Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 28.09.16

1507-1[1].jpg

 

A Rainha Santa, de Isabel Machado

Romance histórico

(Edição A Esfera dos Livros, 2016)

"Por vontade expressa da autora, esta edição não segue as regras do Novo Acordo Ortográfico"

Tags:

Diário semifictício de insignificâncias (15)

por José António Abreu, em 27.09.16

Tenho de escrever sobre o início de um livro e o final de outro. Ando dois dias a pensar no assunto, depois encolho os ombros e tomo uma decisão. O livro com o início, comprado e lido durante a universidade, está a duzentos quilómetros, em casa dos meus pais (tem lógica: os pais são sempre o início). O outro encontra-se aqui, a cerca de dois metros. Quase ouço uma voz dizendo: O final está muito mais próximo do que o início.

Desde há uns tempos, não consigo evitar sentir que há uma força irónica e malévola que aproveita toda e qualquer oportunidade para reforçar o meu pessimismo.

As melhores praias portuguesas (104)

por Pedro Correia, em 27.09.16

salgados albufeira.jpg

 

Salgados (Albufeira)

Do princípio ao fim (5)

por Luís Naves, em 27.09.16

13657082_BnGr8.jpg

 

A obra-prima de Eça de Queirós, O Crime do Padre Amaro, tem um início de aparência banal, mas importante para se imaginar a intriga futura. O livro tem também dois finais, um para encerrar a história, o outro menos conseguido, que pretende ser ideológico. Julgo que não existe na nossa literatura um romance tão devastador e cruel em relação às limitações da alma portuguesa. O livro é brutal nas suas mais minúsculas observações sobre a hipocrisia nacional, a culpa e a inveja. A pequena sociedade de Leiria funciona como microscosmos da pátria. De resto está lá tudo o que persiste, a cobardia e as indignações beatas, a fanfarronice e a vaidade, a ignorância e o provincianismo, a importância da classe social e o poder da intriga.

Amaro é um encantador hipócrita, que se deixa ir na corrente dos acontecimentos, um videirinho ambicioso, manipulador e cobarde, que inventa argumentos para se justificar, acabando por trair a sua amante. Na realidade, não tem qualquer convicção, nem sequer acredita nas coisas religiosas que vai pregando com aborrecimento. Amélia é a vítima, infantil quase até ao fim, cega para a evidência que está à frente dos olhos. A sua ingenuidade é uma tragédia, a sua beleza uma má circunstância (escreve o autor que até a penugem de um ligeiro bigodinho aloirado a torna mais apetecível).

Além das personagens principais, o romance tem uma galeria impressionante de figuras secundárias e até de pequenos esboços menores, entre eles, por exemplo, Libaninho, que julgo ser na literatura portuguesa o primeiro exemplo de homossexual fora do armário: sabemos pelo próprio que “estava a fazer muitas virtudes no quartel de Leiria”, mas apanhado em flagrante delito na companhia de um sargento, acaba recompensado com um lugar de sacristão; o curioso desenlace sugere que em O Crime do Padre Amaro as indignações são selectivas e a intolerância, tão omnipresente neste universo, é um pouco mais flexível do que parece.

A importância das personagens secundárias é vital no texto, pois elas criam um ambiente de sociedade, permitindo a ilusão de movimento, o humor e diversidade da vida, facilitando o fluxo narrativo. O começo do romance, a primeira frase, é exactamente sobre uma personagem secundária e julgo que só há mais uma referência a esse padre falecido, o que nos deixa na total ignorância sobre a sua existência: “Foi no Domingo de Páscoa que se soube em Leiria que o pároco da Sé. José Miguéis, tinha morrido de madrugada com uma apoplexia”. Só ficamos a saber o estritamente necessário, que era um homem dado a fúrias ocasionais e certas contradições de carácter, o que acentua o mistério deste início: parece de uma banalidade extrema, não nos diz nada sobre Amaro ou Amélia, embora se refira à abertura de uma vaga na paróquia. Só no final do romance, quando tentamos imaginar a continuação não escrita, enfim, a história para além do enredo, percebemos a importância do início: a morte de José Miguéis é idêntica à morte de Amaro, a premonição do mesmo fim banal a que ele não poderá escapar, pois todo o resto da sua vida será uma rede de mentiras, também ele terá fúrias ocasionais e acabará morto por uma apoplexia.

 

 

Música recente (30)

por José António Abreu, em 27.09.16

 Daughter, álbum Not to Disappear.

O poder estranhamente animador da melancolia. Ou talvez - porque a música, como as outras artes, é sempre a dois - o poder estranhamento animador da melancolia partilhada.

Broca de esquerda

por Rui Rocha, em 27.09.16

De valor era a Uber mudar o nome para Cannabis só pelo gozo de ver o Bloco a opor-se à legalização.

Uma figura ridícula.

por Luís Menezes Leitão, em 27.09.16

Se há coisa que acho que não deve preocupar um único português é a "discriminação" de que Durão Barroso diz ser alvo pelo tratamento que a Comissão Europeia lhe passou a dar depois de ter ido para a Goldman Sachs. Durão Barroso está habituado a assumir as consequências das decisões de carreira que toma. Ele próprio tem consciência de que o povo português nunca lhe perdoou o ter abandonado o barco do governo para ir para Bruxelas, com as consequências que se sabe e que o país pagou muito caro. Não é de estranhar por isso que na Comissão Europeia também não lhe perdoem mais esta estranha transição.

 

Não é o facto de outros membros da Comissão terem anteriormente estado na Goldman Sachs que justifica alguma vez a atitude de Barroso. A indicação de exemplos de anteriores comissários que também se albergaram na Goldman Sachs só me faz lembrar aquele programa cómico brasileiro, em que quando alguém era criticado por alguma coisa, desatava a berrar: "Mas sou só eu? Cadê os outros?".

 

Mas António Costa, que tem feito tantas malfeitorias nos últimos tempos, resolveu aproveitar este assunto para fazer uma bravata nacionalista, e resolveu pedir esclarecimentos a Juncker "sobre a decisão tomada relativamente ao Dr. Durão Barroso, comparativamente a outros antigos membros da Comissão", uma vez que era "necessário assegurar e garantir que nenhum português é objecto de qualquer tipo de atitude discriminatória". Parece assim que a Comissão Europeia responderia perante o Primeiro-Ministro português e que qualquer funcionário português, desde o varredor das escadas ao ex-Presidente da Comissão, poderia contar com a intervenção marialva do Dr. António Costa para o proteger, se alguma vez se sentisse discriminado.

 

Mas, como não poderia deixar de ser, a Comissão Europeia já respondeu a António Costa que tivesse juízo e que trataria desse assunto directamente com Durão Barroso. Quanto a António Costa, há apenas duas perguntas a fazer: Primeira, ele não tem consciência da figura ridícula que fez? Segunda, não há assuntos na Europa mais preocupantes para o Primeiro-Ministro de Portugal do que o tratamento que a Comissão Europeia decide dar ao seu ex-Presidente?

Séries do ano (2) - Stranger Things

por Diogo Noivo, em 27.09.16

StrangerThings.jpg

 

Stranger Things é um regalo para quem viveu os anos oitenta, até para aqueles que, como eu, começaram a década de fraldas e a cheirar a pó de talco. Está lá tudo o que de bom foi produzido pelo cinema de mistério, de aventura e de terror nessa época gloriosa (um adjectivo que evidentemente não se aplica à moda capilar).

Esta série, produzida pelo Netflix, tem muito de E.T., muito de Os Goonies, bastante de Encontros Imediatos do Terceiro Grau, algo de Explorers e de Stand By Me, um pouco de Alien – O Oitavo Passageiro (que é de 1979, mas não é por um ano que nos vamos aborrecer e excluí-lo da década de 1980), um travo a Firestarter, um cheirinho a Pesadelo em Elm Street e, claro, uns apontamentos de Poltergeist e de The Shining. Julgo ter encontrado também referências a Carrie, mas não farei disso um ponto de honra. Na banda sonora há mais anos 80: muitos sintetizadores e miúdos a descobrir The Clash com as cassetes dos irmãos mais velhos.

O enredo, e sem revelar muito, centra-se em quatro miúdos irrequietos (jovens actores fantásticos), personagens que podiam perfeitamente ter saído de versões alternativas de E.T. ou de Os Goonies. Há também uma menina com capacidades psíquicas invulgares (actriz igualmente notável), muito mistério e acontecimentos paranormais. O monstro, no respeito estrito pela pauta dos filmes de terror dos anos 80, só é visto com nitidez lá para o final. Numa última menção aos personagens da série, Winona Ryder, actriz que nas décadas de 1980 e 1990 interpretava miúdas irreverentes, desempenha agora o papel de mãe de um dos rapazes.

 

O entusiasmo juvenil que Stranger Things suscita nos maduros que viveram os 80 é suficiente para nos distrair do quão batido é o guião da série. De facto, o argumento não é inovador. A série aproveita-se do mercado da nostalgia que capturou muitos trintões e quarentões, cuja proximidade à meia-idade porventura os (nos) torne totalmente complacentes com histórias requentadas, desde que ofereçam um passeio à infância e à adolescência. E aqui encontramos, a meu ver, a chave do sucesso de audiências: Stranger Things é muito competente na recuperação das imagens, dos sons, dos temas e dos golpes de asa do cinema dos anos 80, evitando com distinção o enorme risco de resvalar para o kitsch de uma feira de salvados. Em suma, ver Stranger Things foi um vício irrefreável.

Tal como boa parte dos filmes aos quais presta homenagem, Stranger Things é uma história sobre o fim da inocência, sobre a passagem à idade adulta e sobre os medos que nos acompanham nesse processo. A série acaba como deve ser, com um desenlace que se ocupa dos principais nós da história, e as pontas soltas que ficam são parte imprescindível de um bom guião de mistério. Por essa razão, temo o pior desde que soube que Stranger Things terá uma segunda temporada. Bem sei que a vida custa a ganhar e que a tentação para a explorar uma fórmula com sucesso comprovado é mais do que muita. Mas pode ser a receita para matar uma série com todas as condições para se assumir como referência de culto. Enfim, por ora, é ver a primeira e única temporada disponível e entregar-se nos braços da boa nostalgia.

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 27.09.16

unnamed-1-1[1].jpg

 

Uma Dor Tão Desigual, de Afonso Cruz, Dulce Maria Cardoso, Gonçalo M. Tavares, Joel Neto, Maria Teresa Horta, Nuno Camarneiro, Patrícia Reis e Richard Zimler

Contos

(Edição Teorema, 2016)

Tags:

Ligação directa

por Pedro Correia, em 27.09.16

Ao Fragmagens.

As melhores praias portuguesas (103)

por Pedro Correia, em 26.09.16

Abano Cascais.jpg

 

Abano (Cascais)

Auto promoção

por Helena Sacadura Cabral, em 26.09.16

 


 


Sairá para as livrarias, no próximo dia 4 de Outubro, o meu primeiro livro de Memórias. O subtítulo de "uma vida consentida" tem um duplo significado. Foi a vida que eu consenti e foi, também, creio hoje, uma vida com sentido.

Explico na introdução o que me levou a escrever sobre mim e sobre uma parte importante da minha existência. É que, afinal, foi ela que permitiu que eu me transformasse na mulher que sou hoje e que, com alguma ousadia, confesso, está bem próxima daquela que eu gostaria de ser.

Foram estes anos que determinaram que se operasse em mim uma verdadeira revolução relativamente à mulher que fui há três décadas. São memórias muito vivas das tristezas e alegrias por que passei e das razões que me fizeram escolher o meu caminho, depois de um divórcio que, tendo-me deixado devastada, acabou por ser determinante para a minha percepção daquilo que eu não queria jamais ser.

Quando o Miguel morreu pensei muito na catarse que então poderia ter sido escrevê-lo. Não o fiz, porque não era essa a minha intenção. Quatro anos passados sobre o seu desaparecimento e com o meu outro filho já fora da política, senti que talvez fosse chegada a altura de dar a conhecer aos que me são próximos - filho, netos, irmãos e amigos - o meu olhar, o meu sentir sobre o valor que atribuo àqueles anos. É que, muito possivelmente, qualquer deles, ao ver-me agora, dificilmente admitiria a mudança radical pela qual passei.

Se este livro permitir que uma pessoa compreenda e acredite que sobre os destroços de uma vida que apenas se consentiu se pode construir uma outra, essa sim, consentida e com sentido, eu já me sinto gratificada. 

Não sei se escreverei um outro sobre o que vivi quando já era dona de mim própria. Acredito que talvez venha a fazê-lo, porque os anos que se seguiram tiveram momentos de uma enorme e inesperada felicidade. Será, no fundo, contar a história de uma mulher cuja verdadeira vida se descobre e inicia pelos quarenta anos. E essa história é, felizmente, completamente diferente da que acabo de escrever. Na forma e no conteúdo. Enfim, na vida vivida.

É que, até àquela idade, limitei-me a aprender a viver e a escolher, com algum sacrifício próprio, o que me parecia ser melhor para aqueles que me rodeavam. A partir dela o processo altera-se, e eu escolho não só ditar a minha própria vida como procurar, acima de tudo, ser feliz.  Não tenho de que me queixar porque os anos que desde então vivi superaram em muito os anteriores e, sobretudo os que, por via deles, me poderiam estar naturalmente destinados...

Nota: o livro já se encontra em pré-venda.

Na Wook: 


Na Bertrand: 


Na Fnac:


The Voice

por Rui Rocha, em 26.09.16

Voice 1.jpg 

voice3.jpg

voice2.jpg

voice4.jpg

voice5.jpg 

Falsa partida

por Tiago Mota Saraiva, em 26.09.16

A discussão gerada em torno do alegado novo imposto sobre o património imobiliário não está a correr bem ao governo e à maioria parlamentar. E nem sequer começou mal. 

Na sequência da fuga de informação publicada no “Jornal de Negócios”, José Gomes Ferreira – na sua ânsia de liderar a oposição a partir da televisão – espalhou-se com estrondo ao ensaiar relacionar a classe média com os detentores de património imobiliário com valor patrimonial inscrito superior a 500 mil euros, provando mais uma vez que se o ridículo matasse o comentário político banalizaria o suicídio.

Apesar da escassez de informação sobre o novo imposto tudo corria bem até que o BE resolveu assumir a sua paternidade, atropelando-se com o governo. A fuga de informação, que governo e maioria parlamentar nunca deviam ter confirmado até ao dia de apresentação do orçamento, transformou-se num facto. Abriu-se espaço e tempo para que os detentores de património imobiliário afectado possam tratar de fugir ao imposto deixando perguntas importantes por responder. Porque não se aplica este imposto a acções ou a fundos? Quais as vantagens de reabilitar e melhorar as condições energéticas de imóveis que passem a enquadrar-se neste imposto? Como se protege alugueres de longa duração no caso de senhorios com vasto património agregado que, além do IMI, já estão tributados em 28% sobre o valor da renda?

Tenho vindo a defender que o IMI é dos impostos mais interessantes para promover a redistribuição. Mas este é um imposto complexo e multidimensional que não pode ser deixado exclusivamente ao arbítrio de fiscalistas ou de estratégias de comunicação. Alterações ao IMI têm reflexos no ordenamento do território, nas políticas de habitação ou no meio ambiente. Como salvaguardar a habitação própria permanente que corresponde a um direito fundamental constitucionalmente consagrado?

Temo que esta falsa partida fira de morte um caminho que tem de ser feito. O que hoje se conhece do novo imposto denota insuficiências técnicas que deverão ser corrigidas longe da gritaria instalada.


(publicado hoje no i)

Dizem-me, pessoas entretanto falecidas, que, após leitura deste parágrafo de marialvice, José António Saraiva ter-se-á preocupado por intuir nas entrelinhas uma certa mariquice de elevador pouco digna da direita conservadora. Afinal, porque não se propõe estuprar a doida varrida?

Deve ser do período

por João André, em 26.09.16

Tenho dificuldade em compreender este post da Francisca.

 

Em primeiro lugar é o título. Porquê "as raparigas"? É por serem mulheres? Também se escreve "os rapazes do PS", "os marmanjos do PCP", "os tipos do PSD" ou "os cahopos do CDS"? O sexo faz diferença? Se calhar faz - para muita gente. Não devia. É por serem várias delas mais jovens? Também escrevemos "os velhotes do PS", "os cotas do PSD", "as carcaças do PCP" ou "os idosos do CDS"? A idade faz diferença desde que tenham o suficiente para serem julgadas pelas suas palavras, ideias ou acções?

 

Não, essas são apenas palavras destinadas a distrair das políticas. Já escrevi o meu post sobre o assunto. A ideia de ir às poupanças, coisa que não parece ter sido avançada em lado nenhum, nem é exclusivo do Bloco nem teria nada de especial. Seria uma política tal como aquelas que os governos anteriores praticaram, aqui e em todo o lado. "Ir buscar o dinheiro" não é "roubar", como a Francisca escreve, caso contrário teria que se aceitar que toda e qualquer cobrança de impostos seria roubar. A frase é infeliz? Talvez do ponto de vista da Francisca ou de tantos outros, mas do ponto de vista do Bloco de Esquerda é provavelmente o que queriam expressar. Se já se "foi buscar" dinheiro a tanta gente, porque não "ir buscar" dinheiro aos ricos?

 

A Francisca falou ainda dos "assuntos fracturantes" mas referiu apenas o disparate do "cartão da cidadã" e depois invcou o velho fantasma da "queima dos soutiãs". Haveria ainda o outro disparate da criminalização dos piropos, mas estão-me a faltar mais assuntos que seriam assim tão merecedores «[d]o fim da lista na agenda parlamentar». O resto é essencialmente o ataque à ideia nebulosa de "ir buscar o dinheiro aos ricos". Muitas das pessoas que ela referiu são também aquelas que sofreram (e sofrem ainda) no passado. São também pessoas que pagaram várias vezes (a Francisca esqueceu os impostos indirectos, mas estes normalmente não recaem sobre as empresas, que os passam ao consumidor) e que, depois de tudo isso, ainda levam com mais taxas e retaxas.

 

No fim fica tudo explicado: há que recompensar "essa gente", suponho que se trate dos empresários. Ou talvez os que são ricos (no post da Francisca está subentendido que só os empresários o podem ser). Isto porque são pessoas que «através do seu talento e do seu esforço, contribuiu para o crescimento económico do país», dado que mais ninguém o fez. Como os empresários são como os outros, também existem os incompetentes, abusadores e tacanhos que fizeram o oposto e são largamente responsáveis pelo ridículo estado do tecido empresarial do país.

 

Não: recompensemos os empresários tout court porque são eles que nos vão retirar do nosso buraco. Os outros não trabalham, não são talentosos. Os empresários merecem tudo, talvez até que se acabe com as taxas para eles, pobrezinhos.

 

Mas vou fechar o círculo, indo aos empresários que, entre tudo o que são, bem ou mal sucedidos, talentosos ou incompetentes e que, no seu dia a dia, tratam as mulheres ao seu redor como secretárias, empregadas de limpeza ou "aquela cachopa jeitosa que traz o café". Nalguns casos até as tratam por "raparigas" até terem idade de serem candidatas a Presidente da República ou vão buscar o epíteto de "esganiçadas" atrás de títulos de professor. Eles não são machistas, não confundamos coisas, só que às vezes aquelas raparigas começam a maçar. Deve ser do período.

Contra a devassa da vida alheia

por Pedro Correia, em 26.09.16

43127541-Buco-della-serratura-con-piastra-di-metal

Um dos factos mais notórios do nosso tempo é a crescente desvalorização da reserva da vida privada. A todo o momento milhões de pessoas expõem na Rede imagens e palavras oriundas do seu reduto mais íntimo, colectivizando aquilo que devia ser privado.

Conceitos como recato e pudor parecem ter deixado de fazer sentido na era digital, em nome da “transparência”, conceito controverso quando estão em causa questões sem o menor interesse público e propícias a infames manipulações por parte das multinacionais que operam as chamadas “redes sociais” e de indivíduos sem escrúpulos, prontos a fazer comércio devassando a intimidade alheia.

Um Estado totalitário, munido destas ferramentas, iria hoje muito mais longe do que foram a Alemanha hitleriana ou a Rússia estalinista no aniquilamento cívico de um número incalculável de pessoas.

 

A palavra de ordem, nos dias que correm, é pôr tudo em linha com a rapidez de um relâmpago. Escancarando encontros e desencontros, paixões e ódios, amores e desamores. Contribuindo assim para o drástico recuo do direito à preservação da esfera íntima de cada um.

Como escrevia ontem Yoani Sánchez num artigo de opinião no El País, as gerações mais jovens, sobretudo, “sentem que o tempo da privacidade chegou ao fim”. Dizer não à devassa ficou fora de moda.

“Nas redes sociais, vimo-los superar o acne, livrar-se dos aparelhos dentários, estrear barba e extensões capilares. Estão dispostos a entregar informação pessoal em troca de uma socialização mais intensa. Os filhos fazem parte desta experiência: exibem-nos na Rede, sorridentes, ingénuos, desprovidos de filtros. Dão à luz, amam, protestam e morrem frente a uma webcam. Criam relações baseadas na horizontalidade, em parte porque as redes lhes inculcaram a convicção de que interagem com os seus pares, sem hierarquias”, observa a jornalista cubana.

 

Um perfeito retrato do nosso tempo em que se esbatem fronteiras entre informação rigorosa e mexericos destinados a estimular o voyeurismo mais primário. E no entanto, por mais fora de moda que seja, impõe-se remar contra a maré. Urge lembrar que cada cidadão tem assegurada protecção constitucional à reserva da intimidade da sua vida privada, um direito humano fundamental.

É preciso sublinhar isto todas as vezes que for necessário. Sem desistir.

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 26.09.16

img_400x520$2016_09_15_17_17_36_1051[1].jpg

 

O Espaço Vazio, de Dick Haskins

Policial

(Edição Reverso/Sábado, 2016)

Tags:

As Raparigas do Bloco Começam a Maçar

por Francisca Prieto, em 26.09.16

Tenho muito pouca paciência para discussões políticas estéreis e ainda menos para gente aos berros de mão na anca. Prefiro, de caras, meter a mão na massa.

Aconteceu, no país onde vivo, que um partido fosse eleito, mas que o primeiro ministro viesse a ser o candidato da oposição. Nem sabia que isto era constitucionalmente possível, mas foi. Para possibilitar tal excentricidade, teve de se dar voz a duas favas do bolo rei, que não há meio de pararem de se esganiçar e que já começam a dar cabo dos nervos a quem quer trabalhar tranquilamente.

O primeiro assunto fracturante sobre o qual se debruçaram foi a questão do cartão de cidadã. Num país onde não se sabe por que ponta se há-de pegar, parece-me que o tema da queima dos soutiãs pode perfeitamente passar para o fim da lista na agenda parlamentar. Digo eu, que por acaso até sou mulher.

Depois, tivemos de gramar com a declaração bombástica de que o voluntariado era uma treta. Não existem dúvidas de que qualquer cidadão deve ter direito ao trabalho. Faz parte da dignidade humana e é essencial para a estabilidade das famílias. Mas misturar o direito ao trabalho com aquilo que as pessoas escolhem fazer nas horas vagas, é misturar alhos com bugalhos. Ser voluntário não é treta nenhuma. É usar tempo livre em benefício da comunidade. Há quem escolha ir ao Benfica, há quem prefira alimentar os sem abrigo. Não me macem.

Agora andam para aí a berrar aos sete ventos que “é preciso perder a vergonha de ir buscar dinheiro aos ricos”. Ora ir buscar dinheiro seja a quem for é, na sua essência mais elementar, roubar. Seja a ricos, seja a pobres, seja a remediados.

Claro que há para aí muita gente que enriqueceu a praticar a bandidagem. Mas há, em igual número, quem tenha corrido riscos, dado emprego a muita família e se tenha matado a trabalhar para ter uma conta bancária confortável. Gente que já pagou os impostos duas vezes: primeiro através dos lucros da empresa, depois com base no seu rendimento individual. Gente que abdicou da sua segurança para arriscar em negócios que não ofereciam nenhuma garantia à partida. Gente que perdeu dinheiro pessoal de um lado mas que conseguiu vir a ganhar noutro. Gente que, através do seu talento e do seu esforço, contribuiu para o crescimento económico do país. A essa gente, gostava que o estado oferecesse incentivos em vez de ameaças. Parecer-me-ia uma atitude bastante mais produtiva.

Não macem as pessoas, caramba, que isto é muito cansativo.

Fotografias tiradas por aí (311)

por José António Abreu, em 25.09.16

Blogue_praias5_Lavadores2008.jpg

Lavadores, 2008 (em jeito de adeus ao Verão).



O nosso livro



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D