América, de Jacques Lanzmann

Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes

Relato autobiográfico

(edição Sistema Solar, 2017)

Tags:



O nosso livro



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D