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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 29.12.16

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O Tempo dos Assassinos, de Henry Miller

Tradução de José Miranda Justo

Ensaio sobre Rimbaud

(edição Antígona, 2016)

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Feliz Ano Novo

por Helena Sacadura Cabral, em 28.12.16

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A todos os que pacientemente me leram durante o ano que agora finda, eu desejo que 2017 traga a cada um a sua dose de felicidade!

 

Tudo na mesma

por Patrícia Reis, em 28.12.16

O jornal Público só encontrou os cronistas do costume para dizerem de sua justiça sobre 2017 e colocou as fotografias dos senhores na primeira página. Não existem mulheres dignas desse nome? Parece que não. É certo que os tempos são outros, que temos mulheres ministras, procuradoras, já tivemos uma presidente da assembleia da república, mas ainda são excepções. Compõem o quadro, é tudo. As mulheres em Portugal - e no mundo - não são tratadas com sentido de paridade. Não se discute se temos alma, como na Idade Média; assume-se que não temos nada para dizer e, por isso, as mulheres não são cronistas com honras de primeira página, raramente se eternizam em programas de debate com eixos, círculos e outras figuras geométricas. Também é preciso dizer que quando se pensa que uma mulher que atinge um determinado cargo irá lutar para uma maior visibilidade das mulheres, o efeito é o contrário, para não melindrar, para não serem acusadas de mulherzinhas. Ou pior, de feministas. Conclusão? Tudo na mesma. Nem mesmo as mulheres que conseguem ter poder escapam à misoginia.

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PAC - Processo de Avacalhamento em Curso

por Rui Rocha, em 28.12.16

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Já li o livro e vi o filme (165)

por Pedro Correia, em 28.12.16

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 BUDAPESTE (2003)

Autor: Chico Buarque

Realizador: Walter Carvalho (2009)

A original novela sobre um escritor-fantasma redundou num filme pretensioso e maçador - parte falado em português do Brasil, parte falado em húngaro, "única língua que o diabo respeita". No elenco surgem Ivo Canelas, com sotaque carioca, e Nicolau Breyner só a falar francês. Chico Buarque aparece numa cena, em húngaro. 

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Havia em Constantinopla, hoje Istambul, uma grande estátua equestre que representava o imperador Justiniano segurando um orbe com uma das mãos e levantando a outra na direcção do Leste. Os bizantinos acreditavam que a mão tinha o poder mágico de fazer parar exércitos e que o Império não cairia enquanto a bolinha se mantivesse no seu lugar.


A verdade é que ela tombava com frequência, tanta que as pessoas evitavam passar-lhe por baixo, mas depressa voltavam a colocá-la no sítio e calceteiros disfarçavam a depressão no pavimento com bonitos mosaicos de padrões em trompe l'oeil.

 

No ano da desgraça de 1453, o otomano Maomé II fendeu as muralhas de Constantinopla, quero dizer: não ele, claro, mas os projécteis de um canhão mastodôntico inventado por um húngaro a quem os bizantinos não haviam podido pagar e que, em vista disso, se passara para o lado muçulmano. Constantino XI morreu defendendo as pedras da brecha por onde a cidade foi tomada, mas havia já quem dissesse que ele voltaria pela mão do anjo que o tirara da batalha e o levara para uma gruta sob a cidade, onde o adormecera e enfaixara da cabeça aos pés porque achava que essa era a coisa certa a fazer e estava com tempo.

 

Tal especulação não era agradável aos ouvidos do conquistador, o cujo de imediato exigiu a presença da imperial cabeça senão. Os seus homens encontraram o corpo de Constantino, que reconheceram pelas meias púrpura com pequenas águias bordadas, mas a cabeça havia sido cortada, como aliás as de praticamente todos os defensores; cada época seus costumes. Não houve remédio senão retirar do monte de cabeças ensanguentadas aquela que aos turcos pareceu melhor se adaptar à figura do imperador.

 

Mantido na ignorância de tais dificuldades, Maomé II ordenou que a cabeça fosse dependurada da mão com que a estátua de Justiniano mandava parar o Oriente. Isso mostraria aos bizantinos que as histórias sobre o regresso do seu imperador “não tinham pés, apenas cabeça”, e todos ririam muito e achariam que ele era engraçado.

 

Mas os habitantes de Constantinopla, olhando a estátua, diziam uns para os outros baixinho:

 

“Hahahaha, eu conheço o Constantino e aquela não é a cabeça dele.”

 

Isso reforçou a crença na lenda do imperador adormecido; e começaram a circular pela cidade desenhos perturbadores representando um homem enfaixado guardado por um anjo.

 

Muitos anos durou a crença. Até que, no século XIX, um navio inglês vindo do Egipto aportou à cidade carregando antiguidades várias, entre as quais uma múmia a que as autoridades turcas deram de imediato ordem de prisão, pois julgaram ver nela a figura do imperador; e acusaram os ingleses de pretenderem restaurar Constantino XI no trono do Império Romano do Oriente.

 

Então cortaram a múmia em pedaços, e hoje poucos são os que acreditam que o imperador vai regressar, pelo menos em boas condições.

 

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Nota bene: este texto é de 2008 - mas não quis deixar de recapitular nestes dias em que todos, uns mais, outros menos, recapitulam.

Diz-me como decides

por Rui Rocha, em 28.12.16

Insistir na comparação entre as condutas de Santos Silva e de João Soares para avaliar qual foi a mais grave é perder o essencial. O critério fundamental é o de António Costa. E para este nunca esteve em causa decidir em função do desvalor de ambos os actos. Pelo contrário, Costa guiou-se nestes casos, guia-se sempre, pelo critério da oportunidade. Com João Soares a circunstância deu-lhe a oportunidade para se desfazer de um ministro que lhe era incómodo. É por isso que as desculpas de João Soares nunca serviriam e as desculpas de Santos Silva são obrigatórias para que possa prosseguir. Mais do que avaliar João Soares e Santos Silva pelos seus actos, este episódio permite uma vez mais avaliar Costa pelas suas decisões.

Imaginemos uma fila para aquisição de bilhetes para um espectáculo muito concorrido e com os ingressos prestes a esgotar. Um idoso ou um portador de deficiência passa à frente de quem chegou primeiro?

Obviamente.

(...)

Porque é que o Governo entendeu legislar sobre esta matéria? Haverá uma generalizada falta de bom senso entre os portugueses? Porquê legislar e ter força de lei aquilo que por muitos é visto como bom senso?

A razão é exactamente essa. Esta é uma situação que é vista como bom senso e o bom senso como se costuma dizer é algo como o oxigénio ou o ar que respiramos: só sentimos a falta dele quando de facto não está lá.

Entrevista da Renascença à Secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência. 

 

Houve um tempo em que a esquerda afirmava acreditar na bondade humana; hoje, prefere desconfiar, controlar e punir. Bom senso seria legislar sobre o essencial e deixar em paz tudo o resto. Mas não apenas organismos públicos diversos e secretarias de Estado para a «Inclusão» têm de justificar a sua duvidosa razão de ser como o Estado vive da imposição e do controlo de regras. Quanto mais existirem, mais Estado pode existir.

Repare-se que a lógica da secretária de Estado é extensível a quase tudo. O bom senso também recomenda que não se ande pelas ruas em fato de banho durante o Inverno, que não se vá engripado a locais onde esteja muita gente, que se ajudem indivíduos à procura da rua x ou da praça y, que se modere o humor diante de desconhecidos, que não se ingiram (e que não se disponibilizem) produtos com elevados teores de açúcar, gordura ou álcool. Mas será necessário legislar sobre estes assuntos?

Os defensores da hemorragia legislativa acreditam que ela torna a sociedade mais justa e solidária. Na verdade, é mais provável que contribua para o aumento do nível de acrimónia. Em primeiro lugar, o excesso de legislação faz com que as pessoas sintam, justa ou injustamente, que os outros estão mais protegidos do que elas: há legislação conferindo privilégios a tantos grupos específicos e até a animais; que legislação se preocupa comigo? Em segundo, leva-as a sentirem-se menorizadas: ao Estado não basta informá-las de que determinado comportamento é preferível a outro; força-as a ele, plasmando-o em lei (a qual, reconheça-se - até um Estado gargantuesco tem limites -, fica muitas vezes por aplicar). Finalmente, converte gestos de boa vontade em imposições - e enquanto ceder voluntariamente o lugar numa fila gera satisfação, ser obrigado a fazê-lo dá azo a reservas e desconfianças. Não pode ser coincidência que, nas sociedades ocidentais, a leis cada mais «perfeitas» pareçam corresponder níveis de individualismo e de falta de cortesia cada vez mais elevados. Num ambiente em que todos os comportamentos se encontram legislados, a única liberdade reside no egoísmo.

É desta forma que, perante o aplauso de muitos e o silêncio indiferente, ignorante ou cobarde de muitos mais, o politicamente correcto se vai transformando em ditadura. Proíbem-se actos, proíbem-se palavras e, quando for possível ler pensamentos, proibir-se-ão todos os considerados impróprios. Sempre em nome de magníficos princípios, numa sociedade cada vez mais crispada.

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 28.12.16

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Timor - Labirinto da Descolonização, de Paulo Pires

Testemunho histórico

(edição Colibri, 2013)

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Por terras khmers (2)

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.12.16

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O aeroporto de Siem Reap fica relativamente perto da cidade. Em vez de um táxi tinha um simpático e rechonchudo motorista local à minha espera, disponibilizado pelo primeiro hotel onde fiquei, que logo tratou de acomodar a escassa bagagem que trazíamos no tuk-tuk que nos iria transportar. Foi este o primeiro contacto com o mais popular meio de transporte daquelas terras. Táxis, daqueles que conhecemos, não vi um único e desconheço se a Uber já se aventurou por tais paragens, apesar de também ter andado em jipes da Lexus.

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A cidade é pequena e só começou a desenvolver-se quando se tornou conhecida depois da descoberta de Angkor Wat. Ao tempo sob domínio francês, consta que terá recebido os primeiros turistas a partir do início do século XX. O Grand Hotel d´Angkor abriu as suas portas em 1932. Hoje tem à volta de 200.000 habitantes, de acordo com o último censo (2008), mas os que chegam para visitar a região são cada vez mais. O maior fluxo chega da China, que à sua conta representa cerca de 80% dos visitantes, mas também os há do Japão, da Coreia do Sul, do subcontinente indiano, australianos, estado-unidenses e europeus, em especial franceses e ingleses.

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Aqui apercebi-me do primeiro grande problema do país: o pó. O pó está em todo o lado e o ideal quando se circula de tuk-tuk, entre milhares de outros veículos idênticos, autocarros de excursionistas, camiões velhos e automóveis que largam enormes nuvens negras, é ir prevenido com uma máscara para a boca e nariz ou um lenço que nos proteja as vias respiratórias. Os tradicionais lenços khmer, em algodão, são baratos e custam entre 3 e 6 USD, dependendo do tamanho, o que é ridículo face à sua qualidade. O dólar tem curso legal, dentro ou fora das cidades. É normal só haver preços em dólares e o câmbio informal em qualquer lado é de 40.000 Riéis para 1 USD, o que me levou a arrepender-me de ter trocado alguns dólares no balcão de câmbios do aeroporto a 38.000. 

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A oferta hoteleira e culinária é vasta. Não faltam hotéis acolhedores das cadeias internacionais, alguns depositários da escola colonial, e pequenos locais de muito bom nível, com pessoal qualificado, afável e de uma educação extrema em quaisquer circunstâncias, a preços muitos razoáveis para a qualidade do serviço. Eu prefiro hotéis calmos e sossegados, sem a confusão dos excursionistas. Em Siem Reap e Phnom Penh há imensos. Os hotéis-boutique estão na moda. Aqui, onde iniciei a minha jornada, são quase todos “D´Angkor” ou de “Indochine”, ou as duas coisas, para todas as bolsas e com diferentes níveis de sofisticação, mas convém ter cuidado porque por vezes o nome ilude uma espelunca a 20 ou 25 USD ou um hostel entre os 5 os 10 USD para aqueles que não se importam de viajar sem tomar banho e convivem sem pruridos com a abundante fauna rastejante, roedora e voadora. Sinais, aliás, de outro gravíssimo, e de mais difícil solução, problema nacional: o tratamento dos lixos. Jazendo a céu aberto, sem contentores, por vezes dentro de sacos plásticos largados à beira dos passeios, sujeitos à fúria da cachorrada e dos desgraçados que remexem o seu interior, na maioria dos casos atirado para a beira dos passeios, das estradas ou dos cursos de água ou, nesta altura do ano, os leitos secos dos ribeiros, assume contornos assustadores, o que explica epidemias, doenças e o cheiro nauseabundo de que quando em vez nos assole.

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O assunto não é tabu, mas o convívio de diferentes tradições culturais e heranças religiosas naquela zona de cruzamento ente o hinduísmo e o budismo, onde a cristandade sempre teve dificuldade em se afirmar, não se afigura fácil. Talvez isso também explique a inexistência de discussões, de vozes alteradas, gritos, gestos obscenos ou empurrões, em cidades onde o trânsito é caótico, a confusão imensa, não raro com vacas e cães que circulam pachorrentamente pelo meio da via, mas que apesar disso flui, e onde se vêem piscas-piscas, braços esticados e raramente se ouvem buzinas. As que se ouvem não são de protesto, tratando apenas de saudar ou avisar quem circula que convém manter o rumo e o ritmo para não haver uma desgraça. 

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Normalmente, onde há especiarias é possível comer bem. O Cambodja não foge à regra e é possível aliar a tradicional culinária khmer, o saborosíssimo peixe amok no coco, sem pele nem espinhas, os caris vermelhos e verdes, o camarão, o coco, os lagostins, as perninhas de rã ou as vieiras com a excelência da herança culinária francesa, as influências vietnamita, chinesa, indiana e tailandesa com os sabores tradicionais, onde pontifica o incontornável travo de “lemon grass”, a erva aromática que produz um óleo deliciosamente perfumado a limão que é de utilização obrigatória em muitas cozinhas asiáticas. Aqui é especialmente saborosa e o seu uso, como noutros locais onde estive, vai muito para além da culinária, sendo frequente o seu aproveitamento em saboaria e cosméticos, chás, bebidas refrescantes, produtos medicinais e como óleo para alguns tipos de massagens, já que a massagem tradicional khmer é a seco.

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Não há nada de mais confortável do que entrar numa casa recuperada, com a velha arquitectura colonial, ou com as linhas simples e modernas de algumas das novas construções, num spa ou casa de massagens, num quarto limpo, decorado de forma simples, impregnado com a luz e as cores do fim de tarde, de onde se liberta o refrescante aroma a “lemon grass”. Uma bênção para os sentidos depois de um dia de tuk-tuk, subindo e descendo as escadarias de templos, percorrendo museus vivos e palácios com a roupa colada ao corpo, observando a vida nos fascinantes mercados onde é possível tudo comprar e obter, de objectos de prata a peças para motas, de sedas a pedras semi-preciosas, lado a lado com os vernizes para as unhas, as estatuetas de cobre ou as fardas escolares, antes de um bom banho ou de umas braçadas retemperadoras numa qualquer piscina escondida num jardim interior disfarçado pela abundante vegetação que os cerca. 

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Na maioria dos locais onde merendei ou jantei vi muitas cozinhas abertas e asseadas, mesas limpas, toalhas de pano e jogos americanos sem manchas. Mesmo em restaurantes de estrada, onde a comida ficava a desejar, como num que é habitual parar para quem vai por estrada para Phnom Penh e cujo nome “Banyan Tree” homenageia a frondosa árvore da frontaria e não pretende confundir-se com a afamada cadeia de hotéis de luxo, não se vê louça lascada ou há talheres encardidos como é habitual encontrar em muitos dos nossos tascos com pretensões a restaurantes finos. Em Siem Reap há várias casas que se recomendam. Para além do F.C.C., o famoso clube dos correspondentes estrangeiros, também com aposentos para viajantes, elogiado pelo The Guardian e por onde passaram tantos escritores, jornalistas e simples curiosos, de que falarei noutra altura e que não se confunde com o seu homólogo da capital, gostei do Embassy, em King´s Road, perto do Hard Rock, numa casa só de mulheres, com uma Chef oriunda da escola do Sofitel e com experiência anterior em Singapura, que tem um excelente menu de degustação, onde sem qualquer rebuço me substituíram o pato que aparecia lá pelo meio pela carne decente de um animal sem penas. 

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Em lugares onde o Sol nasce muito cedo é também natural que tudo termine mais cedo. É por isso normal que se jante mais cedo, por volta das 20:00, e a vida nocturna também antecipe os seus períodos de abertura e termo, o que é gratificante para quem gostando de dias intensos não dispensa estar sentado numa esplanada acolhedora, ouvir um pouco de música entre dois dedos de conversa com outros viajantes, trocando experiências e conhecimentos na língua que se proporcionar.

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Ligação directa

por Pedro Correia, em 28.12.16

Ao Presépio com Vista para o Canal.

Palavras para recordar (10)

por Pedro Correia, em 27.12.16

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CLARA FERREIRA ALVES

Expresso, 30 de Junho de 2007

«A Baixa de Lisboa é, em 2007, um cadáver. E um cadáver que afecta as áreas vizinhas, mesmo as que tentam resistir, como o Chiado e o Príncipe Real. Não é possível num dia de Junho de uma cidade "mediterrânica" como esta, quando se comemora o Santo António, que a data seja entendida não como uma oportunidade de negócio pelos lojistas e donos de restaurantes, e sim como um período de férias. A falta de sentido prático dos portugueses é lendária. Em toda a Baixa não se encontrava, naquele santo dia, mais do que meia dúzia de restaurantes abertos onde turistas melancólicos debicavam grelhados e imperiais. No dia em que a cidade devia estar mais cheia de gente e em festa, o ambiente era de funeral. A Rua Augusta era um estudo sobre a depressão urbana. O Terreiro do Paço parecia, como sempre, um estaleiro.»

Música recente (56)

por José António Abreu, em 27.12.16

 Carla Dal Forno, álbum You Know What It's Like.

Texturas sombrias e roufenhas onde a voz procura um lugar.

Imagino a tensão do Sócrates quando chegarmos à véspera do 1º de Abril.

Começo a pensar que sou antigo

por Pedro Correia, em 27.12.16

Quando comecei a desenvolver os neurónios, toda a gente chamava cozinheiros aos cozinheiros. Com alguma lógica, convenhamos.

Depois houve quem passasse a chamar-lhes chefes. Hoje intitulam-se chefs, à francesa.

Sou um bota-de-elástico. Continuo a chamar-lhes cozinheiros.

Portugal, 25 de Dezembro de 2016

por Rui Rocha, em 27.12.16

António Costa dirige-se ao país num jardim-de-infância. Marcelo Rebelo de Sousa lamenta a morte da pop star George Michael em mensagem publicada no site da Presidência. A 2ª figura do Estado é Eduardo Ferro Rodrigues.

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 27.12.16

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Benoni, de Alexandre Andrade

Romance

(edição Relógio d' Água, 2016)

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Por terras khmers (1)

por Sérgio de Almeida Correia, em 27.12.16

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A primeira sensação foi de estranheza. Ali, tão longe, enquanto aguardava pela pouca bagagem que normalmente transporto em viagem, as imagens que tinha diante dos meus olhos eram do Aeroporto Humberto Delgado, da velha Portela, em Lisboa. Imagens de rostos e paisagens familiares, de aviões da TAP na descolagem e de intermináveis e desesperantes tapetes rolantes carregados de malas maltratadas e viradas ao contrário. Rapidamente percebi que se tratava de um filme promocional dos actuais concessionários do aeroporto onde acabava de chegar. Os mesmos que gerem Lisboa. Coincidência, claro, nem por isso menos estranha naquele momento. Mas era o que eu via e disso não podia fugir.

Há uma frase de Proust que faz parte do 5.º volume de À La Recherche du Temps Perdu, publicado a título póstumo, que é muito conhecida entre os amantes de viagens e que reza o seguinte: “Le seul véritable voyage, (…), ce ne serait pas d’aller vers de nouveaux paysages, mais d’avoir d’autres yeux, de voir l’univers avec les yeux d’un autre, de cent autres, de voir les cent univers que chacun d’eux voit, que chacun d’eux est (…)”. Nunca como este Natal essa citação foi tão apropriada. Ver com outros olhos. 

O falecimento em Julho passado de Sydney Schanberg, mais um no imenso rol de gente que desapareceu e de catástrofes que marcaram o ano que se prepara para sair, despertara-me a vontade de empreender uma viagem que me ajudasse a compreender um pouco melhor a história e a cultura de um povo marcado, em especial nos anos mais próximos, por regimes opressivos, instabilidade política, conflitos armados e um interminável sofrimento. O impacto que o filme de Roland Joffé rodara sobre a amizade entre o falecido Dith Pranh e Sydney Schanberg, o repórter do New York Times que cobriu em 1975 a queda de Phnom Penh às mãos dos Khmer Rouge, fizera-me pensar, durante muitos anos, na hipótese de um dia conhecer mais de perto aquela que foi a dura realidade vivida por um povo às mãos dos seus próprios filhos.

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Decidi, pois, rumar até ao reino que herdou as tradições do velho império Khmer, outrora estendendo-se desde a Birmânia, actual Myanmar, até ao Vietname, hoje comprimido entre os seus vizinhos (a Tailândia, o Laos e o Vietname) e as águas quentes do golfo da Tailândia. E fi-lo entrando pelo norte do país para depois fazer o percurso em direcção à capital.

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Também há muito que sabia da existência dos templos de Angkor e foi exactamente por aí que comecei, partindo de Siem Reap à sua descoberta, aproveitando a estação seca e as temperaturas mais amenas desta altura do ano.

Não se descreve nalgumas linhas a sensação de esmagamento que causa ao viajante a apreensão da imponência, grau de desenvolvimento e arrojo estético da civilização que floresceu entre os séculos VIII e XIII naqueles terras férteis e ricas em minerais irrigadas pelo Mekong. O que a vista alcança perde-se na imensidão do trabalho esculpido na pedra. Nos detalhes de um tempo cuja engenharia atravessou séculos, praticamente incólume, na forma como se encaixam as pedras que sustentam as abóbadas, nos quilómetros de frescos que recriam lendas, crenças e mitos, batalhas históricas, que se perdem na arenga de guias que aprendem português pela Internet em quatro meses e se fazem entender na perfeição depois de correrem o seu cardápio de idiomas ocidentais enquanto tentam oferecer os respectivos préstimos a quem chega. Sempre sorrindo, com bons modos, educadamente.

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Sem a confusão de outros locais, podendo livremente deslocar-me por entre paredes e corredores, saltando de um local para outro, percorrendo a pé extensas zonas de floresta, perdendo-me na frescura do verde e na quietude dos lençóis de água, onde nenúfares, lótus e uma imensidão de outras flores e plantas vai lutando por um espaço à superfície, vendo as horas correrem silenciosas, tão discretas na sua passagem como os séculos, ali tomados pelos frondosos caules, repousando à sombra de copas monstruosas e prisioneiros de raízes maiores e mais poderosas que o aço, impondo-se à pedra e ao lento trabalho de esculpi-la a que tantos se dedicaram.

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Ali estão elas, aquelas árvores que o tempo não parou, senhoras de tudo, desafiando a trindade suprema de Xiva, Vixnu (Vishnu) e Brama, desafiando a serenidade intemporal de Buda, desafiando os homens, dizendo que estão ali. E que ali permanecerão. Guardando o tempo, marcando-o, assistindo à sua erosão na pedra, mostrando a irreversibilidade do domínio da natureza, da nossa sujeição às suas leis, escutando o seu próprio eco, enquanto uma brisa mansa percorre as ramagens mais altas, entrecortada pelo chilrear de alguns pássaros ou a sombra de uma ave de rapina.

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Lá longe, ao fundo, vê-se o fumo elevar-se no ar. Sente-se agora o cheiro intenso do incenso que arde, da lima e do jasmim. As cores fortes do céu, os aromas do fim de tarde. E à minha volta o silêncio. A vida. O silêncio que antecipa a chegada da noite e o nascer do dia. O silêncio que só alguns ouvem, o silêncio que se prolonga e estica o tempo. O silêncio que nos dá luz, que nos retempera e acalma. O silêncio, sim, o silêncio. 

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Ligação directa

por Pedro Correia, em 27.12.16

Ao Adeus, Até ao Meu Regresso.



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