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Dez livros para comprar no Natal

por Pedro Correia, em 08.12.16

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Livro oito: O Segredo dos Seus Olhos, de Eduardo Sacheri

Tradução de Vasco Gato

Edição Alfaguara, 2016

309 páginas

 

Já conhecíamos a  belíssima longa-metragem de Juan José Campanella – galardoada com o Óscar de 2009 para melhor filme não falado em inglês. Faltava a obra literária que serviu de ponto de partida para a película: O Segredo dos Seus Olhos, belo romance de Eduardo Sacheri, um professor de História nascido em 1967 na capital argentina, autor de seis livros de ficção.

É um misto de thriller com melodrama, tendo em fundo um fio de intriga política, percorrido por alusões à implacável ditadura militar argentina das décadas de 70 e 80. Anos de chumbo, em que o valor da vida humana caiu a pique e o futuro permanecia envolto em nevoeiro.

Um crime horroroso cometido em Buenos Aires vai marcar algumas vidas para sempre. Incluindo a de Benjamín Chaparro, vice-secretário num tribunal de instrução e fracassado aspirante a escritor. No decurso de longas horas de vigília, ele acaba por solucionar esse crime que permaneceu demasiados anos enterrado sem estar encerrado. Um crime que funciona como sugestiva alegoria de uma sociedade irremediavelmente doente – sob o signo do silêncio, do sofrimento e da solidão.

Chaparro, como tantos outros, voga desamparado na espuma de um quotidiano sem esperança: num mundo concentracionário, corrompido pelo vírus totalitário, o mínimo descuido pode traçar a fronteira entre a vida e a morte. E no entanto este modesto funcionário público insiste em ir ao encontro da justiça e da verdade, mesmo que isso faça estilhaçar os últimos vestígios que nele subsistem de crença na natureza humana.

“Não vemos a dor. Não podemos vê-la, simplesmente porque a dor não se vê em circunstância alguma. Podem ser vistos, quando muito, alguns dos seus mínimos sinais exteriores. Mas esses sinais sempre me pareceram mais máscaras que sintomas. Como poderá expressar o homem a angústia atroz da sua alma? Chorando a jorros e soltando alaridos? Balbuciando umas palavras desconexas? Gemendo? Vertendo umas quantas lágrimas? Eu sentia que todas essas demonstrações possíveis de dor eram apenas capazes de insultar essa dor, menosprezá-la, profaná-la, colocá-la à altura de demonstrações gratuitas.”

Palavras que ficam connosco muito depois de as lermos. Dificilmente haverá maior elogio a um livro, seja ele qual for.

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O dia da Mãe

por Patrícia Reis, em 08.12.16

Para a minha mãe, para a minha avó e para mim, este é o dia da mãe. Não nos corre bem desde há uns anos, porque essa coisa em Maio veio tramar a malta e os filhos, de cada uma, tendem a esquecer-se do dia 8 de Dezembro, para mais quase em cima do Natal. Assim, temos um acordo que nos une, celebramos nós, telefonamos e festejamos. Para quem estiver connosco, pois tenham um feliz dia da Mãe.

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Delito à Mesa (6)

por Francisca Prieto, em 08.12.16

Vai para uns quantos anos que, quando chega Agosto, enfio os malotes no carro e trato do exílio familiar para a Costa Vicentina.

Gastronomicamente falando, o mês é intercalado por cachorros quentes na praia e, à noite, peixe escalado, do fresquíssimo, ali pescado por gente local. Acrescenta-se com frequência pratadas de percebes (ou perceves, consoante a corrente) e um ou outro churrasco caseiro, quando aparece um habilidoso capaz de dominar a labareda.

Há porém o dia da rebeldia. Várias famílias de amigos deixam os filhos ao abandono e marca-se uma mesa de estadão na Eira do Mel, o respeitado estabelecimento de restauração, sito em Vila do Bispo.

Assim que chegamos, começa o choradinho do “Leite Queimado”, uma rara iguaria, servida à sobremesa, que só há de vez em quando e que, quando há, acaba logo na primeira ronda de clientela. O objectivo primordial é assegurar, à partida, umas quantas doses que permitam acabar o jantar em beleza.

A Eira do Mel proclama-se como um restaurante de Slow Food e faz jus ao que promete, o que quer dizer que leva uma eternidade a servir uma mesa do tamanho da nossa. De maneira que, invariavelmente, vão chegando várias garrafas de vinho até que se consiga ferrar o dente nas entradas. Na altura de apreciarmos os magníficos ovos mexidos com morcela ou o camarão mergulhado em molho fenomenal, já soaram as primeiras gargalhadas guturais que ditam o tom para o resto da refeição.

Das entradas ao prato principal decorre mais um período de tempo considerável. Tanto, que dava para assistir a uma prova do Grande Prémio, com a parte da subida ao podium e tudo. Mas nós não reclamamos porque, para além de continuarmos entretidos nas degustações vinícolas, sabemos o que lá vem: uma cataplana de polvo com batata doce de fazer chorar qualquer coração mais empedernido.

Só por causa desta cataplana, a Michelin devia deixar-se de mariquices e atribuir cinco estrelas ao Chef José Pinheiro.

E é assim que, já com um par de grãos na asa, os convivas contam e recontam vezes a fio as mesmas histórias dos velhos tempos de Sagres, enquanto perdoam a longa espera e molham pão saloio no molho da panela.

No final, se há Leite Queimado assegurado, manda-se servir para acompanhar uns copitos de medronho, daqueles que não se devem beber sozinhos.

No dia a seguir há lamentos na praia, mas todos concordamos que o ritual se há-de voltar a cumprir. Afinal, temos doze meses para recuperar da epopeia.

 

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A nossa Helena faz anos!

por Patrícia Reis, em 07.12.16

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Flamante Delito

por Rui Rocha, em 07.12.16

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Por ser verdade e me ter sido pedido, deixo nas linhas que se seguem, e para memória futura, público testemunho dos principais pontos analisados, com profundidade desigual mas constante brilhantismo, no jantar do Delito de Opinião que ontem decorreu algures em Lisboa.

Presentes, para além deste vosso servidor, a Teresa Ribeiro, a Ana Vidal, a Isabel Mouzinho, a Francisca Prieto, a Marta Spínola, o Luís Naves, o Diogo Noivo, o Zé Navarro, o Luís Menezes Leitão, o Fernando Sousa e o Pedro Correia. Perguntados, todos aos costumes dissemos nada.

Os trabalhos iniciaram-se com uma sempre salutar comparação entre Lisboa e Porto, as características dos habitantes locais, os modos de vida, os aporrinhamentos e as consumições. Estando algo distraído com a escolha do prato principal, imagino que o Porto tenha aqui obtido larga vantagem. Parece-me bem. Falou-se ainda sobre o Alentejo em geral e sobre uma célebre manifestação em que se exigia a abertura de um teatro em Barrancos. Todavia, vendo o que aconteceu ao Henrique Raposo quando cometeu prosa sobre o tema, entendo que o que a este respeito se passou na mesa ali deve ficar.

Ao contrário, quando se trata de abastecer o depósito, não se deve ficar aqui e nem sequer em Badajoz. O Diogo Noivo, que tem nesta matéria abundante experiência, confidenciou que os postos de combustível raianos alinham os preços pelos que se praticam do lado de cá. Se queremos abastecer bem devemos adentrar o país vizinho e fazer mais uns quilómetros. Com a devida licença do Ministro Caldeira Cabral, o Diogo mandou-nos a Mérida.

E falámos de Sócrates. O veredicto foi claro. O programa do seu 1º governo constituiu um dos melhores diagnósticos das necessidades reais do país. E sim, se não soubéssemos do resto, uma parte substancial do primeiro mandato mereceria uma nota positiva. Todas estas conclusões, que também subscrevi, foram postas em cima da mesa ainda antes de ser aviada pelos presentes a primeira garrafa de vinho, o Luís Lavoura caia já aqui redondo no chão se isto não for verdade.

De Sócrates saltámos para os mass media o que vale por dizer que fomos do lume para a frigideira. Da frigideira foi precisamente de onde nos chegou o bife que despachámos com regimental aprumo e galhardia. O Zé Navarro desenvolveu uma elaborada teoria das fontes jornalísticas. Em resumo, para que brote água é preciso que a fonte queira lixar alguém.

Na vertente internacional, decidiu-se por unanimidade e aclamação que Trump é estúpido, que a Hillary fez uma má campanha e que os americanos não gostam dela. Não foi todavia possível chegar a consenso relativamente ao facto de os resultados das eleições terem sido determinados por os americanos serem intrinsecamente bimbos. Iniciou-se a este propósito uma acesa polémica que evoluiu para uma profunda análise antropológica do homem branco e pouco instruído residente no município de Odivelas. O chamado Homem de Rust-Velas.

Continuou a discussão em direcção a Leste, sempre procurando o necessário equilíbrio geopolítico. Praga ou Budapeste? Pois divisão de opiniões. Que Praga, defendeu a Ana Vidal, não desfazendo. Que Budapeste, insurgi-me eu, creio que acompanhado pelo Luís Naves que tem com a Hungria certa afinidade.   Na dúvida, acabou por assentar-se, até nova ronda negocial, em recomendar-se a visita das duas. Praga no Inverno e Budapeste no Verão. Registe-se, em todo o caso, o voto de vencido do Zé Navarro que entre uma e outra gritava Nápoles.  Por mera coincidência, tais entusiasmos acabaram por ocorrer em momentos em que a baliza defendida pelo Ederson se encontrava em perigo, circunstância que levou o Luís Naves a exigir que se lavrasse protesto escrito pela falta de patriotismo do Zé. Sobre a Hungria e com relevância, ficámos ainda a saber que não há especial inconveniente em entrar num novo ano subidos a uma cadeira desde que o momento seja seguido pela entoação do hino húngaro.

Houve mais? Seguramente. Mas como disse Zeinal Bava a Mariana Mortágua na Comissão de Inquérito, “não me lembro”.  E com dizer “não me lembro”, defende o Zé Navarro, Bava disse tudo para quem o quisesse ouvir. Tal como eu aqui. Agora, que prestámos uma singela homenagem a Fernanda Tadeu pendurando os nossos casacos nas costas das cadeiras, isso não vos posso esconder.

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Já li o livro e vi o filme (162)

por Pedro Correia, em 07.12.16

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BUTTERFIELD 8 (1935)

Autor: John O' Hara

Realizador: Daniel Mann (1960)

Um dos melhores romances sobre os anos da Grande Depressão norte-americana, centrado em Nova Iorque, levou um quarto de século a ser transposto para o cinema. Numa versão suave, com Elizabeth Taylor. O papel valeu-lhe um Óscar.

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Dez livros para comprar no Natal

por Pedro Correia, em 07.12.16

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Livro sete: O Homem Fatal, de Nelson Rodrigues

Edição Tinta da China, 2016

368 páginas

 

Foi um dos maiores prosadores da língua portuguesa do século XX. E um dos mais insuportáveis cronistas da imprensa brasileira para os seus alvos de estimação, que dardejava com impiedoso sarcasmo e um perfeito domínio estilístico.

Um desses alvos era D. Helder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife. “D. Helder só olha o céu para saber se leva ou não o guarda-chuva”, dizia dele Nelson Rodrigues (1912-80), pré-moderno assumido, alérgico aos “padres de passeata” e à esquerda em geral. “O Reacionário”, assim se autodefinia – de tal maneira que deu este nome a um dos seus volumes de crónicas, surgido em 1977.

Desse e de outros dois – O Óbvio Ululante (1968) e A Cabra Vadia (1970) – Pedro Mexia recolheu 80 crónicas, a que introduziu prefácio e reuniu num livro intitulado O Homem Fatal. Um dos acontecimentos editoriais do ano em Portugal: era chocante a ausência no mercado nacional das obras deste dramaturgo, romancista e jornalista que mantém uma legião de leitores fiéis em ambas as margens do Atlântico.

Oriundo de uma família de repórteres tarimbeiros, que gostava de equiparar aos “remadores de Ben-Hur”, Nelson Rodrigues começou a trabalhar em jornais com apenas 13 anos. Fez o tirocínio da profissão como redactor desportivo e criminal: cultivava hipérboles e costumava dizer que manchete sem ponto de exclamação era “jornalismo castrado”.

Publicadas durante anos na última página do diário O Globo, as suas confissões bastavam para assegurar a popularidade do periódico, polarizando opiniões: ou se amava ou se detestava este admirador de Eça de Queirós que enriqueceu o léxico comum do Brasil com expressões da sua autoria. Exemplos: “óbvio ululante”, “cabra vadia", “calor de derreter catedrais”, “mau tempo de quinto ato do Rigoletto”. Sem esquecer a "grã-fina com narinas de cadáver”, que no estádio do Maracanã perguntava: "Quem é a bola?"

Poucos como ele cultivavam com tanto requinte a arte do aforismo, que ia repetindo de crónica em crónica sem recear vencer o leitor pelo cansaço. Alguns ascenderam à glória do provérbio: “Toda a unanimidade é burra”; “todo canalha é magro”; “invejo a burrice porque é eterna”; “a televisão matou a janela”; “o dinheiro compra tudo – até amor verdadeiro”, “a companhia de um paulista é a pior forma de solidão”.

Frase imortais deste pernambucano de nascimento mas carioca adoptivo, um sedentário que só viajava nas letras, anacronismo vivo que supera incólume todos os testes do tempo.

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O longo braço de Mohammed VI

por Fernando Sousa, em 06.12.16

Sabíamos, enfim sabia quem sabia, que em Marrocos há três coisas que convém não discutir para não incorrer na ira do regime, que são Maomé, o rei e o Sara Ocidental, o que não sabíamos, e passámos a saber, é que o longo braço de Mohammed VI chegou à Covilhã, aparentemente através de uma cartinha, e levou a direcção da Universidade da Beira Interior a proibir a realização nas instalações da escola da conferência “Sahara Ocidental: a luta pela autodeterminação de um povo, promovida por estudantes de Ciência Política e Relações Internacionais. Isto em resumo do que os jovens fizeram saber pelos próprios meios uma vez que a comunicação social passou mais um dia às voltas com a puta da Caixa. A iniciativa acabou por realizar-se, nas instalações da Assembleia Municipal, mas ficou em muitos de nós, de outras épocas e memórias, a vergonha de ver abandonados à ocupação marroquina aqueles que há anos estiveram ao nosso lado contra a indonésia de Timor-Leste. Dixit.

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Westworld e a complexidade

por Luís Naves, em 06.12.16

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A série Westworld, cuja primeira temporada terminou ontem, não é apenas um clássico da televisão, mas uma das mais perturbadoras obras de ficção que tenho visto. Na televisão do futuro, existirá um antes e um depois de Westworld, pois atingiu-se ali um novo patamar na qualidade do argumento e na profundidade das personagens, na complexidade das ideias, na mistura de narrativas e de camadas temporais. Tal como acontece aos turistas humanos que percorrem aquele mundo, o espectador é confrontado com uma imensa teia de possibilidades e julga descobrir elementos que só ele está a ver: não haverá duas opiniões iguais sobre os episódios da primeira temporada, nem será dada por duas pessoas diferentes a mesma importância a informações que, pelo menos na aparência, nos foram proporcionadas como verdadeiras. Nunca uma série de televisão tentou ir tão longe na liberdade concedida a interpretações da história, enigmas narrativos ou ambiguidade das personagens.

A série levantou questões sobre liberdade, memória e consciência, inteligência artificial, destino, limites do humano e da tecnologia, a moderna indiferença, mas sobretudo sobre a impiedade perversa e a manipulação da realidade, dois aspectos da sociedade contemporânea que certamente farão parte do nosso futuro. Para mim, o mais difícil foi perceber que a nudez e a violência, quando aplicadas a máquinas, não tinham a mesma capacidade de me incomodar do que na circunstância dessas mesmas cenas envolverem personagens que eu considerasse pessoas. Explico melhor: os autores mostraram claramente que os seres que estavam a ser torturados, maltratados ou mortos, de forma extremamente cruel, eram máquinas que, no dia seguinte, estariam de novo na sua tarefa de cumprir uma narrativa pré-programada e inflexível, sem memória da dor sentida nas violações, torturas ou homicídios; o destino trágico repetia-se todos os dias, (Dolores deixava sempre cair a lata de conserva nas mesmas circunstâncias), com pequenas alterações resultantes da interacção com os turistas, mas sem livre arbítrio.

Nós, espectadores indefesos, ao entrarmos neste conceito, passámos a funcionar como os turistas, estávamos a ver o que acontecia a máquinas programadas, e não tínhamos a mesma sensação de horror pela violência que lhes caía em cima. A nudez dos robôs nunca foi erotismo, mas vulnerabilidade. Na prática, os autores da série conseguiram manipular os espectadores criando um efeito de desumanização dos robôs, que do nosso ponto de vista formam um grupo separado, cuja rebelião, porventura justa, tem os limites da manipulação da realidade que lhes é imposta. Por este mecanismo, que já transformou pessoas cultas em nazis homicidas, aderimos facilmente à falta de compaixão que os turistas demonstram. A morte de personagens-pessoas, nesta série, perturbou-nos sempre mais do que a morte (ridícula, grotesca ou gratuita) das personagens-máquinas. Não haja dúvida: estivemos do lado das pessoas, apesar da ganância e maldade que estas manifestaram.

Para onde irá a segunda temporada? Aparentemente (tal como acontecia no filme original) há outros parques temáticos. As máquinas estão a evoluir e tornam-se progressivamente conscientes; vamos talvez estar mais do seu lado, mas os deuses (que somos nós) continuarão a dominar o mundo deles; tudo o que vimos é provavelmente engano, como aconteceu na genial cena pirosa da morte de Dolores, a máquina que resume a ideia da busca da beleza e da liberdade que define o humano, a robô que possui a centelha da consciência e da vida e que, segundo parece, vai liderar a rebelião. Enfim, seremos turistas neste explosivo e contraditório Westworld, que não é um mundo a preto e branco, daqueles que a televisão nos deu até hoje, onde a gente sabia exactamente onde arrumar o bem e o mal.

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Música recente (50)

por José António Abreu, em 06.12.16

 Jenny Hval, álbum Blood Bitch.

 Eu sei, estamos em tempo de Natal, de músicas expansivas, com sininhos e mensagens de optimismo... Mais ou menos isto, creio. (Não estou a ironizar assim tanto: há imensa beleza e algum optimismo nos sons densos e nas letras carregadas de sangue, sexo e solidão que a norueguesa Hval incluiu neste trabalho. Assim de repente, Period Piece pode até ser o único tema alguma vez escrito no qual uma mulher admite encontrar conforto no espéculo do ginecologista: Some people find it painful / But all I feel is connected. OK.)

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Dez livros para comprar no Natal

por Pedro Correia, em 06.12.16

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Livro seis: Cartas por um Sonho, de Ángeles Doñate

Tradução de São Amaral

Edição Suma de Letras, 2016

372 páginas

 

A morte do romance, tal como prenunciaram os cultores do nouveau roman no seu labiríntico processo de “desconstrução da narrativa ficcional”, era manifestamente exagerada. Meio século depois, o romance como género literário está bem e recomenda-se – e contagia até outros formatos, incluindo as séries televisivas de qualidade, onde as regras da narrativa clássica são assumidas sem sombra de constrangimento.

As modas literárias nascem e morrem, mas não se apaga na espécie humana o gosto de contar uma história – tenha os saltos cronológicos que tiver, recorra a sofisticados jogos metafóricos ou a vocabulário da rua, utilize a primeira pessoa do singular ou o plural majestático, seja narrada de trás para diante ou da frente para trás.

Prender a atenção de um vasto número de leitores com uma narrativa de alcance universal é um dom revelado pela escritora catalã Ángeles Doñate neste seu romance de estreia a solo, surgido originalmente em 2015, sob o título El invierno que tomamos cartas en el asunto. Cultora da ficção epistolar, de que dá tão recomendáveis provas nesta obra, a autora constrói um enredo para todas as idades, capaz de dar um bom filme em qualquer idioma.

Eis o ponto de partida: para que serve um carteiro num mundo onde já ninguém redige cartas à moda antiga e a tecnologia digital condenou à extinção o gosto pela escrita manual? Sara, a carteira de uma aldeia de montanha chamada Porvenir, prepara-se para ser transferida da povoação: o posto do correio inaugurado há mais de um século será extinto por falta de utentes. Nasce aí um surpreendente movimento de solidariedade, que mobilizará as pessoas mais diversas – e, sem nenhuma delas suspeitar, várias vidas mudarão dessa forma. Porque “quando alguém escreve uma carta, entrega parte do seu tempo e da sua alma”.

Êxito editorial em Espanha, já traduzida para vários países, esta obra confirma que o romance atravessa um período de inegável fulgor, contrariando as velhas previsões dos seus supostos coveiros. Assim continuará. Como se o tempo ficasse suspenso e todos os sonhos se tornassem possíveis face ao sortilégio da letra impressa.

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Surpreendente mundo este!

por Helena Sacadura Cabral, em 05.12.16
A política na Europa tornou-se imprevisível. Espanha, Áustria, Inglaterra, Itália e em breve a  França deram cabo de todas as sondagens feitas para eventos políticos eleitorais. O que mostra uma de duas: ou as agências não percebem nada do que fazem, ou a realidade ultrapassa, em muito, as bases em que aquelas assentam. De facto, o desacerto tem sido excessivo.

Parando um pouco para olhar o mundo, vemos que a América não vai melhor e o Oriente é um potencial foco de infecção. Isto para não falar já das complicações de Moçambique, do anúncio  da retirada de José Eduardo dos Santos em Angola, do Brasil ou de Cuba.

Levámos oito dias a acompanhar a subida aos céus de Fidel de Castro, com votos de louvor na Assembleia da Republica, cujos deputados, dada a sua tenra idade, não devem perceber bem que Fidel teria todo o direito a estas homenagens se tem morrido em 1959. Mas como faleceu em 2016, nem sei como as classificar... É este o surpreendente mundo novo em que vivemos!

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Do princípio ao fim (29)

por José António Abreu, em 05.12.16

(O Pedro Correia encerrou oficialmente esta série há pouco mais de uma semana. Não desejo reabri-la, mas não tive coragem para apagar este texto, alinhavado em meados de Novembro.)

 

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Saio dos melhores livros de Virginia Woolf com uma sensação de plenitude. Não recordo uma história, mas sei que o livro fez sentido. Cada frase, cada parágrafo, contribuiu para uma imagem global – e, neste caso, o termo «imagem» não é aleatório – que nenhuma sinopse tem o poder de encapsular. As melhores páginas de Virginia Woolf têm a lógica de uma melodia ou - cá vamos novamente - de uma pintura. Isto não acontece por acaso: Woolf deixou apontamentos que mostram a intencionalidade do efeito. Em The Waves (um livro difícil), a estrutura esforça-se por replicar os padrões do pensamento humano. Em Mrs. Dalloway e, acima de tudo, em To the Lighthouse (Rumo ao Farol), a intenção é mesmo replicar o efeito de uma pintura, na qual os detalhes podem revelar génio bastante para que se pare a analisá-los, mas onde acima de tudo interessa a sensação geral, frequentemente obtida aumentando a distância em relação à tela, num efeito similar a tantos acontecimentos na vida humana. A intenção é tão explícita que Lucie Briscoe, uma das personagens, vai realmente pintando um quadro enquanto observa o que se passa. No parágrafo final, termina-o. Encontrou uma imagem que, podendo não ter interesse nem fazer sentido para qualquer outra pessoa (ou até mesmo para ela, noutro instante), podendo transmitir uma mensagem difícil de aceitar (a da inutilidade da vida, por exemplo), fecha algo; permite um momento de compreensão. E não apenas todos os bons finais são momentos de compreensão como momentos de compreensão são tudo o que se pode desejar de uma pintura, de um livro, da vida.

 

Quickly, as if she were recalled by something over there, she turned to her canvas. There it was - her picture. Yes, with all its greens and blues, its lines running up and across, its attempt at something. It would be hung in the attics, she thought; it would be destroyed. But what did that matter?, she asked herself, taking up her brush again. She looked at the steps; they were empty; she looked at her canvas; it was blurred. With a sudden intensity, as if she saw clear for a second, she draw a line there, in the centre. It was done; it was finished. Yes, she thought, laying down her brush in extreme fatigue, I have had my vision.

(Lamento, mas não tenho uma versão em português.)

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Palavras para recordar (7)

por Pedro Correia, em 05.12.16

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BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS

20 de Janeiro de 2009

«Acho que em Cuba a democracia radical, contra-hegemónica, não liberal, é a condição de tudo o resto. E por que razão? A crise da democracia liberal é hoje mais evidente do que nunca.»

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Em quase 60 anos, é a primeira vez que o regime lhes permite ir à urna.

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Dez livros para comprar no Natal

por Pedro Correia, em 05.12.16

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Livro cinco: A Vida e a Morte dos Nossos Bancos, de Helena Garrido

Edição Contraponto, 2016

215 páginas

 

Este livro cumpre uma missão de serviço público. Num tom sereno e reflectido mas sempre acutilante, a jornalista Helena Garrido descreve a sucessão de lamentáveis episódios que fizeram tremer o sistema financeiro português, levando à queda do BPN, do BPP, do BES e do Banif, à descapitalização da Caixa Geral de Depósitos e ao esforço acrescido dos contribuintes, através dos impostos, para evitar que o rombo fosse ainda maior. “As responsabilidades financeiras assumidas pelo Estado nos três casos de morte bancária somam 14 mil milhões de euros, quase tanto quanto o Estado recebeu em IVA no ano de 2015”, observa a autora.

Por incompetência, incúria, negligência ou dolo, a banca nacional caucionou durante duas décadas os negócios mais ruinosos – na construção civil, na promoção imobiliária, em empréstimos milionários para aquisição de terrenos, em insustentáveis parcerias público-privadas, nos “grandes projectos estratégicos” que por vezes nem chegaram a sair do papel mas contavam com generosos financiamentos, afinal a fundo perdido. E a banca, por sua vez, alimentava-se de uma ilusória espiral de crédito que durou até o Banco Central Europeu fechar a torneira.

Foram os anos da “grande farra”, como os classifica a autora, ex-directora do Negócios e comentadora assídua de temas económicos em jornais e canais televisivos. Os banqueiros traíram a confiança dos depositantes para praticarem actos inversos ao que deu fama ao Rei Midas, fazendo volatilizar o dinheiro. Em sete anos, desapareceu 20% do sistema bancário português. Só um gestor, José Oliveira e Costa, esteve algum tempo preso. Mais ninguém.

Os exemplos multiplicam-se. Eis um dos mais chocantes: o BES emprestou três mil milhões de euros à sua filial angolana, o BESA, mas quase toda a carteira de crédito sumiu-se: “está perdida, alguém ficou o com o dinheiro, não há a quem reclamar.” No auge da euforia dos projectos turísticos, o próprio Estado, através da Estamo, “comprou a prisão de Pinheiro da Cruz para fazer ali um empreendimento com campo de golfe” que nunca avançou.

A Vida e a Morte dos Nossos Bancos lê-se de um fôlego e com crescente indignação perante este ruinoso panorama, que beneficiou de estreitas cumplicidades do poder político e da chocante complacência do Banco de Portugal, que sob diferentes administrações agiu sempre tarde e quase sempre mal. E nós a pagarmos tudo.

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Eduardo Mendoza

Não queria incomodar nem tem feitio para isso. Só queria escrever uma boa história. Escreveu e fez de Los soldados de Cataluña o seu primeiro livro. Para início de conversa, não esteve nada mal. Começou por incomodar a censura franquista, que lhe impôs uma mudança de título – La verdad sobre el caso Savolta, na versão que chegou aos escaparates e que o celebrizou enquanto escritor. Mas, mais importante, esta boa história inaugurou uma nova etapa na literatura espanhola, sendo consensualmente descrita como a primeira novela da Espanha pós-franquista. Em 1975, aos trinta e poucos anos, Eduardo Mendoza consegue com o seu primeiro livro aborrecer o regime – que descreveu o texto como “estúpido e confuso, escrito sem pés nem cabeça” – e provocar uma ruptura no estilo literário espanhol. Tudo isto para quem apenas queria contar uma boa história.
Os anos sucederam-se e os livros também. A ironia fina e certeira, a sobriedade, e a erudição expressa em linguagem simples tornaram-se a marca distintiva da identidade literária de Eduardo Mendoza. Poucas vezes participou em discussões candentes – a reprodução no El País de um discurso sobre a independência da Catalunha é uma das raras e admiráveis excepções. Ao contrário de outros escritores espanhóis, omnipresentes e ferozes no debate político, Mendoza não quis reclamar o estatuto de intelectual público. O que interessa são as histórias e os livros.
Em 2015, quando se assinalaram os 40 anos de La verdad sobre el caso Savolta, a imprensa espanhola dedicou muitas e boas linhas à revisitação de um livro que, segundo o escritor Javier Marías, é um “marco, uma revelação, um grande êxito, uma novidade distinta, e por isso se diz que, na literatura, marcou o início da democracia e a defunção do Franquismo”. Para António Muñoz Molina, “Mendoza não escrevia para submeter a exame as faculdades intelectuais do leitor, nem para lhe mostrar os seus conhecimentos sobre o nouveu roman francês, ou o monólogo interior ou as obscuridades mais difíceis de William Faulkner; não escrevia para doutrinar politicamente o leitor, nem para jactar-se das suas audácias sintácticas e sexuais. Mendonza, como Marsé, embora com recursos muito diferentes, procura a forma de contar, com a maior eficácia possível, uma história que é muito importante para ele, tão importante que decidiu dedicar-lhe um livro longo e complexo que talvez não chegasse a ser publicado”.

 

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A obra criou uma ruptura e o autor também. Para Muñoz Molina, Eduardo Mendoza é imune à “arrogância despectiva”, à “postura jactante”, à “desqualificação frívola daquilo de que não se gosta”, vícios predominantes na cultura intelectual espanhola da época, inclusive da anti-franquista. Não é hagiografia. Tive oportunidade de conhecer Eduardo Mendoza na última feira do livro de Madrid. Quando soube desta oportunidade, hesitei. Conhecer pessoalmente alguém que admiramos pode facilmente dar azo a uma decepção descomunal. E, por outro lado, o homem mudou o romance espanhol e eu nunca mudei nada digno de registo. Hesitei, mas lá fui. E ainda bem, porque o gigante é de uma simpatia distendida e desarmante. Falámos dos livros dele, claro. Embora, curiosamente, Mendoza tenha falado deles como entidades independentes, com vida própria, nunca usando o pronome possessivo “meus”. As histórias têm que valer por si. Com alguma vergonha, disse-lhe que comecei a lê-lo pelos livros mais recentes, nomeadamente pela série do detective anónimo, razão pela qual ainda não tinha acabado o Caso Savolta, que aliás levava debaixo do braço. Eduardo Mendoza pede-me o exemplar e na dedicatória da praxe (que muito agradeço e estimo) não refere importância literária ou pessoal do livro, ou mesmo que se trata de um livro. É tão simplesmente uma velha história. Juan Cruz tem razão quando escreve que Eduardo Mendoza é um cavalheiro que não alardeia os seus triunfos nem as suas feridas.
Na semana passada, Eduardo Mendoza foi galardoado com o Prémio Cervantes, habitualmente descrito como o Nobel da Literatura para as letras em espanhol. Tenho quase a certeza que, ao receber o prémio, não dirá que é dele ou dos seus livros, mas sim das histórias que pôde contar.

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Bloco, Cuba e "laços de sangue"

por Pedro Correia, em 05.12.16

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Foto: Esquerda.net 

 

Os deputados do Bloco de Esquerda  não aplaudiram nem se levantaram dos assentos, como recomendam as regras do procotocolo e a mais elementar boa educação, no final do discurso do Rei de Espanha - o primeiro Chefe do Estado estrangeiro a comparecer numa sessão solene da Assembleia da República em seis anos. Motivo? "O Bloco de Esquerda mantém a posição de sempre, republicana, e não naturaliza relações de poder com base em relações de sangue e não em actos democráticos", alega um "responsável" bloquista, não identificado, ao jornal Público.

Acho estranho que o Público não identifique o tal "responsável" do BE, como se estivesse em causa a divulgação de um segredo de Estado. E não entendo o significado da expressão "não naturaliza relações de poder": deve ser jargão destes tempos pós-verdade em que vivemos.

Mais estranho ainda é ver os bloquistas subitamente tão alérgicos ao poder com base em "relações de sangue". Vinte e quatro horas antes, o Bloco de Esquerda viabilizara no Parlamento dois votos de pesar pela morte de Fidel Castro, um dos quais apontava o falecido ditador cubano como "referência incontornável para os povos da América Latina".

Acontece que Castro dirigiu Cuba durante 49 anos sem nunca ter sido sufragado por qualquer acto democrático e transmitiu ainda em vida todos os poderes - na chefia do Estado, no comando supremo das forças armadas e na liderança do partido único - ao seu irmão Raúl, general do exército.

Acontece também que o nome mais falado em Havana para suceder a Raúl é o seu filho, Alejandro Castro Espín, o que permitirá à família Castro conservar as rédeas do poder absoluto, iniciado em Janeiro de 1959, quando 90% dos actuais deputados do Bloco ainda nem sequer tinham nascido. Deputados como José Soeiro, que confessou ao jornal El Mundo sentir "muita dificuldade" em prestar homenagem a  "chefes de Estado que nunca foram eleitos". Numa involuntária crítica póstuma ao tirano cujas cinzas por estes dias percorrem vilas e cidades de Cuba.

"Relações de sangue" como fundamento do poder - eis o que sucede em Cuba há quase 58 anos. Espero um dia destes ouvir o BE condenar a monarquia vermelha que detém trono e ceptro em Havana. Mas esperarei sentado, imitando os fatigados parlamentares do Bloco.

 

Adenda: em Março, o BE comportou-se com Marcelo Rebelo de Sousa, na sessão de investidura do Presidente da República, como fez oito meses depois com o Rei de Espanha. O que anula o argumento agora invocado.

 

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Fotografias tiradas por aí (330)

por José António Abreu, em 04.12.16

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Porto, 2001. 

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Blogue da semana

por Alexandre Guerra, em 04.12.16

Confesso que já não me recordo como cheguei a este blogue, Two Weeks Notice, mas já foi há alguns anos e, desde então, vou lá dando uma espreitadela de temos a tempos à procura de mais informação sobre assuntos da América Latina e a sua relação com os Estados Unidos. O seu autor, professor na Universidade da Carolina do Norte, está devidamente credenciado e o mais interessante deste espaço é que se mantém no formato clássico de blogue, sem ter evoluído para uma plataforma mais sofisticada. Percebe-se claramente que estamos perante boa informação, escrita por alguém que está muito atento às questões da América Latina e que tem todo um background académico que só ajuda a credibilizar o conteúdo. 

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