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À atenção da DECO

por Rui Rocha, em 30.11.16

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Histórias de Lisboa (V)

por Isabel Mouzinho, em 30.11.16

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 Senhora do Monte

 

Foi, durante muito tempo, o meu lugar de eleição. Lá do alto, com a cidade a meus pés, olhei-a deslumbrada horas a fio e pude assistir muitas vezes ao cair da noite ou ao nascer do dia, vendo Lisboa a clarear ou a escurecer, transformando-se devagar em sons, cor e movimento, ou em repouso e quietude.

Ali, troquei beijos apaixonados, namorei ao luar, chorei a desilusão de amores breves que acreditara serem eternos, ou procurei refúgio para, em silêncio e solidão, de olhos perdidos no horizonte e pensamentos à solta, tomar decisões sérias, pensar na vida, sonhar.

Na verdade, há neste ponto alto do bairro da Graça, talvez até o mais alto da cidade, uma magia qualquer que faz dele um lugar meio feérico, quase irreal, suspenso no tempo e no espaço. 

Consta que foi este o local onde D. Afonso Henriques instalou o seu acampamento para conquistar a cidade. Na ermida de Nossa Senhora do Monte, fundada em 1147, dedicada a São Gens, um bispo mártir, encontra-se a cadeira de pedra que lhe terá pertencido e, segundo a lenda, se uma grávida se sentar nela terá um parto sem complicações. Mas, lendas e tradições à parte, é sobretudo a vista que nos seduz, por mais que a conheçamos. E, para mim, o Miradouro da Senhora do Monte será sempre muito mais que a melhor panorâmica de Lisboa. 

Hoje, quando regresso,  - agora que o visito bem menos amiúde -, não encontro já o sossego e o encanto de quando eu tinha vinte anos, pois tornou-se ponto turístico obrigatório, com alarido e euforia em excesso e selfies garantidas. É quase como se aquele "meu" lugar fosse agora do mundo inteiro. E, no entanto, tem ainda qualquer coisa que me toca, me enternece, me enfeitiça, que me faz espantar de tanta beleza, e gostar muito de ser daqui.

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Sem rei nem roque

por Diogo Noivo, em 30.11.16

O Chefe de Estado espanhol, Filipe VI, discursou no parlamento português. No final da intervenção, houve aplausos de todos os deputados, menos na bancada do PCP, onde os parlamentares apenas se levantaram em sinal de respeito institucional. Os comunistas cumpriram o mínimo olímpico. A jogar num campeonato diferente, os deputados do Bloco de Esquerda permaneceram sentados. Nem aplausos nem cortesia. Nada.
A peça da SIC que deu nota deste episódio fala em evolução bloquista. E explicou porquê: por ocasião da visita oficial do anterior monarca espanhol, Juan Carlos I, os bloquistas não apareceram no hemiciclo; desta vez estavam lá. A jornalista da SIC vê nisto uma evolução.
Há dias, Fidel Castro mereceu todos os encómios possíveis por parte do Bloco, que nada disse sobre a sucessão de estilo dinástico entre Fidel e o seu irmão Raúl. Hoje, um Chefe de Estado vinculado a uma constituição democrática, que goza de um respaldo popular muito superior ao da constituição portuguesa, recebeu o tratamento político-institucional que se dá a um ditador. Julgo que a maioria dos democratas verão nisto uma fonte de vergonha alheia e até de algum asco. Mas a SIC vê uma evolução. Parece-me que para os lados de Carnaxide também há gente a limpar os pés às cortinas.

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Já li o livro e vi o filme (161)

por Pedro Correia, em 30.11.16

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O DEFUNTO (1895)

Autor: Eça de Queirós

Realizador: Fernando Garcia (1954)

O conto, publicado num jornal do Rio de Janeiro e reunido em livro só em 1902, decorre na Castela do século XV. A singular adaptação cinematográfica - intitulada O Cerro dos Enforcados, com Artur Semedo - tem hoje apenas interesse histórico.

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Anti-americanismo primário (17)

por Luís Naves, em 30.11.16

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Conhecer D. Afonso Henriques.

por Luís Menezes Leitão, em 30.11.16

 

Leio aqui que "os reis de Espanha, Felipe VI e Letizia, estão em Portugal e foram recebidos com pompa e circunstância pelas altas entidades e pelo povo, em Guimarães, no Porto e em Lisboa. Na Cidade Invicta disputaram selfies com o Presidente da República, e Marcelo Rebelo de Sousa levou-os a conhecer D. Afonso Henriques". Calculo que D. Afonso Henriques, ainda jovial, apesar dos seus 907 anos de idade, actualmente a residir num Lar da Terceira Idade do Porto, se terá manifestado encantado em conhecer tão ilustres personagens. A pensar em retribuir a iniciativa, D. Felipe VI deve ter referido a Marcelo Rebelo de Sousa não ter a certeza se o primeiro Rei de Espanha, D. Pelayo, ainda era vivo, uma vez que já deveria andar pelos 1300 anos de idade, mas prometeu tudo fazer para o encontrar.

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Sem grandes dramas

por Alexandre Guerra, em 30.11.16

A Itália é um país fascinante por diversas razões. Politicamente, sempre foi um laboratório para todo o tipo de experiências. Nos últimos 70 anos teve 63 governos, mas a verdade é que, com mais ou menos instabilidade, a Itália lá vai funcionando no seu estilo muito próprio e ao mesmo tempo sedutor e único. No Domingo, realiza-se um importante referendo sobre várias alterações constitucionais, as mais importantes desde a II GM, entre as quais a diminuição da relevância do Senado naquele sistema político. As sondagens indicam que o primeiro-ministro Matteo Renzi se arrisca a perder a votação, mas mesmo que isso aconteça, acredito que a Itália, com toda a sua classe e arte, olhará para todo este processo sem grandes dramas.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 30.11.16

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Tabacaria, de Álvaro de Campos

Poesia

(reedição Guerra & Paz, 2016)

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O Mundo Às Avessas

por Francisca Prieto, em 30.11.16

Há um par de anos, a Associação Italiana de Pessoas com Síndrome de Down produziu este filme, com jovens de toda a Europa, como resposta a uma carta que tinha recebido de uma futura mãe grávida, a quem tinham diagnosticado Trissomia 21 no feto.

Recentemente, a Alta Autoridade Para a Comunicação Social Francesa proibiu a passagem do filme por considerar que era ofensivo para mulheres que tivessem abortado bebés com Trissomia 21.

Este é talvez o filme mais realista que já vi sobre o assunto. Não doura a pílula, não diz que é fácil. Limita-se a dizer que ter um filho com Trissomia 21 não é o fim do mundo. E que, apesar das dificuldades, podemos hoje esperar que estas pessoas tenham vidas relativamente normais.

Não compreendo como é que num país onde se grita por toda a parte que se é Charlie, se censura um filme que mostra o lado bom da moeda de uma situação que parece a priori tão difícil.

Esta censura amordaça o direito dos jovens com Trissomia 21 de gritarem que são felizes. Diz-lhes que a sua felicidade pode magoar mulheres que tenham abortado pessoas como eles. Manda-os serem deficientes lá no cantinho deles, sem fazer muito estrilho.

Se isto não é o mundo virado ao contrário, vou ali e já venho.

 

 

 

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A revolta do rebanho

por Luís Naves, em 29.11.16

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Um pouco por todo o Ocidente, alastram fenómenos de protesto eleitoral que podíamos definir como ‘voto puta-que-os-pariu’. Em consequência, no prazo de um ano, a Europa será um lugar muito diferente, com novas lideranças na maioria dos países, porventura à excepção da Alemanha, que foi o país que menos sofreu na pele os efeitos da grande recessão de 2008. Na União Europeia, está em curso uma revolução política ou, no mínimo, uma grande transformação nas maquinarias da sociedade.

 

1

Os últimos 30 anos foram marcados pelo triunfo das ideias do liberalismo económico, que transformaram o poder, e pelas utopias forjadas no Maio de 68, que mudaram a cultura. Nos últimos oito anos vivemos a crise final deste ciclo, que foi marcado pela aceleração da globalização e por profundas mudanças no trabalho ou nos meios de comunicação. Os intelectuais excederam-se no duplo critério das suas interpretações da realidade: basta ver como recentemente o regime totalitário de Fidel Castro, que não deixa dúvidas ao mais desatento, foi envolvido no perfume de uma retórica romântica que ignorou a violência do poder e a miséria do povo cubano; nenhum dos que elogiaram os feitos de Fidel acharia tolerável viver mais do que uma semana em Cuba.

Nestes últimos trinta anos, no Ocidente, a educação foi infantilizada, banalizou-se a contestação primária de toda a autoridade, o cristianismo foi ridicularizado, a família perdeu importância e não há carreiras no poder mediático para alguém que conteste a bondade destas ideias.

Liberalismo económico e utopia libertária tiveram o mesmo efeito de fragmentação do poder. Por exemplo, as lideranças moles são hoje preferidas a líderes considerados ‘duros’; o consenso é elogiado, a ruptura criticada. Os mercados financeiros controlam a economia e é considerado normal que organizações supranacionais não-eleitas fiscalizem países inteiros; a palavra pátria desapareceu dos dicionários e a palavra nacionalista é um insulto. As elites intelectuais entretêm-se a fazer comparações absurdas com o tempo do fascismo e comunismo, e pensam hoje que as fronteiras são o maior perigo que existe no mundo contemporâneo. Os proletários vivem como precários, o pleno emprego foi substituído pelo desemprego crónico, as desigualdades aumentaram, há uma nova classe de excluídos, com menos direitos do que os refugiados que desembarcarem amanhã nas nossas costas.

 

2

Muitos eleitores atingidos pela crise foram considerados ignorantes quando resmungaram contra o encerramento das suas fábricas ou quando foram expulsos das suas casas, por não poderem pagar hipotecas a bancos salvos com dinheiro público. Estes eleitores foram classificados como racistas e xenófobos quando acharam que a abertura de fronteiras facilitava a entrada de trabalhadores mais baratos, que competiam com os seus salários. Estes eleitores foram desprezados quando insistiram na defesa dos seus valores e tradições, que mais não eram do que tradições e valores que os seus pais e avós tinham como garantidos. Estes eleitores continuam a ser insultados quando votam nos movimentos ‘puta-que-os-pariu’ e vão continuar a votar em formas de protesto semelhantes, pelo menos enquanto mantiverem o direito de voto e os partidos tradicionais não compreenderem que o seu ressentimento e raiva resultam do vazio provocado pela desvalorização da classe média e a extrema insegurança que têm em relação ao futuro.

As elites trataram o seu ‘povo’ como um rebanho ingénuo que não pode decidir sobre assuntos já validados pelas classes bem-pensantes. E, no entanto, é evidente que as ideias libertárias e liberais não vão desaparecer, embora seja incompreensível que a sociedade não queira discutir racionalmente o sismo social em curso ou os erros que foram cometidos no ciclo político que agora encerra. Os comentadores dizem que vem aí o fim do mundo, que a democracia liberal vai acabar, mas o que seria verdadeiramente calamitoso era que a democracia não conseguisse mudar as lideranças que falharam ou que o sistema político fosse incapaz de reagir às imensas transformações que aconteceram e estão para acontecer nas nossas vidas.

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Anti-americanismo primário (16)

por Luís Naves, em 29.11.16

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Leituras

por Pedro Correia, em 29.11.16

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«Um homem culpado não costuma colocar a corda no seu próprio pescoço

Daphne du MaurierA Pousada da Jamaica (1936), p. 176

Ed. Círculo de Leitores, 1993. Tradução de Eduardo Saló

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Tristes tempos!

por Luís Menezes Leitão, em 29.11.16

Ainda sou do tempo em que na escola primária se ensinava a verdadeira tragédia nacional que foi o desastre de Alcácer-Quibir, que implicou que a Coroa de Portugal viesse a ser herdada dois anos mais tarde por Filipe II de Espanha. Seguiram-se 60 anos de decadência nacional, com Filipe III e Filipe IV, em que o país quase se converteu numa província espanhola. Só escapámos a esse destino graças ao heroísmo dos conjurados do 1º de Dezembro de 1640, que voltaram a colocar no trono um Rei português, D. João IV. Na altura ensinavam-nos na escola que por esse motivo é que celebrávamos o 1º de Dezembro, data da restauração da nossa independência.

 

Passados mais de 370 anos sobre essa data, tive ocasião de assistir à vergonha de ver um primeiro-ministro português decretar a abolição desse feriado. Este ano voltou a ser reinstituído mas, na véspera do mesmo, assiste-se à visita de outro Filipe, desta vez o VI, que pelos vistos a população do Porto entende que deve ser recebido com gritos de "Viva o Rei!", enchendo-se a cidade com bandeiras espanholas, como se estivéssemos em Madrid. Estou convencido de que nem em Barcelona ou em Vigo o Rei de Espanha seria recebido assim. Pelos vistos, há muita gente em Portugal que perdeu de vez, não só o orgulho nacional, como também a própria noção do ridículo. Tristes tempos, na verdade!

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Música recente (48)

por José António Abreu, em 29.11.16

Christian Kjellvander, álbum A Village: Natural Light.

A música do sueco Kjellvander devia ser um segredo menos bem guardado. Leonard Cohen, Mark Lanegan e os Tindersticks andam por aqui.

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Penso rápido (80)

por Pedro Correia, em 29.11.16

As pessoas também são feitas de sentimentos. E devem expressá-los. Quase nunca isso acontece - a não ser tarde de mais.
Mas o caso do Diário de Notícias deve fazer-nos reflectir a todos muito para além dos sentimentos pessoais de cada um. Porque este caso demonstra exemplarmente como bastou decorrer década e meia - menos de uma geração - para se perceber como diminuiu drasticamente a capacidade de mobilização e a influência social dos jornalistas. Reflecte também como a sociedade no seu todo se tornou mais apática, conformista e resignada.
No início do século os que pensavam na vidinha e permaneceram de lado foram a excepção. Políticos, escritores, artistas, jornalistas. Houve mobilização geral para manter o DN na sua sede histórica, construída de raiz para o efeito com projecto de um dos mais célebres arquitectos portugueses de sempre.
Agora tudo aconteceu de forma envergonhada, quase clandestina, quase sem um protesto, quase sem uma palavra de indignação.
Em década e meia passámos a aceitar o inaceitável. Vale a pena voltar a isto, sim. Pelo seu carácter simbólico. E para que se perceba até que ponto regredimos enquanto comunidade solidária e com valores.
Não é pieguice nem choradinho, como alguns alegam. Eu prefiro chamar-lhe lucidez - uma lucidez perplexa e preocupada de quem se interroga onde estaremos daqui a outra década e meia.
E que faz questão de não ter a cabeça enterrada debaixo da areia.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 29.11.16

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Deixar Aleppo, de Manuela Niza Ribeiro

Romance

(edição Althum, 2016)

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Ligação directa

por Pedro Correia, em 29.11.16

Ao Pravda Ilhéu.

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Anti-americanismo primário (15)

por Luís Naves, em 28.11.16

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