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Já li o livro e vi o filme (93)

por Pedro Correia, em 28.03.16

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UMA ABELHA NA CHUVA (1953)

Autor: Carlos de Oliveira

Realizador: Fernando Lopes (1972)

Um romance exemplar do neo-realismo tardio transposto para a tela como uma metáfora do salazarismo: um país a preto-e-branco, resignado e melancólico. Livro e filme tornaram-se indissociáveis. E merecem ser revisitados.

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A convite de Marcelo Rebelo de Sousa, Mário Draghi assistirá ao próximo Conselho de Estado. Esta comparência pontual do Presidente do Banco Central Europeu (BCE) no órgão consultivo da Presidência da República não me merece qualquer comentário. Não vejo grande utilidade, mas também não identifico grande problema. Melhoral, portanto.

 

Contudo, esperei, como qualquer pessoa minimamente atenta à política nacional, que o PCP largasse fogo ao Palácio de Belém. Após anos a zurzir contra o “directório das potências” europeias, perante o qual o anterior governo “ajoelhava” (esta pagaram-na com língua de pau quando o OE de 2016 foi a Bruxelas), era expectável que os comunistas portugueses reagissem com vigor e intransigência à presença de Draghi em Lisboa. Afinal de contas, trata-se de um representante do grande capital, conivente com os desmandos dos “mega-caloteiros”, entre os quais figura a Goldman Sachs, instituição para a qual Draghi trabalhou – no capitalismo é assim, estão todos feitos uns com os outros, isto anda tudo ligado. Mas não. O deputado Jerónimo disse que o caso é apenas “estranho”, o que contradiz todo o ódio destilado durante anos pelo Senhor Sousa, Secretário-Geral do PCP.

 

“Estranho”, diz. “Estranho” é alguém assumir que é teimoso. “Estranho” é um bêbado ter consciência de não estar em condições de pegar no carro. “Estranho” é alguém deitar-se sozinho e acordar acompanhado. Isto sim é estranho. Mas a presença de Draghi no órgão consultivo da Presidência da República deveria ser entendida, segundo os cânones do PCP, como um ataque inadmissível à soberania nacional, uma violência que não aconteceria caso houvesse um “governo patriótico e de esquerda”. Porém, para surpresa de todos, agora estes casos são apenas “estranhos”. Com este mortal encarpado à retaguarda, o PCP dá razão aos populismos mais básicos pois confirma que, de facto, os partidos políticos são todos iguais.

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 28.03.16

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O Acordo Ortográfico de 1990 Não Está em Vigor, de Carlos Fernandes

(edição Guerra & Paz, 2016)

"A presente edição não segue a grafia do novo acordo ortográfico"

A Europa derrotada (2).

por Luís Menezes Leitão, em 28.03.16

Este post do João André demonstra bem o estado em que a Europa vive. Contra os terroristas, não se combate, informa-se. Para além disso, é preciso tomar "medidas excepcionais", que "não adianta[m] muito", para "tentar transmitir a imagem de se estar a fazer alguma coisa". Quanto ao resto, o que interessa é ir buscar razões. As razões para a explosão não são um bando de criminosos ter-se decidido pura e simplesmente fazer explodir, matando uma série de vítimas inocentes. Não. "As razões para esta explosão se encontram no nosso presente e no nosso passado. Encontram-se nos cruzados de há mil anos e nos modernos (ou pelo menos percebidos como tal) que estupidamente ignoraram o xadrez geopolítico da região. Estão na pobreza de quem sofre todos os dias e na riqueza de quem lhes dá os meios para se irem explodir. Estão em muitos mais pontos que muita gente bastante mais informada e inteligente […] já apontou". 

 

E enquanto a gente bem informada e inteligente discute, o controlo de fronteiras foi reinstituído. Não há problema, pois há sempre o Google Maps. O direito à manifestação também desapareceu. Mas quem é que poderia esperar que a polícia fosse capaz de proteger 100.000 manifestantes, quando "ainda existirão terroristas não identificados, activos e livres"? Não interessa que a população pague impostos para poder dormir descansada. O que interessa é discutir profundamente o problema do terrorismo nas suas raízes milenares. Até lá, vivamos felizes, sequestrados na nossa Europa, sem direito à deslocação ou à manifestação, devendo mesmo permanecer fechados nas nossas casas. Tout va bien dans le meilleur des mondes.

Fotografias tiradas por aí (287)

por José António Abreu, em 27.03.16

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Águeda, 2016.

Contra os terroristas, informar, informar(-nos)

por João André, em 27.03.16

Trabalho em na Bélgica, e vivo na Holanda. Isso significa que todos os dias atravesso a fronteira. Depois dos atentados da semana passada, comecei a ver que para entrar na Holanda havia engarrafamentos de 10 km a provocar attrasos de uma hora. Consequência dos controlos fronteiriços impostos pelas autoridades holandesas. Ao mesmo tempo as estações de Maastricht e Leuven estiveram fechadas por causa de embalagens abandonadas (talvez tenha havido outros casos nos dois países, mas estes conheço melhor). Também me chegou aos ouvidos que uma auto-estrada belga foi encerrada temporariamente porque estaria uma embalagem à beira da estrada.

 

Casa roubada, trancas à porta. É a natureza humana. Depois dos atentados, mesmo sendo inútil, tomam-se medidas excepcionais para tentar evitar que se repitam. Não adianta muito, claro. Os bombistas eram suicidas - não deixaram embalagens abandonadas, e eu nunca me atrasei porque o Google Maps me deu alternativas onde não existiam engarrafamentos - logo, sem controlos fronteiriços. Isso não impede que se tente, até porque é necessário para tentar transmitir a imagem de se estar a fazer qualquer coisa.

 

Por isso não concordo com uma linha que seja do Luís neste post. A polícia belga está a usar imensos recursos nas suas buscas por possíveis cúmplices dos terroristas. Está simultaneamente a procurar outras possíveis células. Não tem neste momento condições para deslocar forças que protejam os muitos milhares que certamente surgiriam numa manifestação permitida. Com os mil que surgiram já houve problemas. Imaginemos com uns 20, 30 ou 100 mil. Além disso há a simples questão de bom senso: se a polícia tem informações que ainda existirão terroristas não identificados, activos e livres, uma tal manifestação seria o mesmo que abrir um camião de mel numa zona de ursos.

 

Já quanto à referência a Alberto Gonçalves, fiquei de início de pé atrás. Confesso que não gosto de o ler. Normalmente prefiro as cartas da Maya, uma literatura infinitamente mais inteligente. Decidi dar o benefício da dúvida e agora, depois de dois lexotans, posso concluir que é o monte de esterco habitual. Desde a imbecilidade inicial sobre "terrorismo islâmico" ser um pleonasmo até ao facto de não perceber absolutamente nada sobre o que, por exemplo, serão medidas que recaem sobre a população afectada (mostrar solidariedade, o elogio pontual do trabalho das autoridades, etc) e aquilo que poderão ser medidas de combate aos terroristas. Alberto Gonçalves, o burro idiota (estes sim, pleonasmos), não percebe aquilo sobre que escreve (sic) e ainda aproveita para demonstrar a sua intolerância. Volto assim à minha dieta e não o lerei nos próximos anos, a bem da minha saúde mental.

 

Há por fim um aspecto que é essencial entender: há sempre razões para os terroristas decidirem um dia enfiar um cinto de explosivos e matarem tanta gente quanto possível enquanto se suicidam. Não é por serem muçulmanos, não é por serem árabes, não é por serem loucos e criminosos, não é por serem - nem que por uns momentos - absolutamente desumanos. É por isto tudo e por muito mais. No penúltimo parágrafo, Alberto Gonçalves parece ter um momento de lucidez (terá o editor escrito isso?) e contradiz tudo aquilo que escreveu atrás. Os terroristas são-no por diversas razões, incluindo o local onde cresceram, as mensagens a que foram expostos, a percepção dos eventos que vão tendo, etc. Ignorá-lo e ignorar as vozes que o apontam - mesmo que apontem a sua razão como sendo "a única" - é perpetuar o problema.

 

Não sei resolver a questão. Se o soubesse posso garantir que o escreveria aqui para que pudesse ser devidamente ignorado. Sei no entanto que as razões para esta explosão se encontram no nosso presente e no nosso passado. Encontram-se nos cruzados de há mil anos e nos modernos (ou pelo menos percebidos como tal) que estupidamente ignoraram o xadrez geopolítico da região. Estão na pobreza de quem sofre todos os dias e na riqueza de quem lhes dá os meios para se irem explodir. Estão em muitos mais pontos que muita gente bastante mais informada e inteligente que eu já apontou. Mas não estão nem no post do Luís nem no artigo de AG (à excepção do momento out of body do parágrafo atrás).

 

Há muito que se sabe que informação é necessária para vencer guerras. Muita gente julga que bastam bombas ou um estado policial. Enquanto estes últimos dominarem, a guerra continuará a ser vencida pelos terroristas.

A Europa derrotada.

por Luís Menezes Leitão, em 27.03.16

Nesta crónica, Alberto Gonçalves está cheio de razão. Neste momento, trava-se uma guerra contra a Europa e a Europa já a perdeu. O Estado Islâmico pode estar a recuar na Síria, devido ao apoio de Putin a Assad, mas mantém a Europa refém de qualquer atentado, como se viu em Paris e em Bruxelas. E os cidadãos europeus mostram-se incapazes de qualquer resistência. Mesmo uma simples marcha contra o medo em Bruxelas é proibida pelas autoridades do país, para convencer os cidadãos que devem ter é medo e esconder-se em casa. Um simples jogo de futebol, que deveria ter lugar em Bruxelas, é transferido para Leiria, talvez o sítio mais seguro que se conseguiu encontrar no continente europeu.

 

Mas perante esta captura da mais elementar liberdade dos cidadãos europeus, a resposta a que todos assistimos no espaço público é a um discurso desculpabilizador dos atentados e quase sempre culpabilizador do Ocidente. George W. Bush, o petróleo e o capitalismo são os grandes responsáveis pelo surgimento destes terroristas, que de outra forma andariam por aí a cantar loas à harmonia universal. Mas é curioso que, quando se vê os comunicados desta gente, os referenciais são muito mais antigos: há um sonho de restauração do califado e um ódio às cruzadas, que ocorreram há mil anos. Na verdade o seu objectivo é apenas fazer a Europa recuar mais de mil anos. E neste enquadramento, a resposta a que se assiste no espaço público faz lembrar as discussões bizantinas sobre o sexo dos anjos, enquanto Constantinopla era invadida.

Liberdade, este bem tão frágil

por Pedro Correia, em 27.03.16

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E em três dias leio um livro de 334 páginas. Um livro que me agarrou desde o primeiro parágrafo e me fez largar tudo quanto lia antes. Ainda por cima um livro que já tinha lido há muito - na década de 80. Regresso aos tempos da adolescência, em que lia compulsivamente, horas a fio. Voltou a suceder-me neste fim de semana alargado, entre a chuva triste e resignada de Sexta-Feira Santa e o esplendor soalheiro da manhã pascal. Com Uma Noite em Lisboa, de Remarque. Um grande escritor é aquele que supera a prova da sua época, seduzindo leitores nascidos já depois das páginas que escreveu. É o caso.

Este romance reedita de algum modo as tragédias gregas - com unidade de espaço, de tempo e de tema. É um romance em que nada "acontece": há só dois interlocutores sentados em torno de uma mesa e tudo se vai desenrolando a partir do fio da memória de um deles em plena II Guerra Mundial. Um romance todo ambientado em Lisboa, embora a nossa capital surja apenas em breves pinceladas descritivas. Mas voltei a senti-lo como um romance português. Devia figurar, por cá, nas aulas de leitura. E nos cursos de escrita criativa.

Eis o parágrafo inicial, que voltou a prender-me como da primeira vez:

«Demorei-me a olhar fixamente para o navio. Profusamente iluminado, o barco aguardava fundeado no Tejo. Embora estivesse em Lisboa há já uma semana, ainda não me habituara à sua iluminação exuberante. Nos países por onde anteriormente passara, à noite as cidades jaziam escuras como minas de carvão e uma lanterna nas trevas era mais temível do que a peste na Idade Média. Eu vinha da Europa do século XX.»

Um romance sobre o maior pesadelo desde sempre ocorrido neste Velho Continente em que Lisboa funciona como porto de chegada ou porta de saída. Um romance sobre noites de chumbo que imaginámos sepultadas para sempre mas que podem regressar, como os fantasmas das histórias de assombração. A liberdade é um bem frágil, volátil e caprichoso: devemos cuidar dela todos os dias. Começando por ler sobre os tempos em que ela mais não era do que um sonho longínquo e feliz.

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 27.03.16

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Dieta Única, de Mariana Chaves

(edição Guerra & Paz, 2016)

"Este livro não segue a grafia do novo acordo ortográfico"

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Nem daqui a três gerações

por Sérgio de Almeida Correia, em 27.03.16

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Já houve tempo em que acreditei que um dia isto mudaria. Hoje tenho a certeza de que nunca irá mudar. Há muitos prismas de análise, muitas maneiras de justificar a forma como estas práticas se vão enraizando e reproduzindo, e até agora têm sido todas igualmente más. Para fazer melhor era também preciso saber fazer diferente. Correr riscos, dar o exemplo, mudar. E não é o facto de se manterem dois ou três da cor dos outros que serve de desculpa para o que se faz. Assunção Cristas também lá ficou com um comissário que não tinha para onde ir durante a travessia do laranjal.

Porque para contas de somar, subtrair, multiplicar e dividir há merceeiros que não falham e também apresentam resultados. Por isso nunca me revi neste tipo de práticas, nunca as aceitei, e serem feitas pelo PS não altera a minha maneira de ver as coisas. São tão medíocres os centristas e social-democratas que justificavam as suas miseráveis nomeações com o que se passava no tempo de Sócrates, como os que agora fazem o mesmo e saem em defesa do Governo justificando com o que se fez no tempo de Passos Coelho e Paulo Portas. Não há boys bons e boys maus.

A maré vai e volta mas os detritos que se mantêm à superfície e chegam à praia são sempre os mesmos. Latas velhas, bocados de esferovite, plásticos imundos, peixe podre. Muito. Ninguém se importa, ninguém os quer limpar porque isso dá muito trabalho. E continua-se a estender a toalha na praia, a levar a cadeirinha, mais o jornal com as palavras cruzadas, a grafonola para ouvir os discos pedidos e o bronzeador. Por mais janelas que se abram o cheiro será o de sempre.

Não há regime que aguente. Não há confiança que resista. No meu país só a inércia é que se reproduz. A inércia e os maus exemplos.

Blogue da semana

por Pedro Correia, em 27.03.16

Desta vez destaco o Five Thirty Eight - elaborado nos Estados Unidos mas com leitores em todo o mundo. Recomendável a todos quantos queiram acompanhar em pormenor o complexo processo eleitoral norte-americano destinado a eleger o próximo inquilino da Casa Branca.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 26.03.16

«Tenho saudades do espaço Schengen, pois faço muitas vezes a viagem de carro entre a Alemanha e Portugal. Desta vez (há cerca de uma semana) não notámos tanta diferença como estávamos à espera. As fronteiras entre a Alemanha e a Holanda (perto de Venlo) e entre a Holanda e a Bélgica (em Maastricht) estavam abertas, mas, ao entrarmos em França, perto de Valenciennes (vindos da Bélgica), deparámos com uma fila de outros tempos, devido ao controlo. Na passagem de França para Espanha (País Basco) havia controlo no sentido contrário, mas penso que por outras razões, que não o perigo islâmico. Por outro lado, quem sabe... Pode bem ser que a França controle todas as entradas no país, sejam elas quais forem.

Estava habituada a atravessar cinco fronteiras sem notar (não fossem as placas com o nome do país onde se entrava). Numa situação destas, há uma certa revolta, a mesma revolta que alimenta as demagogias dos partidos da extrema-direita. É triste.»

 

Da nossa leitora Cristina Torrão. A propósito deste texto do Luís Menezes Leitão.

Judas estava referenciado.

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À Humanidade

por Bandeira, em 26.03.16

Porque John Donne está a morrer, ele escreve algumas Lamentações; nelas se queixa inclusive de que as dores o impedem de gozar na sua plenitude a experiência da morte. Escreve que "nenhum homem é uma ilha" e outras coisas lindas, quase sempre porém melancólicas e tristes.
Séculos depois, Hemingway usa em prefácio um trecho da 17a Lamentação, algo como: "Não perguntes por quem dobram os sinos; eles dobram por ti". Com isto queria Donne dizer que partilhava da Humanidade, e que morrendo um qualquer homem morria Donne um pouco também (já Terêncio, por outras palavras, sugerira algo assim).
Em Hollywood fez-se um filme e o trecho prosaico da Lamentação de Donne ficou na memória que hoje sói chamar-se colectiva, muitas vezes tomado por verso, porque Donne era, antes de prosador morrendo, um poeta; e os poetas, não sendo ilhas, serão talvez penínsulas.
À Humanidade, uma Páscoa feliz.

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Sim, Senhor Ministro (22)

por Pedro Correia, em 26.03.16

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Sir Humphrey Appleby - A ausência de um ministro é uma dádiva do céu. Por uma vez, podemos fazer o trabalho todo como deve ser. Nada de perguntas tolas, nada de ideias brilhantes, nem preocupações com o que possam dizer os jornais. Às vezes, Bernard, penso que o nosso ministro acredita mesmo que não existe se não ler nada acerca dele na imprensa. Aposto consigo que a primeira coisa que ele vai fazer quando aqui entrar é perguntar-nos se a imprensa mencionou o discurso dele em Washington.

Bernard Woolley - Quanto é que aposta?

Sir Humphrey - Uma libra.

Bernard - Aceito. Ele não pergunta, porque já me perguntou. No carro, quando vinha do aeroporto.

Sir Humphrey - [Surpreendido] Muito bem, Bernard. Você está a aprender [entrega-lhe a nota de uma libra]. Vê como a ausência de um ministro é boa?

Bernard - Sim, mas o trabalho acumula-se.

Sir Humphrey - Com uns dias de preparação antes de seguir viagem e as reuniões de balanço após o regresso, conseguimos afastá-lo da gestão corrente durante uma quinzena. Nos seis meses seguintes, sempre que ele se queixar de que não foi informado sobre alguma coisa, podemos dizer-lhe que aconteceu enquanto ele estava fora.

Bernard - Por isso é que há tantas cimeiras externas?

Sir Humphrey - Com certeza. É a única forma de o país funcionar. Concentra-se o poder todo na estrutura do nº 10 [de Downing Street] e manda-se o primeiro-ministro embora. Para as cimeiras da CEE, da NATO, da Comunidade Britânica... E o secretário-geral do gabinete pode enfim dirigir o país como deve ser.

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 26.03.16

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Chegar Novo a Velho, de Manuel Pinto Coelho

Medicina

(edição Primebooks, 14ª ed, 2016)

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O visionário nos ombros de gigantes

por João André, em 25.03.16

Um comentário à vida de Johan Cruijff. Para ser lido aqui.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 25.03.16

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Como Encontrar o Céu, de Teresa Cheung

Tradução de Inês Castro

Guia para a vida depois da morte

(edição Planeta, 2015)

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Deus feito homem da gruta à cruz

por Pedro Correia, em 25.03.16

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 O Cristo Amarelo, de Paul Gauguin (1889)

 

«Jesus chorou.»

João, 11-35 (o versículo mais curto da Bíblia)

 

A mensagem arrebatadora do Evangelho - e aquela que resume toda a essência do cristianismo - é a de um Deus que assume a plenitude da condição humana. Com os seus luminosos momentos de alegria, os seus lampejos de júbilo, as suas inevitáveis dores, a sua irrenunciável agonia. Como se a missão do criador ficasse incompleta sem esta experiência radical de abraçar por inteiro o ser débil, indeciso e angustiado que o barro divino moldou.

Até ao fim dos séculos, Jesus será inseparável da circunstância deste percurso terreno em que voluntariamente se irmana ao mais comum dos homens. Nasce pobre, numa gruta. Enaltece os humildes. Elege simples trabalhadores como discípulos. Rejeita sem vacilar o ilusório fulgor dos bens materiais. Perdoa os pecadores: «Eu não vim para condenar o mundo, mas para o salvar.» (João, 12-47). Enfrenta os fariseus com palavras tão actuais na manhã de hoje como há dois mil anos: «Vós, os fariseus, limpais o exterior do copo e do prato, mas o vosso interior está cheio de rapina e de maldade.» (Lucas, 11-39). E não hesita em dar a mais humana das interpretações à pétrea Lei de Moisés: «O sábado foi feito por causa do homem e não o homem por causa do sábado.» (Marcos, 2-27).

Condenado sem apelo nem recurso, renegado pelos seus, vilipendiado pela multidão que aclama Barrabás, confrontado perante a prepotência de Caifás e a cobardia moral de Pilatos, crucificado entre dois salteadores como um delinquente pelo crime de blasfémia. Deus feito homem num mundo de homens que sonham ser deuses.

Pouco antes confessara aos discípulos em Getsemani que sentia «uma tristeza de morte». E ali mesmo implora numa prece que poderia brotar da voz interior de qualquer de nós: «Pai, tudo Te é possível, afasta de Mim este cálice!» (Marcos, 14-36).

Um cálice que, no entanto, beberá até ao fim. Imerso na condição humana da gruta à cruz.

 

Texto reeditado

 

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Paixão

por Rui Rocha, em 24.03.16

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